Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Acontecimentos


Eu espero
Acontecimentos
Só que quando anoitece
É festa no outro apartamento

Todo amor
Vale o quanto brilha
E aí
O meu ainda brilhava
Brilho de jóia e de fantasia

O que que há com nós dois, amor?
Me responda depois
Me diz por onde você me prende
Por onde foge
E o que pretende de mim

Era fácil
Nem dá pra esquecer
E eu nem sabia
Como era feliz de ter você

Como pôde
Queimar nosso filme
Um longe do outro
Morrendo de tédio e de ciúmes

[Marina Lima]


^^

A Mulher Sentada


Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.

(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).

Mulher sentada. Tranqüila
na sala, como se voasse...


[João Cabral de Melo Neto]


^^

domingo, 31 de outubro de 2010

E quanto a mim, te quero, sim...


Cada um terá razões ou arpões
Dediquei-me às suas contradições, fissões, confusões
Meu desejo, seu bom senso, raivosos feito cães
E a manhã nos proverá outros pães

(...)

E quanto a mim, te quero, sim
Vem dizer que você não sabe
E quanto a mim, não é o fim
Nem há razão pra que um dia acabe.

[Composição: Samuel Rosa / Chico Amaral]

^^

Viceversa


Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte.

Tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte.

Tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte.

o sea,
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


[Mario Benedetti]

^^

Enlevo


Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce

e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.

[Flora Figueiredo - Florescência]


^^

sábado, 30 de outubro de 2010

O último poema


Assim eu quereria o meu último poema.

Que fosse terno
dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]


^^

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sessão pipoca - One Headlight


Há tanto tempo, eu nem me lembro quando
Foi quando eles me disseram que perdi minha única amiga
Disseram que ela morreu por uma doença de coração partido
Ou foi o que ouvi entre as árvores do cemitério

Eu vi o sol surgir sobre o funeral ao amanhecer
O longo braço quebrado da lei humana
Isso sempre me pareceu tamanho desperdício
Ela sempre teve um rosto lindo
E eu fiquei imaginando como é que ela andava por aqui

Ei, vamos, tente um pouco
Nada é para sempre
Há de ter algo melhor do que
o meio termo

Mas eu e a Cinderela
Nós agüentamos
Nós conseguimos chegar em casa
Com um só farol

Ela disse "Está frio
Se parece com o dia da independência
E eu não consigo sair desse desfile
Mas precisa haver uma saída
Em algum lugar à minha frente
Desse labirinto de feiúra e cobiça"
Eu vi o sol, à frente,
Na ponte onde termina a cidade
Dizendo que tudo o que há é bom e que o vazio está morto
Nós correremos até que ela fique sem fôlego
Ela correu até não sobrar nada
Ela chegou ao fim - É só o parapeito da janela dela

Bem, esse lugar é velho
Parece com um caminhão batido
Eu ligo o motor, mas o motor não liga
Cheira a vinho barato e cigarros
Esse lugar está sempre uma bagunça
Às vezes eu acho que gostaria de vê-lo queimar
Estou tão só, e me sinto como outra pessoa
Cara, eu não mudei, mas sei que não sou o mesmo

Mas em algum lugar no meio dos muros dessa cidade de sonhos moribundos
Acho que a morte dela deve estar me matando

[Composição: The Wallflowers]

^^

Jura Secreta


Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber ainda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri.

[Composição: Sueli Costa e Abel Silva]

^^

Minibiografia


Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


[Luiza Neto Jorge]


^^

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Amor pra Recomeçar


Eu te desejo não parar tão cedo
Pois toda idade tem prazer e medo

E com os que erram feio e bastante
Que você consiga ser tolerante
Quando você ficar triste
Que seja por um dia, e não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom,
mas que rir de tudo é desespero

Eu te desejo, muitos amigos
Mas que em um você possa confiar

E que tenha até inimigos
Pra você não deixar de duvidar
Quando você ficar triste
Que seja por um dia, e não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom,
mas que rir de tudo é desespero

Eu desejo que você ganhe dinheiro
Pois é preciso viver também
E que você diga a ele, pelo menos uma vez,
Quem é mesmo o dono de quem.

Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor pra recomeçar


[Barão Vermelho]


^^

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Flutuações

O sonho aprendeu a pairar bem alto,
lá onde o sobressalto nem sequer nasceu.
Namorou a trôpega ilusão,
até que trêfego e desajeitado,
desprendeu-se de seu reino idealizado,
veio pousar tamborilante em minha mão.
Assim, aquecido e aconchegado,
parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
à sua inquietação eu me sujeito.
Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousa no meu peito.


[Flora Figueiredo - Amor a Céu Aberto]

^^

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Quão perto eu estou da vida?


