
Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]
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terça-feira, 14 de julho de 2009
Hoje...

Hoje eu estou rindo à toa. Engana-se quem pensa que é por estar absolutamente feliz, a felicidade vai e vem. Simples assim. Se eu sorrio é para disfarçar a minha surpresa. De repente ficou tudo tão esquisito... Cheguei a ficar meio petrificada.
Hoje eu não quero entender ou ser compreendida. Não quero ser triste nem feliz. Nem condenada nem inocente.
Hoje eu só quero ver a vida passar.
^^
Hoje eu não quero entender ou ser compreendida. Não quero ser triste nem feliz. Nem condenada nem inocente.
Hoje eu só quero ver a vida passar.
^^
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Siempre, siempre me Quedará

Usamos a dois: estações do ano, livros e uma música.
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis, idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
[Ingeborg Bachmann]
^^
As chaves, as taças de chá, o cesto do pão, lençóis de linho e uma cama.
Um enxoval de palavras, de gestos, trazidos, utilizados, gastos.
Cumprimos o regulamento de um prédio. Dissemos. Fizemos.
E estendemos sempre a mão.
Apaixonei-me por Invernos, por um septeto vienense e por Verões.
Por mapas, por um ninho de montanha, uma praia e uma cama.
Ritualizei datas, declarei promessas irrevogáveis, idolatrei o indefinido e senti devoção perante um nada,(- o jornal dobrado, a cinza fria, o papel com um apontamento)sem temores religiosos, pois a igreja era esta cama.
De olhar o mar nasceu a minha pintura inesgotável.
Da varanda podia saudar os povos, meus vizinhos.
Ao fogo da lareira, em segurança, o meu cabelo tinha a sua cor mais intensa.
A campainha da porta era o alarme da minha alegria.
Não te perdi a ti,
perdi o mundo.
[Ingeborg Bachmann]
^^
Remorso

"Durante a leitura nocturna
descia, às vezes, as escadas
e procurava no escuro, dentro
de um cesto, uma forma
redonda. Na quadra iluminada
do quarto, mordia depois a maçã
vermelha escura. Era enorme o ruído
dos dentes, no silêncio dessa hora
tardia e irremediável a culpa
de ter destruído aquela polpa húmida
de onde pendia o descarnado pé
no íntimo saber de pequenas sementes
que podia perfeitamente
ter apodrecido em paz."
[Inês Lourenço]
^^
descia, às vezes, as escadas
e procurava no escuro, dentro
de um cesto, uma forma
redonda. Na quadra iluminada
do quarto, mordia depois a maçã
vermelha escura. Era enorme o ruído
dos dentes, no silêncio dessa hora
tardia e irremediável a culpa
de ter destruído aquela polpa húmida
de onde pendia o descarnado pé
no íntimo saber de pequenas sementes
que podia perfeitamente
ter apodrecido em paz."
[Inês Lourenço]
^^
domingo, 12 de julho de 2009
sábado, 11 de julho de 2009

"Depois de te dizer que a melancolia já não se usa
fumo um cigarro e invento um abandono
Foram várias as vezes que escolhi a tua presença
para que o que escrevo tivesse corpo
(escrevo) gestos num livro de quedas
por entre a paisagem doméstica
Cheia de vazios regresso ao sono
onde deixei os pássaros."
[Maria Sousa]
..."Só por hoje não quero mais te ver
Só por hoje não vou tomar minha dose de você
Cansei de chorar feridas que não se fecham não se curam
E esta abstinência uma hora vai passar"...
^^
Na Sua Estante


