Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

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quinta-feira, 4 de junho de 2009

[...]

Honey

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"Entre gestos e baloiços entram-me
pelas palavras dentro as horas onde a infância
dorme na sombra do horizonte

algures, perdida entre uma sílaba
antecipada pelo som do riso
perco-me dos dias

a verdade? A verdade é um livro com imagens feitas de restos
e o tamanho das palavras, letra a letra
é o tamanho de quando o silencio era feito de gargalhadas

mas as letras não têm sabor
e com frio nos dedos, folheio as paginas
onde palavra a palavra a infância se perde
quando me devolvo ao dia, as gargalhadas apagam-se
ficando os baloiços cobertos pela transparência das lágrimas."

[eue]

^^

Danças com minh'alma?

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"Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas terras do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração."


[Fernando Pinto do Amaral]

^^

Inquietude

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... "Sou o corpo __________________________ o incêndio
só o fogo
______________________________________ me acalma"


[Maria Teresa Horta, Inquietude - Poesia Reunida]

Homens que são como lugares mal situados


"Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas suas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginado relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior."

"Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão

Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença

Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
– Mais interior do que o sangue no coração que me darás –

Peço um coração
Nuclear."


Daniel Faria [Poesia]

^^


quarta-feira, 3 de junho de 2009

A casa do Mundo

2
"Aquilo que às vezes parece:
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida."

[Luiza Neto Jorge]

Os Girassóis

Alina Manolache
"Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens


Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos."

[José Tolentino Mendonça]


^^

Versos Soltos...

I guess I'm floating
"A noite acendeu as estrelas porque tinha medo
da própria escuridão."

"... O luar é a luz do sol que está sonhando..."

"A maior dor do vento é não ser colorido."
"Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único,
este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela,
Sempre..."

[Mário Quintana]

^^

Quando os pássaros são imagens
inquietas do frio, e as sombras
movimentos onde as despedidas
se repetem.
.
Desperto de diálogos que desfazem o sono
sei que para além da noite
há um inverno a dançar
nos meus medos.

[eue]

^^

Não sei


Não sei se era aqui que era suposto chegar, se era este o lugar, se era este o tempo. Cheguei à esquina onde a vida dobra, à foz dos atalhos onde os caminhos novos se fazem e sei que tenho pouco tempo para dar o primeiro passo, o derradeiro, aquele que fará com que tudo o que fica para trás faça sentido, mesmo que sejam só atalhos menores. Não tenho tempo para pensar e o precipício que se adivinha em cada passo errado faz-me engolir em seco, faz-me fechar os punhos com muita força, faz-me inspirar lentamente para conseguir manter convicções.

[Felisbela Fonseca]
^^

Estátua

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"Nas suas mãos a voz do mar dormia nos seus cabelos o vento se
esculpia
a luz rolava entre os seus braços frios e nos seus olhos cegos e
vazios boiava o rasto branco dos navios."

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

^^

terça-feira, 2 de junho de 2009

(...)

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...
"Encosto a cara às quimeras da infância, para exorcizar
a inocência perdida e rodopiar, sobre os sonhos, a valsa
solitária da criança que fui, quando as minhas mãos, nativas
do sol, eram aves de múltiplas cores.

Paro todos os relógios, para escutar a respiração dos dias.
E, como um actor que se esgota na personagem, rasgo
o cenário e danço, como um louco, em redor de malogros
entrelaçados nos meus pulsos. Tenho, em volta do pescoço,
uma lua transparente que me enrouquece a voz."

[Graça Pires]

^^

Caro leitor,

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"Venho desta forma solicitar ao leitor
uma cabeça de martelo
para que por caridade
me sejam arrancados das costas
todos os pregos que o tempo aí me pregou

Pregos para pendurar retratos
talvez de coisas tristes
talvez de coisas alegres

Peço-lhe que o faça com extrema delicadeza
de modo a que um dia
me seja possível coçar as costas
sem estar preocupado
com crostas ou cicatrizes

Venho pois caro leitor
pedir-lhe depurada mestria
ao arrancar-me todos os pregos
que a vida me pregou nas costas

Pregos veja-se bem
que têm servido tão-somente
para pendurar quadros
talvez de naturezas mortas
talvez de paisagens sem título

Não leve a mal o pedido
trata-se de caridade devida
ou não fosse também o caro leitor
um desses pregos
que o destino me pregou nas costas
com irrepreensível precisão."


