Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

https://www.facebook.com/danielle.manhaes --- Instagram: @danielle.manhaes @danielle.manhaes_psi

sexta-feira, 28 de agosto de 2009



Esse equilíbrio incerto em que vario,
fechada num consciente paradoxo,
esse saber instável e ortodoxo
e a angústia de ser porto e ser navio.

Essa ambição contínua do meu gosto,
esse céu, em que não confraternizo,
essa dor escondida no seu riso
e essa paz defendida no meu rosto.

E dentro de mim, gritando em atropelo,
desejo de presenças e raízes,
desejo de ser mais do que a partida.


Mas o cenário frio ao nosso apelo
e esses homens partidos em países
e a morte, um grito surdo desta vida.

[Lupe Cotrim]

^^

(...)



Vem buscar-me as mãos a noite já aceitou a minha tristeza
tenho esta sede como um delírio na duna frágil do cansaço

Atravessa o livro que deixei aberto no chão (o último poema)
que eu tenho frio e não sei se encontro asas para regressar

Preciso da tua retina aguada da tua estrela tão deslumbrada
do pontão atravessando a reluzente volúpia dos segredos
da sinceridade com que falas às cinzas azuis dos sonhos

A noite entrou no meu orvalho e bebeu a vida que restava
que mais posso eu guardar em minha boca que não arda?
que cintura delicada que fulguração que volúvel lucidez
me cerca agora que todo o imponderável infinito é tranquilo?

Traz-me os aluviões do teu estuário vem buscar-me agora
sentiste o meu grito? Venceu o olvido vazio que nos separa?

Sê tu a água que me desata o olhar a mão que me acorda
um beijo flutuando com esta música no trapézio da manhã

[Daniel Gonçalves, Dez anos de solidão]

^^

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Quero-te

Ginger
Quero-te
no secreto segredo de dizer-te
na asa da brisa repousada
no fulgor deste sol
no arrepio da água na levada
no sobressalto da pedra na falésia
no silêncio dos cumes
na claridade das madrugadas brancas
no respirar nocturno das ruelas
no calor do vinho a perfumar a boca
na solidão das mãos
na fímbria do desejo

(quero-te assim
longínquo e doce
terno e ausente)

só posso desejar-te nas palavras...

[Maria Aurora Carvalho - Homem]

No meio do meu seio

No meio do meu seio
Esconde-se um sexo
E da perfeição nada sabemos

Um sexo desocupado e vagabundo
Entorpecido, cheirando nada
nada comentando
Sexos calados não se visitam
É muita falta de assunto nos
encontros

No meio do meu seio
Pulsa um sexo
E eu atenta nada tento

[Ione França]

^^

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

(...)

Fumo de tabaco rói o ar.
O quarto —
um capítulo do inferno de Krutchônikh.
Recorda —
atrás desta janela
pela primeira vez
apertei tuas mãos, atônito.
Hoje te sentas,
no coração - aço.
Um dia mais
e me expulsarás,
talvez, com zanga.
No teu “hall” escuro longamente o braço,
trêmulo, se recusa a entrar na manga.
Sairei correndo,
lançarei meu corpo à rua.
Transtornado,
tornado
louco pelo desespero.
Não o consintas,
meu amor,
meu bem,
digamos até logo agora.
De qualquer forma
o meu amor
— duro fardo por certo —
pesará sobre ti
onde quer que te encontres.
Deixa que o fel da mágoa ressentida
num último grito estronde.

Quando um boi está morto de trabalho ele se vai
e se deita na água fria.
Afora o teu amor
para mim
não há mar,
e a dor do teu amor nem a lágrima alivia.
Quando o elefante cansado quer repouso
ele jaz como um rei na areia ardente.
Afora o teu amor
para mim
não há sol,
e eu não sei onde estás e com quem.
Se ela assim torturasse um poeta,
ele
trocaria sua amada por dinheiro e glória,
mas a mim
nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.
Amanhã esquecerás
que eu te pus num pedestal,
que incendiei de amor uma alma livre,
e os dias vãos - rodopiante carnaval -
dispersarão as folhas dos meus livros…
Acaso as folhas secas destes versos
far-te-ão parar,
respiração opressa?

Deixa-me ao menos
arrelvar numa última carícia
teu passo que se apressa.

