Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sábado, 20 de novembro de 2010


Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maieável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...


[Álvaro de Campos]


^^


Talvez que o que eu lhe dissera sobre o homem tivesse tido uma repercussão abrupta, tal era a distância de experiência que nos separava. Não havia em mim qualquer lucidez cínica e arrepiante, como se desejar ter um homem fosse criminosamente uma ilusão.
Não.
De modo algum.

Falara-lhe apenas, antecipando a necessária deslocação do toque. Vê-la tocar no tecido fez-me lembrar, ou pensar que nela alguma memória habitaria mas tão diáfana e subtil que, por comparação, lhe seria difícil iniciar um esboço de inventário, dar nomes aos objectos, ou objectos aos nomes falar da brevíssima ou levíssima diferença que sobressaísse, mas onde cada coisa haveria de aparecer lentamente, tacteando.

Enquanto a mão percorria o espaldar, vi formar-se lentamente uma diferença iminente, uma presença ausente que já antes lhe roçara o corpo, e se esvaíra.
Olhei-a no rosto, o meu olhar encontrou-a a roçar-se pelo vestido pensei que estivesse nua, que apenas o vestido a vestisse, ou que o vestido apenas a vestisse, acreditei que falasse um nome, que o falasse abruptamente, sabendo que é infinita a violência da mulher, como é infinita a sedução do vestido que a veste, não sabendo, nós mulheres, pela primeira vez o digo, qual é em nós a substância, a mão que roça pelo espaldar, ou o tecido branco que cobre de atributos a própria mesa.

Se o toque não for decidido,
e o medo nos invadir,
não terei palavras para lho dizer.


Como dizer-lhe que uma lâmpada se funde inesperadamente que um prato cai sem darmos por isso, quando isso é a própria queda, que uma voz desaparece repentinamente de nos falar que um afecto é, de facto, tudo (mas não de tudo quanto o prende) que teria gostado de escrever romances se o tempo não existisse que se o toque fosse indiferente apenas existiriam atributos ou, se preferes, enquanto acaricias esse espaldar só haveria vestidos, e o corpo onde o deixarias
sem ter, sequer, a noção de afecto a quem o dar, não olhes para mim com esse olhar.
Sem uma memória decidida, as coisas desconhecidas fluctuam.
Sim, imagino.
Disse-lhe, soletrando todas as letras,
o cheiro fasto que se desprende do espaldar é de um homem, odor denso, de um homemincómodo, embaraçoso, opaco.


«Quem gostarias de ver a teu lado?»


[Maria Gabriela Llansol, in O jogo da liberdade da alma]

^^

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sale El Sol


Estas semanas sin verte
Me parecieron años
Tanto te quise besar
Que me duelen los labios
Mira que el miedo nos hizo
Cometer estupideces
Nos dejó sordos y cegos
Tantas veces

Y un día después de la tormenta
Cuándo menos piensas sale el sol
De tanto sumar pierdes la cuenta
Porque uno y uno no siempre son dos
Cuándo menos piensas sale el sol

Te lloré hasta el extremo
De lo que era posible
Cuándo creía que era invencible
No hay mal que dure cen años
Ni cuerpo que lo aguante
Y lo mejor siempre espera adelante

Y un día después de la tormenta
Cuándo menos piensas sale el sol
De tanto sumar pierdes la cuenta
Porque uno y uno no siempre son dos
Cuándo menos piensas sale el sol
Cuándo menos piensas sale el sol...


[Shakira]


^^

Assim...


Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade,
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada.
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença.
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.


[Alberto Caeiro]


^^

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

I wonder...


I
Passo a mão pela tua cabeça,
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
olhando-a como passa e vendo onde passou.

Quero saber o que tu pensas.


II
O que tu pensas, mas apenas como,
e quando e o porquê, e não
que estejas pensando ou não que a minha mão,
atenta e curvada, passa brandamente.

Quero saber aquilo que nem sabes.


III
Aquilo que nem sabes - como saberias
o que o pensar é antes de pensar-se?


A mão que pousa e vai passar atenta.
O olhar que espera ver passar o gesto.
A tácita lembrança de volver os olhos.
A brisa que sabemos vai soprar tão mansa,
ainda antes, no fremir de pétalas ou folhas,
mas não na expectativa do arrepio prévio.


IV
Por que esperaste, ciente, a pele da minha mão?