[Antoni Tàpies]

^^

Ao meio

Graça Loureiro

"Olha, as coisas
Estão cortadas ao meio,
De um lado elas
Do outro o seu nome.

Há um vasto espaço entre elas,
Espaço para correr,
Para a vida.

Olha, tu estás cortado ao meio.
De um lado tu,
Do outro o teu nome.

Não sentes às vezes ou no sonho
Ou à margem do sonho,
Que na tua fronte
Assentam outros pensamentos,
Sobre as tuas mãos
Outras mãos?

Só por um instante foste compreendido
Fazendo o teu nome
Atravessar o teu corpo,
De um modo sonoro e doloroso,
Como o badalo de bronze
Através do vazio do sino. "

[Marin Sorescu]

^^

[...]

Alastair Magnaldo

"Atrás da minha janela há uma árvore
onde os pássaros marcam o tempo
na transparência do vento
sacodem-se as horas e por fim as imagens
evaporam-se nos contornos dos sonhos .

Entrego-me a um tempo concluído.

Faço tréguas com o passado fechando portas
ao silêncio da noite
mas o sol insiste em fazer Outonos
mesmo quando os dias são mudos."

[eue]

^^

As Palavras

Augusto Peixoto
"As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras."


[Carlos de Oliveira]

^^

[...]

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"E é este o quarto onde costumo estar nas noites assim; o quarto onde costumo estar nas noites que não são bem assim; o quarto onde costumo estar todas as noites e onde nunca nada jamais acontece a não ser o estrépito do céu caindo à vez pelos telhados."


[António Gregório]
Uma história de desamor treze vezes


^^

segunda-feira, 1 de junho de 2009

[?]

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Desfolhar uma rosa
é poesia ou prosa?


^^

[...]

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"Os olhos ganham a intensidade das rugas todas a sombras se juntam como linhas de uma folha é neste tempo de sílabas murchas que nos olhos param imagens o outro lado dos olhos são pedacinhos de papel que rasguei num domingo."

[eue]

^^

Ver-te

Graça Loureiro
"Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado.
Quando te vejo e embora exista o vento
nenhuma folha nas múltiplas àrvores se move
ver-te é logo todas as coisas começarem é
tudo ser desde sempre anterior a tudo.
Ver-te é sem tu me veres eu sentir-me visto
sentir no meu andar alguma segurança mínima
caminhar pelo ar a meio metro da terra
e tudo flutuar e ser ainda mais aéreo do que o ar
ver-te é nem mesmo pensar que deixarei de ver-te."

[Ruy Belo]

^^

Então?







(...) Terás de amar os pés, mesmo que partidos ao meio, na destruição dramática dos seus vinte e seis ossos. (...) Toda a sua minuciosa anatomia de quem quer andar como quem canta. (...) Encontrar-lhe os lírios nas sequelas dos músculos. Dar-lhes corda. (...) Pô-los a pensar sobre os caminhos - dar-lhes caminhos. (...)


[Ana Salomé]



^^

Poesias e Eu


Surpreendo-me ao ver, sentir e perceber o poder das palavras. Assusto-me ao sentir o grande efeito, devastador quase sempre, que elas me provocam. As palavras são para mim escudos, muralhas, abrigo, refúgio. São nelas que me escondo, me demonstro, me entrego, me escancaro. Lastimável não ter eu o poder de dominá-las, de colocá-las em um papel, não necessariamente coesas, mas sempre coerentes como fazem meus amigos poetas. Invejo-os. Sinceramente, invejo-os. Invejo quem possui o dom inerente de transmitir sensível e emocionalmente sentimentos tão indescritíveis, como a tristeza, a alegria, a dor e a euforia. Como eu gostaria de poder transpor tudo que há em mim, todo o meu sangue, toda a minha luta, toda a minha dor em versos, toda minha essência em estrofes...
Quanto desejo contido!

Mas já dizia Caetano Veloso (eu acho!) em uma canção:


"Meu coração não cansa de ter
esperança de ser um dia
tudo o que quer. "

^^

domingo, 31 de maio de 2009

Mudança no Blog...

Em breve, este blog terá uma nova cara.
Aguarde!

