Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sábado, 24 de julho de 2010


Os amantes se amam cruelmente
e com se amarem tanto não se vêem.
Um se beija no outro, refletido.
Dois amantes que são? Dois inimigos.

Amantes são meninos estragados
pelo mimo de amar: e não percebem
quanto se pulverizam no enlaçar-se,
e como o que era mundo volve a nada.

Nada, ninguém. Amor, puro fantasma
que os passeia de leve, assim a cobra
se imprime na lembrança de seu trilho.

E eles quedam mordidos para sempre.
Deixaram de existir mas o existido
continua a doer eternamente.

[Carlos Drummond de Andrade]
^^

A memória é quase a mesma coisa que o arrependimento. Só recordamos o que não vivemos plenamente.


[Dulce Maria Cardoso]


^^

Está-se sempre, sempre, sempre a chegar. Ao segundo seguinte, ao desejo seguinte, ao olhar seguinte, ao medo seguinte, ao ruído seguinte, ao pensamento seguinte. Ao destino.


[Dulce Maria Cardoso]


^^

Como se fossemos restos de histórias
num ensaio geral de solidões...

O tempo é um argumento
que nos fecha a porta.



[Maria Sousa]

^^

O dia traz as paisagens de dentro delas, a noite é um grande buraco selvagem...



[Herberto Helder]

^^

A arte já sabemos nasce
da imperfeição das coisas
que trazemos para casa
com o pó da rua
quando a tarde finda
e não temos água quente
para lavar a cabeça.
Tentamos regular
com açudes de orações
o curso da tristeza
mudamos de cadeira
e levamos a noite
a dizer oxalá
como se a palavra
praticasse anestesia.

[José Miguel Silva]

^^

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sessão pipoca - Faz Parte do meu Show


(...)
Faço promessas malucas
Tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby
É pra te proteger da solidão

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor...

Vago na lua deserta
Das pedras do Arpoador
Digo "alô" ao inimigo
Encontro um abrigo
No peito do meu traidor

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Invento desculpas
Provoco uma briga
Digo que não estou
Vivo num clip sem nexo
Um pierrô-retrocesso
Meio bossa nova e rock 'n' roll

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor...


[Cazuza]

^^

quarta-feira, 21 de julho de 2010

FIM DA INFÂNCIA?


Era de manhã
E eu me encontrei lamentando
Por uma infância
Que eu achei que tinha desaparecido.
Eu olhei pela janela
Eu vi uma pega* em um arco-íris
A chuva tinha acabado
Não estou sozinho, eu me virei para o espelho, e vi...
Você, a criança que uma vez amou.

A criança antes de terem partido seu coração
Nosso coração
O coração que eu acreditava que estava perdido
Ei, ficou surpreso? Mais que surpreso
Para encontrar as respostas para as questões
Estavam sempre em seus próprios olhos

Você percebe
Que você poderia ter voltado para ela?
Mas isso apenas seria retraçar
Todos os problemas que você já conheceu
Tão irreais
Por ela ter que continuar com sua vida
E você tem que continuar com a sua

Então eu vejo que sou eu
Eu posso fazer qualquer coisa
E ainda a criança
Pois a única coisa deslocada era direção
E eu encontrei direção
Não há fim da infância
Você é meu amigo de infância, me guie adiante

Ei, você, você sobreviveu
Agora você chegou para ser renascido
Na sombra da pega *

Agora você percebe
Que você tem que sair daqui
Você encontrou a luz guia do destino
Queimando nas cinzas da sua memória
Você quer mudar o mundo?
Você resignou-se em morrer um rebelde partido
Mas você estava olhando para trás
Agora você encontrou a luz.

Você, a criança que uma vez amou
Então eu vejo que sou eu
Eu posso fazer qualquer coisa
E ainda a criança
Pois a única coisa deslocada era direção
E eu encontrei direção
Não há fim da infância
Você é meu amigo de infância, me guie adiante...

*Pega = Ave que imita a voz humana.


[Marillion]

^^

terça-feira, 13 de julho de 2010



Não sei como explicar,
leia em meus olhos.
Talvez, eu apenas necessite de sua ajuda...


^^

sábado, 10 de julho de 2010

Sessão pipoca - Beautiful Girl



Nicky está na esquina
Com um casaco preto
Fugindo de um lar ruim
Com algum problema na cabeça

Agora que você a encontrou
Entre as luzes de néon
Que assombram as ruas lá fora
Ela diz:
Fica comigo

(...)