[Jorge de Sena]


^^

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Un viento frio en el alma




Un viento frío en el alma
despierta un profundo sueño
que había trepado muy alto
buscando el amor eterno…

Buscó quedarse dormido,
buscó el aire perfumado
para fugarse con él
y darle al aire su llanto…

La noche casi invernal,
empaña el cristal del alma
deambula rumbo al jagüel,
a conversar con el agua…

Un viento frío en el alma
desvaneció la alegría
y tiritando en silencio
se humedeció su sonrisa…

Pidió prestado a la noche
un instante su secreto,
para que le cuente al alma
como se cobija un sueño…

Porque buscar el porque
si un nuevo día despierta
para empezar otra vez
con una esperanza nueva…

Tiene el amor una luna
tiene el amor primaveras,
bebe dulzuras de mieles
del néctar de las praderas…

[Daniel Guerra]


^^

Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta que traçamos?...
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui.

[Álvaro de Campos]


^^

terça-feira, 16 de novembro de 2010


Para que o encontro se prolongue
na ausência do nosso cruzar
de dedos,
há uma celebração quotidiana
do teu nome fora da minha boca.
Chamo-te como se de perto
me ouvisses, é só um murmurar
fugidio para que aqui te quedes.

[Lidia Martinez, Um adeus perfeito]


^^

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pretextos para fugir do Real


A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado

E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

[Alexandre O´Neill - Poesias Completas]


^^

Gostaria de descrever a emoção mais simples
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol

Gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim

mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante

Gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade

sem agitar um copo cheio de água

Dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra

arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele

mas aparentemente isso não é possível

E só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto

E a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz

Tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento

Adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas

Os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente

[Zbigniew Herbert]
^^

domingo, 14 de novembro de 2010

Antes De Las Seis


No actúes tan extraño
Duro como una roca
Si te mostré pedazos de piel
Que la luz del sol aun no toca
Y tantos lunares que ni yo misma conocía
Te mostré mi fuerza bruta
Mi talón de Aquiles, mi poesía


Qué harás?
Sólo una historia más
Qué haré si no te vuelvo a ver?
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Mucho antes

No dejes el barco
Tanto antes de que zarpemos
Hacia alguna isla desierta
Y después, después veremos

Si me ves desarmada
Por qué lanzas tus misiles?
Si ya conoces mis puntos cardinales
Los más sensibles y sutiles

Qué harás, la vida lo dirá
Qué haré si no te vuelvo a ver?
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Mucho antes de las seis
Mucho antes


[Shakira]


^^

Beijar


Quando partilhares comigo o sabor
de um beijo recorda-te por favor

beijar é acto de dar
e
beijar-te será acto de amar

então se
beijar-te for acto de amor

beijar será o acto
e
tu o amor


[Daniel Sant'Iago, Brinco de palavras]


^^

sábado, 13 de novembro de 2010

A matéria das Palavras



Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.


Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.



[Ana Hatherly]


^^

Acreditei no Mar


Percorri a umbria de um eclipse
que nas vagas não reflectia

Apaguei os olhos e sorri com uma lágrima

Ao abrir , fitei o azul
o azul do céu , do mar e da lua

Ouvi então estremecerem as ondas
e a areia lacrimar.

Voltaram os raios lunares,
voltei ao luar da noite
húmida e fria
em que me movo
e te deito.

Minha gárgula de vida,
meu eterno mar.


[Nuno Travanca]


^^

^^

Especial: 3

^^

Respiro o teu Corpo



Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

[Eugénio de Andrade]


^^

Onde o Silêncio se Esconde?


Que rompam as águas:
é dum corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É dum rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
dum pequeno charco de luz.

De luz?
Que sabemos nós
dessas nuvens altas,
dessas agulhas
nuas
onde o silêncio se esconde?
Desses olhos redondos,
agudos de verão,
e tão azuis
como se fossem beijos?

Um corpo amei,
um corpo, um rio,
um pequeno tigre de inocência,
com lágrimas
esquecidas nos ombros,
gritos
adormecidos nas pernas,
com extensas,
arrefecidas
primaveras nas mãos.

Quem não amou
assim? Quem não amou?
Quem?

Quem não amou
está morto.

Piedade,
também eu sou mortal.
Piedade
por um lenço de linho
debruado de feroz melancolia,
por uma haste de espinheiro
atirada contra o muro,
por uma voz que tropeça
e não alcança os ramos.

Dum corpo falei:
que rompam as águas.

[Eugénio de Andrade]

^^

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Contudo


Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim.