[Vladimir Vladimirovitch Maïakovski]


^^

domingo, 23 de agosto de 2009

Canto chão


Em agosto a pluralidade das palavras pode ser de aço -
como pinceladas de carvão bagos de uvas que
amortecem os passos
de um sonho ou de um desmaio.

nada resiste ao tépido ardor de quem se consome pelos
campos da desordem.
somos pequenos de mais para tear.
o mundo combate-se com bombas de silêncio.
a garganta aquece tudo o que se esquece -
somos tão grandes para dizer nunca.

[Isabel Mendes Ferreira, Canto chão]
^^
Sabia que uma vez exposta a fragilidade sobreviria uma sensação de ser estranha no teu mundo.
Temendo o rasgão irreparável, preferi a revelação aberta da minha essência.
E a ausência pesou-me o dia inteiro como se algo me fora atado às costas da alma.
Sabia que teria de partir como tantos, porque mais potente que todo o desejo era o fado. Desvendei sem pudor a história, entre carinhos para lá do tempo oferecido. Sabia que encontrara um ser sem máscara, que a cada intervalo se aproximava.
Sabia-o bem demais e o medo instalou-se. Sabia da paixão, das mágoas e do sentir. Do mar, da relva, da mosca, das labaredas por vir…
Imersa na toca dos sentires em tudo aplico a maior paixão para esquecer o corpo que de certo modo, já amo.

E sei que me recuso a perder-te e ao que já tenho, ainda que te instales à força no silêncio.

[Marta, no Citadel (16.12.2007)]

^^

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Angel De Amor - Maná


¿Quien te cortó las alas, mi angel?
¿Quien te arranco los sueños hoy?
¿Quien te arrodilló para humillarte?
¿Y quien enjauló tu alma, amor?

Déjame curarte, vida
dejame darte todo mi amor
angel, angel, angel de amor
No te abandones,
no te derrumbres amor

Quien ató tus manos, ató el deseo
Quien mató tu risa, mató tu Dios
¿Quien sangró tus labios y tu credo?
¿Porque lo permitiste angel de amor?

Déjame curarte vida
dejame darte todo mi amor
angel, angel, angel de amor
No te abandones,
no te derrumbres amor

Angel, angel, angel te doy mi amor
abre tus alas, deja tus sueños volar

Angel, somos arena y mar
no te abandones...
no te derrumbes amor

Angel, angel, angel te doy mi amor
abre tus alas, deja tus sueños volar...

[Composição: Fher Olvera / Alex González]

^^

Estão a bater à Porta

Estão a bater à porta. De cada lado da
fechadura algo acontece (e como apetece:
um olhar) é assim uma casa: começa.

Quando o dia se extingue (cedo se enche
de corpos que se esvaziam do dia) como
uma fonte nunca cessa de entornar seu
nascimento. Escuta: estão a bater à porta.

São esses os alicerces de uma casa (a
mão da mãe? o pé do pai?) uma casa não
se ergue pelo lugar da porta mas pelo

Que em cada transpõe essa ferida (essa
fácil abertura). O fim de tarde escorre
(os pátios ardem de luz) ouves agora?
estão a bater à porta: Que se defenda.

[João Luís Barreto Guimarães]

^^
Para recuperar a beleza basta um olhar, mesmo que ferido.

[Mário Rui de Oliveira]

^^

O Silêncio...

...abre
o coração das sombras
.
Por tal sossego, as árvores
caminham. Mas são as mulheres quem lhes assegura
a elegância do porte.

A harmonia vem do peso da luz
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram.
Altas são as folhas. Simples.
Lisa a copa.

Não há rumor na terra.
As feras não nasceram ainda. Apenas os peixes.
Fora de água
respiram.

Sim.
O mundo pode ser belo,
apesar de só.

Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite
e meninos esbeltos e
gelados no sol.
E uma beleza dificílima. E um cauteloso
azul nas garças abatidas pelo céu.
E um primeiro espanto,
uma primeira alegria nas fendas
em direcção
ao pó.

[Eduarda Chiote]

^^

... que linhas do meu rosto
te é dado perceber, que sons da minha voz
podes de repente recordar?
Porque do dia em que foste
me esqueceu outro caminho: esse em que casas e luas
se amontoam, e as asas breves, para poder voar.

[Helena Carvalhão Buescu, Ardem as trevas e outros lugares]
^^

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A luz do meio-dia

Katia Chausheva
Sim já sei que me queres,
sim já sei que te espanto.
Sim já sabes que vivo prisioneira
da tua recordação.
Sim já sabes que mantenho várias velas
acesas ao deus da esperança.
Se me ligas, a tua voz faz-me tremer
como se eu fosse uma folha.

