Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Quero-te a ti! Só a ti!


Nunca achara Basílio tão bonito; o quarto mesmo parecia-lhe muito conchegado para aquelas intimidades da paixão: quase julgava possível viver ali, naquele cacifro, anos, feliz com ele, num amor permanente, e lunchs às três horas… Tinham as pieguices clássicas: metiam-se bocadinhos na boca: ela ria com os seus dentinhos brancos: bebiam pelo mesmo copo, devoravam-se de beijos – e ele quis-lhe ensinar então a verdadeira maneira de beber champanhe. Talvez ela não soubesse!
- Como é? – perguntou Luísa erguendo o copo.
- Não é com o copo! Horror! Ninguém que se preze bebe champanhe por um copo. O copo é bom para o Colares…
Tomou um gole de champanhe, e num beijo passou-o para a boca dela. Luísa riu muito, achou «divino», quis beber mais assim. Ia-se fazendo vermelha, o olhar luzia-lhe.
Tinham tirado os pratos da cama; e sentada à beira do leito, os pezinhos calçados numa meia cor-de-rosa pendiam, agitavam-se, enquanto um pouco dobrada sobre si, os cotovelos sobre o regaço, a cabecinha de lado, tinha em toda a sua pessoa a graça lânguida de uma pomba fatigada.
Basílio achava-a irresistível: quem diria que uma burguesinha podia ter tanto chique, tanta queda? Ajoelhou-se, tomou-lhe os pezinhos entre as mãos, beijou-lhos; depois, dizendo muito mal das ligas «tão feias, com fechos de metal», beijou-lhe respeitosamente os joelhos; e então fez-lhe baixinho um pedido. Ela corou, sorriu, dizia: - Não! Não! – E quando saiu do seu delírio tapou o rosto com as mãos, toda escarlate, murmurou repreensivamente.
- Oh, Basílio!
Ele torcia o bigode, muito satisfeito. Ensinara-lhe uma sensação nova: tinha-a na mão!
Só às seis horas se desprendeu dos seus braços. Luísa fez-lhe jurar que havia de pensar nela toda a noite: - não queria que ele saísse; tinha ciúmes do Grémio, do ar, de tudo! – E já no patamar voltava, beijava-o, louca, repetia:
- E amanhã mais cedo, sim?, para estarmos todo o dia.
- Não vais ver a D. Felicidade?
- Que me importa a D. Felicidade! Não me importa ninguém! Quero-te a ti! Só a ti!
- Ao meio-dia?
- Ao meio-dia!


[“O Primo Basílio” – Eça de Queirós]
^^

sábado, 25 de agosto de 2012

Sessão pipoca - A Promessa



Não vejo nada, o que eu vejo não me agrada
Não ouço nada, o que eu ouço não diz nada
Perdi a conta das pérolas e porcos
Que eu cruzei pela estrada

Estou ligado a cabo
A tudo que acaba de acontecer

Propaganda é a alma do negócio
No nosso peito bate um alvo muito fácil
Mira a laser, miragem de consumo
Latas e litros de paz teleguiada

Estou ligado a cabo
A tudo que eles têm pra oferecer

O céu é só uma promessa
Eu tenho pressa, vamos nessa direção
Atrás de um sol que nos aqueça
Minha cabeça não aguenta mais

Tu me encontrastes de mãos vazias
Eu te encontrei na contramão
Na hora exata, na encruzilhada
Na highway da super-informação

Estamos tão ligados
Já não temos o que temer

O céu é só uma promessa
E eu tenho pressa, vamos nessa direção
Atrás de um sol que nos aqueça
Minha cabeça não aguenta mais

Não aguenta mais


[Engenheiros do Hawaii]


^^

quinta-feira, 23 de agosto de 2012



Ontem à noite, depois da sua partida definitiva,
fui para aquela sala do rés-do-chão que dá para o parque,
fui para ali onde fico sempre no mês de junho,
esse mês que inaugura o Inverno.

Tinha varrido a casa,
tinha limpo tudo como se fosse antes do meu funeral.

Estava tudo depurado de vida,
isento,
vazio de sinais, e depois disse para comigo:
vou começar a escrever
para me curar da mentira de um amor que acaba.


Tinha lavado as minhas coisas,
quatro coisas,
estava tudo limpo, o meu corpo, o meu cabelo, a minha roupa,
e também aquilo que encerrava o todo,
o corpo e a roupa,
estes quartos,
esta casa,
este parque.


E depois comecei a escrever...


[Marguerite Duras]
^^

quarta-feira, 22 de agosto de 2012

A última vez que te vi...