[Álvaro de Campos]


^^

Vice versa


Tenho medo de te ver
Necessidade de te ver
Esperança de te ver
Inquietação de te ver

Tenho ganas de te encontrar
Preocupação de te encontrar
Certeza de te encontrar
Pobres dúvidas de te encontrar

Tenho urgência de te ouvir
Alegria de te ouvir
Boa sorte de te ouvir
E temores de te ouvir

Ou seja
Resumindo
Estou fodido
E radiante
Talvez mais o primeiro
Que o segundo
E também
Vice versa

[Mario Benedetti]


^^

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sessão pipoca - Déjà Vu



Nenhuma verdade me machuca
Nenhum motivo me corrói
Até se eu ficar
Só na vontade, já não dói
Nenhuma doutrina me convence
Nenhuma resposta me satisfaz
Nem mesmo o tédio me surpreende mais

Mas eu sinto que eu tô viva
A cada banho de chuva
Que chega molhando o meu corpo

Nenhum sofrimento me comove
Nenhum programa me distrai
Eu ouvi promessas e isso não me atrai

E não há razão que me governe
Nenhuma lei pra me guiar
Eu tô exatamente aonde eu queria estar

Mas eu sinto que eu tô viva
A cada banho de chuva
Que chega molhando o meu corpo

A minha alma nem me lembro mais
Em que esquina se perdeu
Ou em que mundo se enfiou

Mas já faz algum tempo
Já faz algum tempo
Já faz algum tempo
Faz algum tempo

A minha alma nem me lembro mais
Em que esquina se perdeu
Ou em que mundo se enfiou

Mas eu não tenho pressa
Já não tenho pressa
Eu não tenho pressa
Não tenho pressa...


[Pitty]


^^

Neste Lugar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


^^

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Querer olhar...


Olhar é um modo de crescer em silêncio.

[Herberto Helder]
^^

Delicadeza


As coisas tolas que o amor
parece me dizer
falam na delicadeza,
o elixir do prazer na paixão
são os seus olhos
olhando nos meus
as suas mãos
envolvendo minhas mãos
esse é o jogo do amor
e da sedução
que deixa na boca o sabor
que o beijo não provou
brilha na pele o suor que o corpo
não tocou
por saber
que essa vontade contida no ar
faz aumentar a ilusão do querer
é o faz-de-conta do amor rondando você
Cercados por esta magia
que se chama desejo
nossa própria armadilha
teu cheiro no ar,
incenso de amor
perfume da mais rara flor
que enfeitiça o lugar...

[Composição: Jorge Vercillo/Jota Maranhão]


^^

A minha fome é infinita e sempre vazias as minhas mãos.

À noite descendo as ruas da cidade levo a lua nos meus dedos
e abandono a minha tristeza sob as janelas de mulheres infelizes.

Eu daria tudo e no entanto não tenho nada.
A minha fome é infinita e sempre vazias as minhas mãos.

[Rade Drainac]


^^

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Amanhã Não se Sabe


Como as folhas, como o vento
Até onde vai dar o firmamento
Toda hora enquanto é tempo
Vivo aqui neste momento

Hoje aqui, amanhã não se sabe
Vivo agora antes que o dia acabe
Neste instante, nunca é tarde
Mal começou e eu já estou com saudade

Me abraça, me aceita
Me aceita assim meu amor
Me abraça, me beija
Me aceita assim como eu sou
Me deixa ser o que for

Como as ondas com a maré
Até onde não vai dar mais pé
Este instante tal qual é
Vivo aqui e seja o que Deus quiser

Hoje aqui não importa pra onde vamos
Vivo agora, não tenho outros planos
É tão fácil viver sonhando
Enquanto isso a vida vai passando

Me abraça, me aceita
Me aceita assim meu amor
Me abraça, me beija
Me aceita assim como eu sou
Me deixa ser o que for


[Composição: Sérgio Britto]


^^

Serei...


Não pude ser
o teu amor perfeito
antes esta ferida.
Por isso para ti
não serei a pele
— poro a poro teu alumbramento —
serei apenas a cicatriz.

P-e-r-f-e-i-t-a.

[Neide Archanjo]
^^

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A lição de Poesia


1.
Toda a manhã consumida
como um sol imóvel
diante da folha em branco:
princípio do mundo, lua nova.

Já não podias desenhar
sequer uma linha;
um nome, sequer uma flor
desabrochava no verão da mesa:

nem no meio-dia iluminado,
cada dia comprado,
do papel, que pode aceitar,
contudo, qualquer mundo.

2.
A noite inteira o poeta
em sua mesa, tentando
salvar da morte os monstros
germinados em seu tinteiro.

Monstros, bichos, fantasmas
de palavras, circulando,
urinando sobre o papel,
sujando-o com seu carvão.

