Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]
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sábado, 15 de agosto de 2009
sexta-feira, 14 de agosto de 2009
[?]
Como posso eu amar-te, se nem seicomo à porta te chamam os vizinhos,
nem visitei a rua onde nasceste,
nem a tua memória confessei.
(?)
Que vaga rima me permite agora
desenhar-te de rosto e corpo inteiro
se só na tua pele é verdadeiro
o lume que na língua se demora...
Que vaga rima me permite agora
desenhar-te de rosto e corpo inteiro
se só na tua pele é verdadeiro
o lume que na língua se demora...
(?)
Não deixes que te enganem os recados
na infernal gazeta publicados
que te dão já por escultura minha;
nocturno frankenstein, em vão soprei
trombas de criação, e foste tu
quem me criou a mim quando quiseste.
[António Franco Alexandre]
na infernal gazeta publicados
que te dão já por escultura minha;
nocturno frankenstein, em vão soprei
trombas de criação, e foste tu
quem me criou a mim quando quiseste.
[António Franco Alexandre]
^^
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
quarta-feira, 12 de agosto de 2009
Tréguas
terça-feira, 11 de agosto de 2009
*Chuva que te Lava os Olhos

Os olhos cheios de escuridão. Olhos cegos de silêncio. Olhos de quem grita calado. O peso enorme arrastado atrás de cada palavra. Os passos zangados de quem tem tudo a dizer e a tristeza colada à cabeça. Lágrimas cobertas de chuva. E um Bom Dia, menina. E depois todas as lágrimas contidas num sorriso. Não me lembro das caixas de cartão (cama improvisada ao relento), não me lembro dos cobertores encharcados (castanhos e friorentos), nem sequer das poucas moedas (em forma de esmola) caídas no chão molhado como uma bênção qualquer. Lembro-me que, por fim, já não havia silêncio entre nós. Alguma coisa o tinha levado dali. Talvez o Bom Dia, menina. E o sorriso. Sim, aquele sorriso de quem já não tem mais nada a perder.
O sol espreitou, depois foi embora, e a vergonha escondida nos olhos do silêncio viajou para outro lugar. Ouvi cada suspiro teu, cada passo apressado dos senhores sem tempo e cada tentativa perdida para roubares outro sorriso a quem passasse por ti. Ouvi muitos Bom Dia sussurrados e nenhuma resposta feliz. Vi todos os olhos cegos, falsamente despercebidos, ocupados por preocupações inquietas e fúteis. Na verdade, gostava de ajudar-te a levantar. Gostava que ficasses com os olhos cheios de céu e de mar. Porque podíamos ser irmãos. E eu podia sentir-me pequena e protegida outra vez. E pedir abraços, muitos abraços (daqueles que também precisas), e cócegas e segredos e queixas e gargalhadas cúmplices. Porque o teu céu aqui, no meio deste chão, a apontar-te para o fundo da alma, é menos azul que o meu. Quase sem sonhos. O céu aqui não tem telhado de cores. Só árvores antigas que servem de abrigo ao corpo cansado da falta de oportunidades. Debaixo dele será que és feliz? Bom Dia, menina. E tu, da minha idade, quase aposto. E eu, menina, pelo menos para ti.
Apetece-me agarrar-te a mão. E perguntar Como estás? Não sou menina. (Serei?) Reconheço-te os olhos doces, doridos e livres. Sim, talvez sejamos todos meninos perdidos (por algum capricho ou força do destino) na encruzilhada das nossas vidas. E quem nunca se sentiu assim? Até os tiranos dos relógios e das obrigações, quase que aposto. (Gostas de apostas?)
Queria saber abraçar-te, queria que deixasses de tremer ao frio, queria aconchegar-te os sonhos à mesinha de cabeceira. E queria parar o tempo num momento assim. Dar-te a esperança – só porque alguém (algum dia) ta tirou. Quando foi isso? Queria ter a certeza de que poderás chegar a casa, depois de mais um dia de loucos (exactamente como hoje – com chuva e vento à mistura) e vestir um pijama lavado para dormires descansado. Num tecto teu. Sem olhares reprovadores que acusam subtilmente os erros que te trouxeram até aqui. Sem medo e sem vergonha de seres tu. E que possas dizer vezes sem conta Bom Dia, menina. E que, de facto, te respondam com vontade. E te desejem um futuro melhor. Pelo menos igual ao deles.
Porque eu tenho o teu sorriso na cabeça. Porque me roubaste os olhos e me mostraste os teus, cheios de palavras por dizer. Como os meus. Sabes, todos olham para mim em silêncio e ninguém respira. A escuridão é gigante. E dentro dos teus ouvidos (quase aposto) também descem soluços sem nome. E fechas os olhos, escondes-te debaixo desses cobertores sujos e esqueces que o mundo é sempre o mesmo. Pesado porque só gira para alguns. Pesado para quem se fez sozinho. E os outros passam. Passam e falam e tropeçam em ti sem sequer dar conta. Calcam-te o orgulho e não dizem nada. Desculpe, não o vi de vez em quando. Raramente. Não abrem a boca. Só os olhos cobertos de escuridão a apontar para ti em silêncio. Nem uma palavra bonita. Nem um Bom Dia igual ao teu. E tu ouves o que não dizem com a paz que têm as árvores que te servem de tecto. E fazes de conta que não vês, que não sentes esse desprezo vulgar a roer-te os ossos. Para todas as coisas é preciso fazer de conta. Assim, faz de conta comigo. Faz de conta que te dei mesmo a mão quando me aproximei. Deixei-te um Bom Dia. A minha moeda foi o meu abraço. Bom Dia, menino. Porque no fundo também és como eu, até aposto. E amanhã (de manhã cedo) volto para mais um Olá. Mesmo com chuva. Daquela chuva que só te lava os olhos. Daquela chuva que não te deixa triste.