^^

"Quanto mais nos elevamos, menores parecemos aos olhos daqueles que não sabem voar.” [Nietzsche]

Pensando alto: Por que algumas coisas parecem inalcansáveis?
Como se não tivéssemos altura suficiente pra alcançar a caixa colorida da última prateleira.
Seria o fim de semana, tempo de arranjar uma escada longa?
A segunda-feira, o dia de se tornar maior que a prateleira?
E o resto da semana, as oportunidades de descobrir o que há dentro da caixa e brincar com suas cores?
- Fica a flexibilidade do pensamento, e todo o seu desenvolvimento...

"Bom domingo pra vocês! Segunda-feira é um dia mais difícil porque é sempre a tentaiva de começo da vida nova. Façamos de cada domingo então um réveillon modesto, pois se meia-noite de domingo não é começo de Ano Novo, é começo de semana nova, o que significa fazer novos planos e fabricar sonhos."

[Clarice Lispector]

^^



sábado, 30 de maio de 2009

Motiv[ação]



Se o que dizem por aí é que temos que fazer o que gostamos, o mínimo que temos que fazer é gostar de viver, não acha?
Então me diga: Quais são os motivos que te levam a gostar da vida?
Porque eu tenho muitos; e o fato de estar viva é pouco pra mim. Todos os dias descubro um motivo novo. Se não descubro, invento. E todos os dias, minhas descobertas e minhas invenções têm 50% de chances de darem certo ou errado, de me fazerem sorrir ou chorar. É um desafio constante.
Desafios... A nossa fonte de MotivAçãO! É mais que ativar a realização de uma ação, se é que você me entende. É sair da areia, entrar no mar com uma prancha e surfar. Algo totalmente individual – cada um na sua prancha e pronto – pois o máximo que conseguimos passar a diante é o incentivo.
O que passamos para as pessoas possui efeito à curto prazo. Pra falar a verdade, acho que tudo que não vem de dentro da gente pode ser considerado temporário.
Podemos dizer então, que os desafios são nossos principais incentivos e que a falta de incentivo gera desmotivação – e desmotivação é o passo do fracasso. Mas cabe a você escolher o que se quer. Pois tudo que focamos se desenvolve, seja positivo ou negativo. Desenvolva-se como bem entender, mas desenvolva-se! Ou passe o resto da vida reclamando da sua rotina chata, do salário que não aumenta, das coisas que você aguenta e da rotina que não acaba.
O grande desafio então é desenvolver-se? É, pode ser.
Você está precisando de um incentivo pra fazer isso? Então vou lhes dar um...
Senhoras e Senhores, desenvolver-se hoje em dia não é pra qualquer um. Não mesmo!
É preciso competência. E você sabe o que é isso?
Um mix bonito de conhecimento, habilidade e atitude. Mas se você tiver motivação pra ser competente, metade da partida está ganha (o primeiro tempo – não o jogo inteiro!). A outra metade vai depender do que você vai fazer com isso.
.
Está tudo na sua mão: os motivos, a vida, os objetivos, a competência, o desenvolvimento e a AÇÃO!
.
Boa Sorte!
^^

quinta-feira, 28 de maio de 2009

O Rosto da Matéria

"Parece simples a simplicidade que vem das coisas
e nos encontra a meio do caminho entre o que não fizemos e o que não faremos.
Também elas percorrem os círculos do poço em que se afundam a boca negra de onde sai a tinta e espalha a luz do dia igual á luz da noite.
Tratam-se por tu as coisas e esta intimidade flutua no ar do papel onde crianças voam com as cores de um papagaio, pois não é assim que o vento faz o vento desde todo o sempre?
Sempre as crianças brincaram com a chuva corsários da terra enlameada sujos de uma alegria que ninguém despe mas desfaz o tempo e tudo o que pensamos da simplicidade das coisas.
Essa lama que vive no rosto da criança é a única matéria do traço é a limpidez do ar."

[Rosa Alice Branco]

^^

terça-feira, 26 de maio de 2009

Bem ou Mal


"O começo e o fim podem ser iguais,
Depende de quem vai uma resposta
A inveja que mata não me afeta mais
Pois o que conquistei tem o direito de ser meu.
Entre o bem e o mal
A escolha certa
Pouco tempo pode ser demais
Pra quem sabe o que quer
Pra quem respeita a vida e assim mesmo,
O tempo muda sempre cada vez mais
E dentro de você
Existe o bem e o mal e a escolha certa."
^^

domingo, 24 de maio de 2009

Cuide Bem

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"A vida sem freio me leva, me arrasta, me cega
No momento em que eu queria ver
O segundo que antecede o beijo
A palavra que destrói o amor
Quando tudo ainda estava inteiro
No instante em que desmoronou
Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz

(...)