[Composição: Andrew Farris]


^^

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Se um dia...

RecadosAnimados.com

^^

Os bons amigos: Você não precisa vê-los, mas eles sempre estão lá.



Na estrada de minha casa há um pasto. Dois cavalos vivem lá. De longe, parecem cavalos como os outros cavalos, mas, quando se olha bem, percebe-se que um deles é cego.
Contudo, o dono não se desfez dele e arrumou-lhe um amigo – um cavalo mais jovem. Isso já é de se admirar!

Se você ficar observando, ouvirá um sino. Procurando de onde vem o som, você verá que há um pequeno sino no pescoço do cavalo mais jovem. Assim, o cavalo cego sabe onde está seu companheiro e vai até ele.
Ambos passam os dias comendo e no final do dia o cavalo cego segue o companheiro até o estábulo. E você percebe que o cavalo com o sino está sempre olhando se o outro o acompanha e, às vezes, para, esperando que o outro possa alcançá-lo.
E o cavalo cego guia-se pelo som do sino, confiante que o outro o está levando para o caminho certo.

Como o dono desses dois cavalos, Deus não se desfaz de nós só porque não somos perfeitos, ou porque temos problemas ou desafios. Ele cuida de nós e faz com que outras pessoas venham em nosso auxílio quando precisamos.

Algumas vezes somos o cavalo cego guiado pelo som do sino daqueles que Deus coloca em nossas vidas. Outras vezes, somos o cavalo que guia, ajudando outros a encontrar seu caminho.
E assim são os bons amigos... Você não precisa vê-los, mas eles estão lá.



Estão ouvindo o meu sino?
Eu estou ouvindo o seu...



Danni^^

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sessão pipoca - Em noventa e dois



Meu coração está on
Garçon, me traga alguma coisa
que eu sou capaz de fazer qualquer coisa
Um dia inteiro é muito
para a gente ficar junto
em pleno noventa e dois

No telefone só uma notícia
num telegrama uma poesia
mande um recado com um abraço forte
num bilhetinho deseje boa sorte

Bebi da sua saliva
no fim do copo de conhaque
minha cabeça parece um guindaste
Estou esquecendo o seu rosto
saudade não é nada gostoso
mesmo em noventa em dois

Um dia inteiro é muito para a gente ficar junto em noventa e dois...


[Kid Abelha]

^^

terça-feira, 6 de julho de 2010


No perfil das folhas, as sombras
são imagens onde o orvalho
escreve poemas.

E na tua ausência
tatuam chuva nas pedras.


[eue]

^^

A manhã com as suas proibições
na tua fala.
A claridade estava a crescer
numa cama que já se tinha atravessado no escuro
como uma nave enfileirando para a guerra.

Eu não tinha ficado para conhecer a vista
das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas
mas não cheguei a levantar as persianas.
Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar
porque quando falávamos os nossos olhos não coincidiam
com nenhuma palavra.

Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo.
E no caso de nos ter acontecido uma mudança
onde é que havíamos de procurar
os seus indícios
? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros.


[Rui Pires Cabral]


^^

Afundada no seu apertado vestido de noite
dorme entre cristais.
Os olhos fechados
a boca fechada
o sexo fechado.
Uma caixa de cristal
dentro de outra caixa de cristal.


[Miriam Reyes]


^^

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou...


[Jose Tolentino de Mendonça]


^^

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os troncos das árvores


Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


^^

domingo, 4 de julho de 2010

Sessão pipoca - Elephant Gun



Se eu fosse jovem, eu fugiria desta cidade
Eu esconderia meus sonhos debaixo da terra
Assim como eu, nós bebemos à morte, e nós bebemos a noite
Longe de casa, com armas de caça
Vamos abatê-los um por um
Nós vamos derrubá-lo, ele não foi encontrado, não está por aí

Que comece a temporada - onde tudo é certo e errado
Que comece a temporada - abatamos o grande Chefe

E ele rompe através do silêncio do nosso acampamento à noite
E ele rompe através da noite, a noite toda, toda a noite

E ele rompe através do silêncio do nosso acampamento à noite
E ele rompe através do silêncio, tudo o que resta é tudo o que eu escondi


[Composição: Zach Condon - Beirut]

^^

Não basta...


Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado, acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor. Parto amanhã.

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.
Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante, entre ruídos de música e interferências aladas.

