Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sexta-feira, 23 de julho de 2010

Sessão pipoca - Faz Parte do meu Show


(...)
Faço promessas malucas
Tão curtas quanto um sonho bom
Se eu te escondo a verdade, baby
É pra te proteger da solidão

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor...

Vago na lua deserta
Das pedras do Arpoador
Digo "alô" ao inimigo
Encontro um abrigo
No peito do meu traidor

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor

Invento desculpas
Provoco uma briga
Digo que não estou
Vivo num clip sem nexo
Um pierrô-retrocesso
Meio bossa nova e rock 'n' roll

Faz parte do meu show
Faz parte do meu show, meu amor...


[Cazuza]

^^

quarta-feira, 21 de julho de 2010

FIM DA INFÂNCIA?


Era de manhã
E eu me encontrei lamentando
Por uma infância
Que eu achei que tinha desaparecido.
Eu olhei pela janela
Eu vi uma pega* em um arco-íris
A chuva tinha acabado
Não estou sozinho, eu me virei para o espelho, e vi...
Você, a criança que uma vez amou.

A criança antes de terem partido seu coração
Nosso coração
O coração que eu acreditava que estava perdido
Ei, ficou surpreso? Mais que surpreso
Para encontrar as respostas para as questões
Estavam sempre em seus próprios olhos

Você percebe
Que você poderia ter voltado para ela?
Mas isso apenas seria retraçar
Todos os problemas que você já conheceu
Tão irreais
Por ela ter que continuar com sua vida
E você tem que continuar com a sua

Então eu vejo que sou eu
Eu posso fazer qualquer coisa
E ainda a criança
Pois a única coisa deslocada era direção
E eu encontrei direção
Não há fim da infância
Você é meu amigo de infância, me guie adiante

Ei, você, você sobreviveu
Agora você chegou para ser renascido
Na sombra da pega *

Agora você percebe
Que você tem que sair daqui
Você encontrou a luz guia do destino
Queimando nas cinzas da sua memória
Você quer mudar o mundo?
Você resignou-se em morrer um rebelde partido
Mas você estava olhando para trás
Agora você encontrou a luz.

Você, a criança que uma vez amou
Então eu vejo que sou eu
Eu posso fazer qualquer coisa
E ainda a criança
Pois a única coisa deslocada era direção
E eu encontrei direção
Não há fim da infância
Você é meu amigo de infância, me guie adiante...

*Pega = Ave que imita a voz humana.


[Marillion]

^^

terça-feira, 13 de julho de 2010



Não sei como explicar,
leia em meus olhos.
Talvez, eu apenas necessite de sua ajuda...


^^

sábado, 10 de julho de 2010

Sessão pipoca - Beautiful Girl



Nicky está na esquina
Com um casaco preto
Fugindo de um lar ruim
Com algum problema na cabeça

Agora que você a encontrou
Entre as luzes de néon
Que assombram as ruas lá fora
Ela diz:
Fica comigo

(...)


[Composição: Andrew Farris]


^^

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Se um dia...

RecadosAnimados.com

^^

Os bons amigos: Você não precisa vê-los, mas eles sempre estão lá.



Na estrada de minha casa há um pasto. Dois cavalos vivem lá. De longe, parecem cavalos como os outros cavalos, mas, quando se olha bem, percebe-se que um deles é cego.
Contudo, o dono não se desfez dele e arrumou-lhe um amigo – um cavalo mais jovem. Isso já é de se admirar!

Se você ficar observando, ouvirá um sino. Procurando de onde vem o som, você verá que há um pequeno sino no pescoço do cavalo mais jovem. Assim, o cavalo cego sabe onde está seu companheiro e vai até ele.
Ambos passam os dias comendo e no final do dia o cavalo cego segue o companheiro até o estábulo. E você percebe que o cavalo com o sino está sempre olhando se o outro o acompanha e, às vezes, para, esperando que o outro possa alcançá-lo.
E o cavalo cego guia-se pelo som do sino, confiante que o outro o está levando para o caminho certo.