"Te vejo errando e isso não é pecado,Exceto quando faz outra pessoa sangrar
Te vejo sonhando e isso dá medo
Perdido num mundo que não dá pra entrar
Você está saindo da minha vida
E parece que vai demorar
Se não souber voltar ao menos mande notícias
Cê acha que eu sou louca
Mas tudo vai se encaixar
Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia
E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu
Você tá sempre indo e vindo, tudo bem
Dessa vez eu já vesti minha armadura
E mesmo que nada funcione
Eu estarei de pé, de queixo erguido
Depois você me vê vermelha e acha graça
Mas eu não ficaria bem na sua estante
Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia
E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu"
(...)
[Pitty]
^^
sexta-feira, 10 de julho de 2009
11.
"Vinte e oito moços tomando banho na praia,
vinte e oito moços e todos tão amigáveis;
vinte e oito anos de uma vida de mulher
e todos tão solitários.
Ela é a dona da bonita casa
na subida da encosta,
e bem vestida e simpática ela se esconde
por trás das venezianas da janela.
Qual o moço de que ela gosta mais?
Ah o mais caseiro de todos é para
ela o mais bonito.
Aonde é que vai assim, senhora? Estou só vendo:
vejo você se espalhando naquelas águas,
ainda que fique aí dentro do quarto
parada feito um pau.
Dançando e rindo vem pela linha da praia
o banhista número vinte e nove;
os outros não a viram,
mas ela bem que os viu e os adorou.
As barbas dos moços resplandeciam
de gotas d'água,
e a lhes caírem das compridas cabeleiras
pequenos fios d'água
lhes escorriam pelos corpos todos.
Uma invisível mão
também passava pelos corpos deles,
descendo trémula das frontes aos quadris.
Os moços nadam de costas,
claras barrigas ao sol,
sem indagarem quem estende a mão para eles:
não sabem eles quem enche o peito e desiste,
as sobrancelhas curvadas e vacilantes,
nem lhes ocorre que estejam salgando alguém
com a água que respingam."
[Walt Whitman]
^^
quinta-feira, 9 de julho de 2009
Um Certo Alguém
Recadinho:
"Quis evitar teus olhos
Mas não pude reagir
Fico à vontade então...
Acho que é bobagem
A mania de fingir
Negando a intenção
E quando um certo alguém
Cruzou o teu caminho
E te mudou a direção
Chego a ficar sem jeito
Mas não deixo de seguir
A tua aparição
E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar
Me dê a mão
Vem ser a minha estrela
Complicação
Tão fácil de entender
Vamos dançar
Luzir a madrugada
Inspiração
Pra tudo que eu viver"
(...)
[Composição: Lulu Santos / Ronaldo Bastos]
^^
As lágrimas
quarta-feira, 8 de julho de 2009
"Andar não era suficientemente rápido, por isso corremos, correr não era suficientemente rápido, por isso galopamos. Galopar não era suficientemente rápido, por isso velejamos, velejar não era suficientemente rápido por isso rolamos felizes por longos carris de metal. Os longos carris de metal não eram suficientemente rápidos, por isso conduzimos. Conduzir não era suficientemente rápido, por isso voamos. Voar não é suficientemente rápido, não para nós. Queremos lá chegar depressa. Chegar onde? A qualquer sitio onde não estejamos. Costumam dizer que uma alma humana só pode ir tão rápido quanto um homem pode andar. Nesse caso, onde estão as almas todas? Deixadas para trás. Vagueiam aqui e ali, lentamente, luzes sombrias, tremeluzentes, de noite nos pântanos, à nossa procura, mas não são suficientemente rápidas, não para nós, estamos muito à frente delas, nunca nos apanharão.
É por isso que nós podemos ir tão depressa? As nossas almas não nos pesam."
[Margaret Atwood]
^^
[Margaret Atwood]
^^
O que resta...
Se calhar há na distância a confirmação
de que vamos acumulando vazios
não tanto pelo que resta
mas sobretudo pela maneira
como o castelo de cartas
parece vacilar
apenas isso um tremor de paredes vazias
num tempo que não sei nomear
não é dia de fechar janelas
o papel amarelece e descola
e no fim resta o que acontece nas pausas...
[eue]
^^
A promessa de uma história a que possa chamar minha.

