Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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segunda-feira, 29 de março de 2010

Vida


Pelas ruas da cidade pessoas andam no vai e vem
Vem o cair da tarde, vão nos seus passos como reféns
De uma vida sem saída, vida sem vida, mal ou bem
Pelos bancos desses parques ninguém se toca sem perceber
Que onde o sol se esconde o horizonte tenta dizer
Que há sempre um novo dia, a cada dia, em cada ser
Não é preciso uma verdade nova, uma aventura
Para encontrar nas luzes que se acendem um brilho eterno
E dar as mãos, e dar de si, além do próprio gesto
E descobrir feliz que o amor esconde outro universo

Pelos becos, pelos bares, pelos lugares que ninguém vê
Há sempre alguém querendo uma esperança, sobreviver
Cada rosto é um espelho de um desejo de ser, de ter
Não é preciso uma verdade nova, uma aventura
Para encontrar nas luzes que se acendem um brilho eterno
E dar as mãos, e dar de si, além do próprio gesto
E descobrir feliz que o amor esconde outro universo

Cada rosto é um espelho de um desejo de ser, de ter
Talvez quem sabe por esta cidade passe um anjo
E por encanto abra suas asas sobre os homens
E dê vontade de se dar aos outros sem medida
A qualidade de poder viver vida, vida,
Vida, vida.

[Compositor: Fábio Júnior]


^^

domingo, 28 de março de 2010

Soneto da Amizade



Enfim, depois de tanto erro passado
Tantas retaliações, tanto perigo
Eis que ressurge noutro o velho amigo
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado
Com olhos que contêm o olhar antigo
Sempre comigo um pouco atribulado
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano
Sabendo se mover e comover
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...

[Vinicius de Moraes]

Clique aqui para ir ao Céu Aberto...

^^

sexta-feira, 26 de março de 2010


Eu pouco sei de ti mas este crime
torna a morte ainda mais insuportável.
Era novembro, devia fazer frio, mas tu
já nem o ar sentias, o próprio sexo
que sempre fora fonte agora apunhalado.
Um poeta, mesmo solar como tu, na terra
é pouca coisa: uma navalha, o rumor
de abril podem matá-lo - amanhece,
os primeiros autocarros já passaram,
as fábricas abrem os portões, os jornais
anunciam greves, repressão, dois mortos na
primeira página,
o sangue apodrece ou brilhará
ao sol, se o sol vier, no meio das ervas.
O assassino, esse seguirá dia após dia
a insultar o amargo coração da vida;
no tribunal insinuará que respondera apenas
a uma agressão (moral) com outra agressão,
como se alguém ignorasse, excepto claro
os meretíssimos juízes, que as putas desta espécie
confundem moral com o próprio cu.
O roubo chega e sobra excelentíssimos senhores
como móbil de um crime que os fascistas,
e não só os de Salò, não se importariam
de assinar.
Seja qual for a razão, e muitas há
que o Capital a Igreja e a Polícia
de mãos dadas estão sempre prontos a justificar,
Pier Paolo Pasolini está morto.
A farsa, a nojenta farsa, essa continua.

[Eugénio de Andrade]

^^

quarta-feira, 24 de março de 2010


Tu disseste para eu guardar o silêncio neste quarto. Para que nada dissesse, nem o teu nome. O teu corpo ondulava e eu aceitei a ausência. Disseste para eu nada pedir, para não nomear, não ter nenhuma palavra, nem exclamação, nem sorrisos, para não estar morta também. Para te responder com as mãos, silenciosas, os dedos a baterem-te como a chuva, tão de leve.

Estás suspenso, leve e suspenso e quente, portanto vivo, que surpresa! Só te envolves no berço, sem palavras, como antes delas, com o rosto amado a devolver-te um sinal de reconhecimento. Voltas a fechar os olhos, aninhas-te nos meus braços como se não me visses nunca, como se eu não existisse fora desse abraço por dentro. O meu cheiro como uma palavra acariciando a criança em ti, toda, e a curva da nuca abandonada. O peso tímido da tua cabeça a furar-me a pele, a quebrar-me o peito. Mordes a memória do leite, mexes os lábios, dói-me a secura. Não digo nada, o queixume é já desejo. Tem de ser plano e eterno este tempo, como se a morte pudesse roubá-lo se o dissesse. Não me pedes nada, e nem ousas a violência.