^^

Seduzir


Cantar, é mover o dom
do fundo de uma paixão
Seduzir, as pedras, catedrais, coração
Amar, é perder o tom
nas comas da ilusão
Revelar, todo o sentido
Vou andar, vou voar, pra ver o mundo
Nem que eu bebesse o mar
Encheria o que eu tenho de fundo


[Composição: Djavan]


^^

Saudades de Melquisedeque

Esta manhã gostaria de ter dado ontem
um grande passeio àquela praia
onde ontem por sinal passei o dia
É difícil a vida dos homens senhor
Os anjos tinham outras possibilidades
e alguns deles foi o que tu sabes
Esta terra não está feita para nós
Mesmo que ela fosse diferente
nós quereríamos talvez outra terra
talvez esta de que agora dispomos
Não achas meu senhor que temos braços a mais
dias a mais complicações a mais?
Pra nascer e morrer seria necessário tanto?
Falhamos tantas vezes (Como os judeus que juraram
não comer nem beber até matar paulo
e apesar disso não o mataram)
É difícil a vida difícil a morte.
Por vezes os homens juntam-se todos
ou quase todos e organizam
grandes manifestações. Mas nada disso os dispensa
da grande solidão da morte
de termos de morrer cada um por nossa conta
Todos tivemos pai e mãe
nenhum de nós que eu saiba veio de salém

[Ruy Belo-Todos os Poemas]

^^

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Retirada


Respeite o silêncio
a omissão,
a ausência.

É meu movimento de deserção.
Abandonei o posto,
rompi a corda,
desacreditei de tudo.
Cansei de esperar que finalmente um dia,
minha fotografia
fizesse jus ao seu criado-mudo.

[Flora Figueiredo]


^^

domingo, 24 de outubro de 2010

Decepção não mata - Ensina a Viver! \o/





Algumas situações na vida nos deixam à sensação de termos sido roubados, como se algo muito importante tivesse sido arrancado de nós, um pedaço, um pouco do ar que respiramos. A situação fica ainda mais delicada quando nos decepcionamos com pessoas que amamos.

Quando isso acontece é necessário parar pra pensar na situação num todo. Esquecer aquela vontade que vem lá no fundo de dá o troco, de pagar na mesma moeda. Não vale a pena se rebaixar e cometer o mesmo erro, só pra se vingar. O correto é manter a dignidade, o caráter e se afastar de pessoas que só estão ao nosso lado pra sugar nossas energias.

É preciso, pelo menos, conformar-se com o que aconteceu. Porque aceitar já é uma outra história que fica para mais tarde. E aí entra um fator muito importante para qualquer roubo que tivermos: o tempo. Já dizia o antigo ditado que ele cura as feridas, já que o processo de cura segue andando de qualquer modo. O nosso corpo e a nossa mente querem nosso bem, eles não desejam que fiquemos sofrendo interminavelmente por algo que já aconteceu. O tempo acelera o processo se estivermos realmente dispostos a investir na recuperação.

Portanto, se você se decepcionou com alguém, em algum aspecto da sua vida, não se preocupe. O mundo dá muitas voltas. E o universo conspira sempre a favor do bem. Não vale a pena ficar com mágoa no coração, isso só faz prejudicar sua saúde. As palavras chaves são superação e bola pra frente!

A superação vem basicamente da vontade de realizar algo maior, de superar os limites, de alcançar o topo. É isso que torna algumas pessoas especiais. Vencedoras! Enfrentar as adversidades da vida não é fácil. Mas, quando conseguimos subjugar os problemas, saímos restaurados, firmes para continuar em frente. Isso é resiliência, afinal.

Danni^^

Balada do Inimigo


Quem é você
Quem é você
Nas minhas mãos
Nas minhas mãos vazias
Você assim tão impossível
Em vão
E o impossível
É uma droga poderosa pra nós,
Reféns do que virá


Quem é você
Quem é você
Embalsamando ameaças
Numa fileira de santos
Que nenhuma beleza ilumina

E o impossível é uma droga perigosa o bastante
Para se inventar a fé
Para se acreditar na fé
Em alguma salvação
E eu deslizo
Pro fundo de um quarto escuro
Já não sei mais onde estou
Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro
E a devastação da vida
Um cobertor

Talvez algumas lágrimas
Nos tornem um pouco mais inchados e vazios
É rapa…
Não há estilo sem fracasso

Talvez alguns sorrisos nos deixem um pouco mais silvio santos das nossas torturas
Pois a salvação floresce feliz como um escárnio

Lá onde os deuses não morrem nunca
Mas são recauchutados debaixo de nossas almas
Numa salvação que só interessa aos assassinos e aos santos
Numa salvacão triste como qualquer céu
Como num domingo
Como num suicídio
Como num êxtase
Que se desaprende

Eu
Deslizo pro fundo de um quarto escuro
Já não sei mais onde estou
Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro
E a devastação da vida
Um cobertor

Deslizo pro fundo de um quarto escuro
Já não sei mais onde estou
Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro

E a devastação da vida
Uma declaração de amor...

[Composição: Lobão]


^^

sábado, 23 de outubro de 2010

Simplesmente Mulher

Existe coisa mais contraditória e sublime do que ser mulher?
Ser mulher é um presente de Deus, porque nós mulheres pensamos com coração, agimos pela emoção e vencemos nossas lutas pela força do amor.

O que eu fui ontem e anteontem já é memória, escada vencida degrau por degrau; mas o que eu sou neste momento é o que conta, minhas decisões valem para o aqui e agora, hoje é o meu momento de ser mulher, momento único de viver minhas emoções a cada dia e transmiti-la com meus gestos delicados, femininos.

Somos tão únicas, e ao mesmo tempo somos tão parecidas... E como todas as mulheres, eu também tenho lá, minhas manias... Por que não? Procuro sempre valorizar minha feminilidade, nunca fugindo do meu “eu”, do meu estilo de ser, e da minha liberdade.