Não basta ser feliz...
Não basta a Primavera...
Não basta a solidão...

[Daniel Filipe]
^^

sábado, 3 de julho de 2010


Dir-te-ei quem sou,
houve um tempo,
tive um sonho,
lembro-me do teu rosto,
a tua voz já existia.

E ele atravessa a rua,
passando pelo tempo,
de pedra em pedra,
com um cigarro na mão
para pedir lume
ao cigarro alheio,
que brilha no outro lado,
ao cimo dos três degraus.

Vai ser assim:
dá-me lume, por favor?,
e o cigarro encostar-se-á ao seu,
o lume passará de um para outro,
de uma pessoa para outra pessoa,
e então,
no meio da eternidade deserta,
será sim o dia de hoje.

Mas a noite é imensa,
quer dizer:
a noite do lugar e do tempo,
a noite da nossa solidão
— é imensa,
e apenas um pequeno órgão vivo
palpita algures,
vibra rapidamente,
e amortece-se,
e desaparece.

Então,
uma vez mais
a noite se levanta de nós,
e o que estremece é a carne,
a nossa,
cega e desamparada
— mas fremente
na sua cegueira e desamparo.

Sabes que estás só?
— pergunta a carne à carne —,
sabes que a noite se ergueu de ti,
como se fosses o seu próprio
e único talento,
e que esse talento te cerca
como uma atmosfera,
o morto clima que transportas em ti,
de um lado para outro,
ao longo das pedras,
ao longo de todos os lugares
do homem?

Ela sabe,
ou pelo menos
sabe que sabe.

E
é demasiado.

Por isso,
olha
e espera.

E vê de novo
a brasa que estremece
na escuridão
como uma planta
que crescesse
e florescesse na terra negra,
ou um animal
cujo calor abrisse uma brecha
no tempo frio.

A carne embriaga-se
com imprecisas metáforas de salvação
— que salvação?!
com um movimento subterrâneo de analogias,
e ele diz:

vou pedir-lhe lume.

Vai através do bairro múltiplo,
o tempo que o escuro abafou,
e então
é como se fosse fora do tempo,
ou dentro de todo o tempo,
à procura do lume
para o seu cigarro.

[Herberto Helder]


^^

sexta-feira, 2 de julho de 2010


Estou a ver a casa e estou a ver-me nela:
confusamente embora as portas ao fechar-se
fazem cair-me as pálpebras, suas noites de Inverno
são só meus pés frios, é carne desta carne
ou eu sou pedra dela e ela é como casca
diminuta em meu bolso e eu como uma caixa
já vazia de chá em seu ventre de barco.

Mas é a minha casa, ou a casa que eu tive,
Onde escolher maçãs para adoçar-me a boca
E andar pelos armários com a boneca partida
Até ao armário partido com portas catedrais
Que guardavam o estrume para outras sementeiras
.

[María Victoria Atencia]


^^

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mude


Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.

Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem
despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda !

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!!!!


[Edson Marques]

^^

Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.
Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.



[Rui Pires Cabral]


^^

quarta-feira, 30 de junho de 2010


Na grande confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?


[António Ramos Rosa]


^^

terça-feira, 29 de junho de 2010

Do lado esquerdo


Vem sempre
do lado esquerdo.
As dores, mesmo
quando são fingidas, nunca
cicatrizam e é
do lado esquerdo
que se fixam. Delas
se poderá dizer
que são sinistras. Assim
a mão que só
para suprir carências
se obriga às vezes
a escrever, assim
os presságios
dos áugures se
para norte olhavam. E as dores,
repito,
sobretudo aquelas
cujo nome não sabes
ou por cautela omites.

[Albano Martins]


^^

domingo, 27 de junho de 2010

Sessão pipoca - Don't Speak



Você e eu
Costumávamos estar juntos
Todos os dias juntos sempre

Eu realmente sinto
Que eu estou perdendo meu melhor amigo
Eu não posso acreditar
Este pode ser o fim

Parece que mesmo assim você está deixando acontecer
E se isso é real,
Bem eu não quero saber

Não fale
Eu sei do que você está falando
Então por favor pare de explicar
Não me diga porque isso machuca.

Não fale
Eu sei o que você está pensando
Eu não preciso de suas razões
Não me diga porque isso machuca...