Ocultas tudo para que seja como antes do sono, um mergulho lento, desmembrado, com a aprovação de todos. Os lábios são doces, não procuram, conhecem a felicidade, provam com a língua, provam mais, redondos, enrolados, enormes como o quarto, com a cama que se afunda e nos leva, líquidos, desfeitos um no outro, numa celebração comum, silenciosa, não nomeada. Um abraço sem gestos, só um equilíbrio ténue, frágil.

Escorregamos sem esforço, não sei onde caímos, é a tua memória que nos guia, é o meu silêncio, todo o consentimento e o dom do teu acolhimento para que tudo aconteça longe daqui, sem eu nunca saber onde me levas e vou.

[Lídia Martinez, Um adeus perfeito]


^^

terça-feira, 23 de março de 2010


Como o dia depende da inocência
O mundo inteiro depende dos teus olhos
E todo o meu sangue corre no teu olhar.

[Paul Éluard]


^^

domingo, 21 de março de 2010

O outono chegou


Vem ver-me antes que morra de amor – o sangue
arrefece dentro do meu corpo e as rosas desbotam
nas minhas mãos. Da minha cama ouço a tempestade
nos continentes; e já quis partir, deixar que o vento
levasse a minha mala por aí;
fiz planos de correr mundo
para te esquecer – mas nunca abria a porta.

Vem ver-me enquanto não morro, mas vem de noite –
a luz sublinha a agonia de um rosto e quero que me recordes
como eu podia ter sido. Da minha cama vejo o sol
tatuar as costas do meu país; e já sonhei que o perseguia,
que desenhava o teu nome no veludo da areia e sentia
a vida a pulsar nessa palavra como o músculo tenso
escondido sob a pele
– mas depois acordava e não ia.

Vem ver-me antes que morra, mas vem depressa –
os livros resvalam-me do colo e o bolor avança
sobre a roupa. Da minha cama sinto o perfume das folhas
tombadas nos caminhos. O Outono chegou.
E o quarto
ficou tão frio de repente.
E tu sem vires. Agora
quero deitar-me no tapete de musgo do jardim e ouvir
bater o coração da terra no meu peito. Os vermes
alimentam-se dos sonhos de quem morre. E tu não vens.

[Maria do Rosário Pedreira, O canto do vento nos ciprestes]

^^

Uma nova astrologia



Semana astrológica no Céu. Entre aqui e confira!
^^

sexta-feira, 19 de março de 2010

Aparição Amorosa




Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?
.
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola."
.
.
[Carlos Drummond de Andrade]
^^

segunda-feira, 15 de março de 2010

Os sonhos são a minha biografia


Na luz tépida, passa, bibelot abolido,
das inanes palavras o sentido
A confusão dos sonhos, só
é o destino
crepuscular desses perfis, o seu exílio.

O som dos sonhos, inaudível, guia
no seu destino as palavras que fogem
A poesia aproxima-as
do coração da vida
que as destrói com a sua existência mais forte.


[Gastão Cruz]

^^

domingo, 14 de março de 2010

A Inveja



Hoje vou falar sobre os sete pecados capitais. Primeiramente, quero enfatizar seus conceitos. Trata-se de uma classificação de condições humanas conhecidas atualmente como vícios que é muito antiga e que precede ao surgimento do cristianismo mas que foi usada mais tarde pelo catolicismo com o intuito de controlar, educar, e proteger os seguidores, de forma a compreender e controlar os instintos básicos do ser humano. O que foi visto como problema de saúde pelos antigos gregos, por exemplo, a depressão (melancolia, ou tristetia), foi transformado em pecado pelos grandes pensadores da Igreja Católica. Assim, a Igreja Católica classificou e selecionou os pecados em dois tipos: os pecados que são perdoáveis, sem a necessidade do sacramento da confissão, e os pecados capitais, merecedores de condenação. A partir de inícios do século XIV a popularidade dos sete pecados capitais entre artistas da época resultou numa popularização e mistura com a cultura humana no mundo inteiro.



Segundo São Tomás de Aquino, a gravidade dos pecados é classificada, até os dias de hoje, na seguinte ordem:

1- Vaidade;
2- Inveja;
3- Ira;
4- Preguiça;
5- Avareza;
6- Gula;
7- Luxúria.