[Vanessa Sousa]
^^
O sol espreitou, depois foi embora, e a vergonha escondida nos olhos do silêncio viajou para outro lugar. Ouvi cada suspiro teu, cada passo apressado dos senhores sem tempo e cada tentativa perdida para roubares outro sorriso a quem passasse por ti. Ouvi muitos Bom Dia sussurrados e nenhuma resposta feliz. Vi todos os olhos cegos, falsamente despercebidos, ocupados por preocupações inquietas e fúteis. Na verdade, gostava de ajudar-te a levantar. Gostava que ficasses com os olhos cheios de céu e de mar. Porque podíamos ser irmãos. E eu podia sentir-me pequena e protegida outra vez. E pedir abraços, muitos abraços (daqueles que também precisas), e cócegas e segredos e queixas e gargalhadas cúmplices. Porque o teu céu aqui, no meio deste chão, a apontar-te para o fundo da alma, é menos azul que o meu. Quase sem sonhos. O céu aqui não tem telhado de cores. Só árvores antigas que servem de abrigo ao corpo cansado da falta de oportunidades. Debaixo dele será que és feliz? Bom Dia, menina. E tu, da minha idade, quase aposto. E eu, menina, pelo menos para ti.
Apetece-me agarrar-te a mão. E perguntar Como estás? Não sou menina. (Serei?) Reconheço-te os olhos doces, doridos e livres. Sim, talvez sejamos todos meninos perdidos (por algum capricho ou força do destino) na encruzilhada das nossas vidas. E quem nunca se sentiu assim? Até os tiranos dos relógios e das obrigações, quase que aposto. (Gostas de apostas?)
Queria saber abraçar-te, queria que deixasses de tremer ao frio, queria aconchegar-te os sonhos à mesinha de cabeceira. E queria parar o tempo num momento assim. Dar-te a esperança – só porque alguém (algum dia) ta tirou. Quando foi isso? Queria ter a certeza de que poderás chegar a casa, depois de mais um dia de loucos (exactamente como hoje – com chuva e vento à mistura) e vestir um pijama lavado para dormires descansado. Num tecto teu. Sem olhares reprovadores que acusam subtilmente os erros que te trouxeram até aqui. Sem medo e sem vergonha de seres tu. E que possas dizer vezes sem conta Bom Dia, menina. E que, de facto, te respondam com vontade. E te desejem um futuro melhor. Pelo menos igual ao deles.
Porque eu tenho o teu sorriso na cabeça. Porque me roubaste os olhos e me mostraste os teus, cheios de palavras por dizer. Como os meus. Sabes, todos olham para mim em silêncio e ninguém respira. A escuridão é gigante. E dentro dos teus ouvidos (quase aposto) também descem soluços sem nome. E fechas os olhos, escondes-te debaixo desses cobertores sujos e esqueces que o mundo é sempre o mesmo. Pesado porque só gira para alguns. Pesado para quem se fez sozinho. E os outros passam. Passam e falam e tropeçam em ti sem sequer dar conta. Calcam-te o orgulho e não dizem nada. Desculpe, não o vi de vez em quando. Raramente. Não abrem a boca. Só os olhos cobertos de escuridão a apontar para ti em silêncio. Nem uma palavra bonita. Nem um Bom Dia igual ao teu. E tu ouves o que não dizem com a paz que têm as árvores que te servem de tecto. E fazes de conta que não vês, que não sentes esse desprezo vulgar a roer-te os ossos. Para todas as coisas é preciso fazer de conta. Assim, faz de conta comigo. Faz de conta que te dei mesmo a mão quando me aproximei. Deixei-te um Bom Dia. A minha moeda foi o meu abraço. Bom Dia, menino. Porque no fundo também és como eu, até aposto. E amanhã (de manhã cedo) volto para mais um Olá. Mesmo com chuva. Daquela chuva que só te lava os olhos. Daquela chuva que não te deixa triste.
[Vanessa Sousa]
^^
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
Falando com a Liberdade:
História de Amor
domingo, 9 de agosto de 2009
Algumas mulheres...
Algumas mulheres casam-se com casas.
É outro tipo de pele, tem um coração,
uma boca, um fígado e movimento de entranhas.
As paredes são permanentes e cor-de-rosa.
Vejam como ela está ajoelhada o dia todo,
lavando-se fielmente de alto a baixo
Os homens entram à força, atraídos como Jonas
para as suas mães carnudas.
Uma mulher é a sua própria mãe
e isso é o mais importante.
[Anne Sexton]
É outro tipo de pele, tem um coração,
uma boca, um fígado e movimento de entranhas.
As paredes são permanentes e cor-de-rosa.
Vejam como ela está ajoelhada o dia todo,
lavando-se fielmente de alto a baixo
Os homens entram à força, atraídos como Jonas
para as suas mães carnudas.
Uma mulher é a sua própria mãe
e isso é o mais importante.
[Anne Sexton]

^^
Haunted*





Long lost words whisper slowly to me
Still can't find what keeps me here
When all this time I've been so hollow inside
I know you're still there
Watching me, wanting me
I can feel you hold me down
Fearing you, loving you
Hunting you I can smell you - alive
Your heart pounding in my head...
[Compositor: Amy Lee]
^^
sexta-feira, 7 de agosto de 2009
F-a-t-a-L

Não fale de amor
Não diga bobagem
Não prometa o que não vai cumprir
.
Eu já sei de cor
Toda essa viagem
E sei que não é fácil decidir
.
Mas seja o que for
Tome cuidado
Aparentemente não faz mal
.
Brincar de amor
Mas é complicado
E qualquer erro pode ser fatal
.
Não fale demais
Não se desespere
Tudo tem a hora e o lugar
.
Não volte atrás
Agora, espere
Procure aprender como se faz...
.Não diga bobagem
Não prometa o que não vai cumprir
.
Eu já sei de cor
Toda essa viagem
E sei que não é fácil decidir
.
Mas seja o que for
Tome cuidado
Aparentemente não faz mal
.
Brincar de amor
Mas é complicado
E qualquer erro pode ser fatal
.
Não fale demais
Não se desespere
Tudo tem a hora e o lugar
.
Não volte atrás
Agora, espere
Procure aprender como se faz...
.
