Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]
Redes Sociais
domingo, 7 de março de 2010
sábado, 6 de março de 2010

tu sabes porquê
Escolhi construí-la sobre um rochedo
não para que perdure
mas para que não desabe quando o vento soprar
e por aqui o vento sopra sempre
Sabes que não te evito
trago os bolsos cheios dos teus poemas
Quando era pequeno trazia nos bolsos
pedras que apanhava no caminho
Os poemas são cheios de palavras por dentro
e as palavras que há nas pedras perduram ao vigor dos cinzéis
são como casas construídas sobre rochedos
falam de nós se na infância as levámos nos bolsos
falam de nós como se fossem poemas
e nós escutamos a sua voz
porque expomos as nossas mãos ao silêncio
As pedras estão cheias de silêncio por dentro
como se fossem poemas
As palavras habitam o coração do silêncio
e se eu não sei contar as palavras que há dentro dos teus poemas
como posso saber quantas habitam o coração do teu silêncio?
[José Rui Teixeira]
^^
sexta-feira, 5 de março de 2010

¿Te parece bien que te quiera nada más una semana? No es mucho, ni es poco, es bastante. En una semana se puede reunir todas las palabras de amor que se han pronunciado sobre la tierra y se les puede prender fuego. Te voy a calentar con esa hoguera del amor quemado. Y también el silencio. Porque las mejores palabras del amor están entre dos gentes que no se dicen nada..
Hay que quemar también ese otro lenguaje lateral y subversivo del que ama. (Tú sabes cómo te digo que te quiero cuando digo: "qué calor hace", "dame agua", "¿sabes conducir?", "se hizo de noche"... Entre las gentes, a un lado de tus gentes y las mías, te he dicho "ya es tarde", y tú sabías que decía "te quiero").
Una semana más para reunir todo el amor del tiempo. Para dártelo. Para que hagas con él lo que quieras: guardarlo, acariciarlo, tirarlo a la basura. No sirve, es cierto. Sólo quiero una semana para entender las cosas. Porque esto es muy parecido a estar saliendo de un manicomio para entrar a un panteón.
[Jaime Sabines]
segunda-feira, 1 de março de 2010

as palavras são pancadas secas reinventadas numa natureza morta com lágrimas
Com um sussurro na boca inspiro e expiro pétalas
E na explosão do silêncio, acabo de nascer na ausência
Sim
as lágrimas cheiram a tulipas.
Assusta-me a respiração desordenada dos instantes
onde o esquecimento está entre o sol e o sal.
Dividida entre a luz inocente e as sílabas que a matam
devia fazer frio mas o sol é espesso
as tulipas e as mãos escrevem palavras no limiar da caligrafia
cristalizam-se estribilhos de mágoa.
Ninguém lê nas lacunas que separam a sombra dos dias
e onde começa a dor, voam lábios atados pelo silêncio.
A luz inocente aguarda a noite onde
as mãos abandonam-se aos dias por abrir
Quando os rumores dão um nó nas lágrimas
que me bebem os olhos
as noites são frágeis e cortam o amanhecer.
Lentamente a luz cai sobre as palavras
tenho feridas no limiar da manhã quando vocábulos
dançam a pique numa metamorfose que
lentamente cai sobre as palavras.
[eue]
domingo, 28 de fevereiro de 2010
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Encostei-me