Muito bem, teorias à parte, vamos ao que interessa. Pois o que vou relatar aqui e agora, é um dos pecados mais destrutivos, na minha opinião: A Inveja

A inveja tem mil faces e, uma delas é a ganância. O invejoso não está satisfeito com o que tem e, quer mais, sempre mais, sempre se vê em desvantagem perto do outro. E, o que deixa a inveja bem caracterizada é a sua expressão pelo comportamento não verbal, o olhar, principalmente.

Quem nunca foi vítima de algum invejoso? E quem nunca sentiu, por pelo menos um segundo, inveja de algo que queria muito, e que foi conquistado por outro? Porque a inveja incomoda, está entre nós e, além de causar desconforto ao invejado, destrói o invejoso. A incômoda sensação de injustiça persegue o invejoso; acha que o mundo conspira contra ele, que não é reconhecido, quando na verdade, deveria se esforçar mais, dedicar-se mais para alcançar seus objetivos com sucesso.
Portanto, nunca deixe que a alma seja contaminada pela inveja, não se esqueça que é uma das facetas do instinto de destruição degenerado, estagnado, pois ela conduz o invejoso ao extermínio, ao transtorno e à ruína de si mesmo.



E pra quem tem aquele amiguinho(oi?) que não tira o olho gordo e invocou que a sua grama é sempre mais verde que a dele, fale em alto e bom som: Não me inveje, trabalhe.


Danni^^

sábado, 13 de março de 2010

Photobucket

É como quem se olhasse
num auto-retrato antigo e fluente
Ela sabe, como eu, da abatida constelação da casa
mas enfrenta-me, acabou de nascer
e abre imensamente os olhos
A névoa abraça-nos até ao osso
respira no ferro e no granito sob todas as mãos
Estranham-me a paixão dos retratos impassíveis
não sabem como visto
numa sombra perfeitamente de mim
a cidade que parti e não conheço
e nem sequer posso esquecer
Gestos soltos noutra varanda, ao fim da mesma tarde
entre escadas e o cais e o ar e o mar
Ela sabe, como eu, tudo desta casa
mas não pára de me encarar
tudo, edificação de sombras lentamente sobre sombras
o frágil furacão que vai ficando
Estranham-me a roupa escura e os olhos claros
o camafeu que disfarça os dois seios
sim. eles estão cá, inteiros, e apenas sou
a mulher que passa pelos pátios
Por mim, distraem-me os mínimos trabalhos
certa jardinagem, grades sobre rendas
Algo sopra dos fundos dos quartos
fecha as janelas, murmura versos que não possas viver
Mas ela pinta intensamente e se assim te debruça
atravessa-te toda a água do rio
o espelho inteiro da tua vida.

[José Manuel Teixeira da Silva]

^^

quinta-feira, 11 de março de 2010

quarta-feira, 10 de março de 2010

Perco-me...


Perco-me em neblinas de verão anunciado. O sol de março cega-me a vista e os sentidos. Perco-me entre a vontade de dormir e de sonhar. E sonho com filmes românticos. Perco-me nas vontades adormecidas de quem duvida do que quer. E tenho medo.
Poderia eu perder-me em ti?

Ou já nem a primavera traz dias mais felizes?


^^

terça-feira, 9 de março de 2010

A Cidade Invisível


De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu?

Recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para parar-me, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti.

Que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

Mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.


[Maria do Rosário Pedreira]


^^

segunda-feira, 8 de março de 2010

08 de março - Dia Internacional da MUlher


A Mulher ideal ...
É aquela que é maravilhosa acima de tudo.
Que pode com um sorriso provocar amor e felicidade.

A Mulher ideal ...
É aquela que é simples por natureza.
Que pode explanar com simples gestos toda a sua feminilidade e grandeza.

A Mulher ideal ...
É aquela que sabe como ninguém entender os sinais do amado antevendo
lhe os movimentos estando sempre ao seu lado.

A Mulher ideal ...
É aquela que não seja perfeita, pois somente Deus o é, mas que busque a
perfeição em todos os seus gestos.

A Mulher ideal ...
É aquela que mostra a sua beleza todos os dias, como no primeiro encontro.
Fazendo dos momentos com o seu amado um eterno reencontro.

A Mulher ideal ...
É aquela que mesmo com o passar dos anos, tenha sempre o sorriso de
menina, pois o enrugar da pele é ínfimo perante a alma feminina.

