Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Adiantamento





Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã, E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma... Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-rne para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...
Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-rne toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido
e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espectáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...

[Álvaro de Campos]
^^

domingo, 18 de outubro de 2009


Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição.
Agora compreendes porque já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.


[Anna Akhmátova]

^^
Os melhores anos da minha vida
passaram comigo ausente, passaram
numa corrente subterrânea.
Não me apercebi de nada, distraído
com a queda das folhas,
a densa mistura de pão e desordem.

Estava tudo em aberto, mas eu não sabia
senão de pequenas querelas,
e tímidos passos à toa, sempre à espera
de não ter futuro. Sentado, como um pobre,
sobre o poço de petróleo,
eu media com tesouras as semanas,
misturava-me com livros, ansiava
pelo dia em que deixasse de sangrar.

Os melhores anos da minha vida troquei-os
por isto.


[José Miguel Silva]
^^

Não digas ao que vens. Deixa-me
adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos

teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras
contam-me o resto da viagem. Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo - é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja - morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens. Decido eu.

[Maria do Rosário Pedreira]

^^

sábado, 17 de outubro de 2009

Horas profundas, lentas e caladas,
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata pelas estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca e misteriosa…
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

[Florbela Espanca]

^^

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe que respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes; tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caiam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

[Maria do Rosário Pedreira]

^^



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Recadinho:


"Dê a quem você ama
asas para voar
raízes para voltar
e motivos para ficar"

Por hoje é só!...
^^
Despi-me toda:
dos dedos ao ventre,
da minha pele à tua,
do meu pulsar à tua mão.
Estendi-me,
a oferenda dos deuses:
palpitante, morna,
balbuciando segredos.
E puseste as mãos
em concha, como ninhos,
e sentiste o fogo
e fechaste os olhos.
A luz brilhante cega
quando não a esperamos.

[Lourdes Espínola]

^^

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

En las horas de amortiguada luz, y música,
en las alegres noches de nuestra juventud,
velamos hasta que el alba llega,
y en el humo se quedan las palabras
que la sombra golpea,
las palabras borradas que fueron nuestra vida.

Hace tiempo que callo,
y son tristes las noches de nuestra juventud,
y el alba llega muerta.
Rodeado de frío vuelvo a la hostil ciudad,
y el clandestino amor me despide furtivo
desde las rotas sombras de los descampados,
y el día se alza lívido
como si sólo un muerto lo hubiese de habitar.

Con el recuerdo sólo de tu vida, porque fuiste mi vida,
qué abandonado estoy,
¿Y a quién le contaré lo que ahora siento?

[Francisco Brines]

^^

Na Nossa Casa

Quando anoiteceu
Nenhuma luz na nossa casa se acendeuAonde você estava?
Aonde estava eu?

Se tudo parecia nada, ainda assim...

O nada era mais do que o que você deixou no fim.

Quando aconteceu

Quando algo em que a gente acreditava se perdeu

Por onde você andava?

Por que não me socorreu?

Não é o fim do mundo é só o fim de tudo que fomos nós
Sem flutuar e sem tocar o fundo
Sempre sós.
[Composição: Herbet Vianna]
^^

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Batons e Cerejas


Recebi por email este texto, entretanto, me 'enviaram' sem autoria. Mas, mesmo assim, compartilho com vocês:

"Deixaste o batom vermelho em cima da mesa. Sempre quis dizer que o teu batom vermelho me fazia lembrar cerejas. Tu fazias-me lembrar cerejas. Sabias a cerejas. Penso que é um elogio. Afinal, quem não gosta de cerejas? E, no entanto, nunca te disse. Não te disse muita coisa.
Olho para o relógio. Já passa das dez da noite. Levanto-me e vou fazer um gin tónico. Sento-me e dou um pequeno gole. Pouso o copo na mesa. Lembro-me como costumavas beber o teu gin, com três pedras de gelo. Sempre pelo copo, nunca por uma palhinha. Rias-te quando te diziam que gin era uma bebida de homens. Rias-te e o teu batom vermelho fazia-te parecer mais mulher que nunca. Reparo que me esqueci de pôr uma base por debaixo do copo. Lembro-me como te rias sempre que eu te chamava a atenção para isso, como troçavas do meu cuidado com os móveis, do meu zelo de quase dona-de-casa. Muitos poderiam também dizer que essa tarefa te competia a ti, como mulher que eras e eu seria o estouvado homem que pousa a bebida na mesa, sem se importar se suja os móveis ou não. Se ouvisses alguém dizer uma coisa dessas, provavelmente ririas muito, também. Não te importavas com os politicamente-correctos, com as convenções, com as etiquetas. Simplesmente sentavas-te no sofá com a maior descontracção, davas um gole no gin tónico, deixavas o copo manchado com o teu batom vermelho e pousava-lo na mesa (sem base). E rias, rias muito. Eu costumava dizer-te que eras linda. E tu rias ainda mais e eu sentia-me um tolo ao dizê-lo. O problema é que só agora percebi porque é que te rias. Eu devia saber que tu, com o teu gosto pelo não-convencional, não gostavas que te considerassem linda. Em parte gostavas, claro, qualquer mulher gosta. Mas não era isso aquilo que querias destacar mais em ti.