Se te ligo, a tua resposta do outro lado
faz-me tremer como uma folha.
Sim já ambos sabemos que nem eu
nem tu podemos fazer nada.
Sim já é muito alguma coisa que fazemos,
sim já é um mundo inteiro
o montão de coisas que não fizemos.

E tu tão longe
e tão dentro de mim, tão invasivo.
E esta chuva
que ameaça dissolver toda a terra
e tornar tudo mar, o meu pesadelo.
E de repente todas as distâncias
se tornam infinitas,
como se só o louco mais malvado
as pudesse ter concebido.

Há alguém no mundo, não sei onde,
ou antes sei, mas prefiro esquecê-lo,
que me despe só com um olhar
e me sonha vestida de princesa.
Alguém com quem não posso resistir
a arder debaixo do duche.
Alguém com quem se torna inevitável
suar dentro de um iglu.

Choro quando não estás, suo contigo.
O suor e as lágrimas são iguais,
tenazes e salgados,
como o mar dos meus sonhos e o oceano
abissal dos meus pesadelos.
Não quero pedir demasiado, mas gostava
de suar um pouco mais e chorar menos.

[Amalia Bautista]

^^

Gostava...

Julie De Waroquier
Gostava mais quando a tua voz não me soava tão longe. Quando o mundo ainda nem sequer te conhecia e muito menos te queria arrebatar. Gostava mais quando não te escrevia poemas envergonhados que nunca leio a ninguém. Quando as minhas mãos fugiam; e os teus olhos não. Agora já não tenho perguntas para te fazer. Houve um tempo – anterior à comoção – mas sinto que o deixei correr atrás do desejo. Deixo sempre. Eu gostava mais das noites contigo. Quando não tinha de chorar ao pé de uma fonte por me lembrar da nossa conversa naquele dia raro de tanto calor. Numa outra fonte. Numa outra vida. Quando regressava impaciente ao cheiro familiar do teu carro e tu me abrias a porta. Gostava daquele abraço sem palavras à despedida. E do sorriso que se seguia sem demora. Gostava dos teus olhos cor de céu a olharem fundo para mim e das mãos firmes que me seguravam cada ombro nos momentos agitados. Gostava mais quando sonhava contigo – ou até mesmo quando me calava por não saber que dizer. Porque nunca sei que dizer. Gostava do meu sorriso largo na época dos segredos. Agora sobra-me sempre este sufoco: a alegria escasseia-me porque não estás. Mas continuas a pairar no silêncio do meu corpo. E é só.

[Vanessa Sousa]

^^
Às vezes as crianças gritam sobre flores isoladas dentro delas, e então ficam com uma cor absorta encravada na garganta.
As crianças não falam quando estão dentro do silêncio.

[Herberto Hélder]

^^

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Movimentos Vivos


Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura.
E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

[Julio Cortázar]
^^

terça-feira, 18 de agosto de 2009

*(Aguardo Retorno)

Claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos.
Mas podes arder. Para a tua temperatura sou mercúrio,
linhas de mão, lábio e sopro. Atravesso-te porque me atravessas
e onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da
devolução.

Tu e eu à porta de um lugar que vai fechar tudo numa árvore.
Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda
a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a
medida exacta do meu desejo.

Sou um animal. Necessito diariamente da transfusão de uma
enorme quantidade de calor. Tocas-me?

[Vasco Gato]



^^

Amor Feliz

Ficamos um instante, só um instante, defronte um do outro, sem sabermos o que dizer.

Já também ao telefone, de quando em quando, nos tinha acontecido o mesmo. Ouvíamos então, descompassadas, as nossas respirações, adivinhando que elas tentavam – em que ponto do espaço? – afinar uma pela outra a respectiva cadência. Depois, em torrente, frases que nem chegávamos a terminar:

- Pareceu-me tão horrível se... Também a mim. Eu é que não... E só de pensar que... que podia acontecer... que nunca mais... Foi justamente o que pensei, mas... Nem chego a perceber como fui capaz de... Não diga isso. O importante é que...

Rimos, de repente, tão ridículos nos estávamos a sentir.

E quando é que...

Finalmente, as únicas frases completas:

Quando é que nos podemos ver?

Hoje. Pode ser hoje. Pode ser agora. Ia mesmo agora para Lisboa. Emendou: A Lisboa.

Pego-lhe nas mãos, puxo-a ligeiramente para mim. Com os sapatos que hoje traz calçados, é um tudo-nada mais alta do que eu: mas ficamos logo com os rostos encostados. A seguir, afasta-se; e murmura, olhando-me bem de frente:

Não era por isto. Não, não era por isto. Eu acho que não era por isto. Depois, cavando-se-lhe um vincozinho de dúvida entre as sobrancelhas: É como se diz? Ou para isto?