^^
Conta-mo outra vez: é tão bonito
que não me canso nunca de escutá-lo.
Repete-me outra vez que o par
do conto foi feliz até à morte.
Que ela não lhe foi infiel, que a ele nem sequer
lhe ocorreu enganá-la. E não te esqueças
de que, apesar do tempo e dos problemas,
continuaram beijando-se cada noite.
Conta-mo mil vezes por favor:
é a história mais bela que conheço.

[Amalia Bautista]


^^

Eu sou, eu existo.


Eu sou, eu existo; isso é certo; mas por quanto tempo? A saber, por todo o tempo em que eu penso; pois poderia ocorrer que, se eu deixasse de pensar, eu deixaria ao mesmo tempo de ser ou de existir. Agora eu nada admito que não seja necessariamente verdadeiro: portanto, eu não sou, precisamente falando, senão uma coisa que pensa[...]

[Descartes - (segunda meditação, 1641)]


^^



Leio deitada e o sono
leva-me ao inimaginável
sonho com mundos mágicos
seres alados
príncipes cascatas delícias
e nas ondas do absurdo
ultrapasso tudo

cubro-me com lençóis d'água...


[Liria Porto]

^^

sexta-feira, 25 de junho de 2010


Há no teu perfil a cor das árvores
muito depois do silêncio espero
a criança que sabe o nome dos tons das folhas

Por vezes invento esperas onde
sou a rapariga que desfaz o verde
em memórias

As palavras abrem-se à inocência
mas o tempo envelhece-as.

[Maria Sousa]


^^

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Morte e vida severina - (trecho)


— O meu nome é Severino, não tenho outro de pia. Como há muitos Severinos, que é santo de romaria, deram então de me chamar Severino de Maria; como há muitos Severinos com mães chamadas Maria. Fiquei sendo o da Maria do finado Zacarias.

Mas isso ainda diz pouco: há muìtos na freguesia, por causa de um coronel que se chamou Zacarias e que foi o mais antigo senhor desta sesmaria. Como então dizer quem fala ora a Vossas Senhorias? Vejamos: é o Severino da Maria do Zacarias, lá da serra da Costela, limites da Paraíba.

Mas ísso ainda diz pouco: se ao menos mais cinco havia com nome de Severino filhos de tantas Marias mulheres de outros tantos, já finados, Zacarias, vivendo na mesma serra magra e ossuda em que eu vivia. Somos muitos Severinos iguais em tudo na vida: na mesma cabeça grande que a custo é que se equilibra, no mesmo ventre crescido sobre as mesmas pernas finas, e iguais também porque o sangue que usamos tem pouca tinta.

E se somos Severinos iguais em tudo na vida, morremos de morte igual, mesma morte severina: que é a morte de que se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia (de fraqueza e de doença é que a morte severina ataca em qualquer idade, e até gente não nascida). Somos muitos Severinos iguais em tudo e na sina: a de abrandar estas pedras suando-se muito em cima, a'de tentar despertar terra sempre mais extinta, a de querer arrancar algum roçado da cinza, mas, para que me conheçam melhor Vossas Senhorias e melhor possam seguir a história de minha vida, passo a ser o Severino que em vossa presença emigra.

[J. Cabral de Melo Neto]


^^

segunda-feira, 21 de junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010


Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos, que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempos estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrine,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.

[Inês Pedrosa, in Egoísta, nº 32]


^^

sábado, 19 de junho de 2010

Sessão pipoca - Patience


Um pouco de paciência, Sim
Precisamos de um pouco de paciência, Sim
Só um pouco de paciência, Sim
Mais um pouco de paciência, Sim...


[Guns N' Roses]

^^

Quem diz de amor fazer que os actos não são belos
que sabe ou sonha de beleza? Quem
sente que suja ou é sujado por fazê-los
que goza de si mesmo e com alguém?

Só não é belo o que se não deseja
ou que ao nosso desejo mal responde.
E suja ou é sujado que não seja
feito do ardor que se não nega ou esconde.

Que gestos há mais belos que os do sexo?
Que corpo belo é menos belo em movimento?
E que mover-se um corpo no de um outro o amplexo
não é dos corpos o mais puro intento?

Olhos se fecham não para não ver
mas para o corpo ver o que eles não,
e no silêncio se ouça o só ranger
da carne que é da carne a só razão.

[Jorge de Sena, Antologia Poética]


^^

sexta-feira, 18 de junho de 2010


Às vezes viro-me e cheiro o teu cheiro e não consigo continuar não consigo continuar foda-se sem exprimir esta merda física horrível merda dolorosa saudade que tenho de ti. Não posso acreditar que sinta isto por ti e tu não sintas nada. Não sentes nada?

