Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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segunda-feira, 21 de junho de 2010

domingo, 20 de junho de 2010


Primeiro a tua língua molha o meu
coração, num vagar de fera. Estendo
aurículas e ventrículos sobre a mesa, entre
os copos, que desaparecem. Não há mais
ninguém no bar cheio de gente. Abres-me agora os
pulmões, um para cada lado, e sopras. Respiras-
-me. O laser das tuas palavras rasga-me o lobo
frontal do cérebro. A tua boca abre-se e fecha-se,
fecha-se e abre-se, avançando
por dentro da minha cabeça. As minhas cidades
ruem como rios, correndo para o fundo dos teus olhos.
O tempos estilhaça-se no fogo
preso das nossas retinas. O empregado do bar
retira da mesa o nosso passado e arruma-o na vitrine,
ao lado dos exércitos de chumbo.
Entramos um no outro,
abrindo e fechando as pernas
das palavras, estremecendo no suor dos
olhos abraçados, fazendo sexo
com a lava incandescente dessa revolução
imprevista a que damos o nome de amor.

[Inês Pedrosa, in Egoísta, nº 32]


^^

sábado, 19 de junho de 2010

Sessão pipoca - Patience


Um pouco de paciência, Sim
Precisamos de um pouco de paciência, Sim
Só um pouco de paciência, Sim
Mais um pouco de paciência, Sim...


[Guns N' Roses]

^^

Quem diz de amor fazer que os actos não são belos
que sabe ou sonha de beleza? Quem
sente que suja ou é sujado por fazê-los
que goza de si mesmo e com alguém?

Só não é belo o que se não deseja
ou que ao nosso desejo mal responde.
E suja ou é sujado que não seja
feito do ardor que se não nega ou esconde.

Que gestos há mais belos que os do sexo?
Que corpo belo é menos belo em movimento?
E que mover-se um corpo no de um outro o amplexo
não é dos corpos o mais puro intento?

Olhos se fecham não para não ver
mas para o corpo ver o que eles não,
e no silêncio se ouça o só ranger
da carne que é da carne a só razão.

[Jorge de Sena, Antologia Poética]


^^

sexta-feira, 18 de junho de 2010


Às vezes viro-me e cheiro o teu cheiro e não consigo continuar não consigo continuar foda-se sem exprimir esta merda física horrível merda dolorosa saudade que tenho de ti. Não posso acreditar que sinta isto por ti e tu não sintas nada. Não sentes nada?

(Silêncio)

Não sentes nada?

(Silêncio)

E saio às seis da manhã e começo à procura de ti. Se sonhei com uma rua ou um bar ou uma estação vou lá. E espero por ti.

(Silêncio)

Sabes, acho que estou a ser manipulada mesmo.

(Silêncio)

Na minha vida nunca tive problemas em dar às pessoas aquilo que elas queriam. Mas nunca ninguém fez isso por mim. Ninguém me toca, ninguém se aproxima de mim. Mas agora tocaste-me não sei onde tão fundo foda-se não posso acreditar não posso ser isso para ti. Porque não te consigo encontrar.

(Silêncio)

Achas que é possível alguém nascer no corpo errado?

(Silêncio)

Achas que é possível alguém nascer na era errada?

(Silêncio)

Vai-te foder. Vai-te foder. Vai-te foder por me rejeitares, por nunca aqui estares, vai-te foder por me fazeres sentir uma merda, vai-te foder por me fazeres sangrar amor e vida foda-se, que se foda o meu pai por me ter fodido a vida para sempre e que se foda a minha mãe por não o ter deixado, mas, mais que tudo, vai-te foder por me fazeres amar uma pessoa que não existe. (...)

[Sarah Kane]


^^

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Sessão pipoca - Do I Have To Say The Words?



Me salve desse buraco
Sussurre palavras de desejo
Eu nunca precisei de ninguém como eu estou precisando de você hoje.
(...)


^^

Pensar
é como tactear uma sombra
entrar de rastos
numa profusão de escuros.