E o meu destino apareceu-me na alma como um precipício.
A minha vida passada misturou-se com a futura,
E houve no meio um ruído do salão de fumo,
Onde, aos meus ouvidos, acabara a partida de xadrez.
Ah, balouçado
Na sensação das ondas,
Ah, embalado
Na idéia tão confortável de hoje ainda não ser amanhã,
De pelo menos neste momento não ter responsabilidades nenhumas,
De não ter personalidade propriamente, mas sentir-me ali,
Em cima da cadeira como um livro que a sueca ali deixasse.
Ah, afundado
Num torpor da imaginação, sem dúvida um pouco sono,
Irrequieto tão sossegadamente,
Tão análogo de repente à criança que fui outrora
Quando brincava na quinta e não sabia álgebra,
Nem as outras álgebras com x e y's de sentimento.
Ah, todo eu anseio
Por esse momento sem importância nenhuma
Na minha vida,
Ah, todo eu anseio por esse momento, como por outros análogos —
Aqueles momentos em que não tive importância nenhuma,
Aqueles em que compreendi todo o vácuo da existência sem inteligência para o
compreender
E havia luar e mar e a solidão, ó Álvaro.
[Álvaro de Campos]
^^
terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Chama-me o que quiseres, dá-me um nome para que possamos amarmo-nos.
Aquele que tinha perdi-o no caminho até aqui.
Pertencia a outra paixão, e já a esqueci.
Dá-me tu um nome para eu poder ficar contigo...
[Al Berto]
^^
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Preciso...

Esta amarra de ferro à palavra e ao som.
Emudecer, no espaço, o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.
Não saber se uma flor é mesmo uma criança.
Se um muro de jardim é proa de navio.
Se o monumento fala, se o monumento dança.
Se esta menina cega é uma estátua de frio.
Um pássaro que voa pode ser um perfume.
Uma vela no rio, um lenço no meu rosto.
Na tarde de Fevereiro estar um dia de Outubro.
Nos meus olhos de morta uma noite de Agosto.
É preciso soltar o ritmo das marés,
Das estações, do Amor, dos signos e das águas,
Os duendes das plantas, os génios dos rochedos
Nos cabelos do Vento, as tranças de arvoredos.
Desordenai-me, luz! Que nada mais dependa
Das águas, das marés, dos signos e do Amor.
É preciso calar o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.
[Natércia Freire]
^^
sábado, 20 de fevereiro de 2010
O Verdadeiro Amor

Eu não tenho medo de não vencer
Eu não tenho medo de ser...
Eu não tenho medo de não tentar
Eu não tenho medo de não romper
Eu não tenho medo de ser...
O verdadeiro amor lança fora todo medo.
O verdadeiro amor lança fora todo medo.
O verdadeiro amor que vem de Deus
Me ensina a não temer...
[Composição: Ludmila Ferber]
^^
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Sendo contraditórios, somamos hesitação e medo com audácia e fervor. Podemos nos esconder no quarto escuro ou virar a cara para o sol, alternar as duas posturas, gastar e consumir, amealhar e multiplicar. Somos tudo isso. Nossa anistia ou nossa aniquilação.
[Lya Luft]
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
«Um amor a contragosto»

Como se chega - e para quê- a uma situação destas? Por muitos caminhos e para muitos fins. Mas o que importa aqui dizer é que o amor a contragosto não é um amor partilhado. O sofrente nunca é igual a quem lhe inflige o sofrimento. É mais. Mais sentimento, mais tormento. «Mas que figurões!», dirão as rãs que, na circunstância, sempre se juntam para fazer coro. É que eles - o sofrente e o que faz sofrer - não sabem que estão, na sua luta (assalto e defesa), a dar-se em espectáculo aos que, de fora e ainda por cima isentos, assistem a essa terrível devoração afectiva. De um amor a contragosto dificilmente se sai. É como um vício arraigado, é como um redemoinho que puxa irresistivelmente para baixo. Talvez a única maneira, como ensinam certos nadadores experimentados em águas traiçoeiras, seja o sofrente deixar-se ir até ao fundo e aí, com um golpe rápido de braços e de pernas, sair do medonho vórtice. Então, poderá voltar à superfície, nadar para terra, sentar-se na areia e dizer: - Olha do que eu me safei! - O mundo recobrará cor e significado. Quem estiver na situação de sofrente, metido num amor a contragosto, pode treinar este processo de salvação. A Caparica não é longe...
[Alexandre O'neill - Uma coisa em forma de assim]
segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010
(...)
^^
domingo, 14 de fevereiro de 2010
♪ São olhos Iguais aos seus, Iguais ao Céu ao seu redor...♪
São olhos iguais aos seus
O que faz as pessoas parecerem tão iguais?O que faz as pessoas parecerem tão iguais?
O que faz as pessoas parecerem tão iguais?
Por que razão essa igualdade se desfaz?
Qual é a razão desse disfarce no olhar?
Para conferir o tema da semana, clique aqui.
^^
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
O Meu Amado

marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo. Planta árvores
de seiva e folhas. Dorme sobre o cansaço embalado pelo momento
breve da esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida. Depois parte.
Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.
[Ana Paula Tavares]
^^
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
Mudando-me a mim?

Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguel e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?
[Carlos de Oliveira]
^^
domingo, 7 de fevereiro de 2010
(...)




tombam lentamente, silenciosas...
E de vagar
vem entrando
a farândola rítmica
e silente
dos góticos bailados do luar!...
Sobre as dobras macias
e assediantes
da seda do meu leito desmanchado,
esguias sombras
adelgaçando afagos,
poisam no meu peito desvestido...
E a boca hipnótica e algente
do meu luarento amante,
vai esculpindo o meu corpo
pálido e vencido!...
No espaço azul e vago,
esvoaça subtiltmente
a cálida lembrança
da tua voz!
Busco a verdade viva do teu beijo
e encontro apenas
esta estranha heresia,
crispando o alvo recorte
do meu corpo magoado!...
Estilhaçam-se, vibrando
numa ânsia doentia,
os meus nervos nostálgicos,
irreverentes
empalidecendo
em dolências inocentes
o rubor do meu desejo
insaciado...
As rosas vão tombando lentamente,
devagar,
sobre a carícia dormente
e embruxada…
dos espásmicos beijos do luar…
Oiço a tua voz
em toda a parte!
E perco-me dentro dos meus próprios braços,
tumultuosos e exigentes,
a procurar-te!
[Judith Teixeira]
sábado, 6 de fevereiro de 2010
Quanto vale a Vida?
Quanto vale a vida de qualquer um de nós?
Quanto vale a vida em qualquer situação?
Quanto valia a vida perdida sem razão?
Num beco sem saída, quando vale a vida?
são segredos que a gente não conta
são contas que a gente não faz
quem souber quanto vale, fale em alto e bom som.
Quantas vidas vale o tesouro nacional?
Quantas vidas cabem na foto do jornal?
Às sete da manhã, quanto vale a vida
depois da meia-noite, antes de abrir o sinal?
são segredos que a gente não conta
faz de conta que não quer nem saber
quem souber, fale agora ou cale-se para sempre.
Quanto vale a vida acima de qualquer suspeita?
Quanto vale a vida debaixo dos viadutos?
Quanto vale a vida perto do fim do mês?
Quanto vale a vida longe de quem nos faz viver?
são segredos que a gente não conta
são contas que a gente não faz
coisas que o dinheiro não compra
perguntas que a gente não faz:
Quanto vale a vida?
nas garras da águia
nas asas da pomba
em poucas palavras
no silêncio total
no olho do furacão
na ilha da fantasia
Quanto vale a vida?
Quanto vale a vida na última cena
Quando todo mundo pode ser herói?
Quanto vale a vida quando vale a pena?
Quanto vale quando dói?
são coisas que o dinheiro não compra
perguntas que a gente não faz:
Quanto vale a vida?
[Engenheiros do Hawaii]
^^
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Gestos
quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

