Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sábado, 6 de março de 2010


Fiz a minha casa aqui
tu sabes porquê

Escolhi construí-la sobre um rochedo
não para que perdure
mas para que não desabe quando o vento soprar
e por aqui o vento sopra sempre

Sabes que não te evito
trago os bolsos cheios dos teus poemas


Quando era pequeno trazia nos bolsos
pedras que apanhava no caminho

Os poemas são cheios de palavras por dentro
e as palavras que há nas pedras perduram ao vigor dos cinzéis
são como casas construídas sobre rochedos
falam de nós se na infância as levámos nos bolsos
falam de nós como se fossem poemas
e nós escutamos a sua voz
porque expomos as nossas mãos ao silêncio

As pedras estão cheias de silêncio por dentro
como se fossem poemas


As palavras habitam o coração do silêncio
e se eu não sei contar as palavras que há dentro dos teus poemas
como posso saber quantas habitam o coração do teu silêncio?

[José Rui Teixeira]


^^


sexta-feira, 5 de março de 2010


Espero curarme de ti en unos días. Debo dejar de fumarte, de beberte, de pensarte. Es posible. Siguiendo las prescripciones de la moral en turno. Me receto tiempo, abstinencia, soledad.

¿Te parece bien que te quiera nada más una semana? No es mucho, ni es poco, es bastante. En una semana se puede reunir todas las palabras de amor que se han pronunciado sobre la tierra y se les puede prender fuego. Te voy a calentar con esa hoguera del amor quemado. Y también el silencio. Porque las mejores palabras del amor están entre dos gentes que no se dicen nada..

Hay que quemar también ese otro lenguaje lateral y subversivo del que ama. (Tú sabes cómo te digo que te quiero cuando digo: "qué calor hace", "dame agua", "¿sabes conducir?", "se hizo de noche"... Entre las gentes, a un lado de tus gentes y las mías, te he dicho "ya es tarde", y tú sabías que decía "te quiero").

Una semana más para reunir todo el amor del tiempo. Para dártelo. Para que hagas con él lo que quieras: guardarlo, acariciarlo, tirarlo a la basura. No sirve, es cierto. Sólo quiero una semana para entender las cosas. Porque esto es muy parecido a estar saliendo de un manicomio para entrar a un panteón.

[Jaime Sabines]


^^

segunda-feira, 1 de março de 2010


No momento em que me cresce nos olhos a morte dos sorrisos
as palavras são pancadas secas reinventadas numa natureza morta com lágrimas

Com um sussurro na boca inspiro e expiro pétalas
E na explosão do silêncio, acabo de nascer na ausência

Sim
as lágrimas cheiram a tulipas.

Assusta-me a respiração desordenada dos instantes
onde o esquecimento está entre o sol e o sal.

Dividida entre a luz inocente e as sílabas que a matam
devia fazer frio mas o sol é espesso
as tulipas e as mãos escrevem palavras no limiar da caligrafia
cristalizam-se estribilhos de mágoa.

Ninguém lê nas lacunas que separam a sombra dos dias
e onde começa a dor, voam lábios atados pelo silêncio.

A luz inocente aguarda a noite onde
as mãos abandonam-se aos dias por abrir

Quando os rumores dão um nó nas lágrimas
que me bebem os olhos
as noites são frágeis e cortam o amanhecer.

Lentamente a luz cai sobre as palavras
tenho feridas no limiar da manhã quando vocábulos
dançam a pique numa metamorfose que
lentamente cai sobre as palavras.


[eue]

^^

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Encostei-me


Encostei-me para trás na cadeira de convés e fechei os olhos,
E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.

Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.

Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos —
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o
compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.

[Álvaro de Campos]

^^

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010


- Vou guardar as tuas mãos na paixão que tenho por ti, mas não te posso revelar o meu nome, nem precisas de o saber.
Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo...


[Al Berto]

^^

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Preciso...


Preciso soltar o ritmo que me prende.
Esta amarra de ferro à palavra e ao som.
Emudecer, no espaço, o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.
Não saber se uma flor é mesmo uma criança.
Se um muro de jardim é proa de navio.
Se o monumento fala, se o monumento dança.
Se esta menina cega é uma estátua de frio.
Um pássaro que voa pode ser um perfume.
Uma vela no rio, um lenço no meu rosto.
Na tarde de Fevereiro estar um dia de Outubro.
Nos meus olhos de morta uma noite de Agosto.
É preciso soltar o ritmo das marés,
Das estações, do Amor, dos signos e das águas,
Os duendes das plantas, os génios dos rochedos
Nos cabelos do Vento, as tranças de arvoredos.
Desordenai-me, luz! Que nada mais dependa
Das águas, das marés, dos signos e do Amor.
É preciso calar o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.