[Composição: Paulo Ricardo]
^^
*
Neve,
abençoada neve,
cai do céu
como moscas desbotadas.
O chão já não está nu.
O chão vestiu as suas roupas.
As árvores irrompem entre lençóis
e cada ramo veste a meia de Deus.
Há esperança.
Há esperança em todo lado.
Eu mordo-a.
Alguém disse uma vez:
Não mordas sem saberes
se é pão ou pedra.
O que eu mordo é todo pão.
Elevando-se, fermentado como uma nuvem.
Há esperança.
Há esperança em todo o lado
Hoje Deus dá leite
e eu tenho o balde.
[Anne Sexton]
abençoada neve,
cai do céu
como moscas desbotadas.
O chão já não está nu.
O chão vestiu as suas roupas.
As árvores irrompem entre lençóis
e cada ramo veste a meia de Deus.
Há esperança.
Há esperança em todo lado.
Eu mordo-a.
Alguém disse uma vez:
Não mordas sem saberes
se é pão ou pedra.
O que eu mordo é todo pão.
Elevando-se, fermentado como uma nuvem.
Há esperança.
Há esperança em todo o lado
Hoje Deus dá leite
e eu tenho o balde.
[Anne Sexton]

^^
Déjà Vu
Nenhuma verdade me machuca
Nenhum motivo me corrói
Até se eu ficar só na vontade, já não dói
Nenhuma doutrina me convence
Nenhuma resposta me satisfaz
Nem mesmo o tédio me surpreende mais
Mas eu sinto que eu tô viva a cada banho de chuva que chega molhando meu corpo
(...)
E não há razão que me governe
Nenhuma lei prá me guiar
Eu tô exatamente aonde eu queria estar
E não há razão que me governe
Nenhuma lei prá me guiar
Eu tô exatamente aonde eu queria estar
Mas eu sinto que eu tô viva a cada banho de chuva que chega molhando meu corpo
A minha alma nem me lembro mais
em que esquina se perdeu ou
em que mundo se enfiou
Mas já faz algum tempo...
Já faz algum tempo...
Já faz algum tempo...
Já faz algum tempo...
Faz algum tempo...
[Pitty]
^^
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
La Loba - Shakira
A cantora colombiana Shakira está de volta aos ouvidos de todo mundo.
Novamente com músicas em inglês e espanhol, mas dessa vez duas versões da mesma, She Wolf ou La Loba é o seu novo single, onde Shakira compara uma mulher a um lobo e sua libertação.
Novamente com músicas em inglês e espanhol, mas dessa vez duas versões da mesma, She Wolf ou La Loba é o seu novo single, onde Shakira compara uma mulher a um lobo e sua libertação.
“Acho que é porque a música tem tudo a ver com o meu momento. Eu me sinto muito ‘livre’ agora como mulher, mais em contato com os meus desejos e tendendo a me ouvir mais” - diz a cantora.
“Sinto que vivi em uma jaula dourada durante toda a minha vida. Por isso criei essa analogia para o vídeo. Somente a idade e a experiência me deram novas perspectivas das coisas” - diz a cantora sobre estar enjaulada no vídeo.Confira a letra:
Sigilosa al pasar
Sigilosa al pasar
Esa loba es especial
Mirala, caminar caminar
Quién no ha querido a una diosa licántropa
En el ardor de una noche romantica
Mis aullidos son el llamado
Yo quiero un lobo domesticado
Por fin he encontrado un remedio infalible que borre del todo la culpa
No pienso quedarme a tu lado mirando la tele y oyendo disculpas
la vida me ha dado un hambre voráz y tu apenas me das caramelos
Me voy con mis piernas y mi juventúd por ahí aunque te maten los celos
Una loba en el armario
Tiene ganas de salir
Deja que se coma el barrio
Antes de irte a dormir
Tengo tacones de aguja magnetica
Para dejar a la manada frenetica
La luna llena como una fruta
No da consejos ni los escucha
Llevo conmigo un radar especial para localizar solteros
Si acaso me meto en aprietos tambien llevo el número de los bomberos
ni tipos muy lindos ni divos ni niños ricos yo se lo que quiero
pasarla muy bien y portarme muy mal en los brazos de algún caballero
Una loba en el armario
Tiene ganas de salir
Deja que se coma el barrio
Antes de irte a dormir
Cuando son casi la una la loba en celo saluda a la luna
Duda si andar por la calle o entrar en un bar a probar fortuna
Ya está sentada en su mesa y pone la mira en su proxima presa
Pobre del desprevenido que no se esperaba una de esas.
[Shakira]
Sigilosa al pasar
Esa loba es especial
Mirala, caminar caminar
Quién no ha querido a una diosa licántropa
En el ardor de una noche romantica
Mis aullidos son el llamado
Yo quiero un lobo domesticado
Por fin he encontrado un remedio infalible que borre del todo la culpa
No pienso quedarme a tu lado mirando la tele y oyendo disculpas
la vida me ha dado un hambre voráz y tu apenas me das caramelos
Me voy con mis piernas y mi juventúd por ahí aunque te maten los celos
Una loba en el armario
Tiene ganas de salir
Deja que se coma el barrio
Antes de irte a dormir
Tengo tacones de aguja magnetica
Para dejar a la manada frenetica
La luna llena como una fruta
No da consejos ni los escucha
Llevo conmigo un radar especial para localizar solteros
Si acaso me meto en aprietos tambien llevo el número de los bomberos
ni tipos muy lindos ni divos ni niños ricos yo se lo que quiero
pasarla muy bien y portarme muy mal en los brazos de algún caballero
Una loba en el armario
Tiene ganas de salir
Deja que se coma el barrio
Antes de irte a dormir
Cuando son casi la una la loba en celo saluda a la luna
Duda si andar por la calle o entrar en un bar a probar fortuna
Ya está sentada en su mesa y pone la mira en su proxima presa
Pobre del desprevenido que no se esperaba una de esas.
