Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sexta-feira, 5 de novembro de 2010

No hay senãl


No hay salida de incendios
Me quema por dentro
La distancia entre los dos

Siento que te pierdo, no hay señal
Aló, aló, hay alguién ahí?
Tanta indiferencia me hace mal
Aló, aló sigo aquí
No respondo a otro timón
Que a esta rara devoción por ti

[Shakira]

^^

(...)


E por isso falamos uns com os outros, escrevemos, telegrafamos e telefonamos uns aos outros, de perto ou de longe, cruzando terra e mar, apertamos as mãos à chegada e à partida, lutamos uns com os outros e até nos destruímos uns aos outros neste esforço algo frustrado de atravessar paredes em direcção ao outro. Como disse uma vez um personagem numa peça, estamos todos condenados a viver na cela solitária da nossa pele.

[Tennessee Williams]


^^

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

A sombra





Pra quê dissimular?
Se ela me segue aonde quer que eu vá?
Melhor encarar
E aprender com ela a caminhar
Não vou mais negar
Por todo caminho, minha sombra está

Eu quero saber me querer
Com toda a beleza e abominação
Que há em mim

Isso nunca se desfaz
E quanto a desejo, não há paz
Isso nunca se desfaz
E quanto a desejo, não há paz

Eu quero saber me querer
Com toda a beleza e abominação
Que há em mim

Que há em mim
Que há em mim
Que há em mim ...


[Pitty]


^^

Sessão pipoca - Sutilmente



E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
Quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
Quando eu estiver fogo
Suavemente se encaixe

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti
Mesmo que o mundo acabe, enfim
Dentro de tudo que cabe em ti

E quando eu estiver triste
Simplesmente me abrace
E quando eu estiver louco
Subitamente se afaste
E quando eu estiver bobo
Sutilmente disfarce
Mas quando eu estiver morto
Suplico que não me mate, não
Dentro de ti, dentro de ti

[Composição: Samuel Rosa / Nando Reis]

^^

Onde Estou


Ah, onde estou onde passo, ou onde não estou nem passo,
A banalidade devorante das caras de toda a gente!
Ah, a angústia insuportável de gente!
O cansaço inconvertível de ver e ouvir!
(Murmúrio outrora de regatos próprios, de arvoredo meu.)

Queria vomitar o que vi, só da náusea de o ter visto,
Estômago da alma alvorotado de eu ser...

[Álvaro de Campos]


^^

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A pedidos


Querem um verso,
mas não sou capaz.
Vejo a palavra fraturar
as entrelinhas,
tento soldá-las,
mas não são minhas.

Rompeu-se o verbo
e me deixou pra trás.


[Flora Figueiredo - Amor a Céu Aberto]


^^

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Nada Fica


Nada fica de nada. Nada somos.
Um pouco ao sol e ao ar nos atrasamos
Da irrespirável treva que nos pese
Da humilde terra imposta,
Cadáveres adiados que procriam.

Leis feitas, estátuas vistas, odes findas —
Tudo tem cova sua. Se nós, carnes
A que um íntimo sol dá sangue, temos
Poente, por que não elas?
Somos contos contando contos, nada.


[Ricardo Reis]


^^

Se Eu Pudesse


Se eu pudesse trincar a terra toda
E sentir-lhe uma paladar,
Seria mais feliz um momento...
Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para se poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se.
Por isso tomo a infelicidade com a felicidade
Naturalmente, como quem não estranha
Que haja montanhas e planícies
E que haja rochedos e erva ...

O que é preciso é ser-se natural e calmo
Na felicidade ou na infelicidade,
Sentir como quem olha,
Pensar como quem anda,
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica...
Assim é e assim seja ...

[Alberto Caeiro]

^^

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Faz tempo? Distorce memórias



^^

Acontecimentos


Eu espero
Acontecimentos
Só que quando anoitece
É festa no outro apartamento

Todo amor
Vale o quanto brilha
E aí
O meu ainda brilhava
Brilho de jóia e de fantasia

O que que há com nós dois, amor?
Me responda depois
Me diz por onde você me prende
Por onde foge
E o que pretende de mim

Era fácil
Nem dá pra esquecer
E eu nem sabia
Como era feliz de ter você

Como pôde
Queimar nosso filme
Um longe do outro
Morrendo de tédio e de ciúmes

[Marina Lima]


^^

A Mulher Sentada


Mulher. Mulher e pombos.
Mulher entre sonhos.
Nuvens nos seus olhos?
Nuvens sob seus cabelos.

(A visita espera na sala;
a notícia, no telefone;
a morte cresce na hora;
a primavera, além da janela).

Mulher sentada. Tranqüila
na sala, como se voasse...


[João Cabral de Melo Neto]


^^

domingo, 31 de outubro de 2010

E quanto a mim, te quero, sim...


Cada um terá razões ou arpões
Dediquei-me às suas contradições, fissões, confusões
Meu desejo, seu bom senso, raivosos feito cães
E a manhã nos proverá outros pães

(...)