[Natércia Freire]


^^

sábado, 20 de fevereiro de 2010

O Verdadeiro Amor


Eu não tenho medo de fracassar
Eu não tenho medo de não vencer
Eu não tenho medo de ser...

Eu não tenho medo de não tentar
Eu não tenho medo de não romper
Eu não tenho medo de ser...

O verdadeiro amor lança fora todo medo.
O verdadeiro amor lança fora todo medo.
O verdadeiro amor que vem de Deus
Me ensina a não temer...



[Composição: Ludmila Ferber]

^^

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010


Nossa maneira de ver e viver reflete - e repete - aquela com que fomos vistos quando éramos somente reflexo no espelho, ou vamos formando uma postura própria com todo o esforço e dor que isso possa exigir?
Sendo contraditórios, somamos hesitação e medo com audácia e fervor. Podemos nos esconder no quarto escuro ou virar a cara para o sol, alternar as duas posturas, gastar e consumir, amealhar e multiplicar. Somos tudo isso. Nossa anistia ou nossa aniquilação.

[Lya Luft]

^^

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

«Um amor a contragosto»


Poderá andar-se metido num amor a contragosto? Claro que sim. Um amor a contragosto é um amor em relação ao qual o sujeito que o sofre sabe/palpita que está numa perspectiva catastrófica e que, em princípio, nada pode fazer para evitar a catástrofe, que esta o espera no fim de tudo e se prepara para o mastigar sem contemplações, reduzindo-o a cisco. «Reconquista-me!», diz o objecto desse amor a contragosto, entre mostrando-se e furtando-se logo de seguida. E o sofrente do amor a contragosto compraz-se (afinal com imenso gosto!) em esfalfar-se e em arruinar-se nessa descida aos inferninhos do amor infeliz.
Como se chega - e para quê- a uma situação destas? Por muitos caminhos e para muitos fins. Mas o que importa aqui dizer é que o amor a contragosto não é um amor partilhado. O sofrente nunca é igual a quem lhe inflige o sofrimento. É mais. Mais sentimento, mais tormento. «Mas que figurões!», dirão as rãs que, na circunstância, sempre se juntam para fazer coro. É que eles - o sofrente e o que faz sofrer - não sabem que estão, na sua luta (assalto e defesa), a dar-se em espectáculo aos que, de fora e ainda por cima isentos, assistem a essa terrível devoração afectiva. De um amor a contragosto dificilmente se sai. É como um vício arraigado, é como um redemoinho que puxa irresistivelmente para baixo. Talvez a única maneira, como ensinam certos nadadores experimentados em águas traiçoeiras, seja o sofrente deixar-se ir até ao fundo e aí, com um golpe rápido de braços e de pernas, sair do medonho vórtice. Então, poderá voltar à superfície, nadar para terra, sentar-se na areia e dizer: - Olha do que eu me safei! - O mundo recobrará cor e significado. Quem estiver na situação de sofrente, metido num amor a contragosto, pode treinar este processo de salvação. A Caparica não é longe...

[Alexandre O'neill - Uma coisa em forma de assim]


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segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

(...)

Queria ter-te perguntado: O que significa quando se tem sempre na cabeça os olhos de alguém? Terias respondido que é impossível roubar os olhos de uma pessoa e metê-los na cabeça. Que isso nunca acontece. Que o amor se desfaz nas frases adversas e nos momentos maus, nas ausências impossíveis de curar. Por isso fiquei calada, perdida na calma aparente de quem sabe para onde vai: esse paraíso flutuante do esquecimento.

^^

domingo, 14 de fevereiro de 2010

♪ São olhos Iguais aos seus, Iguais ao Céu ao seu redor...♪

♪ Uma nuvem cobre o céu
Uma sombra envolve o seu olhar
Você olha ao seu redor
E acha melhor parar de olhar
São olhos iguais aos seus
Iguais ao céu ao seu redor
São olhos iguais aos seus... ♪

O que faz as pessoas parecerem tão iguais?

O que faz as pessoas parecerem tão iguais?

O que faz as pessoas parecerem tão iguais?

Por que razão essa igualdade se desfaz?

Qual é a razão desse disfarce no olhar?


Para conferir o tema da semana, clique aqui.

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Meu Amado


O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro
marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo. Planta árvores
de seiva e folhas. Dorme sobre o cansaço embalado pelo momento
breve da esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida. Depois parte.


Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.

[Ana Paula Tavares]

^^

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Mudando-me a mim?





















Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguel e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?