Sinto-me mais atraente sendo a mulher que sou, mas sempre do meu jeitinho: De cabelos presos ou soltos, com minhas unhas vermelhas ou à francesinha, com meus scarpins coloridos ou sandálias rasteirinhas, com maquiagem ou com o rosto ao natural. Vestindo roupa de grife ou com uma calça jeans e uma camiseta básica. Sinto-me atraente também, quando durmo só com a blusinha do baby doll e de calcinha de algodão ou uso aquela camisola de seda com rendas.

Não se preocupe, por que eu não vou tentar disfarçar essas manias, inclusive o de que a mulherada adora fazer coleção de alguma coisa, né? Já vou logo avisando - NÃO sou exceção. Quer me deixar com sorriso de orelha a orelha? Tão simples... é só me soltar num shopping, com cartão de crédito na mão, onde tenha logo de cara, uma livraria, uma sapataria e uma perfumaria... (não necessariamente, nesta ordem... rsrsr...) a-d-o-r-o!

Brincadeiras à parte, a verdade é que toda mulher, tem que se cuidar, se valorizar!
É muito bom me sentir assim: livre e de bem com a vida! É muito bom me aceitar e ser feliz com meu ser. Independente de TUDO e de TODOS!

É tão triste saber que existem pessoas infelizes consigo mesma, pessoas que não se suportam... imagine, suportar o outro? Pessoas ocas por dentro, pequenas, sem conteúdo algum, sem brilho próprio, e que, mostram seu recalque com atitudes primitivas ao ver diante dos seus olhos vazios, o brilho da identidade autêntica do outro. Lamentável, não?

Por ser mulher e por ser humana, eu me valorizo, sobretudo, por aquilo que meu olhar transmite (o meu olhar fala por mim, e muito) pelo que meu corpo revela, pelo que meus lábios dizem, ou seja, por minha essência.

Mas, eu acredito que o ápice na vida de uma mulher é o momento em que ela hospeda no seu ventre outras almas, um momento que eu ainda não passei. Entretanto, quando chegar à hora, quero que seja como todas as mulheres... dá a luz e depois ficar cega de amor diante de tanta beleza em ter meu filho nos braços.

Dizem que a mulher é sexo frágil, dizem que cabeça de uma mulher ninguém entende, e dizem ainda, que, nossos problemas estão sempre vinculados à TPM. Pode?
Ai,ai, esse homens, em?!... rsrsrrs...


A Verdade é que sou [Mulher] simples assim...
Sou como todas as mulheres: determinada, que chora e que sorrir, que sonha, vive cheia de mistério e encanto, força felina e manhosa, frágil e poderosa!

Simplesmente Mulher!!

Danni ^^

A Flor do Vazio


Vi o seu olhar
Ao nascer o fim
Na primavera eu vi brotar, nascer o fim...
Brotar... Nascer o fim...
Brotar...
Vi morrer a luz
Vi morrer o sol
E no vazio descobri a tua flor
A luz... a tua flor...
A luz...
na escuridão
De algum lugar
Nem as mudanças da estação
Irão mudar a emoção
Finda mais um dia e tudo vai recomeçar
É quase primavera
É quase primavera...

[Composição: Lobão - Ivo Meirelles - Regina Lopes]


^^

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Eu sigo em frente, pra frente eu vou...




Eu sigo enfrentando a onda
Onde muita gente naufragou.

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[Engenheiros do Hawaii]


^^

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Meditação Anciã

Aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha
aqui enchi o peito e mesmo até desfeito
eu fui aquele que da vida vil se orgulha
Aqui fiquei em tudo aquilo em que passei
um avião um riso uns olhos uma luz
eu fui aqui aquilo tudo até a que me opus.


[Ruy Belo -Toda a Terra]

^^

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Romance XXI ou das idéias


A vastidão desses campos.
A alta muralha das serras.
As lavras inchadas de ouro.
Os diamantes entre as pedras.
Negros, índios e mulatos.
Almocrafes e gamelas.

Os rios todos virados.
Toda revirada, a terra.
Capitães, governadores,
padres intendentes, poetas.
Carros, liteiras douradas,
cavalos de crina aberta.
A água a transbordar das fontes.
Altares cheios de velas.
Cavalhadas. Luminárias.
Sinos, procissões, promessas.
Anjos e santos nascendo
em mãos de gangrena e lepra.
Finas músicas broslando
as alfaias das capelas.
Todos os sonhos barrocos
deslizando pelas pedras.
Pátios de seixos. Escadas.
Boticas. Pontes. Conversas.
Gente que chega e que passa.
E as idéias.

Amplas casas. Longos muros.
Vida de sombras inquietas.
Pelos cantos da alcovas,
histerias de donzelas.
Lamparinas, oratórios,
bálsamos, pílulas, rezas.
Orgulhosos sobrenomes.
Intrincada parentela.
No batuque das mulatas,
a prosápia degenera:
pelas portas dos fidalgos,
na lã das noites secretas,
meninos recém-nascidos
como mendigos esperam.
Bastardias. Desavenças.
Emboscadas pela treva.
Sesmarias, salteadores.
Emaranhadas invejas.
O clero. A nobreza. O povo.
E as idéias.