sou ouro em teu olhar
serei o pai do teu prazer até ao dia
em que o amor for para nós
a última fatia
e se o trago é difícil
e a veia entope
só nos resta a nós os dois
a hemorragia
- Primeiro que eu compreendesse o meu corpo! Sempre tive muito cuidado com ele, porque sempre senti que fazia parte de mim. Nunca o desprezei e nunca o retirei da minha vida... Hoje tenho a sensação de que o cuidei como quem cuida duma casa vazia, só a pensar que é um lugar de calor e de carinho à espera de quem aí possa morar. Eu acho que um dia as pessoas ainda vão descobrir o que podem fazer com o corpo porque os sentimentos, quando estiverem purificados, vão ajudar-nos muito. Julgo que vamos viver melhor quando nos ligarmos mais pelos sentimentos do que pelos saberes. Tenho a certeza de que nunca usaria o meu corpo com leviandade mas, como a palavra, o corpo é um lugar de risco... A gente nem sempre encontra quem mereça as nossas palavras, não admira que custe a encontrar quem mereça o nosso corpo... Mas julgo que, antes de descobrirmos o corpo, temos outras coisas para descobrir.
(...)
- Julgo que o mais importante são as palavras. Quando se vive a solidão, sabe-se que, por causa duma palavra verdadeira, caem muitas vezes as muralhas que levantamos à volta das nossas almas.
[António Alçada Baptista]
domingo, 31 de janeiro de 2010
[...]