Depende. Tanto faz.

E já nos estamos a beijar. E não só com as bocas: com os dedos, também, que vão de leve modelando o volume das testas, o relevo das pálpebras, o contorno das orelhas, a espessura dos cabelos. É como se fôssemos afinal uma cega e um cego, de há muito conhecidos, de há muito separados, que ainda mal acreditam no milagre de se reencontrarem. E cegos, às cegas, mas bordões um do outro, mutuamente nos arrastamos, ou nos deixamos conduzir, desde a entrada até aí, aos pés do divã.

Então, sem se curvar, socorrendo-se apenas da pressão de cada um dos calcanhares sobre o outro, liberta-se de ambos os sapatos. Agora, sim, estamos exactamente da mesma altura.

Não era por isto. Não era só por isto. Tenho tanto medo de ser para si... De ser para si uma... Hesitou na palavra; depois, arriscou-a, pronunciando-lhe o p: Uma decepção.

Os olhos, imensos, exprimiam simultaneamente um terror infantil, uma adulta curiosidade.

Vai ter que... que me aprender tudo. Corrigiu: Que me ensinar tudo.

Dentro de instantes estávamos nus. Não tinha sido necessária grande intervenção da minha parte para que tombassem os primeiros obstáculos, para que voassem os últimos véus.


[David Mourão-Ferreira]

^^
Leszek Kowalski
Apago cigarro após cigarro,
a chávena ainda quente do café,
e o corpo todo à escuta.
No sono entrevi o teu olhar e
ao visitar-te, excessivamente te beijei.
Entre temor, entre comas, os lugares
que hábito são apenas pontos
de esquecimento e fuga.

Tenho medo, por vezes, de estar em casa,
outras, de sair, não sei o que me persegue
ou persigo, movo-me apenas
por entre odores, escombros, e aflita
com perigos indefiníveis.

[Helga moreira]

^^

sábado, 15 de agosto de 2009

Ps.: Nota

Interrompo a programação habitual para compromissos emocionais...
.
.
.
Até breve!
Danni
^^

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

[?]

Como posso eu amar-te, se nem sei
como à porta te chamam os vizinhos,
nem visitei a rua onde nasceste,
nem a tua memória confessei.
(?)
Que vaga rima me permite agora
desenhar-te de rosto e corpo inteiro
se só na tua pele é verdadeiro
o lume que na língua se demora...
(?)
Não deixes que te enganem os recados
na infernal gazeta publicados
que te dão já por escultura minha;
nocturno frankenstein, em vão soprei
trombas de criação, e foste tu
quem me criou a mim quando quiseste.

[António Franco Alexandre]

^^

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pré- Escrita

Esta Saudade de te chamar pelo nome
Este receio de te chamar pelo nome

Esta saudade de manter a palavra
Este receio de apenas manter a palavra

Esta saudade de uma vida que não dê em poema
Este receio de um poema que antecipe a vida.

[Ulla Hahn]

^^

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Tréguas

Este poema é para ti.
é uma oferta de tréguas
dizendo que
nada no teu coração negro
me poderá assustar.

Olhei tempo demais
para o meu próprio coração.
Obrigada pela dádiva
das tuas incertezas.

[Eunice de Souza]