Uma mulher linda não chega. Não é uma Mulher.
Sei hoje que preferias se eu te dissesse que eras uma mulher interessante.
Porque uma mulher linda não bebe gin tónico. Uma mulher interessante sim.
Uma mulher linda não ri demasiado, contém-se.
Uma mulher interessante ri-se naturalmente, com naturalidade.
Uma mulher linda põe uma base por debaixo do copo,
Uma mulher linda garante que o seu batom não mancha o copo.
Uma mulher linda sabe cozinhar.
Uma mulher linda está sempre penteada.
Uma mulher linda não fuma, porque isso lhe amarelece os dedos.
Uma mulher linda vai ao ginásio todas as semanas.
Uma mulher linda não come um bife, prefere uma salada.
Uma mulher linda não chega atrasada.
Uma mulher linda combina os sapatos com a mala.
Uma mulher linda não beija um homem só porque sim.
Uma mulher linda não vai para debaixo da chuva propositadamente, enquanto se ri, ri, ri.
Uma mulher linda nunca se ri quando lhe dizem que é linda, sorri apenas.
Nunca poderias ser uma mulher linda, não. Eras tão mais do que isso... Eras genuína. Eras única. E eras confiante na tua singularidade.

Uma vez beijaste-me a meio de uma frase. E as tuas cerejas valeram por mil palavras.
O teu corpo valia por um discurso inteiro. Eu costumava dizer que um dia, quando fôssemos mais velhos, íamos viver para uma casa ao pé da praia e que todas as noites bebíamos um gin tónico na varanda e eu pegava na guitarra e tocava algo para ti.
Aí, tu já não rias, sorrias apenas. E respondias com um simples 'talvez'.
Depois passavas os dedos pelo meu cabelo e olhavas para o fundo dos meus olhos. E o teu olhar era triste, tão triste. Acho que adivinhavas o que ia acontecer.

O gin tónico continua em cima da mesa. Perdi a vontade de o beber.
Vou buscar a guitarra. Passo os dedos pelas cordas e lembro-me como era passar os dedos pelas tuas costas. É impossível esquecer-te, estás em todo o lado. Esta casa cheira a ti. Respira-se o teu perfume em cada canto, em cada livro, em cada disco. Há fotografias tuas por todo o lado, aquelas que eu te tirava (e tu dizias: "Um dias vou saber tirar fotos bonitas como tu tiras").
O teu sorriso está em todo o lado, as cerejas estão por todo o lado. Fui atrás de um Channel barato, duma suposta mulher linda. Duns sapatos a condizerem com a mala. De um corpo de modelo e de uma alma vazia. De uma mulher que não ria, sorria apenas. Que fui eu fazer?
.
.
.
Cheguei a casa e encontrei apenas um batom vermelho em cima da mesa.
Mas não era o teu, a marca era outra.
Aquele era Channel, nunca seria teu.
Aquele era a prova da minha traição, da minha loucura. Nem deixaste um bilhete. Mas sabes?

Aquele batom nunca, nem por uma vez, soube as cerejas."
^^

O rosto mostra:
o lado do amor e o lado predisposto
para o choro
e para o íntimo
jogo do que se vê posto para repouso.

Demais denota vida:
quando respira
os ares reais
em sítio
próprio para sentir
que o dom do amor
é vivo ansioso.

[Fiama Hasse Pais Brandão]

^^

"Só hoje senti
que o rumo a seguir levava pra longe...
Senti que este chão
já não tinha espaço pra tudo o que foge.
Não sei o motivo pra ir
só sei que não posso ficar,
não sei o que vem a seguir
mas quero procurar (...)"