E as mobílias de cabiúna.
E as cortinas amarelas.
Dom José. Dona Maria.
Fogos. Mascaradas. Festas.
Nascimentos. Batizados.
Palavras que se interpretam
nos discursos, nas saúdes . . .
Visitas. Sermões de exéquias.
Os estudantes que partem.
Os doutores que regressam.
(Em redor das grandes luzes,
há sempre sombras perversas.
Sinistros corvos espreitam
pelas douradas janelas.)
E há mocidade! E há prestígio.
E as idéias.

As esposas preguiçosas
na rede embalando as sestas.
Negras de peitos robustos
que os claros meninos cevam.
Arapongas, papagaios,
passarinhos da floresta.
Essa lassidão do tempo
entre imbaúbas, quaresmas,
cana, milho, bananeiras
e a brisa que o riacho encrespa.
Os rumores familiares
que a lenta vida atravessam:
elefantíase; partos;
sarna; torceduras; quedas;
sezões; picadas de cobras;
sarampos e erisipelas . . .
Candombeiros. Feiticeiros.
Ungüentos. Emplastos. Ervas.
Senzalas. Tronco. Chibata.
Congos. Angolas. Benguelas.
Ó imenso tumulto humano!
E as idéias.

Banquetes. Gamão. Notícias.
Livros. Gazetas. Querelas.
Alvarás. Decretos. Cartas.
A Europa a ferver em guerras.
Portugal todo de luto:
triste Rainha o governa!
Ouro! Ouro! Pedem mais ouro!
E sugestões indiscretas:
Tão longe o trono se encontra!
Quem no Brasil o tivera!
Ah, se Dom José II
põe a coroa na testa!
Uns poucos de americanos,
por umas praias desertas,
já libertaram seu povo
da prepotente Inglaterra!
Washington. Jefferson. Franklin.
(Palpita a noite, repleta
de fantasmas, de presságios . . .)
E as idéias.

Doces invenções da Arcádia!
Delicada primavera:
pastoras, sonetos, liras,
— entre as ameaças austeras
de mais impostos e taxas
que uns protelam e outros negam.
Casamentos impossíveis.
Calúnias. Sátiras. Essa
paixão da mediocridade
que na sombra se exaspera.
E os versos de asas douradas,
que amor trazem e amor levam . . .
Anarda. Nise. Marília . . .
As verdades e as quimeras.
Outras leis, outras pessoas.
Novo mundo que começa.
Nova raça. Outro destino.
Planos de melhores eras.
E os inimigos atentos,
que, de olhos sinistros, velam.
E os aleives. E as denúncias.
E as idéias.

[Cecília Meireles]

^^

Tu estás Aqui


Estás aqui comigo à sombra do sol escrevo e oiço certos ruídos domésticos e a luz chega-me humildemente pela janela e dói-me um braço e sei que sou o pior aspecto do que sou.
Estás aqui comigo e sou sumamente quotidiano e tudo o que faço ou sinto como que me veste de um pijama que uso para ser também isto este bicho de hábitos manias segredos defeitos quase todos desfeitos quando depois lá fora na vida profissional ou social só sou um nome e sabem o que sei o que faço ou então sou eu que julgo que o sabem e sou amável selecciono cuidadosamente os gestos e escolho as palavras e sei que afinal posso ser isso talvez porque aqui sentado dentro de casa sou outra coisa esta coisa que escreve e tem uma nódoa na camisa e só tem de exterior a manifestação desta dor neste braço que afecta tudo o que faço bem entendido o que faço com este braço.

Estás aqui comigo e à volta são as paredes e posso passar de sala para sala a pensar noutra coisa e dizer aqui é a sala de estar aqui é o quarto aqui é a casa de banho e no fundo escolher cada uma das divisões segundo o que tenho a fazer.

Estás aqui comigo e sei que só sou este corpo castigado passado nas pernas de sala em sala. Sou só estas salas estas paredes esta profunda vergonha de o ser e não ser apenas a outra coisa essa coisa que sou na estrada onde não estou à sombra do sol.

Estás aqui e sinto-me absolutamente indefeso diante dos dias. Que ninguém conheça este meu nome este meu verdadeiro nome depois talvez encoberto noutro nome embora no mesmo nome este nome de terra de dor de paredes este nome doméstico.

Afinal fui isto nada mais do que isto as outras coisas que fiz fi-Ias para não ser isto ou dissimular isto a que somente não chamo merda porque ao nascer me deram outro nome que não merda e em princípio o nome de cada coisa serve para distinguir uma coisa das outras coisas.

Estás aqui comigo e tenho pena acredita de ser só isto pena até mesmo de dizer que sou só isto como se fosse também outra coisa uma coisa para além disto que não isto.
Estás aqui comigo deixa-te estar aqui comigo é das tuas mãos que saem alguns destes ruídos domésticos mas até nos teus gestos domésticos tu és mais que os teus gestos domésticos tu és em cada gesto todos os teus gestos e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz.

Deixa-te estar aqui perdoa que o tempo te fique na face na forma de rugas perdoa pagares tãoalto preço por estar aqui perdoa eu revelar que há muito pagas tão alto preço por estar aqui prossegue nos gestos não pares procura permanecer sempre presente deixa docementedesvanecerem-se um por um os dias e eu saber que aqui estás de maneira a poder dizer sou isto é certo mas sei que tu estás aqui.

[Ruy Belo -Toda a Terra]


^^

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Sessão pipoca - Fracasso


O êxito tem vários pais
Orfão é o seu revés
"Aos que sofrem, por fim o céu"
Abranda a raiva

O que trago sobre os ombros
É meu e é só meu
Sustento sem implorar a benção e o pesar
Mais vil é desdenhar
do que não se pode ter...