[Ana Hatherly]


^^

quarta-feira, 16 de junho de 2010


Há várias maneiras de começar o dia
quando acordo fumo um cigarro

Coso silêncios à pele
num quarto inteiro de palavras vazias
que se repetem como rituais

Durante semanas ensaiei regressos
apesar das paredes vazias
não deixo de fingir que não estou só...

[Maria Sousa]


^^

terça-feira, 15 de junho de 2010


Um ser humano é um combinado de egoísmo, sofrimento e necessidade. Não comove ninguém. Uma pedra não comove ninguém. A beleza é um acidente banal e pressupõe a morte; muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala, chega a ser assustador. A inteligência, refrescante como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora, que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir à inteligência? O de criada de servir nos aposentos da ganância. Não comove, é evidente, ninguém. A bondade, sim, comove. Mas é tão débil e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil, assim, encontrar algo que possamos amar. Eu tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer: tudo me parece, até a música, produto de uma falha.
Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer quem me convença que bem outra poderia ser a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes, tudo arde numa estranha aceitação. Francamente, não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto, que alguém me demonstrasse que não tenho razão.

[José Miguel Silva]


^^

domingo, 13 de junho de 2010


Amei-te como um sobrevivente doutro mundo doutros rios inundada de algas e plumas restos de asas na boca turgida e urgente eras um grito da montanha debaixo da minha pele um tigre aceso com olhos de carvão com garras de diamante e a mesma força do nilo numa barca à deriva. Amei-te cheia de fome e sede molhada de frutos e ervas e os teus rins aconteciam relâmpagos vermelhos e maciços.

O tempo era uma almofada apertando a alma
os gestos eram precisos claros e lá fora a cidade era um ponto
luminoso na ponta dos teus dedos cortantes densos turvos como
as horas de fechar a porta. Os olhos voaram fora de nós e aí
nos deixámos adormecer.
Fiz-te uma cama de espuma e na minha boca dobraste o cabo do medo.
quando partiste levaste o verão e eu fiquei sentada bordando no ar
um castelo de beijos e um filho de luar.

[Isabel Mendes Ferreira]


^^

sábado, 12 de junho de 2010


E fico neste estado catatónico,
telegráfico, estúpido, lacónico,
quando te vejo ou ouço a tua voz.
Bem queria que passasse este registo,
que, se é para ser isto sem ter isto,
melhor que te tomar é tomar pós

de frutos, contra enjoos, suculentos,
bons para a pele, na alma como unguentos
ou band-aids em chuva colante.
Mas em qualquer dos casos, o que resta
é: não te veja, ou veja (em curta festa):
a saudade: submersa e naufragante.

Não te posso ouvir mais, digo três vezes,
e com muito fervor e muitas preces,
como se esconjurasse Satanás.
Depois, uma palavra, um leve traço,
um minúsculo gesto abrindo o espaço
e, mesmo que não estejas, aqui estás.

E sentas-te ao meu lado na cadeira.
Ninguém te vê: só eu. A curva inteira
do pescoço, dos ombros, ou da mão.
Toco-te levemente e o vizinho
na mesa ao lado, espreita-me, de mansinho,
pensando que perdi toda a razão.

E devo ter perdido, se o real
me parece uma coisa desigual,
um band-aid barato, a descolar.
E a única coisa mais parecida
com o ser realmente é uma vida
que não posso, nem devo, acarinhar.

E até essa palavra lembra ti,
e a fractura começa por aí,
numa sintaxe que não sei rimar:
Não te posso ver mais. Não, não e não!
(E sai-me o verso assim, como vulcão
limitado a explodir dentro do mar.)

E agora, o quê? Pergunto-me, interrogo-me,
faço das linhas coração. E chovo-me:
miríade em band-aids, tão veloz:
é que fico na mesma catatónica,
meio estúpida, letárgica, lacónica,
se torno em verso, e minha, a tua voz.

