Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quarta-feira, 2 de maio de 2012

Confesso


Confesso acordei achando tudo indiferente
Verdade acabei sentindo cada dia igual
Quem sabe isso passa, sendo eu tão inconstante
Quem sabe o amor tenha chegado ao final

Não vou dizer que tudo é banalidade
Ainda há surpresas mas eu sempre quero mais
É mesmo exagero, vaidade!
Eu não te dou sossego, eu não me deixo em paz

Não vou pedir a porta aberta, é como olhar pra trás
Não vou mentir em tudo que falei, eu sou capaz
Não vou roubar teu tempo, eu já roubei demais

Tanta coisa foi acumulando em nossa vida
Eu fui sentindo falta de um vão pra me esconder
Aos poucos fui ficando mesmo sem saída
Perder o vazio é empobrecer

Não vou querer ser o dono da verdade
Também tenho saudade mas já são quatro e tal
Talvez eu passe um tempo longe da cidade
Quem sabe eu volte cedo ou não volte mais

[Cássia Eller]


^^

O Chão é Cama para o Amor Urgente


O chão é cama para o amor urgente,
amor que não espera ir para a cama.
Sobre tapete ou duro piso, a gente
compõe de corpo e corpo a húmida trama.

E para repousar do amor, vamos à cama.



[Carlos Drummond de Andrade - in 'O Amor Natural']



^^

terça-feira, 1 de maio de 2012

O Passado não Reconhece o seu Lugar: Esta Sempre Presente.


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo
um carinho no momento preciso
o folhear de um livro de poemas
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...


[Mário Quintana]


^^

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Conheço o Sal


Conheço o sal da tua pele seca
depois que o estio se volveu inverno
da carne repousando em suor nocturno.

Conheço o sal do leite que bebemos
quando das bocas se estreitavam lábios
e o coração no sexo palpitava.

Conheço o sal dos teus cabelos negros
ou louros ou cinzentos que se enrolam
neste dormir de brilhos azulados.

Conheço o sal que resta em minha mãos
como nas praias o perfume fica
quando a maré desceu e se retrai.

Conheço o sal da tua boca, o sal
da tua língua, o sal de teus mamilos,
e o da cintura se encurvando de ancas.

A todo o sal conheço que é só teu,
ou é de mim em ti, ou é de ti em mim,
um cristalino pó de amantes enlaçados.



[Jorge de Sena]
^^

domingo, 29 de abril de 2012

Diálogo em alguns Atos - Do meu jeito


^^

O Tempo Passa? Não Passa


O tempo passa? Não passa
no abismo do coração.
Lá dentro, perdura a graça
do amor,
florindo em canção.

O tempo nos aproxima
cada vez mais, nos reduz
a um só verso
e uma rima
de mãos e olhos, na luz.

Não há tempo consumido
nem tempo a economizar.
O tempo é todo vestido
de amor e tempo de amar.


O meu tempo e o teu, amada,
transcendem qualquer medida.
Além do amor, não há nada,
amar é o sumo da vida.


São mitos de calendário
tanto o ontem como o agora,

e o teu aniversário
é um nascer toda a hora.

E nosso amor, que brotou
do tempo, não tem idade,
pois só quem ama
escutou o apelo da eternidade.



[Carlos Drummond de Andrade - in 'Amar se Aprende Amando']


^^

sábado, 28 de abril de 2012

Sessão pipoca - Infinita Highway



Você me faz correr demais
Os riscos desta highway
Você me faz correr atrás
Do horizonte desta highway
Ninguém por perto, silêncio no deserto
Deserta highway
Estamos sós e nenhum de nós
Sabe exatamente onde vai parar

Mas não precisamos saber pra onde vamos
Nós só precisamos ir
Não queremos ter o que não temos
Nós só queremos viver
Sem motivos, nem objetivos
Nós estamos vivos e é tudo
É sobretudo a lei
Dessa infinita highway

Quando eu vivia e morria na cidade
Eu não tinha nada, nada a temer
Mas eu tinha medo, medo dessa estrada
Olhe só, veja você
Quando eu vivia e morria na cidade
Eu tinha de tudo, tudo ao meu redor
Mas tudo que eu sentia era que algo me faltava
E à noite eu acordava banhado em suor

Não queremos lembrar o que esquecemos
Nós só queremos viver
Não queremos aprender o que sabemos
Não queremos nem saber
Sem motivos, nem objetivos
Estamos vivos e é só
Só obedecemos a lei
Da infinita highway

Escute, garota, o vento canta uma canção
Dessas que a gente nunca canta sem razão
Me diga, garota: será a estrada uma prisão?
Eu acho que sim, você finge que não
Mas nem por isso ficaremos parados
Com a cabeça nas nuvens e os pés no chão
"Tudo bem, garota, não adianta mesmo ser livre"
Se tanta gente vive sem ter como comer

