Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Tudo que você quer hoje...


Ele não é só um cara... Esse sim, esquenta as suas mãos e escuta os seus impropérios e gracinhas com o mesmo apego. Ele não te deixou apodrecendo ali onde você não pudesse incomodar. Ele é diferente de tudo o que é errado em seu mundo e em outros mundos. Você diria que ele salvou sua vida se não soasse tão dramático. Ele não faz planos ou promessas, só surpresas, te ensinou a gostar de surpresas. Ele é diferente. Ele não é só um cara. Ele te ouve como se te entendesse, fala como quem soubesse o que dizer e não diz nada muitas vezes, porque ele entende os silêncios. Ele existe. Você sabe que seriam bons amigos, bons parceiros, bons inimigos, mas você prefere ser a garota dele. E sabe que serão importantes na história um do outro para sempre, independentemente de tudo que estiver pra acontecer. Porque ele não é só um cara. Você não quer mais só um cara. E ele é tudo que você quer hoje.


[Tati Bernardi]



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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Tentando um novo Amor


Para curar uma dor de amor, digam o que quiserem, só conheço um remédio: um amor novinho em folha. Enquanto nosso coração não encontrar outro pretendente, ficaremos cultivando o velho amor, alimentando-o diariamente, sofrendo por ele e, no fundo, bem no fundinho, felizes por ter para quem dedicar nossos ais e nossa insônia. A gente só enterra mesmo o defunto quando outra pessoa surge para ocupar o posto.

Se isso lhe parece uma teoria simplista, toque aqui. É simplista sim. Isso de enterrar o defunto do dia pra noite só funciona quando o defunto era apenas uma paixonite, um entusiasmo, fogo de palha. Porém, se era algo realmente profundo, um sentimento maduro, aí o efeito do novo amor pode revelar-se um belo tiro pela culatra. Ele acabará servindo apenas para dar a você a total certeza de que aquele amor anterior era realmente um bem durável. E a dor voltará redobrada.


Um beijo que deveria inaugurar uma nova fase em sua vida pode trazer à tona lembranças fortes do passado, e nem é preciso comparar os beijos, apenas as sensações provocadas. Quem já vivenciou isso sabe o constrangimento que é beijar alguém e morrer de saudades do antecessor.

Um novo amor pode transformar o que era opaco em transparência: você não sabia exatamente o que sentia pelo ex, se era amor ou não, então surge outra pessoa e você descobre que sim, era amor, caso contrário não sentiria esse abandono, essa perturbação, essa forte impressão de que está fazendo uma tentativa inútil, de que não conseguirá ir adiante.

Mas o que fazer? Encarar uma vida monástica, celibatária? Nada disso. Viva as tentativas inúteis! Uma, duas, três, até que alguma delas consiga superar de vez a inquietação do passado, que venha realmente inaugurar uma nova fase em sua agenda amorosa, que deixe você tranqüilo em relação ao que viveu e ao que deve viver daqui pra frente.

No entanto, quanto mais escrevo, mais me dou conta de que não há fórmula que dê garantia para nossas atitudes, de que não há pessoa neste mundo que não possa nos surpreender, de que tudo o que vivemos são tentativas, e que inútil, inútil mesmo, nenhuma é.


[Martha Medeiros]


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terça-feira, 11 de setembro de 2012

Instruções para chorar


Prescindindo dos motivos, vamos ater-nos à maneira correcta de chorar, ou seja, um pranto que não ingresse no escândalo, nem insulte o sorriso com paralela e torpe semelhança. Consiste o pranto médio ou corrente numa contracção geral do rosto e num som espasmódico acompanhado de lágrimas e ranho, este último no final, já que o pranto termina no momento em que uma pessoa se assoa energicamente. Para chorar, dirija a imaginação para si mesmo, e se isto lhe for impossível por haver contraído o hábito de acreditar no mundo exterior, pense num pato coberto de formigas ou nesses golfos do estreito de Magalhães onde nunca ninguém entra. Quando o pranto começar, cobrirá com decoro o rosto, usando para tal ambas as mãos com as palmas viradas para dentro. As crianças chorarão com a manga do bibe a tapar a cara, e de preferência a um canto do quarto. Duração média do pranto, três minutos.