^^

terça-feira, 11 de agosto de 2009

*Chuva que te Lava os Olhos


Os olhos cheios de escuridão. Olhos cegos de silêncio. Olhos de quem grita calado. O peso enorme arrastado atrás de cada palavra. Os passos zangados de quem tem tudo a dizer e a tristeza colada à cabeça. Lágrimas cobertas de chuva. E um Bom Dia, menina. E depois todas as lágrimas contidas num sorriso. Não me lembro das caixas de cartão (cama improvisada ao relento), não me lembro dos cobertores encharcados (castanhos e friorentos), nem sequer das poucas moedas (em forma de esmola) caídas no chão molhado como uma bênção qualquer. Lembro-me que, por fim, já não havia silêncio entre nós. Alguma coisa o tinha levado dali. Talvez o Bom Dia, menina. E o sorriso. Sim, aquele sorriso de quem já não tem mais nada a perder.
O sol espreitou, depois foi embora, e a vergonha escondida nos olhos do silêncio viajou para outro lugar. Ouvi cada suspiro teu, cada passo apressado dos senhores sem tempo e cada tentativa perdida para roubares outro sorriso a quem passasse por ti. Ouvi muitos Bom Dia sussurrados e nenhuma resposta feliz. Vi todos os olhos cegos, falsamente despercebidos, ocupados por preocupações inquietas e fúteis. Na verdade, gostava de ajudar-te a levantar. Gostava que ficasses com os olhos cheios de céu e de mar. Porque podíamos ser irmãos. E eu podia sentir-me pequena e protegida outra vez. E pedir abraços, muitos abraços (daqueles que também precisas), e cócegas e segredos e queixas e gargalhadas cúmplices. Porque o teu céu aqui, no meio deste chão, a apontar-te para o fundo da alma, é menos azul que o meu. Quase sem sonhos. O céu aqui não tem telhado de cores. Só árvores antigas que servem de abrigo ao corpo cansado da falta de oportunidades. Debaixo dele será que és feliz? Bom Dia, menina. E tu, da minha idade, quase aposto. E eu, menina, pelo menos para ti.
Apetece-me agarrar-te a mão. E perguntar Como estás? Não sou menina. (Serei?) Reconheço-te os olhos doces, doridos e livres. Sim, talvez sejamos todos meninos perdidos (por algum capricho ou força do destino) na encruzilhada das nossas vidas. E quem nunca se sentiu assim? Até os tiranos dos relógios e das obrigações, quase que aposto. (Gostas de apostas?)
Queria saber abraçar-te, queria que deixasses de tremer ao frio, queria aconchegar-te os sonhos à mesinha de cabeceira. E queria parar o tempo num momento assim. Dar-te a esperança – só porque alguém (algum dia) ta tirou. Quando foi isso? Queria ter a certeza de que poderás chegar a casa, depois de mais um dia de loucos (exactamente como hoje – com chuva e vento à mistura) e vestir um pijama lavado para dormires descansado. Num tecto teu. Sem olhares reprovadores que acusam subtilmente os erros que te trouxeram até aqui. Sem medo e sem vergonha de seres tu. E que possas dizer vezes sem conta Bom Dia, menina. E que, de facto, te respondam com vontade. E te desejem um futuro melhor. Pelo menos igual ao deles.
Porque eu tenho o teu sorriso na cabeça. Porque me roubaste os olhos e me mostraste os teus, cheios de palavras por dizer. Como os meus. Sabes, todos olham para mim em silêncio e ninguém respira. A escuridão é gigante. E dentro dos teus ouvidos (quase aposto) também descem soluços sem nome. E fechas os olhos, escondes-te debaixo desses cobertores sujos e esqueces que o mundo é sempre o mesmo. Pesado porque só gira para alguns. Pesado para quem se fez sozinho. E os outros passam. Passam e falam e tropeçam em ti sem sequer dar conta. Calcam-te o orgulho e não dizem nada. Desculpe, não o vi de vez em quando. Raramente. Não abrem a boca. Só os olhos cobertos de escuridão a apontar para ti em silêncio. Nem uma palavra bonita. Nem um Bom Dia igual ao teu. E tu ouves o que não dizem com a paz que têm as árvores que te servem de tecto. E fazes de conta que não vês, que não sentes esse desprezo vulgar a roer-te os ossos. Para todas as coisas é preciso fazer de conta. Assim, faz de conta comigo. Faz de conta que te dei mesmo a mão quando me aproximei. Deixei-te um Bom Dia. A minha moeda foi o meu abraço. Bom Dia, menino. Porque no fundo também és como eu, até aposto. E amanhã (de manhã cedo) volto para mais um Olá. Mesmo com chuva. Daquela chuva que só te lava os olhos. Daquela chuva que não te deixa triste.

[Vanessa Sousa]

^^

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Falando com a Liberdade:

Photobucket
Alô!?
Alô, Liberdade?!
Quem é?
Sou eu, Idecisão.
Diga.
Tô ligando pra saber: será que eu já posso enlouquecer ou devo apenas sorrir?
(no outro lado da linha: silêncio absoluto)
Alô!... Tem alguém ai?? Alô, Liberdade!... Tá me ouvindo?!
(tum, tum, tum, tum...)


^^

História de Amor


A pena para a deserção
É morte por um pelotão de execução

Poupo-te esse trabalho

junto envio uma pistola.
Carregada com apenas uma bala.
Aperta o gatilho uma vez.
Talvez nada aconteça.

Mas aperta uma segunda vez…
uma terceira…
Vês

Eu sei os jogos que tu gostas...

[Jim Carroll]


^^

domingo, 9 de agosto de 2009

Algumas mulheres...