[Carlos de Oliveira]

^^

domingo, 7 de fevereiro de 2010

(...)


Pétalas de rosas
tombam lentamente, silenciosas...
E de vagar
vem entrando
a farândola rítmica
e silente
dos góticos bailados do luar!...

Sobre as dobras macias
e assediantes
da seda do meu leito desmanchado,
esguias sombras
adelgaçando afagos,
poisam no meu peito desvestido...
E a boca hipnótica e algente
do meu luarento amante,
vai esculpindo o meu corpo
pálido e vencido!...

No espaço azul e vago,
esvoaça subtiltmente
a cálida lembrança
da tua voz!

Busco a verdade viva do teu beijo
e encontro apenas
esta estranha heresia,
crispando o alvo recorte
do meu corpo magoado!...

Estilhaçam-se, vibrando
numa ânsia doentia,
os meus nervos nostálgicos,
irreverentes
empalidecendo
em dolências inocentes
o rubor do meu desejo
insaciado...

As rosas vão tombando lentamente,
devagar,
sobre a carícia dormente
e embruxada…
dos espásmicos beijos do luar…
Oiço a tua voz
em toda a parte!

E perco-me dentro dos meus próprios braços,
tumultuosos e exigentes,


a procurar-te!

[Judith Teixeira]
^^

♪ Música boa - a Céu Aberto ♪

Que tal curtir uma boa música?
Abra a boca e cante bem alto a Céu aberto da boca!!!

A Céu Aberto - da Boca

^^

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Quanto vale a Vida?

Photobucket

Quanto vale a vida de qualquer um de nós?
Quanto vale a vida em qualquer situação?
Quanto valia a vida perdida sem razão?
Num beco sem saída, quando vale a vida?
são segredos que a gente não conta
são contas que a gente não faz
quem souber quanto vale, fale em alto e bom som.


Quantas vidas vale o tesouro nacional?
Quantas vidas cabem na foto do jornal?
Às sete da manhã, quanto vale a vida
depois da meia-noite, antes de abrir o sinal?
são segredos que a gente não conta
faz de conta que não quer nem saber
quem souber, fale agora ou cale-se para sempre.


Quanto vale a vida acima de qualquer suspeita?
Quanto vale a vida debaixo dos viadutos?
Quanto vale a vida perto do fim do mês?
Quanto vale a vida longe de quem nos faz viver?
são segredos que a gente não conta
são contas que a gente não faz
coisas que o dinheiro não compra
perguntas que a gente não faz:


Quanto vale a vida?
nas garras da águia
nas asas da pomba
em poucas palavras
no silêncio total
no olho do furacão
na ilha da fantasia


Quanto vale a vida?
Quanto vale a vida na última cena
Quando todo mundo pode ser herói?
Quanto vale a vida quando vale a pena?
Quanto vale quando dói?
são coisas que o dinheiro não compra
perguntas que a gente não faz:


Quanto vale a vida?


[Engenheiros do Hawaii]

^^

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Gestos


Não há pressa

Os degraus, de novo, acertam passos;
volto a saber como contá-los, do sonho:
as sombras já não saltam as varandas,
as garças regressam,
volta o silêncio dos gestos repetidos.

[David Fernandes]


^^

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


Escrevo como um profissional, à linha, as palavras pouco importam, são ambíguas e inúteis. As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer.


[Luiz Pacheco]


^^

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


Quando as sílabas são banais como
as ruas que as ladeiam
o dia a dia é feito de palavras assustadiças...

Desencontrado da luz quieta da lua
o tempo abre a porta à rua e só
o som dos corpos em descanso
toca o silêncio.

[eue]


^^

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010


Um crime à minha porta
sou ouro em teu olhar
serei o pai do teu prazer até ao dia
em que o amor for para nós
a última fatia
e se o trago é difícil
e a veia entope
só nos resta a nós os dois
a hemorragia

- Primeiro que eu compreendesse o meu corpo! Sempre tive muito cuidado com ele, porque sempre senti que fazia parte de mim. Nunca o desprezei e nunca o retirei da minha vida... Hoje tenho a sensação de que o cuidei como quem cuida duma casa vazia, só a pensar que é um lugar de calor e de carinho à espera de quem aí possa morar. Eu acho que um dia as pessoas ainda vão descobrir o que podem fazer com o corpo porque os sentimentos, quando estiverem purificados, vão ajudar-nos muito. Julgo que vamos viver melhor quando nos ligarmos mais pelos sentimentos do que pelos saberes. Tenho a certeza de que nunca usaria o meu corpo com leviandade mas, como a palavra, o corpo é um lugar de risco... A gente nem sempre encontra quem mereça as nossas palavras, não admira que custe a encontrar quem mereça o nosso corpo... Mas julgo que, antes de descobrirmos o corpo, temos outras coisas para descobrir.