A última vez que te vi não te vi
prometi que sim que serias o sempre

o outro que me faz outra que me remete o troco de nenhuma troca
o reverso do verso que não escreves
a carta que não chega porque tu chegas de repente
quando só te espero pelo fim da tarde
e tu vens ao romper da noite
manso e sereno cheio de palavras esquecidas

no quarto de hotel onde sempre te vi e nunca te prendi

a última vez que te vi
foste o único que perdi
perdidos os laços
achados os compromissos
identificadas as teias
certas as redes
os trilhos de uma estrada que te afasta
que nos afasta.


e prometi-te um romance
uma "casa" cheia de água
uma cascata de imagens
a enorme metáfora que tu alinharias pelo fio da voz
pela cor dos quadros
pelo azul azul que um dia te amei.

a última vez que te vi
partias.

como sempre. Sempre em despedida obediente.
certo e eficaz tomaste o caminho do vento
e por lá te demoras em letras e títulos e retratos
cinzentos, não como tu, que és de luz
mas como eu fiquei da última vez que te vi
ausente

batida pelas folhas em branco
apagada no cinzeiro
e sempre de frente para o rio.
a última vez que te vi
fizeste-me em flor.

[Isabel Mendes Ferreira, Canto chão]
^^

domingo, 19 de agosto de 2012

O único Poema


No teu corpo é que o poema faz amor,
a dor das casas, o cheiro húmido das pétalas, as flores mais escuras.
quando uma nuvem te atravessa, é que o punhal fere o silêncio,
a morte dança, o mar começa.
no teu corpo é que as palavras carne e água são de carne e água,
os seios bússolas, a noite mágoa.

Se uma faúlha acende um poço de carvão, a vontade irrompe o cavalo do sangue.
É a tua pele que abre os olhos da chuva, a mão do vento, o dia claro.

Se um beijo desperta a ira dos relâmpagos, a manhã desce ao sal da língua, o tempo pára.
Sobre um novelo de palha, os ovos estalam nas estrias delicadas.
Troveja fortemente se o céu diz o teu nome.



[Alice Macedo Campos – in "o ciclo menstrual da noite"]


^^

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Suposição


Suponho que as pessoas, à força de se gastarem tanto a si e aos outros pelas palavras, são pelo menos coerentes ao reconhecerem sabedoria numa língua calada.



[William Faulkner]
^^

domingo, 12 de agosto de 2012

O Meu Amor Existe


O meu amor tem lábios de silêncio
E mão de bailarina
E voa como o vento
E abraça-me onde a solidão termina

O meu amor tem trinta mil cavalos
A galopar no peito
E um sorriso só dela
Que nasce quando a seu lado eu me deito

O meu amor ensinou-me a chegar
Sedento de ternura
Separou as minhas feridas
E pôs-me a salvo para além da loucura

O meu amor ensinou-me a partir
Nalguma noite triste
Mas antes, ensinou-me
A não esquecer que o meu amor existe.




[Jorge Palma]
^^

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

Amar é...


Olha, cuida bem de mim. Cuida do que eu sinto. A gente tem que baixar a guarda, engolir o orgulho, se deixar levar. Se perder para se encontrar. O amor é um encontro. De você com você mesmo. Amar é se ver nos olhos do outro. Mesmo que ele esteja com os olhos fechados.



[Clarissa Corrêa]



^^

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Como te amo?


Como te amo? Deixa-me contar os modos.
Amo-te ao mais fundo, amplo e alto
Minh'alma pode alcançar, além dos limites visíveis
E fins do Ser e da Graça ideal.

Amo-te até ao nível das mais diárias
E ínfimas necessidades, à luz do sol e das velas.
Amo-te com liberdade, como os homens buscam por Justiça;
Amo-te com pureza, como voltam das Preces.

Amo-te com a paixão posta em uso
Nas minhas velhas mágoas e com a fé da minha infância.
Amo-te com um amor que me parecia perdido

Com meus Santos perdidos - amo-te com o fôlego,
Sorrisos, lágrimas, de toda a minha vida! - e, se Deus quiser,
Amar-te-ei melhor depois da morte.



[Elizabeth Barrett Browning - XLIII]


^^

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sou Tudo ou Nada


Tenho cabeça, coração e me respeito. Acredito em sonhos, não em utopia. Mas quando sonho, sonho alto. Estou aqui é pra viver, cair, aprender, levantar e seguir em frente. Sou isso hoje, amanhã já me reinventei. Sou complexa, sou mistura. Me perco, me procuro e me acho. E quando necessário, enlouqueço e deixo rolar. Não me doo pela metade, não sou tua meio amiga nem teu quase amor. Ou sou tudo ou sou nada. Não suporto meios termos.


[Clarice Lispector]
^^

domingo, 5 de agosto de 2012

Correspondência Amorosa


Recuso os sonhos que te ignoram e os desejos que não possas despertar. Não quero fazer um gesto que não te louve, nem cuidar uma flor que não te enfeite; não quero saudar as aves que ignorem o caminho da tua janela, nem beber em ribeiros que não tenham acolhido o teu reflexo. Não quero visitar países que os teus sonhos não tenham percorrido como taumaturgos vindos de fora, nem habitar cabanas, que não tenham abrigado o teu repouso. Nada quero saber de quem te precedeu em meus dias, nem dos seres que aí permanecem.


[Rainer Maria Rilke a Lou Andreas-Salomé - in Correspondência Amorosa]



^^

sábado, 4 de agosto de 2012

Acredito na Saudade


Acredito em saudade, sei o quanto uma ausência pode doer, provocar contração muscular e até náusea.
Ausência física, ausência da voz e do cheiro, das risadas e do piscar de olhos, saudade da amizade, da paisagem, do momento, dos amores que ficaram nas lembranças e em algumas fotos.