[Mafalda Veiga]
^^

Quero calma


Acordou em mim a vontade de ficar submersa n' água ouvindo o estrondoso silêncio que nela habita. Só eu e o vazio dos meus pensamentos. A mergulhar nas profundezas dessa calma...

^^

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Uma Palavra

Anda desde manhã uma palavra
a perseguir-me, a espreitar-me de longe
em atitude nítida de pose,
em clara posição de desafio
.

Sugere-se ligeira e disfarçada,
depois foge como uma Mata-Hari
lexical. Não sei o que em mim vê:
não tenho alta patente nem estatuto.

E contudo, ela anda por aí.
Sonora e inaudível, surge-me
do silêncio e dos ruídos longos,
brevíssima nos cantos - e perigosa.

Lá passou outra vez. E anda nisto
desde que me vesti e vi o sol.
Nada a faz desistir: nem a tarde
a cair, nem a minha ameaça de fuzis.

[Ana Luísa Amaral]

^^

Faltas-me. Se aqui estivesses isto não seriam
palavras. Um trinco por dentro, essa ilusão
de voltar a ti olhando os papéis, desconheço
o que de mim resta quando as horas quase trazem
o silêncio e a boca se abre, faz a passagem
do teu corpo a um corpo que aproveita
a substituição que não sabe. Mudaremos o tempo
para nenhuma exigência, faltas-me quando estás
a caminho, já oiço os teus passos subindo
no fundo da escada. Amanhece. Nos sonhos
que não sou capaz de lembrar vens tocar-me
nos ombros e dizer ainda não são horas, ainda
não é alba. As palavras faltam-me, vou
calar-me nas duas voltas da chave, este papel
apagado, sujo da ausência dos teus gestos.

[Helder Moura Pereira, De novo as sombras e as calmas]

^^

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Segue-me noite e dia o teu desejo!...
Oiço a tua voz rúbida e cantante
Suplicar-me a carícia do meu beijo,
numa teima exigente e perturbante!


E o meu corpo vencido, dominado,
vai tombar doloroso, inconsciente,
sobre a lembrança morna do passado
- e fica-se a sonhar... perdidamente!


[Judith Teixeira]


^^

Cidade de Orgias

Cidade de orgias, passeios, alegrias,
Cidade daquele que, tendo vivido e cantado em teu seio, te fará ilustre um dia,
Não serão as tuas exposições, nem os teus quadros,
Nem teus espetáculos, que me recompensarão,
Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nas tuas docas,
Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,
Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou uma festa.

- Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan,
O teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,
Ofertando-me uma resposta, isso sim me recompensa,
Amantes, continuadas amantes, tão-só me recompensam.

[Walt Whitman - POEMAS DE FOLHAS DA RELVA]

^^


... Estou apaixonada.
E este amor vai decerto arrastar-me
para longe...
A corrente é demasiado forte, não tenho escolha
possível...
Posso acabar por perder tudo.
Mas já não posso voltar atrás.
Só posso deixar-me ir com a maré.
Mesmo que
comece a arder,
mesmo que desapareça para sempre...

[Haruki Murakami, Sputnik - meu amor]

^^

domingo, 11 de outubro de 2009

Retribuindo: recadinho cheio de duplo sentido: =)


Entendeste, meu caro?

^^

Escondo a raiva das lágrimas do nada
que te dei

Ferida dilacerada
sangue exposto nos caminhos que plantamos
nos desertos da nossa esperança

Poderíamos amar loucamente
a sombra do gesto
a canção nua
o vinho a semente a baga
construir cometas à volta do desejo

se não fosse a alma a remissão e o pecado

Poderíamos benzer as casas com hortelã
onde acendo o coração aberto

mas há a excomunhão das trepadeiras
e eu entendo...

[Gonçalo Nuno dos Santos]

^^

sábado, 10 de outubro de 2009

(...)

Photobucket
Às vezes queria que a água lavasse
a culpa do rosto, levasse de dentro
estilhaços, (pensamentos) impurezas...

[João Luís Barreto Guimarães]

^^

Não sou uma vitória ou uma derrota,
mas me conquisto sempre cada dia,
procurando essa forma mais remota
do que em mim nos instantes se perdia.
Nem um profundo mar, nem superfície,
nem vento ou pedra: leve, na existência,
balanço entre as montanhas e a planície
com asas no sentir, preso à consciência.
Tudo o que é meu anseia uma amplidão,
de um céu inacabado a nostalgia.