Como o dono desses dois cavalos, Deus não se desfaz de nós só porque não somos perfeitos, ou porque temos problemas ou desafios. Ele cuida de nós e faz com que outras pessoas venham em nosso auxílio quando precisamos.

Algumas vezes somos o cavalo cego guiado pelo som do sino daqueles que Deus coloca em nossas vidas. Outras vezes, somos o cavalo que guia, ajudando outros a encontrar seu caminho.
E assim são os bons amigos... Você não precisa vê-los, mas eles estão lá.



Estão ouvindo o meu sino?
Eu estou ouvindo o seu...



Danni^^

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Sessão pipoca - Em noventa e dois



Meu coração está on
Garçon, me traga alguma coisa
que eu sou capaz de fazer qualquer coisa
Um dia inteiro é muito
para a gente ficar junto
em pleno noventa e dois

No telefone só uma notícia
num telegrama uma poesia
mande um recado com um abraço forte
num bilhetinho deseje boa sorte

Bebi da sua saliva
no fim do copo de conhaque
minha cabeça parece um guindaste
Estou esquecendo o seu rosto
saudade não é nada gostoso
mesmo em noventa em dois

Um dia inteiro é muito para a gente ficar junto em noventa e dois...


[Kid Abelha]

^^

terça-feira, 6 de julho de 2010


No perfil das folhas, as sombras
são imagens onde o orvalho
escreve poemas.

E na tua ausência
tatuam chuva nas pedras.


[eue]

^^

A manhã com as suas proibições
na tua fala.
A claridade estava a crescer
numa cama que já se tinha atravessado no escuro
como uma nave enfileirando para a guerra.

Eu não tinha ficado para conhecer a vista
das tuas janelas: imaginava um pátio riscado por ervas
mas não cheguei a levantar as persianas.
Talvez fosse um sítio ao qual não se pudesse regressar
porque quando falávamos os nossos olhos não coincidiam
com nenhuma palavra.

Teria gostado de te levar comigo outra vez
mas era difícil recuperar as razões
para o desejo.
E no caso de nos ter acontecido uma mudança
onde é que havíamos de procurar
os seus indícios
? Estavas a dar de comer aos peixes
e eu só falava em livros.


[Rui Pires Cabral]


^^

Afundada no seu apertado vestido de noite
dorme entre cristais.
Os olhos fechados
a boca fechada
o sexo fechado.
Uma caixa de cristal
dentro de outra caixa de cristal.


[Miriam Reyes]


^^

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
conservar

mas levamos anos
a esquecer alguém
que apenas nos olhou...


[Jose Tolentino de Mendonça]


^^

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Os troncos das árvores


Os troncos das árvores doem-me como se fossem os meus ombros
Doem-me as ondas do mar como gargantas de cristal
Dói-me o luar como um pano branco que se rasga.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


^^

domingo, 4 de julho de 2010

Sessão pipoca - Elephant Gun



Se eu fosse jovem, eu fugiria desta cidade
Eu esconderia meus sonhos debaixo da terra
Assim como eu, nós bebemos à morte, e nós bebemos a noite
Longe de casa, com armas de caça
Vamos abatê-los um por um
Nós vamos derrubá-lo, ele não foi encontrado, não está por aí

Que comece a temporada - onde tudo é certo e errado
Que comece a temporada - abatamos o grande Chefe

E ele rompe através do silêncio do nosso acampamento à noite
E ele rompe através da noite, a noite toda, toda a noite

E ele rompe através do silêncio do nosso acampamento à noite
E ele rompe através do silêncio, tudo o que resta é tudo o que eu escondi


[Composição: Zach Condon - Beirut]

^^

Não basta...


Não basta estender as mãos vazias para o corpo mutilado, acariciar-lhe os cabelos e dizer: Bom dia, meu Amor. Parto amanhã.