Vive tão disperso,
Olha pros lados demais
Não vê que o futuro é você quem faz
Porque o fracasso lhe subiu a cabeça
Atribui ao outro a culpa por não ter mais
Declara as uvas verdes, mas não fica em paz
Porque o fracasso lhe subiu a cabeça

O maestro bem falou
A ofensa é pessoal
Quem aponta o traidor
É quem foi traído

Já sabe o que é cair,
Ao menos tentou ficar de pé
E, vítima de si, desproza o que nunca vai ter
O mais verde é sempre além
do que se pode ver

Vive tão disperso,
Olha pros lados demais
Não vê que o futuro é você quem faz
Porque o fracasso lhe subiu a cabeça
Atribui ao outro a culpa por não ter mais
Declara as uvas verdes, mas não fica em paz
Porque o fracasso lhe subiu a cabeça


[Composição: Pitty]

^^

Noturno



Quem tem coragem de perguntar, na noite imensa?
E que valem as árvores, as casas, a chuva, o pequeno transeunte?

Que vale o pensamento humano,
esforçado e vencido,
na turbulência das horas?

Que valem a conversa apenas murmurada,
a erma ternura, os delicados adeuses?

Que valem as pálpebras da tímida esperança,
orvalhadas de trêmulo sal?

O sangue e a lágrima são pequenos cristais sutis,
no profundo diagrama.

E o homem tão inutilmente pensante e pensado
só tem a tristeza para distingui-lo.

Porque havia nas úmidas paragens
animais adormecidos, com o mesmo mistério humano:
grandes como pórticos, suaves como veludo,
mas sem lembranças históricas,
sem compromissos de viver.

Grandes animais sem passado, sem antecedentes,
puros e límpidos,
apenas com o peso do trabalho em seus poderosos flancos
e noções de água e de primavera nas tranqüilas narinas
e na seda longa das crinas desfraldadas.

Mas a noite desmanchava-se no oriente,
cheia de flores amarelas e vermelhas.
E os cavalos erguiam, entre mil sonhos vacilantes,
erguiam no ar a vigorosa cabeça,
e começavam a puxar as imensas rodas do dia.

Ah! o despertar dos animais no vasto campo!
Este sair do sono, este continuar da vida!
O caminho que vai das pastagens etéreas da noite
ao claro dia da humana vassalagem!


[Cecília Meireles]


^^

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Celebração do Inútil desejo


Por que você me faz
Andar sem rumo agora
Se não existe sentido
Pra nossa falta de destino?


Por que você me faz
Andar na contramão
E ver em mim pedaços
Que eu nunca conheci?


O que eu preciso saber
Pra te ter comigo de novo
Eu por exemplo, tatuaria em mim
Todas as telas do mundo


Por um sorriso teu... sincero.


Por que você me faz
Correr tanto
Se uma flor arrancada
Não sobrevive mais que alguns minutos?


Por que você me faz
Andar pra trás se o mundo
Para e perde a graça?

Quando eu te vejo assim partindo
Nem a sede do teu corpo
Bebendo água em outro
Nem os teus desejos coloridos
Me fazem desistir
E me calam a boca...

Por um sorriso teu...sincero.
Celebração do Inútil desejo.


[Jota Quest]


^^

domingo, 17 de outubro de 2010

Meu mundo


Meu mundo se resume a palavras que me perfuram, a canções que me comovem, a paixões que já nem lembro, a perguntas sem respostas, a respostas que não me servem, à constante perseguição do que ainda não sei...
Meu mundo se resume ao encontro do que é terra e fogo dentro de mim, onde não me enxergo, mas me sinto.

[Martha Medeiros]


^^

Sobre um simples significante


Meados de janeiro. No aeroporto duma capital - Leitores eventuais se quereis saber qual
terei de ser sincero como sempre o sou e não apenas em geral:
o caso que vos conto aconteceu no europeu nepal -
um grupo de pessoas num encontro casual
desses que nem viriam no melhor jornal
de qualquer dos países donde alguém de nós seria natural
decerto por alguma circunstância puramente acidental
emprega no decurso da conversa a palvra "natal"
embora a pensem todos na respectiva língua original
E sem saber porquê eu sinto-me subitamente mal
Ainda que me considerem um filólogo profissional
e tenha escrito páginas e páginas sobre qualquer fenómeno fonético banal
não conheço a palavra. Porventura terá equivalente em portugal?
Deve dizer-me alguma coisa pois me sinto mal
mas embora disposto a consultar o português fundamental
ia jurar que nem sequer a usa o leitor habitual
de dicionários e glossários e vocabulários do idioma nacional
e o mesmo acontece em qualquer língua ocidental
das quais pelo menos possuo uma noção geral
conseguida aliás por meio de um esforço efectivo e real
E ali naquela sala principal
daquele aeroporto do nepal
enquanto esperam pelo seu transporte habitual
embora o tempo passe o assunto central
da conversa daquele grupo de gente ocasional
continua na mesma a ser o do "natal"
Tratar-se-á de um facto universal?
Alguma festa? Uma tragédia mundial?
Consulto as caras sem obter satisfação cabal
Li por exemplo a bíblia li pessoa e pertenci à igreja ocidental
e tenho de reconhecer que não sei nada do natal
Mas se assim é porque diabo sofro como sofro eu afinal'
Porque me atinge assim palavra tão fatal?
Que passado distante permanece actual?
Como é que uma mera palavra se me torna visceral?
Ninguém daquela gente reunida no nepal
um professor um engenheiro ou um industrial
um técnico uma actriz um intelectual
um revolucionário ou um príncipe real
que ali nas suas línguas falam do natal
aí por quinze de janeiro e num dia invernal
pressentem como sofre este filólogo profissional
Eu tenho atrás de mim uma vida que por sinal
começada no campo e num quintal
junto da pedra da árvore e do animal
debaixo das estrelas e num meio natural
vida continuada na escola entre o tratado e o manual
me assegurou prestígio internacional
Mas para que me serve tudo isso se naquela capital
entre pessoas que inocentemente falam do natal
eu que conheço as coisas e as palavras de maneira oficial
que como linguista as trato de igual para igual
travo afinal inexorável batalha campal
com tão simples significante como o de "natal"?
E entre línguas diversas num aeroporto do nepal
alguém bem insensível sofre mais do que um sentimental
pois pressente em janeiro que se o foi foi há muito o natal