[Ana Luísa Amaral]


^^

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Retrato Natural


Elegia a uma pequena borboleta

Como chegavas do casulo, / — inacabada seda viva — / tuas antenas — fios soltos / da trama de que eras tecida, / e teus olhos, dois grãos da noite / de onde o teu mistério surgia, como caíste sobre o mundo / inábil, na manhã tão clara, / sem mãe, sem guia, sem conselho, / e rolavas por uma escada / como papel, penugem, poeira, / com mais sonho e silêncio que asas, minha mão tosca te agarrou / com uma dura, inocente culpa, / e é cinza de lua teu corpo, / meus dedos, sua sepultura. / Já desfeita e ainda palpitante, / expiras sem noção nenhuma.
Ó bordado do véu do dia, / transparente anêmona aérea! /não leves meu rosto contigo: / leva o pranto que te celebra, / no olho precário em que te acabas, / meu remorso ajoelhado leva! (...)
Pudeste a etéreos paraísos / ascender teu leve fantasma, / e meu coração penitente ser a rosa desabrochada / para servir-te mel e aroma, / por toda a eternidade escrava!
E as lágrimas que por ti choro / fossem o orvalho desses campos, / — os espelhos que refletissem / — vôo e silêncio — os teus encantos, / com a ternura humilde e o remorso / dos meus desacertos humanos!

[Murilo Mendes]
^^

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um passeio


Passei por uma esquina. Não gosto de passear em vão, só vou se precisar mesmo de alguma coisa. Ver o que há para ver, despachar o assunto, mas andar por andar, não ando. Só por andar, isso não.
E também não gosto de quebrar nada. Hoje caminhei um pouco até a esquina, depois regressei, continuei a caminhar, depois voltei para casa, fui ate a cozinha, tirei um copo do armário, não me perdi, tirei-o e lancei-o para o chão. Não faço cenas. Primeiro segurei-o, mas logo o deixei cair. Tudo isto aconteceu hoje. O som ecoou muito longe.


[Endre Kukorelly]

^^

quarta-feira, 9 de junho de 2010


Ela diz.
Apaixonei-me por ti.
E ele ouve-a,
Mas não diz nada.
Ele sabe
Que nada puderam fazer
A não ser acharem-se
Um dia
Apaixonados.
Ela por ele.
Ele por ela.
Sabem que foi
Assim que aconteceu.
Ele sabe.
Ela também.
E desconfiam,
Um e outro,
Desconfiam
Que não podia ser
De outra maneira.
.
.
[Luís Ene]

^^

terça-feira, 8 de junho de 2010

Todas as pessoas sozinhas


Todas as pessoas sozinhas dançam devagar na sala de espera mesmo que o dia seja quente e convide a passeios ao luar.

A música é sempre a mesma, assobiada ao ouvido por um rapazinho tímido e fechado do qual não se sabe o nome e a destreza que podemos alcançar, neste querer dar o passo certo, é apenas uma mínima ideia da força dos nossos desejos.

Todas as pessoas sozinhas sorriem em frente ao espelho e lavam os dentes como quem arranca beijos à emoção de ter ali, à nossa frente, alguém de quem gostamos muito.

A porta da rua é um lugar onde só se sai, a nossa família é uma fotografia pendurada na parede e os amigos são aqueles que nos dão bons dias no café.

Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas gritam baixinho os nomes esquecidos que outras pessoas sozinhas lhes sussurraram alto uma vez, quando ainda éramos todos uns dos outros.

Engomada a camisa, vestimo-nos com o cuidado solene daqueles que vestem camisas com emoção e significado enquanto esperam a hora certa para morrer ou nascer.

Todas as pessoas sozinhas embrulhadas em lençóis frescos porque é Verão a rebolar as dores de pescoço pelas duas almofadas da cama e a pensar que de tanto dormir assim sem ninguém vai ser difícil voltar a adormecer só num dos cantos do colchão. Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas.


[Luís Filipe Cristóvão]

^^

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O caminho é sempre um certo vazio


Para se fazer qualquer caminho foi preciso arrasar, destruir.
Assim, no caminho do tempo, poderíamos dizer que o caminho do tempo passa arrasando o ser: o ser enquanto tal, e o ser daquele pelo qual transita: o homem, enquanto o sabemos.

Mas se um caminho o é verdadeiramente, se cumpre a sua função mediadora, terá destruído apenas para criar uma relação diferente; uma relação possível e válida. Tratando-se do tempo, uma relação possível e válida quer dizer adequada ao ser humano para quem o caminho do tempo se abre.

