Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

É preciso não esquecer nada


É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de atos,
a idéia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos conosco, pois o resto não nos pertence.


[Cecília Meireles]

^^

domingo, 10 de outubro de 2010

A beleza está nos olhos de quem vê


E repetia Dostoiévski loucamente fora de si: - A beleza salvará o mundo.
^^

Amor em vão


Céu azul, os dois pés na água, onde o mar acaba. O frio, a tarde, a solidão... Duas mãos vão rasgando as cartas lavando as mágoas. Assim é o amor em vão.
Cada canção de amor abre a ferida que não vê fim. Cada fração da dor agora é chuva que cai em mim. Digo não, é falso brilhante e sou nesse instante, um cego repentista ao sol. Que não vê, mas sente a dor em seu coração, assim é o amor em vão...
Cada canção de amor abre a ferida que não vê fim. Cada fração da dor agora é chuva que cai em mim.


Mas tudo vai passar, como tudo passa...


[Herbet Vianna]

^^

Perguntas sem Respostas


O que o futuro reserva pra mim?
Uma vida de tédio
Ou diversão sem fim?
Ser o primeiro
A nunca envelhecer
Não precisar de ninguém
Não ter nada a perder
Se você hesitar
A vida vai passar.


Solitários rejeitados e esquecidos
A vida é inventada e descoberta
Eu não tenho as respostas
E também não sei se essas são
As perguntas certas

Onde o destino vai me levar?
A uma rua escura
Ou de frente pro mar?
Eu vou mandar
Ou ser mandado?
Ser livre e despreocupado?
Se você hesitar
Ninguém vai esperar.



[Capital Inicial]

^^

sábado, 9 de outubro de 2010

...


Olhando o mar, sonho sem ter de quê.
Nada no mar, salvo o ser mar, se vê.
Mas de se nada ver quanto a alma sonha!

De que me servem a verdade e a fé?
Ver claro!
Quantos, que fatais erramos,
Em ruas ou em estradas ou sob ramos,
Temos esta certeza e sempre e em tudo
Sonhamos e sonhamos e sonhamos...

As árvores longínquas da floresta
Parecem, por longínquas, 'star em festa.
Quanto acontece porque se não vê!
Mas do que há pouco ou não há o mesmo resta. Se tive amores?
Já não sei se os tive.

Quem ontem fui já hoje em mim não vive.
Bebe, que tudo é líquido e embriaga,
E a vida morre enquanto o ser revive.
Colhes rosas?
Que colhes, se hão-de ser
Motivos coloridos de morrer?
Mas colhe rosas.
Porque não colhê-las
Se te agrada e tudo é deixar de o haver?

[Fernando Pessoa]

^^

Casar ou comprar uma bicicleta? Eis a questão!...



Depois de um tema pra lá de polêmico como o aborto, nada melhor do que falar de um tema bem mais light nesta semana. Quando eu recebi por e-mail “Tema da semana: casar ou comprar uma bicicleta? Confesso que fiquei a questionar, bateu aquela interrogação, até porque, não havia parado para pensar sobre isso. Não desta forma.

Na minha idade, minha mãe já tinha três filhos (no estilo escadinha), já havia feito laqueadura, vivia para o lar, enquanto meu pai era o único provedor da casa. Antigamente, quando as mulheres paravam suas vidas para cuidar de filhos e maridos, ficavam na condição de submissão do parceiro. Assim, tinham que aguentar traições, humilhações dos parceiros e viver um casamento de aparência, em nome dos filhos ou em nome da sociedade. Mulher separada era apontada na rua. Até a época dos meus pais - fim dos anos 80 - a virgindade era algo super importante, o preconceito era enorme com as "moças perdidas" e não havia conversa entre pais e filhos sobre sexualidade e vida reprodutiva. Aí vieram os anos 90, toda a modernidade, o salto tecnológico, a internet (amém) e a globalização do mundo neoliberal. Virgindade virou conceito ultrapassado, sexualidade virou assunto de mesa de bar.
Hoje em dia tudo mudou. O casamento não é o alvo mais almejado por moçinhas de contos de fadas. Até porque, antigamente, as moças eram criadas para ser dona de casa, sua vida era resumida em aprender a cozinhar, bordar, costurar, e faziam certo tipo de “estágio” com a supervisão da mãe em relação aos afazeres domésticos. Situação bem diferente das jovens de hoje que privilegiam, em primeiro lugar: os estudos, em segundo: a independência financeira, em terceiro: filhos, em quatro: casamento. Isso mesmo, quem foi que disse que pra ter filhos é preciso estar casada? E, quem foi que disse que filho prende casamento? Ai, ai, quanta ingenuidade!