Vesti-me de preto. E os meus olhos, como duas janelas, também. O plano? Esquecer o calafrio dos silêncios súbitos e doridos. Arejar a casa; limpar as memórias dos momentos mais tristes. Vasculhei um armário cheio de coisas escuras e antigas, tirei as mais improváveis – um cheiro a terra molhada [único vício destes olhos lacrimejantes] e um sentimento vadio. O passado surge-nos sempre como um fantasma atento em tons melancólicos. Talvez quando pensamos demais. Mas o sol incide cintilante sobre mim. Culpa minha. Fecho os olhos e devolvo-lhe esta vontade efémera de querer agarrar as covinhas fundas de um sorriso. Paredes brancas, inundadas de luz, e o som claro e firme do relógio: o quarto ainda conserva os meus segredos? De repente, o armário fechou-se. Em redor, o ar errante a chamar a atenção. Procuro incessantemente qualquer coisa: a promessa de uma história a que possa chamar minha. Não mais pessoas como bonecos recortados em papel. Porque tudo pode mudar (n)um dia, dizem. Haja coragem.
[Vanessa Sousa]
^^
terça-feira, 7 de julho de 2009

"No lugar onde num mapa se assinala um final feliz
Abrimos imagens como quem faz a cronologia
do lado esquerdo do corpo
O silêncio é um muro num tempo de aceitar ventos...
Sob a pele espera-se a existência subterrânea da respiração
assim, falar de ausência é apanhar vazios
até que as palavras sejam o movimento
onde vamos nascendo cedo demais."
[Maria Sousa]
^^
Abrimos imagens como quem faz a cronologia
do lado esquerdo do corpo
O silêncio é um muro num tempo de aceitar ventos...
Sob a pele espera-se a existência subterrânea da respiração
assim, falar de ausência é apanhar vazios
até que as palavras sejam o movimento
onde vamos nascendo cedo demais."
[Maria Sousa]
^^
[?]
[...]