E cada segundo, cada momento, cada instante
É quase eterno, passa devagar
Se o seu mundo for o mundo inteiro
Sua vida, seu amor, seu lar
Cuide tudo que for verdadeiro
Deixe tudo que não for passar
Palavras duras em voz de veludo
E tudo muda, adeus velho mundo
Há um segundo tudo estava em paz."


[Herbet Vianna]

^^

sábado, 23 de maio de 2009

O Triunfo do Dia

"O sol entra na casa o que
perdemos é já demasiado
para podermos distinguir da parede
o retrato Houve um futuro
no fumo que sangrava
É a forma invisível que uma onda
de luz irá salvar? Esse encontro
da casa com o dia criará uma névoa
que nega a própria luz e vai como
uma nuvem guardar todo o poder
até se transformar num relâmpago
que não pertence ao dia
porque é o que ficou do que perdeu a
existência e de novo se perde
quando a onda regressa
ao dia de onde veio
enrolada levando na sua luz o rosto."

[Gastão Cruz]

^^



Afinal

"Afinal, a melhor maneira de viajar é sentir.
Sentir tudo de todas as maneiras.
Sentir tudo excessivamente,
Porque todas as coisas são, em verdade, excessivas
E toda a realidade é um excesso, uma violência,
Uma alucinação extraordinariamente nítida
Que vivemos todos em comum com a fúria das almas,
O centro para onde tendem as estranhas forças centrífugas
Que são as psiques humanas no seu acordo de sentidos.


Quanto mais eu sinta, quanto mais eu sinta como várias pessoas,
Quanto mais personalidade eu tiver,
Quanto mais intensamente, estridentemente as tiver,
Quanto mais simultaneamente sentir com todas elas,
Quanto mais unificadamente diverso, dispersadamente atento,
Estiver, sentir, viver, for,
Mais possuirei a existência total do universo,
Mais completo serei pelo espaço inteiro fora.
Mais análogo serei a Deus, seja ele quem for,
Porque, seja ele quem for, com certeza que é Tudo,
E fora d'Ele há só Ele, e Tudo para Ele é pouco.


Cada alma é uma escada para Deus,
Cada alma é um corredor-Universo para Deus,
Cada alma é um rio correndo por margens de Externo
Para Deus e em Deus com um sussurro soturno.


Sursum corda! Erguei as almas! Toda a Matéria é Espírito,


Porque Matéria e Espírito são apenas nomes confusos
Dados à grande sombra que ensopa o Exterior em sonho
E funde em Noite e Mistério o Universo Excessivo!
Sursum corda! Na noite acordo, o silêncio é grande,
As coisas, de braços cruzados sobre o peito, reparam


Com uma tristeza nobre para os meus olhos abertos
Que as vê como vagos vultos noturnos na noite negra.
Sursum corda! Acordo na noite e sinto-me diverso.
Todo o Mundo com a sua forma visível do costume
Jaz no fundo dum poço e faz um ruído confuso,


Escuto-o, e no meu coração um grande pasmo soluça.


Sursum corda! ó Terra, jardim suspenso, berço
Que embala a Alma dispersa da humanidade sucessiva!
Mãe verde e florida todos os anos recente,
Todos os anos vernal, estival, outonal, hiemal,
Todos os anos celebrando às mancheias as festas de Adônis
Num rito anterior a todas as significações,
Num grande culto em tumulto pelas montanhas e os vales!
Grande coração pulsando no peito nu dos vulcões,
Grande voz acordando em cataratas e mares,
Grande bacante ébria do Movimento e da Mudança,
Em cio de vegetação e florescência rompendo
Teu próprio corpo de terra e rochas, teu corpo submisso
A tua própria vontade transtornadora e eterna!
Mãe carinhosa e unânime dos ventos, dos mares, dos prados,
Vertiginosa mãe dos vendavais e ciclones,
Mãe caprichosa que faz vegetar e secar,
Que perturba as próprias estações e confunde
Num beijo imaterial os sóis e as chuvas e os ventos!