(...)

- Julgo que o mais importante são as palavras. Quando se vive a solidão, sabe-se que, por causa duma palavra verdadeira, caem muitas vezes as muralhas que levantamos à volta das nossas almas.


Uma palavra verdadeira pode ser um milagre: é a solidão derrotada.



[António Alçada Baptista]


^^

domingo, 31 de janeiro de 2010

[...]


Não devia ter-te deixado entrar assim na minha vida, não devia. Mas não pude. Entraste em mim num assalto e foi doce resistir. Agora quero expulsar-te, e não consigo. Perdi-me em ti, por descuido. Agora não me encontro sem ti.

De tudo nada ficou como prova: nem uma linha com a tua caligrafia, nem uma fotografia em que estivéssemos os dois, nem um dos teus lenços preferidos. Por vezes julgo, enlouquecida, que nem sequer exististe. Fecho os olhos e faço por fixar uma só imagem na memória, um só movimento curto dos teus braços, um sorriso na tua cara, uma única palavra, boa ou má, e não consigo. A imagem escorrega, desfaz-se no centro ou nos cantos. Quanto mais tento, mais me escapa. Volto atrás e recomeço. O que me vem não é o mesmo. Não quero abrir os olhos para não ter que não te encontrar.

Quando me encontraste não precisava de ti. Já tinha ouvido dizer o teu nome e não fiquei curiosa. Quando me telefonaste disse-te que sim, como diria que não, por tédio. Como tu conheci muitos. No jantar aborreceste-me com as tuas conversas em que só falavas de ti, directa ou por interposta pessoa. Conhecia o teu género e não me agradava. Nem sequer chegavas a ser bonito ou frágil. Bebias demasiado. Estavas cheio de ti. Quando chegou o fim do jantar digo-te que o que senti foi alívio.

Telefono-te e tu não atendes. Sei que estás lá. Sei ainda que sabes que sou eu. E não atendes. Telefono a meio da noite para te acordar, para te obrigar a pensar em mim. Mal ou bem, é-me indiferente. Sim, chama-me nomes: sou eu.

Tudo foi por acaso. Achei ridícula a tua insistência ao telefone. Disse-te para não vires, e tu desobedeceste. Chovia muito. Eu chorava, por razões que nunca saberás, que nem sequer quiseste saber. Agarraste-me os braços, armado em protector. Nem sequer ouvia o que me dizias quando te deitaste ao meu lado no sofá. Ouvia só o som da tua voz, esse sim, confesso, a encantar-me. E depois tomaste-me como um ladrão, fazendo de cada recusa um avanço. Não era o teu nome que eu sussurrava entre dentes enquanto julgavas que me tinhas.

Deixaste-me de uma maneira tão cobarde. Na véspera, depois de uma discussão horrível, voltaste a prometer-me tudo. Sabia que mentias. E quando de manhã te deixaste ficar na cama e te despediste de mim lembrando-me que tínhamos um cinema combinado para a noite, também sabia que mentias. Quando voltei soube que tinhas dito a verdade quando repetias que não me merecias. Sobre a cama um postal com uma frase escrita à máquina: Fica querida com um beijo que não passe. Só te vou perdoar quando te esquecer.

Não sei quanto tempo demoraste a perceber que estares ali comigo não era uma vitória tua e que usava da companhia do teu corpo e dos seus préstimos para outras coisas tão banais como seja ires comigo à lavandaria. Mas sei que quando o soubeste e partiste uma primeira vez, a verdade era outra, e muito pior para mim. Houve essa noite em que soube que já não podias partir sem estragos, que já não suportaria perder-te sem dor.

Foram dois meses? Três? Em viagem o tempo é mais veloz ainda. Enquanto conduzias adormecia facilmente no teu colo. E nos hotéis protestavas contra tudo, envergonhando-me. Deixavas-me pagar as contas todas, e nada tinha demasiada importância. As paisagens eram belas, as cidades silenciosas, as estradas largas. Só tu eras o contrário do que devias ser e encalhei em ti como uma náufraga. Bebias sempre demasiado. Alternavas as palavras mais carinhosas com uma violência despropositada. Irritavas-te comigo, contigo, com o empregado de balcão. Fazias-me chorar. Aprendeste depressa demais todos os segredos do meu prazer e abusavas deles. A tua ideia do futuro era a de um planeta só habitado por loucos e criminosos. Confessavas muitas vezes que o nosso encontro tinha de ser breve para se manter belo. E enquanto durava ias estragando tudo.