Não basta depor nos lábios inventados a frescura de um beijo doce e leve e dizer: Fecharam-nos as portas. Mas espera.

Não basta amar a superfície cómoda, ritual, exacta nos contornos a que a mão se afeiçoa e dizer: A morte é o caminho.

Não basta olhar a Amante como um crime ou uma injúria e apesar disso murmurar: Somos dois e exigimos.
Não basta encher de sonhos a mala de viagem, colocar-lhe as etiquetas e afirmar: Procuro o esquecimento.

Não basta escutar, no silêncio da noite, a estranha voz distante, entre ruídos de música e interferências aladas.

Não basta ser feliz...
Não basta a Primavera...
Não basta a solidão...

[Daniel Filipe]
^^

sábado, 3 de julho de 2010


Dir-te-ei quem sou,
houve um tempo,
tive um sonho,
lembro-me do teu rosto,
a tua voz já existia.

E ele atravessa a rua,
passando pelo tempo,
de pedra em pedra,
com um cigarro na mão
para pedir lume
ao cigarro alheio,
que brilha no outro lado,
ao cimo dos três degraus.

Vai ser assim:
dá-me lume, por favor?,
e o cigarro encostar-se-á ao seu,
o lume passará de um para outro,
de uma pessoa para outra pessoa,
e então,
no meio da eternidade deserta,
será sim o dia de hoje.

Mas a noite é imensa,
quer dizer:
a noite do lugar e do tempo,
a noite da nossa solidão
— é imensa,
e apenas um pequeno órgão vivo
palpita algures,
vibra rapidamente,
e amortece-se,
e desaparece.

Então,
uma vez mais
a noite se levanta de nós,
e o que estremece é a carne,
a nossa,
cega e desamparada
— mas fremente
na sua cegueira e desamparo.

Sabes que estás só?
— pergunta a carne à carne —,
sabes que a noite se ergueu de ti,
como se fosses o seu próprio
e único talento,
e que esse talento te cerca
como uma atmosfera,
o morto clima que transportas em ti,
de um lado para outro,
ao longo das pedras,
ao longo de todos os lugares
do homem?

Ela sabe,
ou pelo menos
sabe que sabe.

E
é demasiado.

Por isso,
olha
e espera.

E vê de novo
a brasa que estremece
na escuridão
como uma planta
que crescesse
e florescesse na terra negra,
ou um animal
cujo calor abrisse uma brecha
no tempo frio.

A carne embriaga-se
com imprecisas metáforas de salvação
— que salvação?!
com um movimento subterrâneo de analogias,
e ele diz:

vou pedir-lhe lume.

Vai através do bairro múltiplo,
o tempo que o escuro abafou,
e então
é como se fosse fora do tempo,
ou dentro de todo o tempo,
à procura do lume
para o seu cigarro.

[Herberto Helder]


^^

sexta-feira, 2 de julho de 2010


Estou a ver a casa e estou a ver-me nela:
confusamente embora as portas ao fechar-se
fazem cair-me as pálpebras, suas noites de Inverno
são só meus pés frios, é carne desta carne
ou eu sou pedra dela e ela é como casca
diminuta em meu bolso e eu como uma caixa
já vazia de chá em seu ventre de barco.

Mas é a minha casa, ou a casa que eu tive,
Onde escolher maçãs para adoçar-me a boca
E andar pelos armários com a boneca partida
Até ao armário partido com portas catedrais
Que guardavam o estrume para outras sementeiras
.

[María Victoria Atencia]


^^

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Mude


Mude, mas comece devagar,
porque a direção é mais importante
que a velocidade.

Sente-se em outra cadeira,
no outro lado da mesa.
Mais tarde, mude de mesa.

Quando sair,
procure andar pelo outro lado da rua.
Depois, mude de caminho,
ande por outras ruas,
calmamente,
observando com atenção
os lugares por onde
você passa.