[Ruy Belo - Transporte no Tempo]
^^

sábado, 16 de outubro de 2010

Esta canção me acalma...


Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real


Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção


Tem um verdadeiro amor
Para quando você for...
Vem andar e voa...
Vem andar e voa...

[Composição: Marisa Monte, Pedro Baby, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes]

^^

Do Amoroso Esquecimento


Eu, agora - que desfecho!
Já nem penso mais em ti...
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?


[Mário Quintana]


^^

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Essa Noite Não


A cidade enlouquece sonhos tortos
Na verdade nada é o que parece ser
As pessoas enlouquecem calmamente
Viciosamente, sem prazer

A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível
Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não

As cortinas transparentes não revelam
O que é solitude, o que é solidão
Um desejo violento bate sem querer

Pânico, vertigem, obsessão

Tá sozinha, tá sem onda, tá com medo
Seus fantasmas, seu enredo, seu destino
Toda noite uma imagem diferente
Consciente, inconsciente, desatino

A maior expressão da angústia
Pode ser a depressão
Algo que você pressente
Indefinível

Mas não tente se matar
Pelo menos essa noite não

[Composição: Lobão / Bernardo Vilhena / Ivo Meirelles / Daniele Daumérie]


^^

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Mapa de anatomia: o olho


O Olho é uma espécio de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globobrilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areias, rochas, naufrágios e peixes de ouro.


Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são invetadas.


O Olho é um teatro por dentro.
E às vezes, sejam atores, sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
formam, no Olho, lágrimas.

[Cecília Meireles]


^^

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O Sono


O sono que desce sobre mim,
O sono mental que desce fisicamente sobre mim,
O sono universal que desce individualmente sobre mim —
Esse sono
Parecerá aos outros o sono de dormir,
O sono da vontade de dormir,
O sono de ser sono.

Mas é mais, mais de dentro, mais de cima:
E o sono da soma de todas as desilusões,
É o sono da síntese de todas as desesperanças,
É o sono de haver mundo comigo lá dentro
Sem que eu houvesse contribuído em nada para isso.


O sono que desce sobre mim
É contudo como todos os sonos.
O cansaço tem ao menos brandura,
O abatimento tem ao menos sossego,
A rendição é ao menos o fim do esforço,
O fim é ao menos o já não haver que esperar.

Há um som de abrir uma janela,
Viro indiferente a cabeça para a esquerda
Por sobre o ombro que a sente,
Olho pela janela entreaberta:
A rapariga do segundo andar de defronte
Debruça-se com os olhos azuis à procura de alguém.
De quem?
Pergunta a minha indiferença.
E tudo isso é sono.

Meu Deus, tanto sono! ...


[Álvaro de Campos]

^^

E que bela confusão é essa?


^^

terça-feira, 12 de outubro de 2010

No Me Enseñaste


Llama, no importa la hora que yo estoy aquí
Entre las cuatro paredes de mi habitación
Es importante al menos decirte
Que esto de tu ausencia duele
Y no sabes cuanto

Ven, aparece, tan solo comunícate
Que cada hora es un golpe de desolación
Es demasiado aburrido no estar a tu lado

Ven, que mi alma no quiere dejarte ir
Que los minutos me acechan
Aquí todo es gris
Y alrededor todo es miedo y desesperanza

Ven, que nunca imaginaba como era estar sola
Que no es nada fácil cuanto te derrotan
Que no sé que hacer
Y aquí no queda nada de nada

No me enseñaste como estar sin tí
Y qué le digo yo a este corazón
Si tú te has ido y todo lo perdí
¿por dónde empiezo, si todo acabó?
No me enseñaste como estar sin tí
Cómo olvidarte si nunca aprendí

Llama y devuélveme todo lo que un día fui
Esta locura de verte se vuelve obsesión
Cuando me invaden estos días tristes
Siempre recuerdo mi vida,
Yo como te amo...

[Thalía]


^^

O Mesmo


O mesmo Teucro duce et auspice Teucro
É sempre cras — amanhã — que nos faremos ao mar.