[Shakira]
^^
Permite-me
O amor não é uma profissãodistinta ou não
o sexo não é cirurgia dentária
A obturação habilidosa de dores e cavidades
não és o meu médico
não és a minha cura
ninguém tem esse
poder, és apenas um companheiro/viajante
desiste desta preocupação médica,
abotoada, atenta
permite-te raiva
e permite-me a minha
que não precisa nem
da tua aprovação nem da tua surpresa
que não precisa de ser legalizada
que não é contra uma doença
mas contra ti,
o que não precisa de ser entendido
ou lavado ou cauterizado
que ao contrário precisa sim
de ser dito e dito.
Permite-me o tempo presente.
[Margaret Atwood]
^^
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Borboletas... Adoro essa música!
Percebo que o tempo já não passa
Você diz que não tem graça amar assim
Foi tudo tão bonito, mas voou pro infinito
Parecido com borboletas de um jardim
Agora você volta
E balança o que eu sentia por outro alguém
Dividido entre dois mundos
Sei que estou amando, mas ainda não sei quem...
Não sei dizer o que mudou
Mas, nada está igual
Numa noite estranha a gente se estranha e fica mal
Você tenta provar que tudo em nós morreu
Borboletas sempre voltam
E o seu jardim sou eu.
.
.
[Composição: Victor Chaves]
[Composição: Victor Chaves]
^^
Xc. dos Seres
_________Se ele ainda estiver a dormir quando eu voltar ao quarto, e o clavicórdio continuar a reger o abismo com a sua simples presença e a sonoridade que pressinto,
sento-me à entrada da ausência, aspirando o meu vagar nocturno e o movimento dos músculos das árvores,
lugar particular ali,
lugar universal aqui.
[Maria Gabriela Llansol]
^^
sento-me à entrada da ausência, aspirando o meu vagar nocturno e o movimento dos músculos das árvores,
lugar particular ali,
lugar universal aqui.
[Maria Gabriela Llansol]
^^
terça-feira, 4 de agosto de 2009
*Eu vou...
Hoje vou levantar-me e vou estar contente...(...)
Vou andar por mim dentro em visita.
Vou penetrar-me, a mim própria ter-me, ter-me...
Vou a mim própria ser-me, vou respirar-me, rir-me, vou-me a mim própria abrir-me, a mim própria despir-me,...
a mim própria dançar-me,...
com meu amor afogar-me, com minha angústia ferir-me, com meu sono
dormir-me, com meus sonhos minha esperança erguer-me, com minha loucura endoidecer-me,... ...
Vou gritar por ti...
até que tu me oiças e possas chamar-me pelo meu nome!
[Ana Hatherly]
^^
Danças para Mim?

Largar o rosto de artifício e trocá-lo por uma máscara mais feliz. Vagas de ar. Cinco vestidos no corpo só por não saber qual usar. O azul da cor do mar? Um arrepio - ferida aberta. No toca-disco, a canção, (a nossa canção) me desperta. Não pode ser, é muito decotado: a inquietação salta do peito. A ilusão a confundir os sentidos. Mas o coração leva a mal. Sangra pela dor e pela ferida. Tinta para um lado, vida para o outro. Uma cesta de pétalas de rosas. E um nariz de palhaço pronto a sorrir-me nos olhos. Porque os pássaros não falam sensibilidades. E - aos meus olhos - só se vê disto. Bolas de nuvem. Pena que não me cresçam as asas. Mas a alegria do palhaço cola-me os sonhos ao céu da boca: pastilha elástica com sabor a morango. Mãos erguidas para o céu. Encontraram-me assim. E tu nunca foste capaz de perguntar:
^^
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Octavo Día
El octavo día dios después de tanto trabajar
Para liberar tensiones luego ya de revisar
Dijo todo está muy bien es hora de descansar
Y se fué a dar un paseo por el espacio sideral
Quién se iba a imaginar que el mismo dios al regresar
Iba a encontrarlo todo en un desorden infernal
Y que se iba a convertir en un desempleado más
De la tasa que anualmente está creciendo sin parar
Desde ese entonces hay quienes lo han visto
Sólo en las calles transitar
Anda esperando paciente por alguién
Con quién al menos tranquilo
Pueda conversar
Mientras tanto este mundo gira y gira
Sin poderlo detener
Y aquí abajo unos cuantos nos manejan
Como fichas de ajedrez
No soy la clase de idiota
Que se deja convencer
Pero digo la verdad
Y hasta un ciego lo puede ver
Si a falta de ocupación o de excesiva soledad
Dios no resistiera más y se marchara a otro lugar
Sería nuestra perdición, no habría otro remedio más
Que adorar a Michael Jackson, a Bill Clinton o a Tarzan
Es más difícil ser rey sin corona
Que una persona más normal
Pobre de dios que no sale en revistas
Que no es modelo ni artista o de família real
[Shakira]

^^
Para liberar tensiones luego ya de revisar
Dijo todo está muy bien es hora de descansar
Y se fué a dar un paseo por el espacio sideral
Quién se iba a imaginar que el mismo dios al regresar
Iba a encontrarlo todo en un desorden infernal
Y que se iba a convertir en un desempleado más
De la tasa que anualmente está creciendo sin parar
Desde ese entonces hay quienes lo han visto
Sólo en las calles transitar
Anda esperando paciente por alguién
Con quién al menos tranquilo
Pueda conversar
Mientras tanto este mundo gira y gira
Sin poderlo detener
Y aquí abajo unos cuantos nos manejan
Como fichas de ajedrez
No soy la clase de idiota
Que se deja convencer
Pero digo la verdad
Y hasta un ciego lo puede ver
Dios no resistiera más y se marchara a otro lugar
Sería nuestra perdición, no habría otro remedio más
Que adorar a Michael Jackson, a Bill Clinton o a Tarzan
Es más difícil ser rey sin corona
Que una persona más normal
Pobre de dios que no sale en revistas
Que no es modelo ni artista o de família real
Mientras tanto este mundo gira y gira
Sin poderlo detener
Y aquí abajo unos cuantos nos manejan
Como fichas de ajedrez
No soy la clase de idiota
Que se deja convencer
Pero digo la verdad
Y hasta un ciego lo puede ver .