A Mulher ideal ...
É aquela que se apresenta perante a sociedade como a mais formosa dama.
Mas quando na intimidade partilhe todos os segredos..

Enfim, a Mulher ideal ...
É aquela que mesmo não sendo Deusa, sabe como ninguém trazer um
pedacinho do céu.


[autor desconhecido]


^^

domingo, 7 de março de 2010


É curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo, tenho medo de dizer porque no momento em que tento falar, não só não exprimo o que sinto, como o que sinto se transforma lentamente no que eu digo.

[Clarice Lispector]


^^

Obaaaa!! Semana de conto - A céu Aberto! \o/\o/\o/


Hoje começa um novo conto no Céu... Quer saber o começo, meio e fim? Clique aqui.

^^

sábado, 6 de março de 2010


Fiz a minha casa aqui
tu sabes porquê

Escolhi construí-la sobre um rochedo
não para que perdure
mas para que não desabe quando o vento soprar
e por aqui o vento sopra sempre

Sabes que não te evito
trago os bolsos cheios dos teus poemas


Quando era pequeno trazia nos bolsos
pedras que apanhava no caminho

Os poemas são cheios de palavras por dentro
e as palavras que há nas pedras perduram ao vigor dos cinzéis
são como casas construídas sobre rochedos
falam de nós se na infância as levámos nos bolsos
falam de nós como se fossem poemas
e nós escutamos a sua voz
porque expomos as nossas mãos ao silêncio

As pedras estão cheias de silêncio por dentro
como se fossem poemas


As palavras habitam o coração do silêncio
e se eu não sei contar as palavras que há dentro dos teus poemas
como posso saber quantas habitam o coração do teu silêncio?

[José Rui Teixeira]


^^


sexta-feira, 5 de março de 2010


Espero curarme de ti en unos días. Debo dejar de fumarte, de beberte, de pensarte. Es posible. Siguiendo las prescripciones de la moral en turno. Me receto tiempo, abstinencia, soledad.

¿Te parece bien que te quiera nada más una semana? No es mucho, ni es poco, es bastante. En una semana se puede reunir todas las palabras de amor que se han pronunciado sobre la tierra y se les puede prender fuego. Te voy a calentar con esa hoguera del amor quemado. Y también el silencio. Porque las mejores palabras del amor están entre dos gentes que no se dicen nada..

Hay que quemar también ese otro lenguaje lateral y subversivo del que ama. (Tú sabes cómo te digo que te quiero cuando digo: "qué calor hace", "dame agua", "¿sabes conducir?", "se hizo de noche"... Entre las gentes, a un lado de tus gentes y las mías, te he dicho "ya es tarde", y tú sabías que decía "te quiero").

Una semana más para reunir todo el amor del tiempo. Para dártelo. Para que hagas con él lo que quieras: guardarlo, acariciarlo, tirarlo a la basura. No sirve, es cierto. Sólo quiero una semana para entender las cosas. Porque esto es muy parecido a estar saliendo de un manicomio para entrar a un panteón.

[Jaime Sabines]


^^

segunda-feira, 1 de março de 2010


No momento em que me cresce nos olhos a morte dos sorrisos
as palavras são pancadas secas reinventadas numa natureza morta com lágrimas

Com um sussurro na boca inspiro e expiro pétalas
E na explosão do silêncio, acabo de nascer na ausência

Sim
as lágrimas cheiram a tulipas.

Assusta-me a respiração desordenada dos instantes
onde o esquecimento está entre o sol e o sal.

Dividida entre a luz inocente e as sílabas que a matam
devia fazer frio mas o sol é espesso
as tulipas e as mãos escrevem palavras no limiar da caligrafia
cristalizam-se estribilhos de mágoa.

Ninguém lê nas lacunas que separam a sombra dos dias
e onde começa a dor, voam lábios atados pelo silêncio.

A luz inocente aguarda a noite onde
as mãos abandonam-se aos dias por abrir

Quando os rumores dão um nó nas lágrimas
que me bebem os olhos
as noites são frágeis e cortam o amanhecer.

Lentamente a luz cai sobre as palavras
tenho feridas no limiar da manhã quando vocábulos
dançam a pique numa metamorfose que
lentamente cai sobre as palavras.


[eue]

^^