[Julio Cortázar]


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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Morreu profundamente para mim


Sei hoje que ninguém antes de ti
morreu profundamente para mim
Aos outros foi possível ocultá-los
na sua irredutível posição horizontal
sob a capa da terra maternal
Choramo-los imóveis e voltamos
à nossa irrequieta condição de vivos
Arrumamos os mortos e ungimo-los
São uma instituição que respeitamos
e às vezes lembramos celebramos
nos fatos que envergamos de propósito
nas lágrimas nos gestos nas gravatas
com flores e nas datas num horário
que apenas os mate o estritamente necessário
mas decerto de acordo com um prévio plano
tu não só me mataste como destruíste
as ruas os lugares onde cruzámos
os nossos olhos feitos para ver
não tanto as coisas como o nosso próprio ser
A cidade é a mesma e no entanto
há portas que não posso atravessar
sítios que me seria doloroso outra vez visitar
onde mais viva que antes tenho medo de encontrar-te
Morreste mais que todos os meus mortos
pois esses arrumei-os festejei-os
enquanto a ti preciso de matar-te
dentro do coração continuamente
pois prossegues de pé sobre este solo
onde um por um persigo os meus fantasmas
e tu és o maior de todos eles
não suporto que nada haja mudado
que nem sequer o mais elementar dos rituais
pelo menos marcasse em tua vida o antes e o depois
forma rudimentar de morte e afinal morte
que por não teres morrido muito mais tenhas morrido
Se todos os demais morreram de uma morte de que vivo
tu matas-me não só rua por rua
nalguma qualquer esquina a qualquer hora
como coisa por coisa dessas coisas que subsistem
vivas mais que na vida vivas na imaginação
onde só afinal as coisas são
Ninguém morreu assim como morreste
pois se houvesse morrido tudo estava resolvido
Os outros estão mortos porque o estão
Só tu morreste tanto que não tens ressurreição
pois vives tanto em mim como em qualquer lugar
onde antes te encontrava e te possa encontrar
e ver-te vir como quem voa ao caminhar
Todos eram mortais e tu morreste e vives sempre mais

[Ruy Belo]
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domingo, 9 de setembro de 2012

Dos hábitos dos humanos quando se amam


A gente, às vezes, acordava de noite e conversávamos. Na noite de Sábado para Domingo acordámos às seis e meia da manhã. Ela disse que lhe apetecia fazer uma coisa fora de propósito. Eu propus irmos ver nascer o Sol ao alto da Peninha e ela achou óptimo. Vestimo-nos à pressa. Eu enfiei por cima de tudo uma camisola grossa de lã, metemo-nos no carro e lá fomos pela serra acima. A luz do dia começava a distinguir o contorno dos montes mas quando lá chegámos acima o sol não tinha nascido ainda, Ficámos no carro, à espera, de mão dada até que ela se aproximou mais de mim e me deu dois daqueles beijos que ela sabia e de que eu estava a tomar o gosto. A certa altura lá vinha o Sol a espreitar no fundo do horizonte. Perto, nem viv’alma. Nem um cão ladrava. Era só o pequeno coro dos pássaros a acordarem-se uns aos outros. O belo disco de luz alaranjada ia-se erguendo e nós ficámos a olhar para o Sol e para os raios que ele ia pondo na encosta da serra. Ficamos quietos e silenciosos como numa missa e aquele ritual diário, mas que a gente raras vezes tinha ocasião de ver, transmitia-nos uma grande serenidade e uma imensa emoção. Senti a mão dela a apertar mais a minha. Ela disse:
- O mundo é tão bonito!
Eu comentei:
- O que faz isto bonito está dentro de nós. Muita gente fica indiferente a este Sol a nascer e quem tem ódio no coração fica lá com o ódio.
A Catarina estava com um brilho no olhar e parecia querer aspirar com as narinas tudo o que se estava a passar. Deixou cair uma frase como se fosse uma resposta ao que eu lhe tinha dito:
- Talvez fosse possível ensinar as pessoas a ver nascer o Sol…
Eu perguntei:
- E a ti, quem te ensinou?
- Tudo me ensinou: o meu pai. A minha mãe, o mundo em que eu nasci… Tudo mais ou menos me preparou para coisas destas. Viver é capaz de ser uma educação de sentimentos.
- Sim. É capaz de ser, só que nós temos uma imensa capacidade de sermos infiéis às coisas para que somos feitos.
O Sol tinha acabado de nascer e o dia prometia estar bonito. Viemos para o carro e descemos a Colares para a nossa casa. Fomos dormir mas, de cada vez que a gente entrava na cama, a Catarina tinha que fazer os seus rituais de carícias que sempre acabavam num amor bem soletrado. Como tenho dito, todo este lado sensual da Catarina era uma surpresa para mim. Naquele dia acabamos por cair um para cada lado, sonolentos e cansados, mas quase parecia que, entre o sono, ela pensava no meu corpo e procurava-o com as mãos, mesmo a dormitar.
Quando acordei, o Sol que tínhamos visto nascer, já ia alto e forte. Batia nas janelas e as frinchas deixavam passar pequenos raios de luz que iam bater no chão e na cómoda. Ela continuava a dormir ao meu lado e a mim deu-me para pensar nesta aventura inesperada que completamente me enchia. Gostaria de explicar que, para mim, há uma diferença entre o estar apaixonado e o viver com intensidade uma vibração amorosa. A paixão é cega e o apaixonado não consegue aperceber-se da realidade em que está metido. Eu estava lúcido, até porque a tal outra metade de mim não parava de nos observar e reflectir. Mas a verdade é que eu me sentia preso à Catarina com uma intensidade que não contava já ser capaz de viver e os meus quarenta e muitos anos estavam a desvendar-me forças e estados de alma que eu já não esperava viver.
Levantei-me, desci para a cozinha, tomei o pequeno-almoço e fiz o que se faz nestas ocasiões: preparei café e torradas, pus tudo num tabuleiro e fui levar-lho ao quarto. Ela já estava acordada e riu-se para mim, agradecida. Eu disse:
- Trago-lhe o café e as torradas. Acho que todos os namorados fazem esta rábula nos primeiros dias… É uma espécie de costumes e hábitos dos humanos quando se amam…
- São bem bons estes costumes dos nativos – disse ela, sentando-se na cama. Ficava bem assim, despenteada com o peito a sair dos lençóis. Até a comer a torrada a boca ficava sensual e provocante e eu olhava-a com a sensação de que aquela mulher não tinha nada que ver com a menina que conheci e com quem eu tinha aquelas conversas sobre literatura e estados de alma.