E quanto a mim, te quero, sim
Vem dizer que você não sabe
E quanto a mim, não é o fim
Nem há razão pra que um dia acabe.

[Composição: Samuel Rosa / Chico Amaral]

^^

Viceversa


Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte.

Tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte.

Tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte.

o sea,
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.


[Mario Benedetti]

^^

Enlevo


Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce

e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.

[Flora Figueiredo - Florescência]


^^

sábado, 30 de outubro de 2010

O último poema


Assim eu quereria o meu último poema.

Que fosse terno
dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

[Manuel Bandeira]


^^

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Sessão pipoca - One Headlight


Há tanto tempo, eu nem me lembro quando
Foi quando eles me disseram que perdi minha única amiga
Disseram que ela morreu por uma doença de coração partido
Ou foi o que ouvi entre as árvores do cemitério

Eu vi o sol surgir sobre o funeral ao amanhecer
O longo braço quebrado da lei humana
Isso sempre me pareceu tamanho desperdício
Ela sempre teve um rosto lindo
E eu fiquei imaginando como é que ela andava por aqui

Ei, vamos, tente um pouco
Nada é para sempre
Há de ter algo melhor do que
o meio termo

Mas eu e a Cinderela
Nós agüentamos
Nós conseguimos chegar em casa
Com um só farol

Ela disse "Está frio
Se parece com o dia da independência
E eu não consigo sair desse desfile
Mas precisa haver uma saída
Em algum lugar à minha frente
Desse labirinto de feiúra e cobiça"
Eu vi o sol, à frente,
Na ponte onde termina a cidade
Dizendo que tudo o que há é bom e que o vazio está morto
Nós correremos até que ela fique sem fôlego
Ela correu até não sobrar nada
Ela chegou ao fim - É só o parapeito da janela dela

Bem, esse lugar é velho
Parece com um caminhão batido
Eu ligo o motor, mas o motor não liga
Cheira a vinho barato e cigarros
Esse lugar está sempre uma bagunça
Às vezes eu acho que gostaria de vê-lo queimar
Estou tão só, e me sinto como outra pessoa
Cara, eu não mudei, mas sei que não sou o mesmo

Mas em algum lugar no meio dos muros dessa cidade de sonhos moribundos
Acho que a morte dela deve estar me matando

[Composição: The Wallflowers]

^^

Jura Secreta


Só uma coisa me entristece
O beijo de amor que não roubei
A jura secreta que não fiz
A briga de amor que não causei
Nada do que posso me alucina
Tanto quanto o que não fiz
Nada do que eu quero me suprime
De que por não saber ainda não quis

Só uma palavra me devora
Aquela que meu coração não diz
Só o que me cega, o que me faz infeliz
É o brilho do olhar que não sofri.

[Composição: Sueli Costa e Abel Silva]

^^

Minibiografia


Não me quero com o tempo nem com a moda
Olho como um deus para tudo de alto
Mas zás! do motor corpo o mau ressalto
Me faz a todo o passo errar a coda.

Porque envelheço, adoeço, esqueço
Quanto a vida é gesto e amor é foda;
Diferente me concebo e só do avesso
O formato mulher se me acomoda

E se nave vier do fundo espaço
Cedo raptar-me, assassinar-me, cedo:
Logo me leve, subirei sem medo
À cena do mais árduo e do mais escasso.

Um poema deixo, ao retardador:
Meia palavra a bom entendedor.


[Luiza Neto Jorge]


^^

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Amor pra Recomeçar


Eu te desejo não parar tão cedo
Pois toda idade tem prazer e medo

E com os que erram feio e bastante
Que você consiga ser tolerante
Quando você ficar triste
Que seja por um dia, e não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom,
mas que rir de tudo é desespero

Eu te desejo, muitos amigos
Mas que em um você possa confiar

E que tenha até inimigos
Pra você não deixar de duvidar
Quando você ficar triste
Que seja por um dia, e não o ano inteiro
E que você descubra que rir é bom,
mas que rir de tudo é desespero

Eu desejo que você ganhe dinheiro
Pois é preciso viver também
E que você diga a ele, pelo menos uma vez,
Quem é mesmo o dono de quem.

Desejo que você tenha a quem amar
E quando estiver bem cansado
Ainda, exista amor pra recomeçar


[Barão Vermelho]


^^

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Flutuações

O sonho aprendeu a pairar bem alto,
lá onde o sobressalto nem sequer nasceu.
Namorou a trôpega ilusão,
até que trêfego e desajeitado,
desprendeu-se de seu reino idealizado,
veio pousar tamborilante em minha mão.
Assim, aquecido e aconchegado,
parece que se esqueceu de ir embora.
Na hora em que ressona distraído,
eu lhe pingo malemolências ao ouvido,
à sua inquietação eu me sujeito.
Eis que o sonho dorme agora aqui comigo,
seu corpo repousa no meu peito.


[Flora Figueiredo - Amor a Céu Aberto]

^^