Sei agora que o que me fascinava em ti era a tua desilusão. Tinhas estudado matemáticas em Atenas mas só admiravas os poetas. Ganharias dinheiro facilmente, mas recusavas-te. Nunca falavas de outras mulheres, o que era pior ainda. Os teus olhos, turvos por detrás das lentes, ajudavam ao mistério. Quando bebia contigo levavas-me para sítios tão inóspitos que tinhas de me trazer de volta, e eu tinha tanto medo como quando era criança e o meu pai me fazia atravessar o corredor sem luz. Assustavam-me as tuas bruscas mudanças de humor, as tuas súbitas ausências. Nunca te vi ler um livro. A vez que te vi mais entusiasmado foi diante da televisão a ver um jogo de futebol. Mas às vezes, inesperadamente, recitavas Homero, em grego antigo, sem que eu entendesse uma só palavra, e eu sabia então como nunca da minha paixão.

Já não te escrevo cartas. Tenho a certeza de que não as abres e que as deitas para um canto junto com as contas por pagar e a publicidade de enciclopédias. Gasto demasiado dinheiro a mandar-te telegramas. Perdi toda a vergonha. Suplico-te que voltes. Ofereço-me como escrava. Faz de mim o que quiseres. E tu não fazes nada. Se ao menos tivesses medo de mim, como tive de ti, e o perdi.

Presente, ainda te conseguia assustar. Lembras-te como te pus a sangrar com o estalo que te dei no carro, quando me disseste que restava sempre uma maneira radical e definitiva para escapar de ti? Quando o carro parou saí do carro a correr para dentro da floresta de castanheiros. Tu tentaste seguir-me, mas depressa deixaste de me ver. Muito quieta ouvia a tua voz a chamar por mim. Eu sei que estavas assustado. A tua voz traía-te. Gosto de me lembrar dessa voz a chamar por mim. Agora já não te posso assustar assim. Esperavas-me no hotel, onde cheguei bastante mais tarde, num quarto cheio de fumo, com uma garrafa de Gin no fim, que acabei. E quando te deitei, tu pediste-me perdão, se bem que já não te lembrasses disso na manhã seguinte. Foi a única vez que te senti meu.

Adio tudo tanto quanto posso. Tiro férias adiantadas. Deixo as coisas mais simples por fazer: buscar o relógio que está a arranjar, levar a roupa à lavandaria. O atendedor automático regista o que, ao fim do dia, apago sem ouvir. O gato passa a fome que eu não tenho. Fico horas dentro da banheira a ouvir o mesmo lado do mesmo disco e tu sabes qual é. Envelheço muito. Não sabia que isto podia acontecer. Começo a odiar-te, o que não me livra de ti.

Também sabias ser terno e atencioso. Levavas-me pelo braço em visitas guiadas aos museus para revermos sempre os mesmos quadros que com as tuas palavras transformavas em lições de história e de moral. Passeavas-me pelos parques nos dias muito frios com o teu cachecol encarnado, inventando o nome das árvores, beijando-me sem pudor diante de grupos de velhos. Sabias levar-me à felicidade para depois melhor sentir a tua distância gelada, a tua crueldade física. Muitas vezes preferi que me batesses a que me deixasses assim, e disse-to.

Fazias-me sentir uma menina, e depois uma estranha, mais tarde um bicho. Mas nunca era eu. Não me reconhecia nas poucas palavras que dizias de mim. Rias-te de mim. Eu nunca me ri de ti.

Tive hoje um apetite que não soube identificar. Houve qualquer coisa que procurei e que não encontrei. Pouco a pouco volto a mim. Dou de comer ao gato. Não ouço mais o nosso disco, que se partiu. Abro as janelas e deixo entrar o vento e sabe-me bem. Mais tarde ou mais cedo serás uma recordação, nada mais. Não depende sequer de mim. É uma coisa fisiológica. Desculpa-me. Se tivesse mão nestas coisas não seria assim.

Poucas vezes falavas do que tinhas sido. Do comunismo, o mais belo dos sonhos, que te tornara patente para sempre a miséria insuperável dos homens. Dos teus trabalhos de geometria, cinco meses a comer papas e a dormir três horas para ficares doente um ano inteiro com uma tese que não serviria nunca para nada. Da morte do amigo querido que desistiu disto tudo. Odiavas francamente as opiniões e as soluções teóricas. Dizias que os esquimós eram mais sabedores do que nós e davas exemplos. O progresso era a pior coisa que podia acontecer à humanidade. Não concordava com os teus exageros. Dizia-to, e tu respondias que quanto a isso eras pior do que eu, que não compreendias nada. Não me lembro de quase nada do que me dizias.