Algumas mulheres casam-se com casas.
É outro tipo de pele, tem um coração,
uma boca, um fígado e movimento de entranhas.
As paredes são permanentes e cor-de-rosa.
Vejam como ela está ajoelhada o dia todo,
lavando-se fielmente de alto a baixo
Os homens entram à força, atraídos como Jonas
para as suas mães carnudas.
Uma mulher é a sua própria mãe
e isso é o mais importante.

[Anne Sexton]

^^

Haunted*






Long lost words whisper slowly to me
Still can't find what keeps me here
When all this time I've been so hollow inside
I know you're still there

Watching me, wanting me

I can feel you hold me down
Fearing you, loving you
Hunting you I can smell you - alive
Your heart pounding in my head...

[Compositor: Amy Lee]

^^

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

F-a-t-a-L


Não fale de amor
Não diga bobagem
Não prometa o que não vai cumprir
.
Eu já sei de cor
Toda essa viagem
E sei que não é fácil decidir
.
Mas seja o que for
Tome cuidado
Aparentemente não faz mal
.
Brincar de amor
Mas é complicado
E qualquer erro pode ser fatal
.
Não fale demais
Não se desespere
Tudo tem a hora e o lugar
.
Não volte atrás
Agora, espere
Procure aprender como se faz...
.
.

[Composição: Paulo Ricardo]

^^

*

Neve,
abençoada neve,
cai do céu
como moscas desbotadas.
O chão já não está nu.
O chão vestiu as suas roupas.
As árvores irrompem entre lençóis
e cada ramo veste a meia de Deus.

Há esperança.
Há esperança em todo lado.
Eu mordo-a.
Alguém disse uma vez:
Não mordas sem saberes
se é pão ou pedra.
O que eu mordo é todo pão.
Elevando-se, fermentado como uma nuvem.

Há esperança.
Há esperança em todo o lado
Hoje Deus dá leite
e eu tenho o balde.

[Anne Sexton]

^^

Déjà Vu

Photobucket
Nenhuma verdade me machuca
Nenhum motivo me corrói
Até se eu ficar só na vontade, já não dói

Nenhuma doutrina me convence
Nenhuma resposta me satisfaz
Nem mesmo o tédio me surpreende mais

Mas eu sinto que eu tô viva a cada banho de chuva que chega molhando meu corpo
(...)
E não há razão que me governe
Nenhuma lei prá me guiar
Eu tô exatamente aonde eu queria estar

Mas eu sinto que eu tô viva a cada banho de chuva que chega molhando meu corpo

A minha alma nem me lembro mais
em que esquina se perdeu ou
em que mundo se enfiou

Mas já faz algum tempo...
Já faz algum tempo...
Já faz algum tempo...
Já faz algum tempo...
Faz algum tempo...

[Pitty]
^^

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

La Loba - Shakira

A cantora colombiana Shakira está de volta aos ouvidos de todo mundo.
Novamente com músicas em inglês e espanhol, mas dessa vez duas versões da mesma, She Wolf ou La Loba é o seu novo single, onde Shakira compara uma mulher a um lobo e sua libertação.
“Acho que é porque a música tem tudo a ver com o meu momento. Eu me sinto muito ‘livre’ agora como mulher, mais em contato com os meus desejos e tendendo a me ouvir mais” - diz a cantora.
“Sinto que vivi em uma jaula dourada durante toda a minha vida. Por isso criei essa analogia para o vídeo. Somente a idade e a experiência me deram novas perspectivas das coisas” - diz a cantora sobre estar enjaulada no vídeo.

Confira a letra:
Sigilosa al pasar
Sigilosa al pasar
Esa loba es especial
Mirala, caminar caminar

Quién no ha querido a una diosa licántropa
En el ardor de una noche romantica
Mis aullidos son el llamado
Yo quiero un lobo domesticado

Por fin he encontrado un remedio infalible que borre del todo la culpa
No pienso quedarme a tu lado mirando la tele y oyendo disculpas
la vida me ha dado un hambre voráz y tu apenas me das caramelos
Me voy con mis piernas y mi juventúd por ahí aunque te maten los celos

Una loba en el armario
Tiene ganas de salir
Deja que se coma el barrio
Antes de irte a dormir

Tengo tacones de aguja magnetica
Para dejar a la manada frenetica
La luna llena como una fruta
No da consejos ni los escucha

Llevo conmigo un radar especial para localizar solteros
Si acaso me meto en aprietos tambien llevo el número de los bomberos
ni tipos muy lindos ni divos ni niños ricos yo se lo que quiero
pasarla muy bien y portarme muy mal en los brazos de algún caballero

Una loba en el armario
Tiene ganas de salir
Deja que se coma el barrio
Antes de irte a dormir

Cuando son casi la una la loba en celo saluda a la luna
Duda si andar por la calle o entrar en un bar a probar fortuna
Ya está sentada en su mesa y pone la mira en su proxima presa
Pobre del desprevenido que no se esperaba una de esas.