"Há muito tempo,... imaginei a tua vinda.
... quando me chamaste pela primeira vez,... e me disseste: prepara o caminho para o meu rosto. Abre-te de par em par, como se fosses uma enorme folha de uma planta carnívora, distende-te todo como um animal dócil e devorador...
Assustas-me por me quereres assim, interrompes um pacto antigo que fiz com esta vida cómoda: a de poder sobreviver em troca de um pouco de ternura, das refeições às horas - na certeza de estar construindo a obra que esperam de mim. Tu vens de súbito tratar-me como
um rapaz, dizer-me que tudo começa agora, que deixaste crescer os cabelos para mim,
como pudeste saber que era eu a pessoa certa? E sê-lo-ei?...
... quando me chamaste pela primeira vez,... e me disseste: prepara o caminho para o meu rosto. Abre-te de par em par, como se fosses uma enorme folha de uma planta carnívora, distende-te todo como um animal dócil e devorador...
Assustas-me por me quereres assim, interrompes um pacto antigo que fiz com esta vida cómoda: a de poder sobreviver em troca de um pouco de ternura, das refeições às horas - na certeza de estar construindo a obra que esperam de mim. Tu vens de súbito tratar-me como
um rapaz, dizer-me que tudo começa agora, que deixaste crescer os cabelos para mim,
como pudeste saber que era eu a pessoa certa? E sê-lo-ei?...
Como pudeste adivinhar que atravessei desertos?
Não receias a minha voracidade, este apetite por te sugar toda?
Eu sei - estou aqui porque tu me insinuaste que querias possuir o meu olhar, com uma determinação clandestina"...
[Vítor Oliveira Jorge, As arquitecturas sazonais]
^^
Eu sei - estou aqui porque tu me insinuaste que querias possuir o meu olhar, com uma determinação clandestina"...
[Vítor Oliveira Jorge, As arquitecturas sazonais]
^^
segunda-feira, 6 de julho de 2009
domingo, 5 de julho de 2009
Um Outro Nascimento
"Todo o meu ser é um cântico negro
que te levará
fazendo-te durar
ao despertar dos crescimentos e florescimentos eternos
neste cântico eu suspirei tu suspiraste
neste cântico
eu acrescentei-te à árvore à água ao fogo.
A vida é talvez
uma rua comprida pela qual uma mulher segurando
um cesto passa todos os dias.
A vida é talvez
uma corda com a qual um homem se enforca num ramo
a vida é talvez uma criança a regressar a casa da escola.
A vida é talvez acender um cigarro
na pausa narcótica entre fazer amor e fazer amor
ou o olhar ausente de um homem que passa
tirando o chapéu a um outro homem que passa
com um sorriso vazio e um bom dia.
A vida é talvez esse momento fechado
quando o meu olhar se destrói na pupila dos teus olhos
e está no sentimento
que eu irei pôr na impressão da Lua
e na percepção da Noite.
Num quarto grande como a solidão
o meu coração
que é grande como o amor
olha os simples pretextos da sua felicidade
o belo murchar das flores no vaso
a jovem árvore que plantaste no teu jardim
e o canto dos canários
que cantam para o tamanho de uma janela.
Ah
este é o meu destino
este é o meu destino
o meu destino é
um céu que desaparece com a queda de uma cortina
o meu destino é despenhar-me no voo de estrelas agora inúteis
reconquistar qualquer coisa no meio da putrefacção e da nostalgia
o meu destino é um passeio triste no jardim das memórias
e morrer na dor de uma voz que me diz
eu amo
as tuas mãos.
Irei plantar as minhas mãos no jardim
crescerei eu sei eu sei eu sei
e as andorinhas virão pôr ovos
no vazio das minhas mãos manchadas de tinta.
Vou usar
um par de cerejas gémeas como brincos
e pôr pétalas de dália nas minhas unhas
há um beco
onde os rapazes que se apaixonaram por mim
se demoram ainda com o mesmo cabelo despenteado
os mesmos pescoços finos e as mesmas pernas magras
e pensam nos sorrisos inocentes de uma rapariga
que foi levada pelo vento uma noite.
Há um beco
que o meu coração roubou
às ruas da minha infância.
A viagem de uma forma na linha do tempo
fecundando a linha do tempo com a forma
uma forma consciente de uma imagem
a regressar de uma carícia num espelho.
E é desta maneira
que alguém morre
e alguém segue vivendo.
Nenhum pescador jamais achará uma pérola num pequeno regato
que se esvazia num lago.
Eu conheço uma pequena e triste fada
que vive num oceano
e toca a flauta mágica do seu coração
suave, suavemente
pequena e triste fada
que morre com um beijo todas as noites
e com um beijo renasce a cada amanhecer."
[Forough Farrokhzad]
^^
sábado, 4 de julho de 2009
Minha Intimidade...
És responsável.

É claro que uma pessoa apesar de tudo tem de se adaptar. Dê lá por onde der. Disso ninguém se safa. Atenção, adaptar-se não quer dizer pores-te logo a pensar de uma maneira diferente daquela que costumas pensar. Para te adaptares começas por reprimir os pensamentos. É como com os sonhos ou com os desejos, é possível a gente viver na sociedade, a sociedade até nos pode oferecer uma ou outra coisa. Tens é de saber ao que vais renunciar. Não se pode ter tudo, é óbvio. E se se pudesse também era demais, não era? No fundo, sabes, tu és responsável por tudo, se levantas a mão, és responsável por isso, ou quando falas, és responsável. És responsável por tudo.
[Rainer Werner Fassbinder]
[Rainer Werner Fassbinder]
^^