Sossega, coração inútil, sossega!
Sossega, porque nada há que esperar,
E por isso nada que desesperar também...
Sossega... Por cima do muro da quinta
Sobe longínquo o olival alheio.
Assim na infância vi outro que não era este:
Não sei se foram os mesmos olhos da mesma alma que o viram.
Adiamos tudo, até que a morte chegue.
Adiamos tudo e o entendimento de tudo,
Com um cansaço antecipado de tudo,
Com uma saudade prognóstica e vazia.


[Álvaro de Campos]


^^

Seu ventre abarca
um acrobata
a ensaiar
o mortal.

Contorcionista
que se enrola qual
caracol...

[Luiza Neto Jorge]

^^

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

A Flor que És


A flor que és, não a que dás, eu quero.
Porque me negas o que te não peço.
Tempo há para negares
Depois de teres dado.
Flor, sê-me flor! Se te colher avaro
A mão da infausta esfinge, tu perere
Sombra errarás absurda,
Buscando o que não deste.

[Ricardo Reis]


^^

Garotos


(...)

Seus dentes e seus sorrisos
Mastigam meu corpo e juízo
Devoram os meus sentidos
Eu já não me importo comigo

E então são mãos e braços
Beijos e abraços
Pele, barriga e seus laços

São armadilhas e eu não sei o que faço
Aqui de palhaço, seguindo os seus passos...

[Leonni]

^^

É preciso não esquecer nada


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


[Cecília Meireles]

^^

domingo, 10 de outubro de 2010

A beleza está nos olhos de quem vê


E repetia Dostoiévski loucamente fora de si: - A beleza salvará o mundo.
^^

Amor em vão


Céu azul, os dois pés na água, onde o mar acaba. O frio, a tarde, a solidão... Duas mãos vão rasgando as cartas lavando as mágoas. Assim é o amor em vão.
Cada canção de amor abre a ferida que não vê fim. Cada fração da dor agora é chuva que cai em mim. Digo não, é falso brilhante e sou nesse instante, um cego repentista ao sol. Que não vê, mas sente a dor em seu coração, assim é o amor em vão...
Cada canção de amor abre a ferida que não vê fim. Cada fração da dor agora é chuva que cai em mim.


Mas tudo vai passar, como tudo passa...


[Herbet Vianna]

^^

Perguntas sem Respostas


O que o futuro reserva pra mim?
Uma vida de tédio
Ou diversão sem fim?
Ser o primeiro
A nunca envelhecer
Não precisar de ninguém
Não ter nada a perder
Se você hesitar
A vida vai passar.


Solitários rejeitados e esquecidos
A vida é inventada e descoberta
Eu não tenho as respostas
E também não sei se essas são
As perguntas certas

Onde o destino vai me levar?
A uma rua escura
Ou de frente pro mar?
Eu vou mandar
Ou ser mandado?
Ser livre e despreocupado?
Se você hesitar
Ninguém vai esperar.



[Capital Inicial]

^^

sábado, 9 de outubro de 2010

...


Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!

De que me servem a verdade e a fé?
Ver claro!
Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos...

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta. Se tive amores?
Já não sei se os tive.

Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
Colhes rosas?
Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas.
Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

[Fernando Pessoa]

^^

Casar ou comprar uma bicicleta? Eis a questão!...



Depois de um tema pra lá de polêmico como o aborto, nada melhor do que falar de um tema bem mais light nesta semana. Quando eu recebi por e-mail “Tema da semana: casar ou comprar uma bicicleta? Confesso que fiquei a questionar, bateu aquela interrogação, até porque, não havia parado para pensar sobre isso. Não desta forma.

Na minha idade, minha mãe já tinha três filhos (no estilo escadinha), já havia feito laqueadura, vivia para o lar, enquanto meu pai era o único provedor da casa. Antigamente, quando as mulheres paravam suas vidas para cuidar de filhos e maridos, ficavam na condição de submissão do parceiro. Assim, tinham que aguentar traições, humilhações dos parceiros e viver um casamento de aparência, em nome dos filhos ou em nome da sociedade. Mulher separada era apontada na rua. Até a época dos meus pais - fim dos anos 80 - a virgindade era algo super importante, o preconceito era enorme com as "moças perdidas" e não havia conversa entre pais e filhos sobre sexualidade e vida reprodutiva. Aí vieram os anos 90, toda a modernidade, o salto tecnológico, a internet (amém) e a globalização do mundo neoliberal. Virgindade virou conceito ultrapassado, sexualidade virou assunto de mesa de bar.
Hoje em dia tudo mudou. O casamento não é o alvo mais almejado por moçinhas de contos de fadas. Até porque, antigamente, as moças eram criadas para ser dona de casa, sua vida era resumida em aprender a cozinhar, bordar, costurar, e faziam certo tipo de “estágio” com a supervisão da mãe em relação aos afazeres domésticos. Situação bem diferente das jovens de hoje que privilegiam, em primeiro lugar: os estudos, em segundo: a independência financeira, em terceiro: filhos, em quatro: casamento. Isso mesmo, quem foi que disse que pra ter filhos é preciso estar casada? E, quem foi que disse que filho prende casamento? Ai, ai, quanta ingenuidade!