[Catarina ou o sabor da maçã - António Alçada Baptista]
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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Devem...


Pessoas, como cidades, devem dar vontade de visitar, devem satisfazer nossa necessidade de viver momentos sublimes, devem ser calorosas, ser generosas e abrir suas portas, devem nos fazer querer voltar...

[Martha Medeiros]



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terça-feira, 4 de setembro de 2012

Dançava, às vezes, por dentro de si mesma


Por vezes ouvia música. Só ela ouvia música; aliás, era ela que escolhia, mentalmente, as músicas que ouvia, ouvia secretamente essas músicas. E dançava com essas músicas; dançava com os olhos, com movimentos de cabeça, com os braços. Podia estar a ouvir pessoas e estar, ao mesmo tempo, a dançar essas músicas. Dançava; às vezes, por dentro de si mesma.


[Baptista-Bastos - as bicicletas em setembro]




^^

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Dentro do bombom há um licor a mais...


Faz de conta que o tempo se move ao sabor do desejo e não há nada além do hoje. Tudo em mim flutua na ligeireza dessa corrente, com simplicidade, sorrisos viciantes e sabor de chocolate.


Danni^^

domingo, 2 de setembro de 2012

Para Ti


Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo


Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram

no minuto em que falhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos

abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos

Eu descia em teu peito
para me procurar

e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só olhar
amando de uma só vida


[Mia Couto]



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quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Grão de Milho: O piruá


Sabe aquele milho que sobra na panela e se recusa a virar um floquinho branco, macio e alegre? Se chama piruá. Tem muita gente piruá neste planeta. Gente que não reage ao calor, que não desabrocha. Fica ali, duro, triste, inútil pro resto da vida. Não cumpre sua sina de revelar-se, de transformar-se em algo melhor. Não vira pipoca, mantém-se piruá. E um piruá emburrado, que reclama que nada lhe acontece de bom. Pois é… Perdeu a oportunidade de entregar-se ao fogo, tentou se preservar, danou-se. Com isso quero mostrar para aqueles que têm vocação para piruá que o importante na vida é reagir às emoções e não se manter frio, fechado, feito um grão de milho que não honrou seu destino.


[Martha Medeiros]


^^

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Quero-te a ti! Só a ti!


Nunca achara Basílio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado para aquelas intimidades da paixão: quase julgava possível viver ali, naquele cacifro, anos, feliz com ele, num amor permanente, e lunchs às três horas… Tinham as pieguices clássicas: metiam-se bocadinhos na boca: ela ria com os seus dentinhos brancos: bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos – e ele quis-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champanhe. Talvez ela não soubesse!
- Como é? – perguntou Luísa erguendo o copo.
- Não é com o copo! Horror! Ninguém que se preze bebe champanhe por um copo. O copo é bom para o Colares…
Tomou um gole de champanhe, e num beijo passou-o para a boca dela. Luísa riu muito, achou «divino», quis beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.
Tinham tirado os pratos da cama; e sentada à beira do leito, os pezinhos calçados numa meia cor-de-rosa pendiam, agitavam-se, enquanto um pouco dobrada sobre si, os cotovelos sobre o regaço, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça lânguida de uma pomba fatigada.
Basílio achava-a irresistível: quem diria que uma burguesinha podia ter tanto chique, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mãos, beijou-lhos; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias, com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ela corou, sorriu, dizia: - Não! Não! – E quando saiu do seu delírio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, murmurou repreensivamente.
- Oh, Basílio!
Ele torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinara-lhe uma sensação nova: tinha-a na mão!
Só às seis horas se desprendeu dos seus braços. Luísa fez-lhe jurar que havia de pensar nela toda a noite: - não queria que ele saísse; tinha ciúmes do Grémio, do ar, de tudo! – E já no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia:
- E amanhã mais cedo, sim?, para estarmos todo o dia.
- Não vais ver a D. Felicidade?
- Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguém! Quero-te a ti! Só a ti!
- Ao meio-dia?
- Ao meio-dia!