Sursum corda! Reparo para ti e todo eu sou um hino!
Tudo em mim como um satélite da tua dinâmica intima
Volteia serpenteando, ficando como um anel
Nevoento, de sensações reminescidas e vagas,
Em torno ao teu vulto interno, túrgido e fervoroso.
Ocupa de toda a tua força e de todo o teu poder quente
Meu coração a ti aberto!
Como uma espada traspassando meu ser erguido e extático,
Intersecciona com meu sangue, com a minha pele e os meus nervos,
Teu movimento contínuo, contíguo a ti própria sempre,


Sou um monte confuso de forças cheias de infinito
Tendendo em todas as direções para todos os lados do espaço,
A Vida, essa coisa enorme, é que prende tudo e tudo une
E faz com que todas as forças que raivam dentro de mim
Não passem de mim, nem quebrem meu ser, não partam meu corpo,
Não me arremessem, como uma bomba de Espírito que estoira
Em sangue e carne e alma espiritualizados para entre as estrelas,
Para além dos sóis de outros sistemas e dos astros remotos.


Tudo o que há dentro de mim tende a voltar a ser tudo.
Tudo o que há dentro de mim tende a despejar-me no chão,
No vasto chão supremo que não está em cima nem embaixo
Mas sob as estrelas e os sóis, sob as almas e os corpos
Por uma oblíqua posse dos nossos sentidos intelectuais.


Sou uma chama ascendendo, mas ascendo para baixo e para cima,
Ascendo para todos os lados ao mesmo tempo, sou um globo
De chamas explosivas buscando Deus e queimando
A crosta dos meus sentidos, o muro da minha lógica,
A minha inteligência limitadora e gelada.


Sou uma grande máquina movida por grandes correias
De que só vejo a parte que pega nos meus tambores,
O resto vai para além dos astros, passa para além dos sóis,
E nunca parece chegar ao tambor donde parte ...


Meu corpo é um centro dum volante estupendo e infinito
Em marcha sempre vertiginosamente em torno de si,
Cruzando-se em todas as direções com outros volantes,
Que se entrepenetram e misturam, porque isto não é no espaço
Mas não sei onde espacial de uma outra maneira-Deus.


Dentro de mim estão presos e atados ao chão
Todos os movimentos que compõem o universo,
A fúria minuciosa e dos átomos,
A fúria de todas as chamas, a raiva de todos os ventos,
A espuma furiosa de todos os rios, que se precipitam,


A chuva com pedras atiradas de catapultas
De enormes exércitos de anões escondidos no céu.


Sou um formidável dinamismo obrigado ao equilíbrio
De estar dentro do meu corpo, de não transbordar da minh'alma.
Ruge, estoira, vence, quebra, estrondeia, sacode,
Freme, treme, espuma, venta, viola, explode,
Perde-te, transcende-te, circunda-te, vive-te, rompe e foge,
Sê com todo o meu corpo todo o universo e a vida,
Arde com todo o meu ser todos os lumes e luzes,
Risca com toda a minha alma todos os relâmpagos e fogos,
Sobrevive-me em minha vida em todas as direções! "


[Álvaro de Campos]

^^

sexta-feira, 22 de maio de 2009

É o espelho sem razão...

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"(...)Tinha suspirado. Tinha beijado o papel devotamente. Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades. E o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas como um corpo ressequido que se estira num banho tépido. Sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava, enfim, numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo conduzia a um êxtase. E a alma se cobria de um luxo radioso de sensações..."
.
[Marisa Monte]

TU

Essa música não sai da minha cabeça...
"Te regalo mi cintura
Y mis labios para cuando quieras besar
Te regalo mi locura
Y las pocas neuronas que quedan ya
.
Mis zapatos destenidos
El diario en el que escribo
Te doy hasta mis suspiros
Pero no te vayas más
.
Porque eres tú mi sol
La fé con que vivo
La potencia de mi voz
Los pies con que camino
Eres tú, amor, mis ganas de reír
El adiós que no sabré decir
Porque nunca podré vivir sin ti
.
Si algún día decidieras
Alejarte nuevamente de aquí
Cerraría cada puerta
Para que nunca pudieras salir
.
Te regalo mis silencios
Te regalo mi nariz
Yo te doy hasta mis huesos
Pero quédate aquí."
.
[Shakira]
^^