[Shakira]

^^

Permite-me

O amor não é uma profissão
distinta ou não

o sexo não é cirurgia dentária
A obturação habilidosa de dores e cavidades

não és o meu médico
não és a minha cura

ninguém tem esse
poder, és apenas um companheiro/viajante

desiste desta preocupação médica,
abotoada, atenta

permite-te raiva
e permite-me a minha

que não precisa nem
da tua aprovação nem da tua surpresa

que não precisa de ser legalizada
que não é contra uma doença

mas contra ti,
o que não precisa de ser entendido

ou lavado ou cauterizado
que ao contrário precisa sim

de ser dito e dito.
Permite-me o tempo presente.

[Margaret Atwood]

^^

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Borboletas... Adoro essa música!

RecadosAnimados.com

Percebo que o tempo já não passa
Você diz que não tem graça amar assim
Foi tudo tão bonito, mas voou pro infinito
Parecido com borboletas de um jardim

Agora você volta
E balança o que eu sentia por outro alguém
Dividido entre dois mundos
Sei que estou amando, mas ainda não sei quem...


Não sei dizer o que mudou
Mas, nada está igual
Numa noite estranha a gente se estranha e fica mal

Você tenta provar que tudo em nós morreu
Borboletas sempre voltam
E o seu jardim sou eu.
.
.
[Composição: Victor Chaves]
^^

Xc. dos Seres

Nat

_________Se ele ainda estiver a dormir quando eu voltar ao quarto, e o clavicórdio continuar a reger o abismo com a sua simples presença e a sonoridade que pressinto,
sento-me à entrada da ausência, aspirando o meu vagar nocturno e o movimento dos músculos das árvores,


lugar particular ali,
lugar universal aqui.

[Maria Gabriela Llansol]

^^

terça-feira, 4 de agosto de 2009

*Eu vou...

Hoje vou levantar-me e vou estar contente...
(...)
Vou andar por mim dentro em visita.

Vou penetrar-me, a mim própria ter-me, ter-me...

Vou a mim própria ser-me, vou respirar-me, rir-me, vou-me a mim própria abrir-me, a mim própria despir-me,...
a mim própria dançar-me,...
com meu amor afogar-me, com minha angústia ferir-me, com meu sono
dormir-me, com meus sonhos minha esperança erguer-me, com minha loucura endoidecer-me,... ...
Vou gritar por ti...
até que tu me oiças e possas chamar-me pelo meu nome!

[Ana Hatherly]
^^

Danças para Mim?


Largar o rosto de artifício e trocá-lo por uma máscara mais feliz. Vagas de ar. Cinco vestidos no corpo só por não saber qual usar. O azul da cor do mar? Um arrepio - ferida aberta. No toca-disco, a canção, (a nossa canção) me desperta. Não pode ser, é muito decotado: a inquietação salta do peito. A ilusão a confundir os sentidos. Mas o coração leva a mal. Sangra pela dor e pela ferida. Tinta para um lado, vida para o outro. Uma cesta de pétalas de rosas. E um nariz de palhaço pronto a sorrir-me nos olhos. Porque os pássaros não falam sensibilidades. E - aos meus olhos - só se vê disto. Bolas de nuvem. Pena que não me cresçam as asas. Mas a alegria do palhaço cola-me os sonhos ao céu da boca: pastilha elástica com sabor a morango. Mãos erguidas para o céu. Encontraram-me assim. E tu nunca foste capaz de perguntar:

- Danças para mim?

É uma solução como outra qualquer - experimentar todos os erros...