De tudo nada ficou como prova: nem uma linha com a tua caligrafia, nem uma fotografia em que estivéssemos os dois, nem um dos teus lenços preferidos. Por vezes julgo, enlouquecida, que nem sequer exististe. Fecho os olhos e faço por fixar uma só imagem na memória, um só movimento curto dos teus braços, um sorriso na tua cara, uma única palavra, boa ou má, e não consigo. A imagem escorrega, desfaz-se no centro ou nos cantos. Quanto mais tento, mais me escapa. Volto atrás e recomeço. O que me vem não é o mesmo. Não quero abrir os olhos para não ter que não te encontrar.
Quando me encontraste não precisava de ti. Já tinha ouvido dizer o teu nome e não fiquei curiosa. Quando me telefonaste disse-te que sim, como diria que não, por tédio. Como tu conheci muitos. No jantar aborreceste-me com as tuas conversas em que só falavas de ti, directa ou por interposta pessoa. Conhecia o teu género e não me agradava. Nem sequer chegavas a ser bonito ou frágil. Bebias demasiado. Estavas cheio de ti. Quando chegou o fim do jantar digo-te que o que senti foi alívio.
Telefono-te e tu não atendes. Sei que estás lá. Sei ainda que sabes que sou eu. E não atendes. Telefono a meio da noite para te acordar, para te obrigar a pensar em mim. Mal ou bem, é-me indiferente. Sim, chama-me nomes: sou eu.
Tudo foi por acaso. Achei ridícula a tua insistência ao telefone. Disse-te para não vires, e tu desobedeceste. Chovia muito. Eu chorava, por razões que nunca saberás, que nem sequer quiseste saber. Agarraste-me os braços, armado em protector. Nem sequer ouvia o que me dizias quando te deitaste ao meu lado no sofá. Ouvia só o som da tua voz, esse sim, confesso, a encantar-me. E depois tomaste-me como um ladrão, fazendo de cada recusa um avanço. Não era o teu nome que eu sussurrava entre dentes enquanto julgavas que me tinhas.
Deixaste-me de uma maneira tão cobarde. Na véspera, depois de uma discussão horrível, voltaste a prometer-me tudo. Sabia que mentias. E quando de manhã te deixaste ficar na cama e te despediste de mim lembrando-me que tínhamos um cinema combinado para a noite, também sabia que mentias. Quando voltei soube que tinhas dito a verdade quando repetias que não me merecias. Sobre a cama um postal com uma frase escrita à máquina: Fica querida com um beijo que não passe. Só te vou perdoar quando te esquecer.
Não sei quanto tempo demoraste a perceber que estares ali comigo não era uma vitória tua e que usava da companhia do teu corpo e dos seus préstimos para outras coisas tão banais como seja ires comigo à lavandaria. Mas sei que quando o soubeste e partiste uma primeira vez, a verdade era outra, e muito pior para mim. Houve essa noite em que soube que já não podias partir sem estragos, que já não suportaria perder-te sem dor.
Foram dois meses? Três? Em viagem o tempo é mais veloz ainda. Enquanto conduzias adormecia facilmente no teu colo. E nos hotéis protestavas contra tudo, envergonhando-me. Deixavas-me pagar as contas todas, e nada tinha demasiada importância. As paisagens eram belas, as cidades silenciosas, as estradas largas. Só tu eras o contrário do que devias ser e encalhei em ti como uma náufraga. Bebias sempre demasiado. Alternavas as palavras mais carinhosas com uma violência despropositada. Irritavas-te comigo, contigo, com o empregado de balcão. Fazias-me chorar. Aprendeste depressa demais todos os segredos do meu prazer e abusavas deles. A tua ideia do futuro era a de um planeta só habitado por loucos e criminosos. Confessavas muitas vezes que o nosso encontro tinha de ser breve para se manter belo. E enquanto durava ias estragando tudo.
Sei agora que o que me fascinava em ti era a tua desilusão. Tinhas estudado matemáticas em Atenas mas só admiravas os poetas. Ganharias dinheiro facilmente, mas recusavas-te. Nunca falavas de outras mulheres, o que era pior ainda. Os teus olhos, turvos por detrás das lentes, ajudavam ao mistério. Quando bebia contigo levavas-me para sítios tão inóspitos que tinhas de me trazer de volta, e eu tinha tanto medo como quando era criança e o meu pai me fazia atravessar o corredor sem luz. Assustavam-me as tuas bruscas mudanças de humor, as tuas súbitas ausências. Nunca te vi ler um livro. A vez que te vi mais entusiasmado foi diante da televisão a ver um jogo de futebol. Mas às vezes, inesperadamente, recitavas Homero, em grego antigo, sem que eu entendesse uma só palavra, e eu sabia então como nunca da minha paixão.