Palavras sem Limites

Hoje eu acordei com fome de palavras. Com fome de consolo. Aquele que a gente ajeita no colo depois do choro. Palavras com as respostas mais belas possíveis. Palavras com os sentidos verdadeiros. Sentidos inteiros. Sem rodeios, sem metáforas. Palavras que se põe pra fora, na lata - injetadas na alma. Palavras que registrem seus rabiscos nos meus ouvidos. Palavras que enriqueçam minha memória. Palavras que espantem meus medos, meus receios e essa minha ânsia. Palavras, por favor, de esperança. Palavras que se colhe, que se planta. Palavras ditas sem medo de parecer bobagem. Palavras que eu possa colocar na minha bagagem e levar embora. Palavras da boca pra dentro, do coração pra fora. Palavras que despertam meu silêncio, que me façam sorrir. Além de tudo, palavras que me façam sentir. Palavras reais, mesmo que banais. Palavras certas, mesmo que indiscretas. Palavras pequenas que me façam crescer. Hoje eu não to a fim de usar meu dicionário pra te adivinhar. Então esclareça todos os seus verbos – até que eu fique com vontade de te reler, me envolver nos seus sujeitos, e te escrever na minha agenda. Diga logo de uma vez. Preciso de palavras. Preciso que você me adivinhe, sem dicas, sem cruzadas, sem jogo da forca. Hoje é sua vez. Preciso gostar do seu timbre, do agudo e do grave da sua boca. Preciso da sua voz afinada ou rouca. Tanto faz. E diz as palavras que possam me tirar desse lugar onde eu não quero ir. Preciso de expectativas reais. Diga logo, mas uma de cada vez. Alimente meu desejo com sua sopa de letrinhas. Para que eu possa me saciar aos poucos até a fome passar [Será que passa?].

^^

[?]

"Vivendo, eu não representava para mim mesmo nenhuma imagem de mim. Porque tinha, então, de me ver naquele corpo, como uma imagem necessária de mim? Imagem que estava ali, na minha frente, quase inexistente, como uma aparição. (…) E eu podia não me conhecer assim. E se por exemplo, nunca mais me visse a um espelho?"

[Luigi Pirandello]


^^

Waiting For The Night

"Às vezes era assim: adormecias com um pássaro nos ombros e na garganta. Eras, então, a árvore e o ninho, o canto do pássaro. E eras também, por isso, uma dessas aves a que chamam canoras e trazias acordada no ouvido. E eras, também por isso, um búzio, um búzio com asas. Agora, desta varanda recuada onde te despes para colher o sol da tarde, já não se ouve o mar, e o vento que nele se deitava e agora se dilata já não encrespa as águas nem faz vibrar os tímpanos do sono. O pássaro que trazias nos ouvidos cedeu a garganta a outras vozes. Do ninho, restam apenas algumas penas envergonhadas pela ave de silêncio que ali morou por um tempo. Que só por um tempo é madrugada, só por um tempo é primavera, só por um tempo as aves cantam. E a árvore, agora só pede às raízes que por um tempo a sustentem ainda. Mas ninguém sabe quando um raio explode e transforma o tronco e as raízes em estátuas ou em bolas de sabão. Quer dizer: nas tábuas envernizadas dum colchão que alguém por nós encomendou e onde uma noite nos deitamos vestidos, preparados para a cerimônia a que preside um deus qualquer a que arrancaram os olhos e selaram a boca. Cerimônia a que, sem remorso, apenas uma vez assistiremos. Um deus sem olhos e sem boca, disseste. Acrescentarás: e sem nome. Que as máscaras são o rosto do vazio, e o vazio não se diz, a ausência não se nomeia."

[Albano Martins]


"Mais cedo ou mais tarde o silêncio virá
perguntar por ti."
.
[Albano Martins]

^^


quarta-feira, 20 de maio de 2009

Quando Anoitece



"Quando anoitece
contorno no meu rosto
o perfil do dia que passou
e tudo o que não sou
me contradiz.

Quando anoitece
atravesso um labirinto
caiado de paixão,
pretexto circular
da minha fé.

Quando anoitece
faço emergir do abismo
um instinto quase secreto
e fujo da noite,
em vertiginosa simetria com o vento,
como se fosse um equívoco
esperar a madrugada
com a mesma lentidão
de um acto íntimo.

Contra um muro branco
esta lonjura gémea do vento.

Uma casa ou um regaço
alternando a desordem
de corpos molhados
numa dicotomia simulada
quando o prazer
é o reflexo nítido
de um coágulo de azul
queimado sobre madrepérolas.

São corais que no fundo da água
não quebram as vagas silvestres.

Nasci agora
enquanto uma andorinha
baloiçava no espelho
atravessado de pólen.