Sin poderlo detener
Y aquí abajo unos cuantos nos manejan
Como fichas de ajedrez
No soy la clase de idiota
Que se deja convencer
Pero digo la verdad
Y hasta un ciego lo puede ver .
[Shakira]

^^
domingo, 2 de agosto de 2009
Milagres
Ora, quem acha que um milagre é alguma coisa demais?Por mim, de nada sei que não sejam milagres:
ou ande eu pelas ruas de Manhattan,
ou erga a vista sobre os telhados
na direcção do céu,
ou pise com os pés descalços
bem na franja das águas pela praia,
ou fale durante o dia com uma pessoa a quem amo,
ou vá de noite para a cama com uma pessoa a quem amo,
ou à mesa tome assento para jantar com os outros,
ou olhe os desconhecidos na carruagem
de frente para mim,
ou siga as abelhas atarefadas
junto à colmeia antes do meio-dia de verão
ou animais pastando na campina
ou passarinhos ou a maravilha dos insectos no ar,
ou a maravilha de um pôr-de-sol
ou das estrelas cintilando tão quietas e brilhantes,
ou o estranho contorno delicado e leve
da lua nova na primavera,
essas e outras coisas, uma e todas
— para mim são milagres,
umas ligadas às outras
ainda que cada uma bem distinta
e no seu próprio lugar.
Cada momento de luz ou de treva
é para mim um milagre,
milagre cada polegada cúbica de espaço,
cada metro quadrado da superfície da terra
por milagre se estende, cada pé
do interior está apinhado de milagres.
O mar é para mim um milagre sem fim:
os peixes nadando, as pedras,
o movimento das ondas,
os navios que vão com homens dentro
— existirão milagres mais estranhos?
[Milagres - Walt Whitman]
^^

Vi por momentos, num plano desfocado,
a respiração condensada pelo frio
tão frágil como cada gesto que me passa em frente dos olhos
Entre a pausa e o imprevisto
por vezes não passa de um cigarro esquecido no cinzeiro
nas horas em que as mãos insistem em ter frio
Fotografia perfeita dos restos de um domingo
que se parte em recortes de tédio...
[eue]
^^
sábado, 1 de agosto de 2009
P-ą-ℓ-ą-v-я-ą-ร
Tem cuidado com as pąℓąvяąร,
mesmo com as milagrosas,
Pelas milagrosas fazemos o nosso melhor,
por vezes elas enxameiam como insectos
e deixam não uma picada mas um beijo.
Podem ser tão boas como dedos.
Podem ser tão de confiança como a rocha
onde espetas o rabo.
E podem ser malmequeres ou feridas.
Mesmo assim, estou apaixonada pelas pąℓąvяąร.
São pombas a cair do tecto.
São seis laranjas sagradas sentadas no meu colo.
São as árvores, as pernas do verão
e o sol, a sua cara impetuosa.
Mas muitas vezes elas falham-me.
Há tanto que quero dizer,
tantas histórias, imagens, provérbios, etc
Mas as pąℓąvяąร não são suficientemente boas,
as erradas beijam-me.
Por vezes eu voo como uma águia
Mas com as asas duma carriça.
Mas eu tento ter cuidado
e ser cuidadosa com elas.
Pąℓąvяąร e ovos devem ser tratados com cuidado.
Uma vez partidos são coisas impossíveis
de reparar.
[Anne Sexton]

^^
mesmo com as milagrosas,
Pelas milagrosas fazemos o nosso melhor,
por vezes elas enxameiam como insectos
e deixam não uma picada mas um beijo.
Podem ser tão boas como dedos.
Podem ser tão de confiança como a rocha
onde espetas o rabo.
E podem ser malmequeres ou feridas.
Mesmo assim, estou apaixonada pelas pąℓąvяąร.
São pombas a cair do tecto.
São seis laranjas sagradas sentadas no meu colo.
São as árvores, as pernas do verão
e o sol, a sua cara impetuosa.
Mas muitas vezes elas falham-me.
Há tanto que quero dizer,
tantas histórias, imagens, provérbios, etc
Mas as pąℓąvяąร não são suficientemente boas,
as erradas beijam-me.
Por vezes eu voo como uma águia
Mas com as asas duma carriça.
Mas eu tento ter cuidado
e ser cuidadosa com elas.
Pąℓąvяąร e ovos devem ser tratados com cuidado.
Uma vez partidos são coisas impossíveis
de reparar.
[Anne Sexton]

^^
A Cruz e a Espada
Havia um tempo em que eu vivia
Um sentimento quase infantil
Havia o medo e a timidez
Todo um lado que você nunca viu
E agora eu vejo aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo e o meu desejo
Se perdeu de mim
E agora eu ando correndo tanto
Procurando aquele novo lugar
Aquela festa
O que me resta
Encontrar alguém legal pra ficar
E agora eu vejo
Aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo e o meu desejo
Se e perdeu de mim
E agora é tarde
Acordo tarde
Do meu lado alguém
Que eu nem conhecia
Outra criança adulterada
Pelos anos que a pintura escondia
Agora eu vejo
Aquele beijo era o fim, o fim
Era o começo e o meu desejo
Se perdeu de mim.
[Composição: Luiz Schiavon / Paulo Ricardo]
^^
Fábula: Cosmogonia
Os insetos noturnos em torno da luz
As estrelas em torno das estrelas
Os meus pensamentos em torno de ti
Eu em torno do nada
O nada em torno de mim
Os meus pensamentos em torno de si mesmos
Tu em torno dos meus pensamentos
O nada em torno de ti
Os insetos noturnos em torno do nada
As estrelas em torno de mim
Eu em torno dos meus pensamentos
As estrelas em torno de ti
Os insetos noturnos em torno das estrelas
A luz em torno dos insetos noturnos
O nada em torno da luz
As estrelas em torno de si mesmas
Os insetos noturnos em torno de si-mesmos
Tu em torno de ti mesma
Eu em torno de mim mesmo
O entorno em torno do entorno
[Gyorgy Somlys]
^^
quinta-feira, 30 de julho de 2009
Somos Quem Podemos Ser
Um dia me disseram
Que as nuvens
Não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos
Às vezes erram a direção
E tudo ficou tão claro
Um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro
Um disparo para um coração...