[Vanessa Sousa]

^^

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Octavo Día

El octavo día dios después de tanto trabajar
Para liberar tensiones luego ya de revisar
Dijo todo está muy bien es hora de descansar
Y se fué a dar un paseo por el espacio sideral

Quién se iba a imaginar que el mismo dios al regresar
Iba a encontrarlo todo en un desorden infernal
Y que se iba a convertir en un desempleado más
De la tasa que anualmente está creciendo sin parar

Desde ese entonces hay quienes lo han visto
Sólo en las calles transitar
Anda esperando paciente por alguién
Con quién al menos tranquilo
Pueda conversar

Mientras tanto este mundo gira y gira
Sin poderlo detener
Y aquí abajo unos cuantos nos manejan
Como fichas de ajedrez
No soy la clase de idiota
Que se deja convencer
Pero digo la verdad
Y hasta un ciego lo puede ver


Si a falta de ocupación o de excesiva soledad
Dios no resistiera más y se marchara a otro lugar
Sería nuestra perdición, no habría otro remedio más
Que adorar a Michael Jackson, a Bill Clinton o a Tarzan

Es más difícil ser rey sin corona
Que una persona más normal
Pobre de dios que no sale en revistas
Que no es modelo ni artista o de família real

Mientras tanto este mundo gira y gira
Sin poderlo detener
Y aquí abajo unos cuantos nos manejan
Como fichas de ajedrez
No soy la clase de idiota
Que se deja convencer
Pero digo la verdad
Y hasta un ciego lo puede ver
.

[Shakira]


^^

domingo, 2 de agosto de 2009

Pensamento...

RecadosAnimados.com

Há quanto tempo não venho por aqui... Saudades deste espaço.
Boa semana a todos!

Milagres

Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa demais?
Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direcção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.

Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.

O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro

— existirão milagres mais estranhos?

[Milagres - Walt Whitman]

^^



Vi por momentos, num plano desfocado,
a respiração condensada pelo frio
tão frágil como cada gesto que me passa em frente dos olhos

Entre a pausa e o imprevisto
por vezes não passa de um cigarro esquecido no cinzeiro
nas horas em que as mãos insistem em ter frio

Fotografia perfeita dos restos de um domingo
que se parte em recortes de tédio...


[eue]

^^

sábado, 1 de agosto de 2009

P-ą-ℓ-ą-v-я-ą-ร

Tem cuidado com as pąℓąvяąร,
mesmo com as milagrosas,
Pelas milagrosas fazemos o nosso melhor,
por vezes elas enxameiam como insectos
e deixam não uma picada mas um beijo.
Podem ser tão boas como dedos.
Podem ser tão de confiança como a rocha
onde espetas o rabo.
E podem ser malmequeres ou feridas.

Mesmo assim, estou apaixonada pelas pąℓąvяąร.
São pombas a cair do tecto.
São seis laranjas sagradas sentadas no meu colo.
São as árvores, as pernas do verão
e o sol, a sua cara impetuosa.

Mas muitas vezes elas falham-me.
Há tanto que quero dizer,
tantas histórias, imagens, provérbios, etc
Mas as pąℓąvяąร não são suficientemente boas,
as erradas beijam-me.
Por vezes eu voo como uma águia
Mas com as asas duma carriça.

Mas eu tento ter cuidado
e ser cuidadosa com elas.
Pąℓąvяąร e ovos devem ser tratados com cuidado.
Uma vez partidos são coisas impossíveis
de reparar.


[Anne Sexton]



^^

A Cruz e a Espada


Havia um tempo em que eu vivia
Um sentimento quase infantil
Havia o medo e a timidez
Todo um lado que você nunca viu

E agora eu vejo aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo e o meu desejo
Se perdeu de mim

E agora eu ando correndo tanto
Procurando aquele novo lugar
Aquela festa
O que me resta
Encontrar alguém legal pra ficar

E agora eu vejo
Aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo e o meu desejo
Se e perdeu de mim

E agora é tarde
Acordo tarde
Do meu lado alguém
Que eu nem conhecia

Outra criança adulterada
Pelos anos que a pintura escondia

Agora eu vejo
Aquele beijo era o fim, o fim
Era o começo e o meu desejo
Se perdeu de mim.


[Composição: Luiz Schiavon / Paulo Ricardo]

^^

Fábula: Cosmogonia

Katia Chausheva
Os insetos noturnos em torno da luz
As estrelas em torno das estrelas
Os meus pensamentos em torno de ti
Eu em torno do nada
O nada em torno de mim

Os meus pensamentos em torno de si mesmos
Tu em torno dos meus pensamentos
O nada em torno de ti
Os insetos noturnos em torno do nada
As estrelas em torno de mim

Eu em torno dos meus pensamentos
As estrelas em torno de ti
Os insetos noturnos em torno das estrelas
A luz em torno dos insetos noturnos
O nada em torno da luz

As estrelas em torno de si mesmas
Os insetos noturnos em torno de si-mesmos
Tu em torno de ti mesma
Eu em torno de mim mesmo
O entorno em torno do entorno

[Gyorgy Somlys]


^^