É o peso desta terra em minha mão.
E enquanto espero o mundo na Poesia
enfim suprir, eu luto e mais persigo
esta idéia de mim, que não consigo.

[Lupe Cotrim]

^^


Da janela lateral do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um vôo, pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal

Mensageiro natural de coisas naturais
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desse homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quis acreditar
Que eu apenas era...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


Não te importes amor
se tivermos a alma em desalinho.

Amanhã cortaremos as sombras do quintal
sem acreditar que as sombras devam ser
sombrias. Mas é reconfortante acreditar na língua
e na sabedoria popular
e em tudo o que nos torna cúmplices.

Não te importes se for outono. Nunca pensaremos
que as coisas declinam porque nos amamos,
conjugaremos todas as estações com este amor,

pagaremos os impostos - agora é mais fácil
com o multibanco -, escreverás cartas
e algumas deixarás de escrever
porque as penas do edredão são leves
e não é saudável resistir ao amor.

Não te importes se estivermos ocupados
com pequenas coisas. És tão belo
a limpar a louça como a dizer um poema,
a arrumar os papéis ou a desabotoar-me o vestido.
Pão nosso nos dai hoje a torradeira amanhã bem cedo,
o forno quente, a manteiga a escorrer, a tua mão a segurar
a chávena e todas as coisas que nos fazem sorrir
só porque nos amamos e o sabemos
por hoje e pelo tempo que virá,
porque resistimos à burocracia e ao cansaço,
porque aprendemos a olhar o rio
a ver como é diferente quando o dia nasce, quando
a noite cai, quando uma chuva miúda torna a terra fértil
e cheira a estrume, a merda de alcatrão lavado.

Não te importes amor se hoje te amo tanto.
Amanhã tens mais uma sílaba
e é com ela que te conjugo entre os lençóis.


[Rosa Alice Branco]

^^

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


Embriaguei-me num doido desejo
E adoeci de saudade.
Caí no vago ... no indeciso
Não me encontro, não me vejo -
Perscruto a imensidade

E fico a tactear na escuridão
Ninguém. Ninguém
Nem eu, tão pouco!

Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco.

[Judith Teixeira]

^^

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Querer-te é sentar-me na praça, logo de manhã, só para te ver passar
Querer-te é os teus olhos, o teu sorriso cúmplice, as tuas palavras
Querer-te é também não me veres, se por acaso alguém está perto
Querer-te é haver sol e vento e estrelas. É o verde das acácias e das
palmeiras e as rosas de Jericó alinhadas até à ponta das dunas.
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa, as tâmaras, a voz
da grande Kolthoum vinda de uma janela num cântico apaixonado ao Nilo
Querer-te é haver noite - ah, sobretudo a noite! E é o teu corpo nu,
exausto, branco como um templo, porque todos os corpos são um
templo no solo consagrado que há.
Querer-te é o sorriso no rosto das crianças, o grácil e dançante
caminhar das mulheres, a fonte, as águas.
Querer-te é tudo, até o meu desejo de te não querer.

[Victor Oliveira Mateus]

^^

Onde os limites
ao poder dum amor cego
sob a venda negra da paixão

Onde os limites
se
a pele é seda
a dor é prazer
o obsceno aguilhão
a exaustão prado ameno

Retirada a venda à paixão
resta a calma no olhar
ao mais fundo da alma...

[Daniel Sant'Iago]


^^

terça-feira, 6 de outubro de 2009



Minhas mãos não são minhas mãos
são pássaros rasando a tua pele nua

São voos planados descobrindo céus
imagens loucas de total candura

Minhas mãos somente
inventam barcos e partem à procura
das tuas mãos nas minhas.

[Bernardete Costa]

^^

segunda-feira, 5 de outubro de 2009


Só o verde fala neste tempo de silêncio
Somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores
Espera, pensei em folhas e a primavera explodiu-me na boca da alma.