Já não te escrevo cartas. Tenho a certeza de que não as abres e que as deitas para um canto junto com as contas por pagar e a publicidade de enciclopédias. Gasto demasiado dinheiro a mandar-te telegramas. Perdi toda a vergonha. Suplico-te que voltes. Ofereço-me como escrava. Faz de mim o que quiseres. E tu não fazes nada. Se ao menos tivesses medo de mim, como tive de ti, e o perdi.
Presente, ainda te conseguia assustar. Lembras-te como te pus a sangrar com o estalo que te dei no carro, quando me disseste que restava sempre uma maneira radical e definitiva para escapar de ti? Quando o carro parou saí do carro a correr para dentro da floresta de castanheiros. Tu tentaste seguir-me, mas depressa deixaste de me ver. Muito quieta ouvia a tua voz a chamar por mim. Eu sei que estavas assustado. A tua voz traía-te. Gosto de me lembrar dessa voz a chamar por mim. Agora já não te posso assustar assim. Esperavas-me no hotel, onde cheguei bastante mais tarde, num quarto cheio de fumo, com uma garrafa de Gin no fim, que acabei. E quando te deitei, tu pediste-me perdão, se bem que já não te lembrasses disso na manhã seguinte. Foi a única vez que te senti meu.
Adio tudo tanto quanto posso. Tiro férias adiantadas. Deixo as coisas mais simples por fazer: buscar o relógio que está a arranjar, levar a roupa à lavandaria. O atendedor automático regista o que, ao fim do dia, apago sem ouvir. O gato passa a fome que eu não tenho. Fico horas dentro da banheira a ouvir o mesmo lado do mesmo disco e tu sabes qual é. Envelheço muito. Não sabia que isto podia acontecer. Começo a odiar-te, o que não me livra de ti.
Também sabias ser terno e atencioso. Levavas-me pelo braço em visitas guiadas aos museus para revermos sempre os mesmos quadros que com as tuas palavras transformavas em lições de história e de moral. Passeavas-me pelos parques nos dias muito frios com o teu cachecol encarnado, inventando o nome das árvores, beijando-me sem pudor diante de grupos de velhos. Sabias levar-me à felicidade para depois melhor sentir a tua distância gelada, a tua crueldade física. Muitas vezes preferi que me batesses a que me deixasses assim, e disse-to.
Fazias-me sentir uma menina, e depois uma estranha, mais tarde um bicho. Mas nunca era eu. Não me reconhecia nas poucas palavras que dizias de mim. Rias-te de mim. Eu nunca me ri de ti.
Tive hoje um apetite que não soube identificar. Houve qualquer coisa que procurei e que não encontrei. Pouco a pouco volto a mim. Dou de comer ao gato. Não ouço mais o nosso disco, que se partiu. Abro as janelas e deixo entrar o vento e sabe-me bem. Mais tarde ou mais cedo serás uma recordação, nada mais. Não depende sequer de mim. É uma coisa fisiológica. Desculpa-me. Se tivesse mão nestas coisas não seria assim.
Poucas vezes falavas do que tinhas sido. Do comunismo, o mais belo dos sonhos, que te tornara patente para sempre a miséria insuperável dos homens. Dos teus trabalhos de geometria, cinco meses a comer papas e a dormir três horas para ficares doente um ano inteiro com uma tese que não serviria nunca para nada. Da morte do amigo querido que desistiu disto tudo. Odiavas francamente as opiniões e as soluções teóricas. Dizias que os esquimós eram mais sabedores do que nós e davas exemplos. O progresso era a pior coisa que podia acontecer à humanidade. Não concordava com os teus exageros. Dizia-to, e tu respondias que quanto a isso eras pior do que eu, que não compreendias nada. Não me lembro de quase nada do que me dizias.
Acordavas de manhã e bebias sumo de laranja com vodka. Acordavas de noite para fumar. Dormias de manhã até eu voltar. Havia noites que passavas de pé, a andar de um lado para o outro, como um animal enjaulado. Como um animal me agarravas, te saciavas, me deixavas. Voltavas dois dias depois. Quando não sabias inventavas. Não havia amor possível, dizias, o tempo não deixava. Não acreditavas. Vomitavas. A vida não é uma coisa que se deseje a alguém, insistias. Fui eu quem disse que tinha de partir, que já não aguentava. E foste tu que fugiste, cobardemente, sem te despedires, sem nada deixares a não ser duas leves marcas no meu corpo que, durante semanas, escondi.
Onde estiveres não penses em mim. Deixa-me de todas as maneiras, as mais subtis. Tem muito cuidado com os cigarros, sobretudo não adormeças a fumar. Sinto uma paz grande que me vem pouco a pouco agarrar. Estou cansada. Vou dormir e quando acordar tu já não existirás em sítio algum dentro de mim. Juro.
[Pedro Paixão]
^^
sábado, 30 de janeiro de 2010
Descoberta do EU