Estamos sós e nenhum de nós
Sabe onde vai parar
Estamos vivos, sem motivos
Que motivos temos pra estar?
Atrás de palavras escondidas
Nas entrelinhas do horizonte dessa highway
Silenciosa highway

Eu vejo um horizonte trêmulo
Eu tenho os olhos úmidos
Eu posso estar completamente enganado
Eu posso estar correndo pro lado errado
Mas "a dúvida é o preço da pureza"
É inútil ter certeza
Eu vejo as placas dizendo
"não corra, não morra, não fume"
Eu vejo as placas cortando o horizonte
Elas parecem facas de dois gumes

Minha vida é tão confusa quanto a América Central
Por isso não me acuse de ser irracional
Escute, garota, façamos um trato:
Você desliga o telefone se eu ficar muito abstrato
Eu posso ser um Beatle, um beatnik
Ou um bitolado
Mas eu não sou ator
Eu não tô à toa do teu lado
Por isso, garota, façamos um trato:
De não usar a highway pra causar impacto

Cento e dez, cento e vinte
Cento e sessenta
Só prá ver até quando o motor agüenta
Na boca, em vez de um beijo,
Um chiclet de menta
E a sombra do sorriso que eu deixei
Numa das curvas da highway



[Engenheiros do Hawaii]



^^

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Se eu fosse cego amava toda a gente


Se eu fosse cego amava toda a gente.

Não é por ti que dormes em meus braços que sinto amor. Eu amo a minha irmã gêmea que nasceu sem vida, e amo-a a fantasia-la viva na minha idade.

Tu, meu amor, que nome é o teu? Dize onde vives, dize onde moras, dize se vives ou se já nasceste.

Eu amo aquela mão branca dependurada da amurada da galé que partia em busca de outras galés perdidas em mares longíssimos.

Eu amo um sorriso que julgo ter visto em luz do fim-do-dia por entre as gentes apressadas.

Eu amo aquelas mulheres formosas que indiferentes passaram a meu lado e nunca mais os meus olhos pararam nelas.

Eu amo os cemitérios - as lágens são espessas vidraças transparentes, e eu vejo deitadas em leitos floridos virgens nuas, mulheres belas rindo-se para mim.

Eu amo a noite, porque na luz fugida as silhuetas indecisas das mulheres são como as silhuetas indecisas das mulheres que vivem em meus sonhos. Eu amo a lua do lado que eu nunca vi.

Se eu fosse cego amava toda a gente.


[Almada Negreiros, in 'Frisos - Revista Orpheu nº1']



^^

Sessão pipoca - Vilarejo



Há um vilarejo ali
Onde areja um vento bom
Na varanda, quem descansa
Vê o horizonte deitar no chão

Pra acalmar o coração
Lá o mundo tem razão
Terra de heróis, lares de mãe
Paraiso se mudou para lá

Por cima das casas, cal
Frutas em qualquer quintal
Peitos fartos, filhos fortes
Sonho semeando o mundo real

Toda gente cabe lá
Palestina, Shangri-lá
Vem andar e voa
Vem andar e voa
Vem andar e voa

Lá o tempo espera
Lá é primavera
Portas e janelas ficam sempre abertas
Pra sorte entrar

Em todas as mesas, pão
Flores enfeitando
Os caminhos, os vestidos, os destinos
E essa canção

Tem um verdadeiro amor
Para quando você for


[Marisa Monte]



^^

terça-feira, 24 de abril de 2012

A liberdade da Alma


Por toda a parte nos resta ainda uma alegria.

A dor pura entusiasma.
Quem sobe sobre a própria miséria, está mais alto.
E é magnífico saber que só na dor sentimos bem a liberdade da alma.



[Hölderlin, Hyperion]



^^

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Da recinto d'amore


La luna apparve, tonda, e ci distrasse
(nella finestra, in cima alla magnolia),
stavo per dire: "Non sei tu, l'amore.
Io voglio solo prenderti, tenerti
per una eternità che non misuro".
Corsero i giorni, la luna riapparve
(nel vento lieve, sopra la magnolia)
e mi dicesti: "Partirò domani.",
con la voce di chi non vuol ferire,
intanto caccia nel ventre un coltello.


[Elio Pecora]




^^

domingo, 22 de abril de 2012

Entre lugares que não existem


É impossível saber quando cairá o crepúsculo, impossível enumerar todos os casos em que o consolo se fará necessário. A vida não é um problema que possa resolver-se dividindo a luz pela escuridão ou os dias pelas noites, mas sim uma viagem imprevisível entre lugares que não existem.

[Stig Dagerman]


^^

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pássaros em Círculo


Atravessamos o jardim,
e, sob os nossos passos,
a neve estala como pão acabado de fazer.

Tudo tem a cor da palavra
que ainda não foi escrita.
É a hora.

Abraçados no meio do silêncio
parecemos dois anjos de barro.


Não importa se te digo «não voltes tarde a casa»,
da necessidade daquele que fica
não depende o reencontro.