Acordavas de manhã e bebias sumo de laranja com vodka. Acordavas de noite para fumar. Dormias de manhã até eu voltar. Havia noites que passavas de pé, a andar de um lado para o outro, como um animal enjaulado. Como um animal me agarravas, te saciavas, me deixavas. Voltavas dois dias depois. Quando não sabias inventavas. Não havia amor possível, dizias, o tempo não deixava. Não acreditavas. Vomitavas. A vida não é uma coisa que se deseje a alguém, insistias. Fui eu quem disse que tinha de partir, que já não aguentava. E foste tu que fugiste, cobardemente, sem te despedires, sem nada deixares a não ser duas leves marcas no meu corpo que, durante semanas, escondi.

Onde estiveres não penses em mim. Deixa-me de todas as maneiras, as mais subtis. Tem muito cuidado com os cigarros, sobretudo não adormeças a fumar. Sinto uma paz grande que me vem pouco a pouco agarrar. Estou cansada. Vou dormir e quando acordar tu já não existirás em sítio algum dentro de mim. Juro.

[Pedro Paixão]

^^

sábado, 30 de janeiro de 2010

É a Distância...


"...o parágrafo dos olhos."

[Maria Teresa Horta]

^^

Descoberta do EU


Às vezes, devemos nos auto avaliar. Nesses momentos descobrimos que temos defeitos intermináveis. Também descobrimos, que a vida é difícil e nossa jornada complicada. Mas, aí , nesse exato momento, lembramos que temos sorte. Temos em nossos corações o mais importante da vida. Sabemos que em todos os momentos estamos acompanhadas de pessoas verdadeiras, que nos querem bem e realmente se importam com a nossa felicidade. E então, descobrimos que a vida é uma jornada ao conhecimento e devemos mergulhar de cabeça nesse caminho.
O conhecimento é tudo o que precisamos para fazer as pessoas felizes.
E nesses momentos de reflexão descobrimos que verdadeiros amigos são raros e que precisamos conservá-los com o fundo de nossas almas. E que nossas vidas são repletas, pois temos pessoas verdadeiras ao nosso lado, para juntas caminhar e compartilhar experiências.

E aí nesse exato momento a vida passa a ter sentido, pois concluímos que

nossa existência é primordial para as pessoas que nos amam.

^^

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Só se vê bem com o coração.


"Um segredo que me deixara mais alerta para as vozes que, nos livros e na vida, para além da sabedoria, repartiam a confiança e o amor. Um segredo que continuava a convidar-me para ir ao íntimo de mim própria e que, lentamente, me fazia entender que fora exactamente a vivência de desamor (nunca desejada, mas real) que me levara a procurar, procurar, uma outra maneira de ver o mundo. Reconciliar-me com ele.
E que me assegurava que o desamor podia não ser fatal. E para sempre.
Bem pelo contrário.
O desafecto também podia ensinar: a valorizar ainda mais as cores do afecto, a tecer histórias (aliás, se não tivesse sido aquele encontro com a mágoa, poderia até ter sido tecedeira de histórias, mas talvez não acarinhasse tanto o fio da ternura), a enfrentar o medo. Para o vencer. E também para o conhecer. As suas várias faces. Como demorei a descobrir que até o medo podia ter um avesso! Uma face protectora. Aquela que protegia de magoar os outros. De se magoar a si próprio. O desafecto.
Afinal, fora ele que me levara a procurar, a procurar...
Na incessante procura, tinha encontrado - e como isso, para mim, era essencial - o Príncipe, a Eterna Criança, e o seu amigo principezinho que não se cansavam de me lembrar: Só se vê bem com o coração.

O Céu pode estar dentro de nós."

[Graça Gonçalves]

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quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Como se alonga o verão, quando a cor do vento varia?
Deambulam frases sobre dias parados

Como prenúncio de um tempo rigoroso,
as cores amarelecem sobre as ruas onde o céu
se desencontra com o vento

Há quanto tempo chamo os pássaros sem resposta?
E como fumo de um cigarro mal aceso,
as nuvens contrastam com o olhar que se vê ao espelho...


[eue]


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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Para-dig-ma


Paro no abrir de duas ou três janelas do esquecimento. Do outro lado da rua um gato atravessa-me as arestas do tempo. Há noite a escorrer pelos cabelos, lentamente, sem lua a serpentear os telhados das casas. Na ponta do cigarro uma estrela. É verdade. Coleciono despedidas nas raízes dos dedos e ninguém, mas ninguém mesmo, me salva da vontade de partir. Nessa fração de íntimo recolher de salivas e desejos não sou cais nem âncora. Crescem-me caminhos nos pés. Absurdo paradigma de nunca chegar.