A vida imita o vídeo
Garotos inventam
Um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez...
Somos quem podemos ser...
Sonhos que podemos ter...
Um dia me disseram
Quem eram os donos
Da situação
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem
Essa prisão
E tudo ficou tão claro
O que era raro, ficou comum
Como um dia depois do outro
Como um dia, um dia comum...
(...)
Um dia me disseram
Que as nuvens
Não eram de algodão
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão:
Quem ocupa o trono
Tem culpa
Quem oculta o crime
Também
Quem duvida da vida
Tem culpa
Quem evita a dúvida
Também tem...
Somos quem podemos ser...
Sonhos que podemos ter...
[Composição: Humberto Gessinger]
^^
terça-feira, 28 de julho de 2009
Medida do Tempo
Cadê você?...
Sabia que... sobreviria uma sensação de ser estranha no teu mundo. Temendo o rasgão irreparável, preferi a revelação... da minha essência. E a ausência pesou-me o dia inteiro...Sabia que teria de partir...
Desvendei sem pudor a história, entre carinhos para lá do tempo oferecido...
... e o medo instalou-se. Sabia da paixão, das mágoas e do sentir…
E sei que me recuso a perder-te..., ainda que te instales à força no silêncio.
[Marta, no Citadel]
^^
segunda-feira, 27 de julho de 2009
domingo, 26 de julho de 2009
sábado, 25 de julho de 2009
Não me Fechem as Portas
Não me fechem as portas, orgulhosas
Bibliotecas,
Pois justamente o que estava faltando
Em tuas prateleiras apinhadas,
É o que venho trazer
- mal acabando de sair da guerra,
um livro escrevi:
pelas palavras do meu livro, nada;
pelas intenções, tudo !
Um livro à margem,
Sem nada a ver com os restantes,
E que não pode ser sentido só
Com o intelecto.
Vocês, porém, com seus silêncios latentes,
A cada página hão de estremecer
Maravilhadas.
[Walt Whitman]
^^
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Operação Sorriso
ONG Sorriso faz um um trabalho super bonito, no mundo todo, e estão a caminho do Brasil, nos dias 06 e 07 de agosto, no hospital do Fundão - UFRJ - fazendo uma triagem para cirurgias gratuitas em crianças.
Repassem!! De repente, a gente consegue ajudar alguém!
Repassem!! De repente, a gente consegue ajudar alguém!

^^
Horizonte
Havia uma menina sentadajunto a uma janela
Ela vestia uma velha camisa de dormir
larga
e tinha cabelos castanhos lisos
longos
Tinha uma caixa de plástico vermelha
no colo
e olhava o horizonte cinzento
ao longe
Talvez vivesse numa ilha
e talvez brincasse junto ao mar
nas tardes de verão
Ela estava sentada
não sei bem se num banquinho de madeira
ou se num rochedo do tamanho do mundo
Às vezes
os seus olhos pousavam suavemente
na caixa vermelha
e os seus pequenos dedos
imprimiam na superfície do plástico
antigas histórias
de gente que não mais voltara do mar
A casa era do tamanho
de uma janela que dá para o mundo
E a madeira cheirava a madeira
e alguma coisa nela me dizia
que outrora fora barcos
Nenhum entardecer
se assemelhava ao que habitava
aquela janela
E a menina sabia-o
não sei bem como
Os seus olhos cinzentos
olhavam o horizonte
com a paciência
de quem olha os horizontes
E por vezes
esticava o pescoço
para ver mais longe
Ela descobrira sozinha
o significado da palavra longe
O tempo era
verdadeiramente
algo indistinto
E os cabelos
acariciados pela tempestade
gritavam
aos olhos mais atentos
a palavra eternidade
Sempre que abria as mãos
caíam ao chão
punhados de terra
ainda misturada com raízes
E no seu colo pousava
aquela caixa vermelha de plástico liso
como uma mancha de sangue
no branco sujo
da camisa de dormir
De vez em quando
cantava
melodias tristes
que ela ouvira
certamente
da boca dos mortos
que escolheram aquele lugar
para olhar o horizonte
Um dia
alguém vindo do mar
dissera-lhe ao ouvido
a palavra infinito
e ela rira
Ria sempre
que alguém dizia
infinito
Desde então
passava noites inteiras
na sua janela
Nenhuma palavra
se lhe ouvia
mas ria-se às vezes
como se riem as crianças
Há quem diga
que lhe morrera o mundo
e que perdera o tempo
numa noite de tempestade
Outros dizem que aprendeu a falar com os mortos
e que passeia no fundo dos mares
Que chama pelo respectivo nome cada estrela
e que tem uma música para cada pôr-do-sol
Que guarda na pequena caixa de plástico
todos os sonhos dos homens
Eu sei que ela tem uma janela nos olhos
Imagino que corra na praia
e que caminhe sem dificuldades
na estrada do horizonte
Julgo que é sozinha desde sempre
e que não gosta de andar com guarda-chuva
Provavelmente,
conhece mesmo o fundo dos mares
E nem sequer me custa acreditar que
se pudesse ver o que esconde
aquela caixa de plástico
ela me pareceria vazia
[José Rui Teixeira]
^^
quinta-feira, 23 de julho de 2009
Num só dia...
Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia.
[*Carlos Nejar]
[*Carlos Nejar]
Obs.: Pra nunca mais esquecer....
^^
Chão de Giz
Eu desço dessa solidãoDisparo coisas sobre
Um Chão de Giz
Há meros devaneios tolos
A me torturar
Fotografias recortadas
Em jornais de folhas
Amiúde!
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes...
Disparo balas de canhão
É inútil, pois existe
Um grão-vizir
Há tantas violetas velhas
Sem um colibri
Queria usar quem sabe
Uma camisa de força
Ou de vênus
Mas não vou gozar de nós
Apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom...