(Silêncio)

Não sentes nada?

(Silêncio)

E saio às seis da manhã e começo à procura de ti. Se sonhei com uma rua ou um bar ou uma estação vou lá. E espero por ti.

(Silêncio)

Sabes, acho que estou a ser manipulada mesmo.

(Silêncio)

Na minha vida nunca tive problemas em dar às pessoas aquilo que elas queriam. Mas nunca ninguém fez isso por mim. Ninguém me toca, ninguém se aproxima de mim. Mas agora tocaste-me não sei onde tão fundo foda-se não posso acreditar não posso ser isso para ti. Porque não te consigo encontrar.

(Silêncio)

Achas que é possível alguém nascer no corpo errado?

(Silêncio)

Achas que é possível alguém nascer na era errada?

(Silêncio)

Vai-te foder. Vai-te foder. Vai-te foder por me rejeitares, por nunca aqui estares, vai-te foder por me fazeres sentir uma merda, vai-te foder por me fazeres sangrar amor e vida foda-se, que se foda o meu pai por me ter fodido a vida para sempre e que se foda a minha mãe por não o ter deixado, mas, mais que tudo, vai-te foder por me fazeres amar uma pessoa que não existe. (...)

[Sarah Kane]


^^

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sessão pipoca - Do I Have To Say The Words?



Me salve desse buraco
Sussurre palavras de desejo
Eu nunca precisei de ninguém como eu estou precisando de você hoje.
(...)


^^

Pensar
é como tactear uma sombra
entrar de rastos
numa profusão de escuros.

[Ana Hatherly]


^^

quarta-feira, 16 de junho de 2010


Há várias maneiras de começar o dia
quando acordo fumo um cigarro

Coso silêncios à pele
num quarto inteiro de palavras vazias
que se repetem como rituais

Durante semanas ensaiei regressos
apesar das paredes vazias
não deixo de fingir que não estou só...

[Maria Sousa]


^^

terça-feira, 15 de junho de 2010


Um ser humano é um combinado de egoísmo, sofrimento e necessidade. Não comove ninguém. Uma pedra não comove ninguém. A beleza é um acidente banal e pressupõe a morte; muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala, chega a ser assustador. A inteligência, refrescante como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora, que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir à inteligência? O de criada de servir nos aposentos da ganância. Não comove, é evidente, ninguém. A bondade, sim, comove. Mas é tão débil e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil, assim, encontrar algo que possamos amar. Eu tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer: tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer quem me convença que bem outra poderia ser a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes, tudo arde numa estranha aceitação. Francamente, não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto, que alguém me demonstrasse que não tenho razão.

[José Miguel Silva]


^^

domingo, 13 de junho de 2010


Amei-te como um sobrevivente doutro mundo doutros rios inundada de algas e plumas restos de asas na boca turgida e urgente eras um grito da montanha debaixo da minha pele um tigre aceso com olhos de carvão com garras de diamante e a mesma força do nilo numa barca à deriva. Amei-te cheia de fome e sede molhada de frutos e ervas e os teus rins aconteciam relâmpagos vermelhos e maciços.

O tempo era uma almofada apertando a alma
os gestos eram precisos claros e lá fora a cidade era um ponto
luminoso na ponta dos teus dedos cortantes densos turvos como
as horas de fechar a porta. Os olhos voaram fora de nós e aí
nos deixámos adormecer.
Fiz-te uma cama de espuma e na minha boca dobraste o cabo do medo.
quando partiste levaste o verão e eu fiquei sentada bordando no ar
um castelo de beijos e um filho de luar.

[Isabel Mendes Ferreira]


^^

sábado, 12 de junho de 2010


E fico neste estado catatónico,
telegráfico, estúpido, lacónico,
quando te vejo ou ouço a tua voz.
Bem queria que passasse este registo,
que, se é para ser isto sem ter isto,
melhor que te tomar é tomar pós

de frutos, contra enjoos, suculentos,
bons para a pele, na alma como unguentos
ou band-aids em chuva colante.
Mas em qualquer dos casos, o que resta
é: não te veja, ou veja (em curta festa):
a saudade: submersa e naufragante.