Tome outros ônibus.
Mude por uns tempos o estilo das roupas.
Dê os teus sapatos velhos.
Procure andar descalço alguns dias.

Tire uma tarde inteira
para passear livremente na praia,
ou no parque,
e ouvir o canto dos passarinhos.

Veja o mundo de outras perspectivas.
Abra e feche as gavetas
e portas com a mão esquerda.

Durma no outro lado da cama...
depois, procure dormir em outras camas.

Assista a outros programas de tv,
compre outros jornais...
leia outros livros,
Viva outros romances.

Não faça do hábito um estilo de vida.
Ame a novidade.
Durma mais tarde.
Durma mais cedo.

Aprenda uma palavra nova por dia
numa outra língua.
Corrija a postura.
Coma um pouco menos,
escolha comidas diferentes,
novos temperos, novas cores,
novas delícias.

Tente o novo todo dia.
o novo lado,
o novo método,
o novo sabor,
o novo jeito,
o novo prazer,
o novo amor.
a nova vida.

Tente.
Busque novos amigos.
Tente novos amores.
Faça novas relações.

Almoce em outros locais,
vá a outros restaurantes,
tome outro tipo de bebida
compre pão em outra padaria.
Almoce mais cedo,
jante mais tarde ou vice-versa.

Escolha outro mercado...
outra marca de sabonete,
outro creme dental...
tome banho em novos horários.

Use canetas de outras cores.
Vá passear em outros lugares.

Ame muito,
cada vez mais,
de modos diferentes.

Troque de bolsa,
de carteira,
de malas,
troque de carro,
compre novos óculos,
escreva outras poesias.

Jogue os velhos relógios,
quebre delicadamente
esses horrorosos despertadores.

Vá a outros cinemas,
outros cabeleireiros,
outros teatros,
visite novos museus.

Se você não encontrar razões para ser livre,
invente-as.
Seja criativo.

E aproveite para fazer uma viagem
despretensiosa,
longa, se possível sem destino.

Experimente coisas novas.
Troque novamente.
Mude, de novo.
Experimente outra vez.

Você certamente conhecerá coisas melhores
e coisas piores do que as já conhecidas,
mas não é isso o que importa.

O mais importante é a mudança,
o movimento,
o dinamismo,
a energia.
Só o que está morto não muda !

Repito por pura alegria de viver:
a salvação é pelo risco, sem o qual a vida não
vale a pena!!!!


[Edson Marques]

^^

Um dia é maior do que a soma
das suas horas, às vezes comporta
todos os invernos e as estações assombradas
pelos prejuízos do prazer.

Eu e tu, que desculpa ainda nos justifica?
A cidade não foi feita para as nossas pretensões,
está apenas alastrada por dentro de nós, crispação
de pedras e espinhos no laço desfeito entre as veias.
Adiantamos o corpo aos rolamentos da noite,
é a própria razão que nos ilumina os atalhos
para o esquecimento. Um ano inteiro não será suficiente
para tudo o que não nos acontece.



[Rui Pires Cabral]


^^

quarta-feira, 30 de junho de 2010


Na grande confusão
deste medo
deste não querer saber
na falta de coragem
ou na coragem de
me perder me afundar
perto de ti tão longe
tão nu
tão evidente
tão pobre como tu
oh diz-me quem sou eu
quem és tu?


[António Ramos Rosa]


^^

terça-feira, 29 de junho de 2010

Do lado esquerdo


Vem sempre
do lado esquerdo.
As dores, mesmo
quando são fingidas, nunca
cicatrizam e é
do lado esquerdo
que se fixam. Delas
se poderá dizer
que são sinistras. Assim
a mão que só
para suprir carências
se obriga às vezes
a escrever, assim
os presságios
dos áugures se
para norte olhavam. E as dores,
repito,
sobretudo aquelas
cujo nome não sabes
ou por cautela omites.

[Albano Martins]


^^