Sou, sílaba por sílaba,
o luto ou a negação
de desumanos deuses.

Quando anoitece..."

[Graça Pires]


^^

[...]



"Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti
até que a dor alegre recomece."
.
[Maria Gabriela Llansol]

^^

terça-feira, 19 de maio de 2009

(...)

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"Os dias amargos não falam
das palavras que pousam
nos meus lábios.

Prendem-se a olhares secos,
esculpem emoções onde o
corpo se rasga em silêncio

E como músculos promovidos
a respiração, descascam-nas
de sentido, e reclamam dos
olhos , as palavras esquecidas
pela voz."

[eue]

^^

Crepuscular

"A incerteza cai com a tarde
no limite da praia. Um pássaro
apanhou-a, como se fosse
um peixe, e sobrevoa as dunas
levando-a no bico. O
seu desenho é nítido, sem
as sombras da dúvida ou
as manchas indecisas da
angústia. Termina com a
interrogação, os traços do fim,
o recorte branco de
ondas na maré baixa. Subo a estrofe
até apanhar esse pássaro:
com o verso, prendo-o à frase,
para que as suas asas deixem
de bater e o bico se abra. Então,
a incerteza cai-me na página, e
arrasta-se pelo poema, até
me escorrer pelos dedos para
dentro da própria alma."
.

[Nuno Júdice]

^^



(...)

"Vivendo, eu não representava para mim mesmo nenhuma imagem de mim. Porque tinha, então, de me ver naquele corpo, como uma imagem necessária de mim?Imagem que estava ali, na minha frente, quase inexistente, como uma aparição. (…) E eu podia não me conhecer assim. E se por exemplo, nunca mais me visse a um espelho?"
[Luigi Pirandello]

^^


Doces metamorfoses

Não mais as doces metamorfoses de
uma menina de seda
sonâmbula agora na cornija da névoa

o seu despertar de mão a respirar
de flor que se abre ao vento.


[Alejandra Pizarnik]

^^

(...)


"Não pegues na colher com a mão esquerda.
Não ponhas os cotovelos na mesa.
Dobra bem o guardanapo.
Isso, para começar.
.
Extraia a raíz quadrada de três mil trezentos e treze.
Onde fica o Tanganica? Em que ano nasceu Cervantes?
Dou-lhe um zero em comportamento se falar com o seu colega.
Isso, para continuar.
.
Parece-lhe decente que um engenheiro faça verso?
A cultura é um enfeite e o negócio é o negócio.
Se continuas com essa moça fechamos-te a porta.
Isso, para viver.
.
Não sejas tão louco. Sê educado. Sê correcto.
Não bebas. Não fumes. Não tussas. Não respires.
Aí, sim, não respirar! Dar o não a todos os nãos.
E descansar: morrer."
.
[Gabriel Celaya]
^^

domingo, 17 de maio de 2009

O Sofrimento

Porque há dias que questiono:
Valerá um sonho a queda do despertar?



"Penso: talvez o sofrimento seja lançado às multidões em punhados e talvez o grosso caia em cima de uns poucos ou nada em cima de outros. Não a dor, não as pernas trôpegas de nódoas negras, não as costelas partidas a colar entre o sangue pisado, não a cabeça a rachar-se em tentáculos como raios, não a pele das paixões acabadas a abrir rasgões fundos em carne como vergadas de uma impotência absoluta; mas o sofrimento, permanente e constante, como todos os ossos expostos a furar os músculos e a pele."
[José Luís Peixoto]
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Arte Poética

"O poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido em
emória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
O poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
O poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema,
não é araiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
O poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido."

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[José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas]

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Cura?

Reflet.

"A cidade está deserta
E alguém escreveu o teu nome em toda a parte
Nas casas, nos carros,
Nas pontes, nas ruas...
Em todo o lado essa palavra repetida ao expoente da loucura
Ora amarga, ora doce
Para nos lembrar que o amor é uma doença
Quando nele julgamos ver a nossa cura."

[Ornatos Violeta]
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Tudo Cura o Tempo

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"Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo a colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as feições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino; porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco com que já não tira; embota-lhe as setas com que já não fere; abre-lhe os olhos com que vê o que não via; e faz-lhe crescer as asas com que voa e foge.
A razão natural de toda esta diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas: descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor! O mesmo amar é causa de não amar, e o ter amado muito, de amar menos."
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[Padre António Vieira] - Sermões

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