Não te posso ouvir mais, digo três vezes,
e com muito fervor e muitas preces,
como se esconjurasse Satanás.
Depois, uma palavra, um leve traço,
um minúsculo gesto abrindo o espaço
e, mesmo que não estejas, aqui estás.

E sentas-te ao meu lado na cadeira.
Ninguém te vê: só eu. A curva inteira
do pescoço, dos ombros, ou da mão.
Toco-te levemente e o vizinho
na mesa ao lado, espreita-me, de mansinho,
pensando que perdi toda a razão.

E devo ter perdido, se o real
me parece uma coisa desigual,
um band-aid barato, a descolar.
E a única coisa mais parecida
com o ser realmente é uma vida
que não posso, nem devo, acarinhar.

E até essa palavra lembra ti,
e a fractura começa por aí,
numa sintaxe que não sei rimar:
Não te posso ver mais. Não, não e não!
(E sai-me o verso assim, como vulcão
limitado a explodir dentro do mar.)

E agora, o quê? Pergunto-me, interrogo-me,
faço das linhas coração. E chovo-me:
miríade em band-aids, tão veloz:
é que fico na mesma catatónica,
meio estúpida, letárgica, lacónica,
se torno em verso, e minha, a tua voz.

[Ana Luísa Amaral]


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sexta-feira, 11 de junho de 2010

Retrato Natural


Elegia a uma pequena borboleta

Como chegavas do casulo, / — inacabada seda viva — / tuas antenas — fios soltos / da trama de que eras tecida, / e teus olhos, dois grãos da noite / de onde o teu mistério surgia, como caíste sobre o mundo / inábil, na manhã tão clara, / sem mãe, sem guia, sem conselho, / e rolavas por uma escada / como papel, penugem, poeira, / com mais sonho e silêncio que asas, minha mão tosca te agarrou / com uma dura, inocente culpa, / e é cinza de lua teu corpo, / meus dedos, sua sepultura. / Já desfeita e ainda palpitante, / expiras sem noção nenhuma.
Ó bordado do véu do dia, / transparente anêmona aérea! /não leves meu rosto contigo: / leva o pranto que te celebra, / no olho precário em que te acabas, / meu remorso ajoelhado leva! (...)
Pudeste a etéreos paraísos / ascender teu leve fantasma, / e meu coração penitente ser a rosa desabrochada / para servir-te mel e aroma, / por toda a eternidade escrava!
E as lágrimas que por ti choro / fossem o orvalho desses campos, / — os espelhos que refletissem / — vôo e silêncio — os teus encantos, / com a ternura humilde e o remorso / dos meus desacertos humanos!

[Murilo Mendes]
^^

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um passeio


Passei por uma esquina. Não gosto de passear em vão, só vou se precisar mesmo de alguma coisa. Ver o que há para ver, despachar o assunto, mas andar por andar, não ando. Só por andar, isso não.
E também não gosto de quebrar nada. Hoje caminhei um pouco até a esquina, depois regressei, continuei a caminhar, depois voltei para casa, fui ate a cozinha, tirei um copo do armário, não me perdi, tirei-o e lancei-o para o chão. Não faço cenas. Primeiro segurei-o, mas logo o deixei cair. Tudo isto aconteceu hoje. O som ecoou muito longe.


[Endre Kukorelly]

^^

quarta-feira, 9 de junho de 2010


Ela diz.
Apaixonei-me por ti.
E ele ouve-a,
Mas não diz nada.
Ele sabe
Que nada puderam fazer
A não ser acharem-se
Um dia
Apaixonados.
Ela por ele.
Ele por ela.
Sabem que foi
Assim que aconteceu.
Ele sabe.
Ela também.
E desconfiam,
Um e outro,
Desconfiam
Que não podia ser
De outra maneira.
.
.
[Luís Ene]

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terça-feira, 8 de junho de 2010

Todas as pessoas sozinhas


Todas as pessoas sozinhas dançam devagar na sala de espera mesmo que o dia seja quente e convide a passeios ao luar.

A música é sempre a mesma, assobiada ao ouvido por um rapazinho tímido e fechado do qual não se sabe o nome e a destreza que podemos alcançar, neste querer dar o passo certo, é apenas uma mínima ideia da força dos nossos desejos.

Todas as pessoas sozinhas sorriem em frente ao espelho e lavam os dentes como quem arranca beijos à emoção de ter ali, à nossa frente, alguém de quem gostamos muito.