Não sou contra casamento. Longe disso! O que vou escrever agora é apenas meu ponto de vista de como deve ser a relação de parceria entre casal. Não posso dizer que não vou casar, que desta água nunca beberei, o que posso afirmar é que, se um dia isso acontecer, quero ser para o meu companheiro alguém que acrescente algo, formar de fato uma parceria, não ser um “peso dependente” do marido, e, ele se sentir dono da situação por saber que eu não tenho escolha, a não ser aceitar as regras que ele impor, ou ser escrava dos olhos da sociedade machista, como eram as mulheres antigamente. Tão pouco, me submeter à contrapartida deste tipo de situação, não nasci pra sustentar malandro. Se for dessa forma, não caso.

Quero poder continuar a trabalhar fora, poder somar as coisas boas da vida, dar e receber amor, e dividir, por igual, e de maneira digna os problemas típicos de família. Quero um convívio nivelado, direitos iguais, respeito mútuo. Não quero atribuir ao meu parceiro a função de ser o responsável pela minha felicidade. Muitas mulheres fazem isso; param a sua vida em função do companheiro. Chegam a acreditar que prova de amor e passar a vida na beira do fogão fazendo guloseimas ou do tanque lavando suas cuecas. Já pensou que tragédia? E se um dia, sem mais nem menos, o cara arrumar uma sirigaita e cair fora? Óóóóóhhh!... Imagina o drama!
Como disse, sou a favor da parceria, da sintonia, da química. Prezo virtudes como:
AMOR, RESPEITO, LEALDADE e SINCERIDADE, pois tudo isso têm que ser a base sólida de qualquer relacionamento a dois. Quero ser a dona da minha felicidade. A dona do meu destino. A dona da minha vida.

Tenho plena certeza de que se as pessoas parassem de pensar, que a sua felicidade está no outro, não haveria tanto divórcio por aí.

Mas voltando à pergunta jocosa desta semana:
Casar ou comprar uma bicicleta?


Senhoras e Senhores trago boas novas:
O Ministério da saúde recomenda: Andar de bicicleta faz bem à saúde! Por isso, enquanto eu não encontro um candidato a noivo, vou mantendo minha saúde e minha silhueta pedalando por ai...

Ou
Quem sabe num futuro não muito distante, faço os dois? Até porque, para se levar uma vida realmente saudável, o melhor mesmo é casar e comprar uma bicicleta. Não é não gente?
A atividade física só faz bem, pois reduz o risco de diversas doenças e, de quebra, aumenta a produção de serotonina, o hormônio da felicidade.
Um bom casamento alivia as pressões do dia-a-dia e, cá entre nós, nada melhor para viver feliz do que viver um grande amor. Se for assim, por que não unir o útil ao agradável?

Obs.:
Para meus amigos leitores casados, namorados, noivos ou tico-tico no fubá, a dica é: Chame seu parceiro para pedalar com você. Assim vocês se divertem juntos, estreitam os laços e cuidam da saúde!


Danni^^

Falar de Amor não é Amar


Eu segui os seus passos
Achando que você
Soubesse onde ir.

Eu me vi em seus sonhos
Perdido, sem saber
Que direção seguir.

Mundos tão estranhos
Nas palavras que eu ouvi
No fundo dos seus olhos
Afogado em gelo
Eu descobri.

Falar de amor não é amar
Não é querer ninguém
Falar de amor
Não é amar alguém.


Eu caí em pedaços
Um grão de areia carregado
Por marés.

Derreti em seus lábios
Sentindo o chão sumir
Embaixo dos meus pés.

Dias esquecidos
No verão que eu inventei
Eu sei que você vive
Das mentiras que eu acreditei


[Capital Inicial]


^^

sexta-feira, 8 de outubro de 2010


No es que muera de amor, muero de ti.
Muero de ti, amor, de amor de ti,
de urgencia mía de mi piel de ti,
de mi alma de ti y de mi boca

y del insoportable que yo soy sin ti.

Muero de ti y de mí, muero de ambos,
de nosotros, de ese,
desgarrado, partido,
me muero, te muero, lo morimos.

Morimos en mi cuarto en que estoy solo,
en mi cama en que faltas,

en la calle donde mi brazo va vacío,
en el cine y los parques, los tranvías,
los lugares donde mi hombro acostumbra tu cabeza
y mi mano tu mano
y todo yo te sé como yo mismo.

Morimos en el sitio que le he prestado al aire
para que estés fuera de mí,
y en el lugar en que el aire se acaba
cuando te echo mi piel encima
y nos conocemos en nosotros, separados del mundo,
dichosa, penetrada, y cierto, interminable.

Morimos, lo sabemos, lo ignoran, nos morimos
entre los dos, ahora, separados,

del uno al otro, diariamente,
cayéndonos en múltiples estatuas,
en gestos que no vemos,
en nuestras manos que nos necesitan.