Abro o gradeamento.
A sensação de perda gira dentro de mim
como um cão que ladra e que dá voltas
em redor de uma árvore.

Não importa se te digo para ficares.

A neve desnasce-se,
mostrando a fugacidade da beleza:
(amo-te porque sim, não para que o tempo
venha a ser mais benévolo comigo.)

O sol reconcilia-nos com a morte.

É a hora.
O relógio dos pássaros serve de tecto ao dia.




[Josep M. Rodríguez - A Caixa Negra]


^^

Sessão pipoca - Viva La Vida



I used to rule the world
Seas would rise when I gave the word
Now in the morning I sleep alone
Sweep the streets I used to own

I used to roll the dice
Feel the fear in my enemy's eyes
Listened as the crowd would sing
"Now the old king is dead! Long live the king!"

One minute I held the key
Next the walls were closed on me
And I discovered that my castles stand
Upon pillars of salt and pillars of sand

I hear Jerusalem bells are ringing
Roman Cavalry choirs is singing
Be my mirror, my sword and shield
My missionaries in a foreign field

For some reason I can't explain
Once you'd gone there was never
Never an honest word
That was when I ruled the world

It was the wicked and wild wind
Blew down the doors to let me in
Shattered windows and the sound of drums
People couldn't believe what I'd become

Revolutionaries wait
For my head on a silver plate
Just a puppet on a lonely string
Oh who would ever want to be king?

I hear Jerusalem bells are ringing
Roman Cavalry choirs are singing
Be my mirror, my sword and shield
My missionaries in a foreign field

For some reason I can't explain
I know Saint Peter won't call my name
Never an honest word
But that was when I ruled the world

Oh, oh, oooh, oh, oh, oh...

Hear Jerusalem bells are ringing
Roman Cavalry choirs are singing
Be my mirror, my sword and shield
My missionaries in a foreign field

For some reason I can't explain
I know Saint Peter won't call my name
Never an honest word
But that was when I ruled the world



[Coldplay]


^^

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Saudade


Saudade é nunca mais saber de quem se ama e ainda assim doer. Saudade é isso que senti (e sinto) enquanto estive escrevendo e o que você (deveria) provavelmente estar sentido agora depois que acabou de ler.

[Martha Medeiros]


^^

Entre Poemas Tanto


Dá-se um beijo
com o sossego mais ténue e tenebroso
possível.


Desconfiamos do texto com gratidão.
Pomos as pernas na chave de casa.
Levamos o talento para dentro.

O que arranha são as teias.

É melhor levantar com as névoas da manhã.
Preparar os sapatos, aquela rua.

Ah que dias.
Uma bomba estoira pela manhã na rádio.



[José Alberto Marques - Eu disse que Baudelaire andava a pé (1997)]


^^

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Das Minhas Estranhas Dores


No entanto hei-de falar-vos delas um dia, se me lembrar, se puder, das minhas estranhas dores, em pormenor, distinguindo entre os diferentes géneros, para maior clareza, as do entendimento, as do coração ou afectivas, as da alma (mais bonitas não há) e finalmente as do corpo propriamente dito, primeiro as internas ou latentes, depois as da superfície, começando pelo cabelo e couro cabeludo e descendo metodicamente, sem pressas, até aos adorados pés, lugar dos calos, cãibras, frieiras, joanetes, unhas encravadas, pústulas, gangrena, pé boto, pé de pato, pé-de-galo, pé-de-cabra, pé chato, pé de atleta e outras bizarrias. E, aos que tiverem a gentileza de me ouvir, falarei também, na mesma ocasião, de acordo com um sistema inventado já não me lembro por quem, daqueles instantes em que, sem se estar drogado, nem bêbado, nem em êxtase, não se sente nada.




[Samuel Beckett]



^^

terça-feira, 17 de abril de 2012

Das Divergências


De qualquer forma, extraio do seu post essa reflexão que é sempre instigante: o que é melancólico pra um, pode ser divertido pra outro. O que é bonito aos olhos de alguém pode ser tenebroso aos olhos de outro – nenhuma novidade nisso, mas fico animada cada vez que essa verdade se confirma, pois é essa divergência que, se não salva o mundo, ao menos o movimenta.


[Marta Medeiros]



^^

Acaso


No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.
Perco-me subitamente da visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar,
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma rapariga loira,
Mas qual delas?
Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade,
Numa outra espécie de rua;
E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade
Numa outra espécie de rua;
Por que todas as recordações são a mesma recordação,
Tudo que foi é a mesma morte,
Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional.
Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas?
Pode ser... A rapariga loira?
É a mesma afinal...
Tudo é o mesmo afinal ...

Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

[Álvaro de Campos]
^^

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Doer e Latejar


e quando o mar se retirar
o sol e a lua virão tatuar sobre o ombro
a silhueta viva de um bicho estelar
e a memória
essa parte calcinada da vida começará a doer e a latejar...

[al berto]
^^