[Martha Medeiros]



^^

sexta-feira, 3 de agosto de 2012

Amor da Palavra, Amor do Corpo


A nudez da palavra que te despe.
Que treme, esquiva.
Com os olhos dela te quero ver,
que te não vejo.
Boca na boca através de que boca
posso eu abrir-te e ver-te?
É meu receio que escreve e não o gosto
do sol de ver-te?
Todo o espaço dou ao espelho vivo
e do vazio te escuto.
Silêncio de vertigem, pausa, côncavo
de onde nasces, morres, brilhas, branca?
És palavra ou és corpo unido em nada?
É de mim que nasces ou do mundo solta?

Amorosa confusão, te perco e te acho,
à beira de nasceres tua boca toco
e o beijo é já perder-te.





[António Ramos Rosa]



^^

terça-feira, 31 de julho de 2012

A Vida e as Estações


Eu queria que a vida fosse dividida em quatro estágios, mas que não acabasse nunca.
A infância é como a primavera. É pura novidade e um calor que não sufoca nem faz pensar bobagens. Tem uma inocência quase cafona, uma singeleza clássica, e traz no íntimo a certeza de que pela frente vem coisa boa. A gente quer que passe logo, mas sabe que nunca mais será tão protegido, a mordomia não será eterna. É quando as coisas acontecem pela primeira vez, é quando num arbusto verde vemos surgir alguns vermelhos, é surpresa, a primeira de uma série.
A adolescência é como o verão. Quente, petulante, libidinosa.
Parece que não vai haver tempo para fazer tudo o que se quer e o que se teme. É musical e fotogênica. Dúvidas, dúvidas, dúvidas em frente ao mar. Mergulha-se no profundo e no raso. Pouca roupa, pouca bagagem. Curiosidade. Vontade que dure para sempre, certeza de que passa.
Noção do corpo. Festas e religião. Amor e fé.
A maturidade é como o outono. Um longo e instável outono, que alterna dias quentes e frios, que nos emociona e nos gripa. Há mais beleza e o ar é mais seco, porém é quando se colhem os melhores abraços. Ficar sozinho passa a não ser tão aterrorizante. Fugimos para a praia, fugimos para a serra, as idéias aprendem a se movimentar, a fazer a mala rápido, a trocar de rota se o desejo se impuser, e não é preciso consultar o pai e a mãe antes de errar. É o outono que tentamos conservar.
O inverno é como a velhice. Tem sua beleza igualmente, exige lã, bolsa de água quente, termômetro e uma janela bem vedada. O que não queremos que entre? Maus presságios. O inverno é frio como despedida de um grande amor, mas sabemos que tudo voltará a ser ameno. Queremos que passe, temos medo que termine. Ficar sozinho volta a ser aterrorizante. O inverno é branco, é cinza, é prata. É grisalho.
E, de repente, também passa.
Eu queria que tudo fosse verdade, que a vida fosse assim dividida em quatro estágios que mais parecem estações do ano, mas que não acabasse, que depois do inverno viesse outra primavera, e outro verão, e outro outono, que nunca são iguais, mas sempre se repetem, sempre voltam, são tão certos quanto o sol e a lua, todo dia, toda noite.

Eu queria.



[Martha Medeiros]



^^

domingo, 29 de julho de 2012

sábado, 28 de julho de 2012

Chegar jamais a si mesma...


"Eu te odeio", disse ela para um homem cujo crime único era o de não amá-la. "Eu te odeio", disse muito apressada. Mas não sabia sequer como se fazia. Como cavar na terra até encontrar a água negra, como abrir passagem na terra dura e chegar jamais a si mesma?


[Clarice Lispector]



^^

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Quando Assim


Quando eu era espera,
Nada era, nem chovia, nem fazia;
Só senti que a calma, não acalma
Quando só há solidão.
Quando eu era estrela
Era inteira na mentira que eu dizia
Ser o que não era,
Convencia, dentro da minha ilusão

Quando eu fui nada,
Faltou nada, tudo pronto pra escrever


Eu não sabia buscar,
Foi quando apareceu,
O que eu quis inventar,
Pra preencher o meu mundo particular,
No peito que era seu
No seu mundo não há
Mais nada que não eu,
Já sei dizer que o amor pode acordar.




[Núria Mallena]


^^

terça-feira, 24 de julho de 2012

Sessão pipoca - Acontecimentos



Eu espero
Acontecimentos

Só que quando anoitece
É festa no outro apartamento

Todo amor
Vale o quanto brilha
E aí
O meu ainda brilhava
Brilho de jóia e de fantasia


O que que há com nós dois, amor?
Me responda depois
Me diz por onde você me prende
Por onde foge
E o que pretende de mim

Era fácil
Nem dá pra esquecer
E eu nem sabia
Como era feliz de ter você

Como pôde
Queimar nosso filme
Um longe do outro
Morrendo de tédio e de ciúmes

O que que há com nós dois amor?
Me responda depois
Me diz por onde você me prende
Por onde foge
E o que pretende de mim



[Marina Lima]


^^