Nos morimos, amor, muero en tu vientre
que no muerdo ni beso,
en tus muslos dulcísimos y vivos,
en tu carne sin fin, muero de máscaras,

de triángulos obscuros e incesantes.
Me muero de mi cuerpo y de tu cuerpo,
de nuestra muerte, amor, muero, morimos.
En el pozo de amor a todas horas,
Inconsolable, a gritos,
dentro de mí, quiero decir, te llamo,
te llaman los que nacen, los que vienen
de atrás, de ti, los que a ti llegan.
Nos morimos, amor, y nada hacemos
sino morirnos más, hora tras hora,
y escribirnos y hablarnos y morirnos.

[Jaime Sabines]


^^

Tempo, tempo, tempo, tempo...


És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo...

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo...

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo...
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo...

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo...

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo...

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo...
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo...

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo...
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo...

[Caetano Veloso]


^^

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Eu sinto falta de você me chamar


^^

Não Sei se é Amor que Tens


Não sei se é amor que tens, ou amor que finges,
O que me dás. Dás-mo. Tanto me basta.
Já que o não sou por tempo,
Seja eu jovem por erro.
Pouco os deuses nos dão, e o pouco é falso.
Porém, se o dão, falso que seja, a dádiva
É verdadeira. Aceito,
Cerro olhos: é bastante.
Que mais quero?

[Ricardo Reis]


^^

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Só pro MEU Prazer


Não fala nada, deixa tudo assim por mim
Eu não me importo se nós não somos bem assim
É tudo real nas minhas mentiras,
E assim não faz mal
e assim não, me faz mal não...

Noite e dia se completam, no nosso amor e ódio eterno
Eu te imagino, eu te conserto, eu faço a cena que eu quiser
Eu tiro a roupa pra você, minha maior ficção de amor
Eu te recriei
só pro meu prazer, só pro meu prazer...

Não vem agora com essas insinuações
Dos seus defeitos ou de algum medo normal
Será que você, não é nada que eu penso
E também se não for, não faz mal
Não me faz mal, não.

[Leoni]

^^

Ai ai... (suspiros...)


Vou ali ser feliz e já volto...
^^

Tempo será:


A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo
E a palma da minha mão).

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será
.

[Manuel Bandeira]


^^

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Sessão pipoca - A aposta



"E me devora viva ali na mesma hora
Me diz no ouvido: a vida é devoração"...

[Luka]

^^

E por hora



Só me resta sonhar....

^^

Remissão

Tua memória, pasto de poesia,
tua poesia, pasto dos vulgares,
vão se engastando numa coisa fria
a que tu chamas: vida, e seus pesares.

Mas, pesares de quê? perguntaria,
se esse travo de angústia nos cantares,
se o que dorme na base da elegia
vai correndo e secando pelos ares,

e nada resta, mesmo, do que escreves
e te forçou ao exílio das palavras,
senão contentamento de escrever,

enquanto o tempo, em suas formas breves
ou longas, que sutil interpretavas,
se evapora no fundo de teu ser?


[Carlos Drummond de Andrade - in: Claro Enigma - 1951]

^^

segunda-feira, 4 de outubro de 2010


...Acontece que tenho um terrível amor-próprio. Sou tão desconfiado e suscetível quanto um corcunda ou um anão, mas, realmente, há ocasiões em que, se me derem uma bofetada, isso talvez me rejubile. Falo a sério; eu provavelmente descobriria aí um tipo especial de prazer - evidentemente, o prazer do desespero, pois é o desespero que encerra os mais intensos prazeres, particularmente quando se tem uma aguda consciência da própria situação.

[Dostoievski - Em "Notas do subterrâneo"]


^^

domingo, 3 de outubro de 2010

Coisas da Vida

Quando a Lua apareceu,
ninguém sonhava mais do que eu
Já era tarde, mas a noite é uma criança
distraída.
Depois que eu envelhecer,
ninguém precisa mais me dizer
como é estranho ser humano nessas horas de partida.

Ah, é o fim da picada
Depois da estrada começa uma grande avenida
No fim da avenida, existe uma chance, uma sorte, uma nova saída.
Qual é a moral? Qual vai ser o final dessa história?
Eu não tenho nada pra dizer, por isso digo
Eu não tenho muito o que perder, por isso jogo
Eu não tenho hora pra morrer, por isso sonho

Ah, são coisas da vida...
Ah, e a gente se olha e não sabe se vai ou se fica...
Ah, são coisas da vida...
Ah, e a gente se olha e não sabe se vai ou se fica...

[Composição: Rita Lee]

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Azul


Eu não sei
Se vem de Deus
Do céu ficar azul
Ou virá
Dos olhos teus
Essa cor
Que azuleja o dia...

Se acaso anoitecer
E o céu perder o azul
Entre o mar e o entardecer
Alga marinha, vá na maresia
Buscar ali um cheiro de azul
Essa côr não sai de mim
Bate e finca pé
A sangue de rei...

Até o sol nascer amarelinho
Queimando mansinho
Cedinho, cedinho (cedinho)
Corre e vá dizer
Pro meu benzinho
Um dizer assim
O amor é azulzinho...


[Composição: Djavan]

^^