[“O Primo Basílio” – Eça de Queirós]
^^

sábado, 25 de agosto de 2012

Sessão pipoca - A Promessa



Não vejo nada, o que eu vejo não me agrada
Não ouço nada, o que eu ouço não diz nada
Perdi a conta das pérolas e porcos
Que eu cruzei pela estrada

Estou ligado a cabo
A tudo que acaba de acontecer

Propaganda é a alma do negócio
No nosso peito bate um alvo muito fácil
Mira a laser, miragem de consumo
Latas e litros de paz teleguiada

Estou ligado a cabo
A tudo que eles têm pra oferecer

O céu é só uma promessa
Eu tenho pressa, vamos nessa direção
Atrás de um sol que nos aqueça
Minha cabeça não aguenta mais

Tu me encontrastes de mãos vazias
Eu te encontrei na contramão
Na hora exata, na encruzilhada
Na highway da super-informação

Estamos tão ligados
Já não temos o que temer

O céu é só uma promessa
E eu tenho pressa, vamos nessa direção
Atrás de um sol que nos aqueça
Minha cabeça não aguenta mais

Não aguenta mais


[Engenheiros do Hawaii]


^^

quinta-feira, 23 de agosto de 2012



Ontem à noite, depois da sua partida definitiva,
fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque,
fui para ali onde fico sempre no mês de junho,
esse mês que inaugura o Inverno.

Tinha varrido a casa,
tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral.

Estava tudo depurado de vida,
isento,
vazio de sinais, e depois disse para comigo:
vou começar a escrever
para me curar da mentira de um amor que acaba.


Tinha lavado as minhas coisas,
quatro coisas,
estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa,
e também aquilo que encerrava o todo,
o corpo e a roupa,
estes quartos,
esta casa,
este parque.


E depois comecei a escrever...


[Marguerite Duras]
^^

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A última vez que te vi...


A última vez que te vi não te vi
prometi que sim que serias o sempre

o outro que me faz outra que me remete o troco de nenhuma troca
o reverso do verso que não escreves
a carta que não chega porque tu chegas de repente
quando só te espero pelo fim da tarde
e tu vens ao romper da noite
manso e sereno cheio de palavras esquecidas

no quarto de hotel onde sempre te vi e nunca te prendi

a última vez que te vi
foste o único que perdi
perdidos os laços
achados os compromissos
identificadas as teias
certas as redes
os trilhos de uma estrada que te afasta
que nos afasta.


e prometi-te um romance
uma "casa" cheia de água
uma cascata de imagens
a enorme metáfora que tu alinharias pelo fio da voz
pela cor dos quadros
pelo azul azul que um dia te amei.

a última vez que te vi
partias.

como sempre. Sempre em despedida obediente.
certo e eficaz tomaste o caminho do vento
e por lá te demoras em letras e títulos e retratos
cinzentos, não como tu, que és de luz
mas como eu fiquei da última vez que te vi
ausente

batida pelas folhas em branco
apagada no cinzeiro
e sempre de frente para o rio.
a última vez que te vi
fizeste-me em flor.

[Isabel Mendes Ferreira, Canto chão]
^^

domingo, 19 de agosto de 2012

O único Poema


No teu corpo é que o poema faz amor,
a dor das casas, o cheiro húmido das pétalas, as flores mais escuras.
quando uma nuvem te atravessa, é que o punhal fere o silêncio,
a morte dança, o mar começa.
no teu corpo é que as palavras carne e água são de carne e água,
os seios bússolas, a noite mágoa.

Se uma faúlha acende um poço de carvão, a vontade irrompe o cavalo do sangue.
É a tua pele que abre os olhos da chuva, a mão do vento, o dia claro.

Se um beijo desperta a ira dos relâmpagos, a manhã desce ao sal da língua, o tempo pára.
Sobre um novelo de palha, os ovos estalam nas estrias delicadas.
Troveja fortemente se o céu diz o teu nome.



[Alice Macedo Campos – in "o ciclo menstrual da noite"]


^^

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Suposição


Suponho que as pessoas, à força de se gastarem tanto a si e aos outros pelas palavras, são pelo menos coerentes ao reconhecerem sabedoria numa língua calada.



[William Faulkner]
^^

domingo, 12 de agosto de 2012

O Meu Amor Existe


O meu amor tem lábios de silêncio
E mão de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Separou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura

O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe.




[Jorge Palma]
^^