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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Vem pra cá


Não ver você, não tem explicação
é caminhar pela escuridão
ficar a fim e não poder falar
querer o sim e não se acostumar
com a solidão, o medo de amar
estranho vazio no seu olhar
eu tento achar em algum lugar
o amor que você deixou pra trás

Vem pra cá !!!!


[Composição: Léo Henkin/Serginho Moah]


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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Os Primeiros Encontros


Cada momento passado juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
Nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
A dois e dois, arrastando-me
Através de húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.

Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria “Abençoada sejas!”
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.

Rios palpitantes por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto dormes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra “tu”
o seu novo sentido: significa “rei”.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.

Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes á procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.

[Arsesii Tarkovskii]
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domingo, 24 de janeiro de 2010



Nem sempre a noite vem ao nosso encontro, para reconhecermos como uma luz acesa ao nosso lado traz consigo as mesmas recordações. Talvez acabe a solidão por ser ali menor. Estas são as imagens que conosco se confundem, quando nos aproximamos devagar uns dos outros, e reparamos na claridade que fica à nossa volta. Repetimos as palavras que tínhamos esquecido há muito. Sabemos que elas nos pertencem. Mas depois perdemo-las de novo.



Para se unirem, as mãos têm que estar vazias?



[Fernando Guimarães]


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A Púrpura dos Dias


Falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfalecer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos

Ao longe a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra
- nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser feliz.

[Vasco Gato]
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Jornal A Céu Aberto - 1ª Edição apresenta:

Passe lá no Céu e confira essa novidade!

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sábado, 23 de janeiro de 2010

Loba - Shakira

Regresso


Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Reinicio a infância
no esboço do poema
e circunscrevo o litoral
fragmentado do que sou.

Quem foi que descodificou
o céu no meu olhar
e me deixou na alma
um deus imaginado?

Quando o espaço do sonho é circular
como o tempo das cerejas,
ou da migração dos pássaros
que fendem o infinito,
inadiado é o rito da poesia.

Se eu fosse uma gaivota, dançaria
na proa dos veleiros
até à hipnose
de abraçar a maresia.

[Graça Pires]

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sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Saudade - Sentimentalismo


Saudade é um sentimento presente até demais em mim...
Um sentimento egoísta para nós, da língua portuguesa, cuja palavra não emprestamos para um país de "primeiro mundo" como os Estados Unidos da America [unft! que coisa, não?!]. I miss you não é saudade.
Eu sinto sua falta não é saudade. Saudade é muito mais... Saudade é um dos sentimentos mais prazerosos, mesmo que dolorido. E não, eu não sou masoquista. Ou sou?! Bem, não importa... Ou importa?!
Saudade é a lembrança daquela pessoa, daquele momento, daquilo que se viveu, do lugar que se foi, daquela viagem...
Saudade para mim, mas não passa nem quando [re]vejo a pessoa ou quando vou ao lugar.
É o chamado gostinho de quero mais! E a pior das saudades é aquela em que não se pode ver a pessoa novamente [ainda não vivi isso, ainda bem], ou não se pode viver o momento de novo nem ir àquele lugar novamente [sou feita disso]. Feita de nostalgia.
E veja você também um dos significados de saudade no dicionário; "Bot. Designação comum a diversas plantas da família das dipsacáceas, principalmente da espécie Scabiosa marítima, e às suas flores; escabiosa, suspiro."

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Silêncio


Digo: claridade. E tu repetes, no meio do sonho: claridade.
Digo: sangue do meu sopro. E tu repetes: sangue do meu sopro.
Digo: estou aqui. E tu devolves-me: ausência.

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O teu silêncio esmaga-me."


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quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Só faço o que EU quero!


"É preciso reviver o sonho e a certeza de que tudo vai mudar."

"É necessário abrir os olhos e perceber que as coisas boas estão dentro de nós, onde os sentimentos não precisam de motivos nem os desejos de razão.
O importante é aproveitar o momento e aprender sua duração, pois a vida está nos olhos de quem sabe ver."

Por isso, eu só faço o que eu quero, só vou para onde quero, quando quero, com quem quero e não faço nada que eu não queira muito. Não adianta insistir.

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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

\o/


"Liberta o grito que trazes dentro, e a coragem e o amor. Mesmo que seja só um momento... Mesmo que traga alguma dor!..."