O tempo constitui a possibilidade de viver humanamente; de viver. Já que o viver não é o mesmo que a vida. A vida é dada, mas é um dom que exige de quem a recebe o vivê-la, e ao homem de uma maneira especial.

Viver humanamente é uma acção e não um simples deixar-se deslizar pela vida. O homem tem de fazer a própria vida, ao contrário da planta e do animal que a encontram já feita e que só têm que deslizar por ela, do mesmo modo que um astro percorre a sua órbita - adormecido -, diz. É indubitável.

Mas, por outro lado, o deixar-se deslizar pela vida que se estende já feita, o percorrê-la do mesmo modo que um astro na sua órbita é, sem dúvida, qualquer coisa que o homem sempre se esforçou por conseguir. A órbita é representação e símbolo da ordem perfeita.

Viver descrevendo uma órbita é uma imagem ambivalente: infernal pelo que de movimento sem fim possui, pela falta de lugar próprio que significa. Imagem de um tempo vazio, sem princípio nem fim, de um tempo absolutizado; desprovido de transcendência. Mas se a órbita se descreve criando-a, dançando em roda, o que será sempre dança ainda que pareça só andar, então será a imagem da vida em estado puro, da vida bem-aventurada, obediente e livre ao mesmo tempo.

E assim parece que na vida, enquanto quem quer que seja, por afastado que esteja do astro, somente desliza, dorme e sonha, ao homem é-lhe exigido despertar. Há que despertar, ir despertando, o que significa ir despertando para o seu ser do sonho, despertar com ele.

Despertar no homem é despertar-se com o seu próprio ser na realidade e perante ela. A realidade que se apresenta de forma fragmentária e total, iniludível e relativa; chamando-o como o lugar de encontro com todos os outros homens. Porque a realidade é, em princípio, o lugar onde os seres se encontram porque aí se descobrem ao entrar. O lugar que põe, inexoravelmente, os seres a descoberto.

[María Zambrano]


^^

domingo, 6 de junho de 2010

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido -
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? Será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.

[Teresa Balté]


^^

sábado, 5 de junho de 2010


O poema é texto? O poeta?
O poema é o texto + o poeta?
O poema é o poeta - o texto?
O texto é o contexto do poeta
Ou o poeta do contexto do texto?
O texto visível é o texto total
O antetexto e o antitexto
Ou as ruínas do texto?

O texto abole
Cria
Ou restaura?

[Murilo Mendes]

^^

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Procura da Poesia, in A Rosa do Povo

Ano facas versos sobre acontecimentos.
Ano ha' criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
ano aquece nem ilumina. (...)
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda ano é poesia. (...)
O canto ano é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança, nada significam.
A poesia (ano tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto. (...)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas ano há desespero,
há calma e frescura na superfície inata
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escreve-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silencio.
Ano forces o poema a desprender-se do limbo.
Ano colhas no chão o poema que se perdeu.
Ano adules o poema. Aceita-o
como ele aceitara' a sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave? (...)


[Carlos Drummond de Andrade]


^^

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Vestido

A quem deixar o meu guarda-roupa oculto
o guarda-roupa fantasma
de todos os vestidos
que tive e que me abandonaram
os vestidos
que nunca tive e que vesti em segredo
O vestido que veio demasiado cedo
e que nunca me caiu bem
o vestido
que chegou já tarde
para ir à festa
quando eu já tinha adormecido

O vestido de criança
tão igual ao vestido
da primeira boneca
O da menina com o corpete já estreito
que apertava os seios doendo-lhe em casulo
O da adolescente que pressentia o homem
ladrão de túnicas na sesta sufocante

O vestido esquecido
da mulher que sob a sombra
do homem eclipse ocultou-se uma noite
e amanheceu como a lua cheia
surpreendida pela luz na metade do céu

O vestido de guerra rasgado
como bandeira
da mãe partida em dois
para sentir-se inteira

O vestido de luto que não levei para os meus
mortos
que ainda vivem

Os vestidos que alguém me emprestou para sonhar

...Quando chegar a morte também será um vestido
que não verei porque estarei a dormir.

[Josefina Plá]

^^