Carvão de lápis, carvão
da idéia fixa, carvão
da emoção extinta, carvão
consumido nos sonhos.

3.
A luta branca sobre o papel
que o poeta evita,
luta branca onde corre o sangue
de suas veias de água salgada.

A física do susto percebida
entre os gestos diários;
susto das coisas jamais pousadas
porém imóveis - naturezas vivas.

E as vinte palavras recolhidas
as águas salgadas do poeta
e de que se servirá o poeta
em sua máquina útil.

Vinte palavras sempre as mesmas
de que conhece o funcionamento,
a evaporação, a densidade
menor que a do ar.


[João Cabral de Melo Neto]

^^

Feliz Aniversário!

Existem pessoas em nossas vidas que nos deixam felizes pelo simples fato de terem cruzado o nosso caminho. Algumas percorrem ao nosso lado, vendo muitas luas passarem, mas outras vemos apenas entre um passo e outro. Quero que saiba que gosto de você com todas as diferenças que temos... Respeito sua visão de mundo, mesmo não sendo a minha...
Apesar da distância, fico feliz ao perceber sua alegria... Preocupo-me, quando sinto que não está bem.
Dizer que admiro e gosto de você é muito pouco, mas prefiro agradecer a Deus por sua amizade. E gratificante saber que você é, realmente, um ser iluminado que consegue trazer ao mundo um grande carisma e um grande companheirismo.Você representa com nobreza a palavra amizade.
Luna, quero do fundo do coração que neste dia tão especial você seja ainda mais feliz! E que todas as bênçãos de Deus sejam derramadas na sua vida. Felicidades!!!

Ganhei este selinho com uma listinha de desejos no meu aniversário e quero dividir com você também!
Faça tudo direitinho, em... ai,ai, ai...




Danni^^

domingo, 7 de novembro de 2010

Sessão pipoca - Eu tive um Sonho



Eu tive um sonho
Vou te contar
Eu me atirava do
Oitavo andar
E era preciso
Fechar os olhos
Pra não morrer e não me
Machucar

É o que devemos fazer
Não temos que ter medo
É o que devemos fazer

Eu tive um sonho
Muitos soldados
Me procuravam dentro do
Meu prédio
E era preciso
Voar pelas escadas
Pra não deixar que eles
Chegassem perto

É o que devemos fazer
Não temos que ter medo
É o que devemos fazer

Não deixe de cruzar
O seu olhar com o meu
Eu vou jogar meu corpo
em cima, do seu...

[Composição: George Israel/Paula Toller]


^^

Come Down Love


Não cure o dever fundamental
Até olhar para si mesmo
Mas você deveria saber
Eu te amo tanto
Por você eu aproveito uma oportunidade

Perdoar é uma arte
E dói saber como fazer durar
Não, não brinque com o meu coração
Não me deixe aqui
Apenas me leve pra casa, a salvo e rapidamente


Ninguém pode ver agora
Como você não consegue acreditar?
Não há o errado
Não há o certo
Somos eu e você juntos.

[Shakira]
^^

O rosto mostra:


... o lado do amor e o lado predisposto
para o choro
e para o íntimo
jogo do que se vê posto para repouso.

Demais denota vida:
quando respira
os ares reais
em sítio
próprio para sentir
que o dom do amor
é vivo ansioso.


[Fiama Hasse Pais Brandão, Obra Breve]


^^

sábado, 6 de novembro de 2010

Eu te Devoro


Teus sinais
Me confundem
Da cabeça aos pés
Mas por dentro
Eu te devoro,
Teu olhar
Não me diz exato
Quem tu és
Mesmo assim
Eu te devoro...

[Composição: Djavan]


^^

Quem és tu?


Na grande confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?

[António Ramos Rosa]


^^

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

No hay senãl


No hay salida de incendios
Me quema por dentro
La distancia entre los dos

Siento que te pierdo, no hay señal
Aló, aló, hay alguién ahí?
Tanta indiferencia me hace mal
Aló, aló sigo aquí
No respondo a otro timón
Que a esta rara devoción por ti

[Shakira]

^^

(...)


E por isso falamos uns com os outros, escrevemos, telegrafamos e telefonamos uns aos outros, de perto ou de longe, cruzando terra e mar, apertamos as mãos à chegada e à partida, lutamos uns com os outros e até nos destruímos uns aos outros neste esforço algo frustrado de atravessar paredes em direcção ao outro. Como disse uma vez um personagem numa peça, estamos todos condenados a viver na cela solitária da nossa pele.