Agora pego
Um caminhão na lona
Vou a nocaute outra vez
Prá sempre fui acorrentado
No seu calcanhar
Meus vinte anos de "boy"
That's over, baby!
Freud explica...
Não vou me sujar
Fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom...
Quanto ao pano dos confetes
Já passou meu carnaval
E isso explica porque o sexo
É assunto popular...
No mais estou indo embora!
[Composição: Zé Ramalho]
^^
quarta-feira, 22 de julho de 2009
terça-feira, 21 de julho de 2009
Nem Sempre aos Poetas Apetecem as Estrelas
Apetece-me não sei porquê uma história de formigasDe formigas assexuadas negras nítidas e rápidas
Com olhos fantásticos colhendo miríades de imagens
E inúteis os olhos das formigas
Desenhadas como um oito ou como um sinal de infinito
Muitas corteses atarefadas prejudiciais
Clericais sociais subtílissimas pequenas
Formigando no chão
No chão onde florescem os cardos e as cores
No chão onde assenta a carne ansiosa das mulheres
E os joelhos dos homens
No chão onde ecoa a voz repugnante dos pregadores
E a voz das juras e dos negócios
No chão onde cai o suor dos aflitos
E o suor dos amorosos
E o suor dos operários
E o suor dos gordos
No chão onde andam os pés e estalam os escarros
No chão das guerras e das famílias correctas
E dos vasadouros e dos jardins
E do pus verde dos mendigos
E das chagas rendosas e das rendas custosas
E das doidas furiosas
E das rosas
E das airosas e das feias e dos bispos e dos triunfadores
E dos cretinos e das virgens
E dos remédios e dos males
E das vertigens e dos abismos
E das cismas
E dos sismos
E dos vermes do ventre e das sonecas
E dos ludíbrios e dos hábeis
E da força dos garantidos
E das sementes
Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
A grande invasão das formigas multiplicando-se
Cobrindo a face da terra e a dos homens e das mulheres
Entrando-lhes pelos narizes para roerem os olhos por dentro
E fazendo bulir as coisas mortas e as vivas
Com o espantoso treme-luz irisado e magnífico
Dos seus reflexos negros e a substituírem todas as cores
Na grande montanha uma mulher enorme
Nua e infame
Tem as pernas escachadas sob as pregas do ventre
E sob as pregas do ventre seu sexo negro
É o grande formigueiro do mundo
Vive?
As formigas esvaziaram-na da enxúndia e substituíram-na
Só lhe deixaram a pele por fora para ainda haver branco visível
E como pêlos ampliados excitados e crescentes
Cobriram e desceram o vale
Enroscaram-se nas árvores
Desinquietaram a placidez das pedras
Forraram as aldeias e as cidades os animais e os homens
Que é do ciúme e das angústias?
Que é do amor e das palavras?
Que é das carícias e dos dentes?
Que é das renúncias e dos crimes?
Que é das tentações
Das promessas
Dos desejos
Dos apetites
Das fúrias?
Que é de todas as músicas?
O sol inútil cobre um mar negrejante onde os reflexos são como os olhos das moscas
E um silêncio tremendo finge de paz no mundo
Uma paz de silêncio com formigas
Formigas
Formigas
Formigas
Formigas
Formigas
[António Pedro]
[António Pedro]
^^
O inventário do adeus
Tenho um maço de cartas,tenho um maço de memórias.
Eu podia cortar os olhos a ambas.
Eu podia usa-las como um avental de retalhos.
Podia mete-las na maquina de lavar, na de secar,
se calhar parte da dor desapareceria como sujidade?
Se calhar deitando-a pelo triturador eu poderia triturar a perda.
Alem disso – que pechincha – sem telefonemas caros.
sem viagens demoradas em aviões no nevoeiro.
Sem o riso maníaco ou bênção de um padre fora-do-baralho.
Esse padre provavelmente ainda está a flutuar numa almofada de nevoeiro.
Abençoando-nos, abençoando-nos.
Tenho que te abençoar, perdido,
aqui sentada com a minha alma trapalhona?
O tempo de propaganda acabou.
Sento-me aqui no espigão da verdade.
Ninguém para odiar senão o peixe esguio da memória
que desliza para dentro e para fora do meu cérebro
Ninguém para odiar senão o toque agudo da minha camisa de dormir
roçando o meu corpo como uma luz que se apagou.
Lembra-me o beijo que inventámos, línguas como poemas,
encontrando-se, regressando, convidando, provocando uma febre de necessidade.
Risos, mapas, cassetes, toque a cantar o seu caminho –
tudo para ser partido e posto num cofre estanque
Os mortos monótonos entopem-me e há apenas
preto ornado a preto que verte do cofre.
Preciso de o estripar e depois colocar o coração, as pernas,
de dois que foram um sobre um grande monte de lenha
e acendo-o, como eu já fui acesa e deixo-o rodopiar
em chamas chegando ao céu
Fazendo-o perigoso com o seu vermelho.
[Anne Sexton]
^^
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Sopro
"Implorando o sopro do ser divino,o sopro que dá a vida,
o sopro de muita idade,
o sopro das águas,
o sopro das sementes,
o sopro da fecundidade,
o sopor da abundância,
o sopro do poder,
o sopro da força,
o sopro de todas as espécies de sopro
pedindo o seu sopro,
inspirando o seu sopro no calor do meu corpo,
incorporo seu sopro
para que vivas sempre luminosamente."
Poema ameríndio
(mudados para português por Herberto Helder)
sábado, 18 de julho de 2009
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Metade
Que a força do medo que tenhonão me impeça de ver o que anseio
que a morte de tudo em que acredito
não me tape os ouvidos e a boca
porque metade de mim é o que eu grito
mas a outra metade é silêncio.
Que a música que ouço ao longe
seja linda ainda que tristeza
que a mulher que amo seja pra sempre amada
mesmo que distante
porque metade de mim é partida
mas a outra metade é saudade.
Que as palavras que eu falo
não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
apenas respeitadas como a única coisa
que resta a um homem inundado de sentimentos
porque metade de mim é o que ouço
mas a outra metade é o que calo.