[Mafalda Veiga]

Faltam-me as palavras. (E os gestos!...) E as nuvens. E as estrelas.
(Sem importância. De qualquer maneira, o que importa?)

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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010


Tinham passado um dia e uma noite inteiros nus, juntos, e durante a maior parte desse tempo não mais do que alguns centímetros afastados. Desde bebé que ninguém, além dele próprio, tivera tanto tempo para examinar como era feito. Como não havia no longo e pálido corpo dela nada que ele não tivesse observado, nada que ela tivesse ocultado e nada que ele não conseguisse recordar agora com uma percepção de pintor, com o conhecimento estético meticuloso e excitado de um amante, e como passara o dia inteiro não menos estimulado pela presença dela nas suas narinas do que pelas suas pernas abertas nos olhos da sua mente, a conclusão lógica era que não podia haver no corpo dele nada que ela não tivesse absorvido microscopicamente, nada naquela extensa superfície onde estava gravada a sua singularidade evolutiva auto-adoradora, nada na sua configuração única como homem, na sua pele, nos seus poros, nas suas patilhas, nos seus dentes, nas suas mãos, no seu nariz, nas suas orelhas, nos seus lábios, na sua língua, nos seus pés, nos seus testículos, nas suas veias, no seu pénis, nas suas axilas, no seu rabo, no emaranhado dos seus pêlos púbicos, no cabelo da sua cabeça, na penugem do seu corpo, nada na sua maneira de rir, dormir, respirar, nada nos seus gestos, no seu odor, no modo como estremecia convulsivamente quando se vinha que ela não tivesse registado. E recordado. E reflectido sobre.
A causa disso era o acto em si, a sua intimidade absoluta quando não só estamos dentro do corpo da outra pessoa como ela nos envolve estreitamente? Ou era a nudez física? Tiramos a nossa roupa e deitamo-nos na cama com alguém, e é na verdade aí que vai ser descoberto o que quer que escondamos, a nossa particularidade, seja ela qual for e seja como for que esteja codificada, e é aí também que está a origem da timidez e o que toda a gente receia. Quanto de mim está a ser descoberto nesse louco lugar anárquico?
Agora sei quem és.

[Philip Roth]
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Dentro
de mim
há uma planta
que cresce
alegremente
que diz
bom dia
quando nos amamos
ao entardecer
e boa noite
quando florimos
à alvorada
uma árvore
que não está com o tempo,
este tempo
a que chamamos
nosso...

[Pedro Oom]


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Em algum lugar (...)

(...)
Deve existir
Eu sei que deve existir
Algum lugar onde o amor
Possa viver a sua vida em paz
E esquecido de que existe o amor
Ser feliz, ser feliz, bem feliz.

[Vinícius de Moares]

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domingo, 17 de janeiro de 2010

E se fosse só hoje???


E se fosse só hoje?
só um dia como os de antes.
só um.
só hoje.
sem os para sempre que nos mata[ra]m
só esta noite.
[e a maldita palavra proibida sempre a bailar-nos na boca]

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Eu conheço


... as minhas liberdades pois a vida não me cobra o frete.

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Um pouco de Luis Fernando Veríssimo


Pros erros há perdão;
pros fracassos, chance;
pros amores impossíveis, tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma.
O romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.

[Luis Fernando Veríssimo]

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Viajar é tão bom! =)

Estou colocando o pé na estrada. Quer saber o destino?
Visite A Céu Aberto - da Boca
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010


A poesia não é síntese, é fragmento - é diferente. Não afirma, interroga, mesmo quando é afirmativa. Nunca é definitiva. Como qualquer procura, é a gestão de um vazio.
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A poesia, mais do que qualquer outra forma de delinquência, só pode ser incompleta. Não há quem, começando um poema, o termine. O seu fim incerto é uma competência exclusiva de quem lê, não de quem escreve. Pode ser um jogo sujo, como em qualquer jogo onde não existem regras. Mas é de lei.
*
Há quem não entenda que não é a quebra do verso que nomeia a poesia. A quebra de linha é uma respiração, não um artifício. Se nada se consegue ler nesse intervalo onde nada está escrito, algo falhou. Na mão que antes escreveu ou nos olhos que agora lêem.

[Pedro Jordão]
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domingo, 10 de janeiro de 2010

Agradecimento


Obrigada...
Aos de sempre, aos de há pouco tempo, aos de hoje, aos que vão, de certeza, ficar para sempre no meu coração...
Obrigada por gostarem de mim como sou.
Obrigada pela sensação de segurança que estou sentindo.

Obrigada pela orientação prestada.
Os amigos são mesmo a melhor coisa do mundo...
Quem tem amigos verdadeiros, tem TUDO!


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