A porta da rua é um lugar onde só se sai, a nossa família é uma fotografia pendurada na parede e os amigos são aqueles que nos dão bons dias no café.

Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas gritam baixinho os nomes esquecidos que outras pessoas sozinhas lhes sussurraram alto uma vez, quando ainda éramos todos uns dos outros.

Engomada a camisa, vestimo-nos com o cuidado solene daqueles que vestem camisas com emoção e significado enquanto esperam a hora certa para morrer ou nascer.

Todas as pessoas sozinhas embrulhadas em lençóis frescos porque é Verão a rebolar as dores de pescoço pelas duas almofadas da cama e a pensar que de tanto dormir assim sem ninguém vai ser difícil voltar a adormecer só num dos cantos do colchão. Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas.


[Luís Filipe Cristóvão]

^^

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O caminho é sempre um certo vazio


Para se fazer qualquer caminho foi preciso arrasar, destruir.
Assim, no caminho do tempo, poderíamos dizer que o caminho do tempo passa arrasando o ser: o ser enquanto tal, e o ser daquele pelo qual transita: o homem, enquanto o sabemos.

Mas se um caminho o é verdadeiramente, se cumpre a sua função mediadora, terá destruído apenas para criar uma relação diferente; uma relação possível e válida. Tratando-se do tempo, uma relação possível e válida quer dizer adequada ao ser humano para quem o caminho do tempo se abre.

O tempo constitui a possibilidade de viver humanamente; de viver. Já que o viver não é o mesmo que a vida. A vida é dada, mas é um dom que exige de quem a recebe o vivê-la, e ao homem de uma maneira especial.

Viver humanamente é uma acção e não um simples deixar-se deslizar pela vida. O homem tem de fazer a própria vida, ao contrário da planta e do animal que a encontram já feita e que só têm que deslizar por ela, do mesmo modo que um astro percorre a sua órbita - adormecido -, diz. É indubitável.

Mas, por outro lado, o deixar-se deslizar pela vida que se estende já feita, o percorrê-la do mesmo modo que um astro na sua órbita é, sem dúvida, qualquer coisa que o homem sempre se esforçou por conseguir. A órbita é representação e símbolo da ordem perfeita.

Viver descrevendo uma órbita é uma imagem ambivalente: infernal pelo que de movimento sem fim possui, pela falta de lugar próprio que significa. Imagem de um tempo vazio, sem princípio nem fim, de um tempo absolutizado; desprovido de transcendência. Mas se a órbita se descreve criando-a, dançando em roda, o que será sempre dança ainda que pareça só andar, então será a imagem da vida em estado puro, da vida bem-aventurada, obediente e livre ao mesmo tempo.

E assim parece que na vida, enquanto quem quer que seja, por afastado que esteja do astro, somente desliza, dorme e sonha, ao homem é-lhe exigido despertar. Há que despertar, ir despertando, o que significa ir despertando para o seu ser do sonho, despertar com ele.

Despertar no homem é despertar-se com o seu próprio ser na realidade e perante ela. A realidade que se apresenta de forma fragmentária e total, iniludível e relativa; chamando-o como o lugar de encontro com todos os outros homens. Porque a realidade é, em princípio, o lugar onde os seres se encontram porque aí se descobrem ao entrar. O lugar que põe, inexoravelmente, os seres a descoberto.

[María Zambrano]


^^

domingo, 6 de junho de 2010

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido -
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? Será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.

[Teresa Balté]


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sábado, 5 de junho de 2010


O poema é texto? O poeta?
O poema é o texto + o poeta?
O poema é o poeta - o texto?
O texto é o contexto do poeta
Ou o poeta do contexto do texto?
O texto visível é o texto total
O antetexto e o antitexto
Ou as ruínas do texto?

O texto abole
Cria
Ou restaura?

[Murilo Mendes]

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sexta-feira, 4 de junho de 2010

Procura da Poesia, in A Rosa do Povo

Ano facas versos sobre acontecimentos.
Ano ha' criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
ano aquece nem ilumina. (...)
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda ano é poesia. (...)
O canto ano é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança, nada significam.
A poesia (ano tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto. (...)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas ano há desespero,
há calma e frescura na superfície inata
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escreve-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silencio.
Ano forces o poema a desprender-se do limbo.
Ano colhas no chão o poema que se perdeu.
Ano adules o poema. Aceita-o
como ele aceitara' a sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave? (...)


[Carlos Drummond de Andrade]


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