Que essa minha vontade de ir embora
se transforme na calma e na paz que eu mereço
e que essa tensão que me corrói por dentro
seja um dia recompensada
porque metade de mim é o que penso
mas a outra metade é um vulcão.
Que o medo da solidão se afaste
e que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável
que o espelho reflita em meu rosto num doce sorriso
que eu me lembro ter dado na infância
porque metade de mim é a lembrança do que fui
a outra metade não sei.
Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
pra me fazer aquietar o espírito
e que o teu silêncio me fale cada vez mais
porque metade de mim é abrigo
mas a outra metade é cansaço.
Que a arte nos aponte uma resposta
mesmo que ela não saiba
e que ninguém a tente complicar
porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
porque metade de mim é plateia
e a outra metade é canção.
E que a minha loucura seja perdoada
porque metade de mim é amor
e a outra metade também.
[Oswaldo Montenegro]
^^
quarta-feira, 15 de julho de 2009
A Dor de Todas as Ruas Vazias
Dizias da paixão, da música, do medo.
Falavas do futuro.
Agora tenho um horário que me rouba horas à poesia. É simples - de tão escandaloso que é: não posso dar-me ao luxo de pensar em ti a cada instante e – está explicado! – já nem tento oferecer os pulsos para que os beijes. Agora perco-me em saudações cordiais e sorrisos de bons dias. Sou toda leveza, acreditas? Em mim já não há espaço para a alegre melancolia dos teus olhos. Deixa-me que te minta. À hora de almoço quase me vou abaixo na determinação que - diariamente e num esforço notável - impinjo ao meu peito para te esquecer. Quase. Junto com o arroz e a hortaliça – cuidadosamente expostos num tupperware amarelo – trago também aquele livro às escondidas. Repara: a cor é a mesma e eu sempre gostei de cores garridas para espantar o desgosto. Pensei em abri-lo - como sempre - depois do ritual do café. Mas digo que não e resisto à tentação. Hoje saí cedo com um vestido de folhos até aos pés e decidi chamar o calor. Pintei as unhas para me entreter. Aqui ninguém te conhece e não há tempo para apresentações nem mais vagar para lágrimas. Das 9h às 17h não deixo que me provoques. Sobrevivo impune por amor à literatura. Talvez pelo pouco amor que lhe tenho não me deixo seduzir. Só por isso. E quando chego a casa estou demasiado cansada para que me despertes. Ainda bem. Já não me sento à varanda a ver-te chegar. Abandonei as bebedeiras e todos os vícios. Vivo agora num coração saudável: especificamente treinado para a rotina. Adormeço ao som da mesma música mas já não peço que me sussurres a carta da paixão ao ouvido. Eu também só sei ler para dentro, amor. A rua está vazia e não há mais nada que nos peça claridade. Amanhã tenho uma encomenda sem réstia de imaginação para preparar. Encontrei maneira de não ter tanto medo do futuro: porque já não te espero às minhas mãos. Num impulso. Morreste-me como um nó atravessado na garganta e eu – asfixiada – suicidei-me a seguir. Para que saibas: foi assim que deixei de escrever.
^^
Mais de Mim - V

Às vezes tenho uma estranha impressão de que nada mais pode me surpreender. Sinto que não restam lágrimas ou esperanças, que não sobrou espaço para mais decepções, fantasias ou expectativas. Parece que eu espero mesmo que o improvável aconteça.
Talvez seja porque perdi as contas de quantas horas esperei sem saber, de quantas passagens só de ida tive que rasgar. Talvez porque decorei cada sonho que permanece adormecido, cada plano que nunca saiu do papel. Talvez porque eu não queira esquecê-los ou apenas me sinta impotente diante deles.
O destino fez questão de me demonstrar que os ventos podem mudar de direção a todo instante e que preciso estar preparada para desembarcar em qualquer praia. Já não me assusta a idéia de jogar fora o velho roteiro e rabiscar outra vez o meu caminho.
No entanto, devo admitir que falar é muito fácil e sou ótima na teoria, mas na prática as coisas mudam muito. Basta que eu me distraia por um momento para que algo diferente aconteça e para que eu, que pensava que nada mais poderia me abalar, ser pega desprevenida.
Sem saber o que fazer ou falar: fico atônita. Não me atrevo a mover sequer um ladinho da sobrancelha. Não sorrio, não choro, nem mesmo uma interjeição ousa sair da minha boca. Mas também não consigo deixar de lado a mania de viver tudo do meu jeito, de viver situações inimagináveis, de sonhar com um futuro distante e melhor.
Logo um friozinho percorre o meu corpo e traz a certeza de que a vida estará sempre disposta a me surpreender. Que alívio!!!!
Talvez seja porque perdi as contas de quantas horas esperei sem saber, de quantas passagens só de ida tive que rasgar. Talvez porque decorei cada sonho que permanece adormecido, cada plano que nunca saiu do papel. Talvez porque eu não queira esquecê-los ou apenas me sinta impotente diante deles.
O destino fez questão de me demonstrar que os ventos podem mudar de direção a todo instante e que preciso estar preparada para desembarcar em qualquer praia. Já não me assusta a idéia de jogar fora o velho roteiro e rabiscar outra vez o meu caminho.
No entanto, devo admitir que falar é muito fácil e sou ótima na teoria, mas na prática as coisas mudam muito. Basta que eu me distraia por um momento para que algo diferente aconteça e para que eu, que pensava que nada mais poderia me abalar, ser pega desprevenida.
Sem saber o que fazer ou falar: fico atônita. Não me atrevo a mover sequer um ladinho da sobrancelha. Não sorrio, não choro, nem mesmo uma interjeição ousa sair da minha boca. Mas também não consigo deixar de lado a mania de viver tudo do meu jeito, de viver situações inimagináveis, de sonhar com um futuro distante e melhor.
Logo um friozinho percorre o meu corpo e traz a certeza de que a vida estará sempre disposta a me surpreender. Que alívio!!!!
^^
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