[Maria Sousa]

^^

Noites Com Sol

Ouvi dizer que são milagres
Noites com sol
Mas hoje eu sei não são miragens
Noites com sol
Posso entender o que diz a rosa
Ao rouxinol
Peço um amor que me conceda
Noites com sol

Onde só tem o breu
Vem me trazer o sol
Vem me trazer amor
Pode abrir a janela
Noites com sol e neblina
Deixa rolar nas retinas
Deixa entrar o sol

Livre será se não te prendem
Constelações
Então verás que não se vendem
Ilusões
Vem que eu estou tão só
Vamos fazer amor
Vem me trazer o sol
Vem me livrar do abandono
Meu coração não tem dono
Vem me aquecer nesse outono
Deixa o sol entrar

Pode abrir a janela
Noites com sol são mais belas
Certas canções são eternas
Deixa o sol entrar...

[Composição: Flávio Venturini / Ronaldo Bastos]

^^
Adonde vas ahora
Alguien llama por tu nombre
En la estación

Tiraste tus sueños por la ventana
Dejaste en un papel tu dirección
Yo sé porque lloras
Nunca es fácil tomar la decisión
Alguiien te hace falta en la mañana
Y a alguien le rompiste el corazón
Suena otra vez tu nombre
En la estación

Ya no tienes tan claro porque vas
Por que no alcanzas
El tiempo que no pára
Y ahora llena el aire una canción
Quizas tu nueva vida empieza ahora
Del viejo mundo solo una impresión
Quizás no sea el fin de la historia
Quizás nunca dejaste
La Estación

[Composição: Herbert Vianna]

^^

domingo, 4 de outubro de 2009

Tenho-te na pele como voz
que ainda não tive tempo de despir.

Faço uma pausa, escolho um vestido novo
mas mesmo assim fico um adereço imperfeito
no teu esquecimento...

[Maria Sousa]

^^

Não, não passa o tempo
Ao menos para mim
Tomo comprimidos e sigo sem dormir
Vejo tantos portos, não há onde atracar
Já não existem laços, alguém cortou
(Trac, trac, trac)

Todos os perfumes, todo aquele lugar
Todas as misérias e tudo mais que há
Cada movimento do sol sobre você
Cada móvel velho e cada anoitecer

Dá-me tu amor, solo tu amor
Solo dá-me tu amor

Poucas garantias há para nós dois
Nada neste mundo tem tanto valor
Todos os vizinhos parecem saber
E lançam seus olhares sobre eu e você...

Veio todo mundo, a Rádio e a TV
Veio o comissário, anjos do céu também
Todos querem algo, sangue ou não sei quê
Em todo Universo nada lhes dá mais prazer...

Dá-me tu amor, solo tu amor
Solo dá-me tu amor

[Composição: Fito Paez]

^^

=)


^^



Sobes à minha frente
a nudez dos pés tacteando os ruídos
do soalho antigo
no sótão o sol está a pôr-se
e tu vais estender-te longamente na colcha
com uma pequena chama ardendo sobre a púbis
mas agora sobes ainda
e os meus olhos de insecto seguem-te
enquanto nos seus milhares de lâminas
a luz dos teus joelhos se repercute
será que quando chegar junto de ti
já tudo se consumou?
Durará o dia mais uns instantes,
ou voarão as asas do desejo
para além das janelas, livres na noite?
Tu sobes sempre, e atrás de ti
os meus dois olhos assassinos.

[Vítor Oliveira Jorge, Os ardis da imagem]

^^

sábado, 3 de outubro de 2009

Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.
Eu queria rir, chorar,
ou pelo menos sorrir
com a mesma leveza com que
os ares me beijavam.
Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça,
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimônia que caracterizava
as agitações me chamando.

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio.

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las.

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.



[Ana Cristina César]
^^

... O amor é paciente, o amor é prestável, não é invejoso, não é arrogante nem orgulhoso, nada faz de inconveniente, não procura o seu próprio interesse, não se irrita nem guarda ressentimento.
Não se alegra com a injustiça, mas rejubila com a verdade.
Tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.
O amor jamais passará...

[Coríntios 13, Bíblia Sagrada]

^^

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Deixar-me talvez, contigo.
...Sussurrar-me – [te].
O dia quase nasce.
Desejo dizer-te que estou aqui, agora.
Sei que sempre me pressentes, ou sabes. Sei.
Pergunto-me como poderias não saber?... Essa ideia é-me estranha.
Se também te sei.
O não sentar e olhar as nuvens de passagem de formatos bizarros o envolver-me em uma delas e deixar que me leve percorrendo a distância entre dois pontos que unidos traçam uma recta e nos colocam de lábios nos lábios, se eu também sei...

[António José Pinto Correia]


^^