O conhecimento é tudo o que precisamos para fazer as pessoas felizes.
E nesses momentos de reflexão descobrimos que verdadeiros amigos são raros e que precisamos conservá-los com o fundo de nossas almas. E que nossas vidas são repletas, pois temos pessoas verdadeiras ao nosso lado, para juntas caminhar e compartilhar experiências.
E aí nesse exato momento a vida passa a ter sentido, pois concluímos que
^^
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
Só se vê bem com o coração.

"Um segredo que me deixara mais alerta para as vozes que, nos livros e na vida, para além da sabedoria, repartiam a confiança e o amor. Um segredo que continuava a convidar-me para ir ao íntimo de mim própria e que, lentamente, me fazia entender que fora exactamente a vivência de desamor (nunca desejada, mas real) que me levara a procurar, procurar, uma outra maneira de ver o mundo. Reconciliar-me com ele.
[Graça Gonçalves]
^^
quinta-feira, 28 de janeiro de 2010
Como se alonga o verão, quando a cor do vento varia?Deambulam frases sobre dias parados
Como prenúncio de um tempo rigoroso,
as cores amarelecem sobre as ruas onde o céu
se desencontra com o vento
Há quanto tempo chamo os pássaros sem resposta?
E como fumo de um cigarro mal aceso,
as nuvens contrastam com o olhar que se vê ao espelho...
[eue]
^^
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Para-dig-ma

terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Vem pra cá
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Os Primeiros Encontros

Era uma celebração, uma Epifania,
Nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
A dois e dois, arrastando-me
Através de húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.
Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria “Abençoada sejas!”
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.
Rios palpitantes por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto dormes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra “tu”
o seu novo sentido: significa “rei”.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.
Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes á procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.
[Arsesii Tarkovskii]
domingo, 24 de janeiro de 2010

[Fernando Guimarães]
^^
A Púrpura dos Dias

em flor as sementes,
de como o luar pode desfalecer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos
Ao longe a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra
- nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser feliz.
[Vasco Gato]
sábado, 23 de janeiro de 2010
Regresso

surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.
Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.
À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.
Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.
Reinicio a infância
no esboço do poema
e circunscrevo o litoral
fragmentado do que sou.
Quem foi que descodificou
o céu no meu olhar
e me deixou na alma
um deus imaginado?
Quando o espaço do sonho é circular
como o tempo das cerejas,
ou da migração dos pássaros
que fendem o infinito,
inadiado é o rito da poesia.
Se eu fosse uma gaivota, dançaria
na proa dos veleiros
até à hipnose
de abraçar a maresia.
[Graça Pires]
^^
sexta-feira, 22 de janeiro de 2010
Saudade - Sentimentalismo

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Só faço o que EU quero!

terça-feira, 19 de janeiro de 2010
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A causa disso era o acto em si, a sua intimidade absoluta quando não só estamos dentro do corpo da outra pessoa como ela nos envolve estreitamente? Ou era a nudez física? Tiramos a nossa roupa e deitamo-nos na cama com alguém, e é na verdade aí que vai ser descoberto o que quer que escondamos, a nossa particularidade, seja ela qual for e seja como for que esteja codificada, e é aí também que está a origem da timidez e o que toda a gente receia. Quanto de mim está a ser descoberto nesse louco lugar anárquico?
[Philip Roth]
domingo, 17 de janeiro de 2010
E se fosse só hoje???
Um pouco de Luis Fernando Veríssimo

pros fracassos, chance;
pros amores impossíveis, tempo.
De nada adianta cercar um coração vazio ou economizar alma.
O romance cujo fim é instantâneo ou indolor não é romance.
Não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar.
Desconfie do destino e acredite em você.
Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando, porque embora quem quase morre esteja vivo, quem quase vive já morreu.
[Luis Fernando Veríssimo]
^^
Viajar é tão bom! =)
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

*
A poesia, mais do que qualquer outra forma de delinquência, só pode ser incompleta. Não há quem, começando um poema, o termine. O seu fim incerto é uma competência exclusiva de quem lê, não de quem escreve. Pode ser um jogo sujo, como em qualquer jogo onde não existem regras. Mas é de lei.
*
Há quem não entenda que não é a quebra do verso que nomeia a poesia. A quebra de linha é uma respiração, não um artifício. Se nada se consegue ler nesse intervalo onde nada está escrito, algo falhou. Na mão que antes escreveu ou nos olhos que agora lêem.
[Pedro Jordão]
domingo, 10 de janeiro de 2010
Agradecimento

Aos de sempre, aos de há pouco tempo, aos de hoje, aos que vão, de certeza, ficar para sempre no meu coração...
Obrigada por gostarem de mim como sou.
Os amigos são mesmo a melhor coisa do mundo...
Quem tem amigos verdadeiros, tem TUDO!
^^