Não sou contra casamento. Longe disso! O que vou escrever agora é apenas meu ponto de vista de como deve ser a relação de parceria entre casal. Não posso dizer que não vou casar, que desta água nunca beberei, o que posso afirmar é que, se um dia isso acontecer, quero ser para o meu companheiro alguém que acrescente algo, formar de fato uma parceria, não ser um “peso dependente” do marido, e, ele se sentir dono da situação por saber que eu não tenho escolha, a não ser aceitar as regras que ele impor, ou ser escrava dos olhos da sociedade machista, como eram as mulheres antigamente. Tão pouco, me submeter à contrapartida deste tipo de situação, não nasci pra sustentar malandro. Se for dessa forma, não caso.

Quero poder continuar a trabalhar fora, poder somar as coisas boas da vida, dar e receber amor, e dividir, por igual, e de maneira digna os problemas típicos de família. Quero um convívio nivelado, direitos iguais, respeito mútuo. Não quero atribuir ao meu parceiro a função de ser o responsável pela minha felicidade. Muitas mulheres fazem isso; param a sua vida em função do companheiro. Chegam a acreditar que prova de amor e passar a vida na beira do fogão fazendo guloseimas ou do tanque lavando suas cuecas. Já pensou que tragédia? E se um dia, sem mais nem menos, o cara arrumar uma sirigaita e cair fora? Óóóóóhhh!... Imagina o drama!
Como disse, sou a favor da parceria, da sintonia, da química. Prezo virtudes como:
AMOR, RESPEITO, LEALDADE e SINCERIDADE, pois tudo isso têm que ser a base sólida de qualquer relacionamento a dois. Quero ser a dona da minha felicidade. A dona do meu destino. A dona da minha vida.

Tenho plena certeza de que se as pessoas parassem de pensar, que a sua felicidade está no outro, não haveria tanto divórcio por aí.

Mas voltando à pergunta jocosa desta semana:
Casar ou comprar uma bicicleta?


Senhoras e Senhores trago boas novas:
O Ministério da saúde recomenda: Andar de bicicleta faz bem à saúde! Por isso, enquanto eu não encontro um candidato a noivo, vou mantendo minha saúde e minha silhueta pedalando por ai...

Ou
Quem sabe num futuro não muito distante, faço os dois? Até porque, para se levar uma vida realmente saudável, o melhor mesmo é casar e comprar uma bicicleta. Não é não gente?
A atividade física só faz bem, pois reduz o risco de diversas doenças e, de quebra, aumenta a produção de serotonina, o hormônio da felicidade.
Um bom casamento alivia as pressões do dia-a-dia e, cá entre nós, nada melhor para viver feliz do que viver um grande amor. Se for assim, por que não unir o útil ao agradável?

Obs.:
Para meus amigos leitores casados, namorados, noivos ou tico-tico no fubá, a dica é: Chame seu parceiro para pedalar com você. Assim vocês se divertem juntos, estreitam os laços e cuidam da saúde!


Danni^^

Falar de Amor não é Amar


Eu segui os seus passos
Achando que você
Soubesse onde ir.

Eu me vi em seus sonhos
Perdido, sem saber
Que direção seguir.

Mundos tão estranhos
Nas palavras que eu ouvi
No fundo dos seus olhos
Afogado em gelo
Eu descobri.

Falar de amor não é amar
Não é querer ninguém
Falar de amor
Não é amar alguém.


Eu caí em pedaços
Um grão de areia carregado
Por marés.

Derreti em seus lábios
Sentindo o chão sumir
Embaixo dos meus pés.

Dias esquecidos
No verão que eu inventei
Eu sei que você vive
Das mentiras que eu acreditei


[Capital Inicial]


^^

sexta-feira, 8 de outubro de 2010


No es que muera de amor, muero de ti.
Muero de ti, amor, de amor de ti,
de urgencia mía de mi piel de ti,
de mi alma de ti y de mi boca

y del insoportable que yo soy sin ti.

Muero de ti y de mí, muero de ambos,
de nosotros, de ese,
desgarrado, partido,
me muero, te muero, lo morimos.

Morimos en mi cuarto en que estoy solo,
en mi cama en que faltas,

en la calle donde mi brazo va vacío,
en el cine y los parques, los tranvías,
los lugares donde mi hombro acostumbra tu cabeza
y mi mano tu mano
y todo yo te sé como yo mismo.

Morimos en el sitio que le he prestado al aire
para que estés fuera de mí,
y en el lugar en que el aire se acaba
cuando te echo mi piel encima
y nos conocemos en nosotros, separados del mundo,
dichosa, penetrada, y cierto, interminable.

Morimos, lo sabemos, lo ignoran, nos morimos
entre los dos, ahora, separados,

del uno al otro, diariamente,
cayéndonos en múltiples estatuas,
en gestos que no vemos,
en nuestras manos que nos necesitan.

Nos morimos, amor, muero en tu vientre
que no muerdo ni beso,
en tus muslos dulcísimos y vivos,
en tu carne sin fin, muero de máscaras,

de triángulos obscuros e incesantes.
Me muero de mi cuerpo y de tu cuerpo,
de nuestra muerte, amor, muero, morimos.
En el pozo de amor a todas horas,
Inconsolable, a gritos,
dentro de mí, quiero decir, te llamo,
te llaman los que nacen, los que vienen
de atrás, de ti, los que a ti llegan.
Nos morimos, amor, y nada hacemos
sino morirnos más, hora tras hora,
y escribirnos y hablarnos y morirnos.

[Jaime Sabines]


^^

Tempo, tempo, tempo, tempo...


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo...
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo...
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo...

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo...

[Caetano Veloso]


^^