[Tennessee Williams]


^^

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A sombra





Pra quê dissimular?
Se ela me segue aonde quer que eu vá?
Melhor encarar
E aprender com ela a caminhar
Não vou mais negar
Por todo caminho, minha sombra está

Eu quero saber me querer
Com toda a beleza e abominação
Que há em mim

Isso nunca se desfaz
E quanto a desejo, não há paz
Isso nunca se desfaz
E quanto a desejo, não há paz

Eu quero saber me querer
Com toda a beleza e abominação
Que há em mim

Que há em mim
Que há em mim
Que há em mim ...


[Pitty]


^^

Sessão pipoca - Sutilmente



E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

[Composição: Samuel Rosa / Nando Reis]

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Onde Estou


Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)

Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...

[Álvaro de Campos]


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quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A pedidos


Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.

Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.


[Flora Figueiredo - Amor a Céu Aberto]


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terça-feira, 2 de novembro de 2010

Nada Fica


Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.


[Ricardo Reis]


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Se Eu Pudesse


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

[Alberto Caeiro]

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Faz tempo? Distorce memórias



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Acontecimentos


Eu espero
Acontecimentos
Só que quando anoitece
É festa no outro apartamento

Todo amor
Vale o quanto brilha
E aí
O meu ainda brilhava
Brilho de jóia e de fantasia

O que que há com nós dois, amor?
Me responda depois
Me diz por onde você me prende
Por onde foge
E o que pretende de mim

Era fácil
Nem dá pra esquecer
E eu nem sabia
Como era feliz de ter você

Como pôde
Queimar nosso filme
Um longe do outro
Morrendo de tédio e de ciúmes

[Marina Lima]


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A Mulher Sentada


Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.

(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).

Mulher sentada. Tranqüila
na sala, como se voasse...


[João Cabral de Melo Neto]


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domingo, 31 de outubro de 2010

E quanto a mim, te quero, sim...


Cada um terá razões ou arpões
Dediquei-me às suas contradições, fissões, confusões
Meu desejo, seu bom senso, raivosos feito cães
E a manhã nos proverá outros pães

(...)

E quanto a mim, te quero, sim
Vem dizer que você não sabe
E quanto a mim, não é o fim
Nem há razão pra que um dia acabe.

[Composição: Samuel Rosa / Chico Amaral]

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Viceversa


Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte.

Tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte.

Tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte.

o sea,
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


[Mario Benedetti]

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Enlevo


Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce

e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.

[Flora Figueiredo - Florescência]


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sábado, 30 de outubro de 2010

O último poema


Assim eu quereria o meu último poema.

Que fosse terno
dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]


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sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sessão pipoca - One Headlight


Há tanto tempo, eu nem me lembro quando
Foi quando eles me disseram que perdi minha única amiga
Disseram que ela morreu por uma doença de coração partido
Ou foi o que ouvi entre as árvores do cemitério

Eu vi o sol surgir sobre o funeral ao amanhecer
O longo braço quebrado da lei humana
Isso sempre me pareceu tamanho desperdício
Ela sempre teve um rosto lindo
E eu fiquei imaginando como é que ela andava por aqui

Ei, vamos, tente um pouco
Nada é para sempre
Há de ter algo melhor do que
o meio termo

Mas eu e a Cinderela
Nós agüentamos
Nós conseguimos chegar em casa
Com um só farol

Ela disse "Está frio
Se parece com o dia da independência
E eu não consigo sair desse desfile
Mas precisa haver uma saída
Em algum lugar à minha frente
Desse labirinto de feiúra e cobiça"
Eu vi o sol, à frente,
Na ponte onde termina a cidade
Dizendo que tudo o que há é bom e que o vazio está morto
Nós correremos até que ela fique sem fôlego
Ela correu até não sobrar nada
Ela chegou ao fim - É só o parapeito da janela dela

Bem, esse lugar é velho
Parece com um caminhão batido
Eu ligo o motor, mas o motor não liga
Cheira a vinho barato e cigarros
Esse lugar está sempre uma bagunça
Às vezes eu acho que gostaria de vê-lo queimar
Estou tão só, e me sinto como outra pessoa
Cara, eu não mudei, mas sei que não sou o mesmo

Mas em algum lugar no meio dos muros dessa cidade de sonhos moribundos
Acho que a morte dela deve estar me matando

[Composição: The Wallflowers]

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Jura Secreta


Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber ainda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri.

[Composição: Sueli Costa e Abel Silva]

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