20.
"Quem é que vai por aí
aflito, místico, nu?
Como é que eu tiro energia
da carne de boi que como?
O que é um homem, enfim?
O que é que eu sou?
O que é que vocês são?
Tudo o que eu digo que é meu,
vocês podem dizer que é de vocês:
de outro modo, escutar-me
seria perder tempo.
Não ando pelo mundo a lastimar
o que o mundo lastima em demasia:
que os meses sejam de vácuo
e o chão seja de lama
e podridão.
A gemer e acovardar-se,
cheio de pós para inválidos,
o conformismo pode ficar bem
para os de quarta categoria;
eu ponho o meu chapéu como bem quero,
dentro ou fora de portas.
Por que iria eu rezar?
Por que haveria eu de me curvar
e fazer rapapés?
Tendo até os estratos perquirido,
analisado até um fio de cabelo,
consultado doutores
e feito os cálculos apropriados,
eu não encontro gordura mais doce
do que a inserida em meus próprios ossos.
Em toda pessoa eu vejo a mim mesmo,
nem mais nem menos um grão de mostarda,
e o bem ou mal que falo de mim mesmo
falo dela também.
Sei que sou sólido e são,
para mim num permanente fluir
convergem os objetos do universo;
todos estão escritos para mim
e eu tenho de saber o que significa
o que está escrito.
Sei que sou imortal,
sei que esta minha órbita não pode
ser traçada
pelo compasso de um carpinteiro qualquer.
Sei que não passarei
assim que nem verruga de criança
que à noite se remove
com um alfinete flambado.
Eu sei que sou majestoso,
não vou tirar a paz do meu espírito
para mostrar quanto vale
ou para ser compreendido:
tenho visto que as leis elementares
jamais pedem desculpas.
(Eu reconheço que, afinal de contas,
não levo meu orgulho
além do nível a que elevo minha casa.)
Existo como sou,
isso é o que basta:
se ninguém mais no mundo
toma conhecimento,
eu me sento contente;
e se cada um e todos
tomam conhecimento,
eu contente me sento.
Existe um mundo
que toma conhecimento,
e este é o maior para mim:
o mundo de mim mesmo.
Se a mim mesmo eu chegar hoje,
daqui a dez mil ou dez milhões de anos,
posso alcançá-lo agora bem-disposto
ou posso bem-disposto esperar mais.
O lugar de meus pés
está lavrado e ajustado em granito:
rio-me do que dizem ser dissolução
- conheço bem a amplitude do tempo."
[Walt Whitman]
^^
sexta-feira, 3 de julho de 2009
Rifa-se um coração...
"Rifa-se um coração quase novo. Um coração idealista. Um coração à moda antiga. Um covarde, moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.
Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, muito machucado e que teima em alimentar sonhos e cultivar ilusões. Um pouco inconsequente, que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu... "Não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero...
Um idealista!!! Um verdadeiro sonhador...
Rifa-se um coração que nunca aprende, que não endurece e mantém sempre a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar. Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros. Esse coração que erra, que briga que se expõe. Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes, revê suas posições arrependido de palavras e gestos. Esse coração tantas vezes incompreendido, tantas vezes provocado, tantas vezes impulsivo.
Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto. Um coração para ser alugado ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes. Um órgão abestado, indicado apenas para quem quer viver intensamente e contra-indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.
Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco seu usuário. Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer pra São Pedro na hora da prestação de contas: "O Senhor pode conferir, eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento. Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e se recusa a envelhecer".
Rifa-se um coração ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo. Um órgão mais fiel ao seu usuário. Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga. Um coração que não seja tão inconsequente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusar a cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo. Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree. Um simples coração humano. Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado. Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta"......
[Clarice Lispector]
^^
Día de enero

"Te conocí un día de enero
Con la luna en mi nariz
Y como ví que eras sincero
En tus ojos me perdí
Que torpe distracción
Y que dulce sensación
Y ahora que andamos por el mundo
Como Eneas y Benitin
Ya te encontre varios rasguños
Que te hicieron por ahí
Pero mi loco amor
Es tu mejor doctor
Voy a curarte el alma en duelo
Voy a dejarte como nuevo
Y todo va a pasar
Pronto verás el sol brillar
Tú más que nadie mereces ser feliz
Ya vas a ver
Como van sanando poco a poco tus heridas
Ya vas a ver
Como va
La misma vida a decantar la sal que sobra del mar
Y aunque hayas sido un extranjero hasta en tu propio país
Si yo te digo ¿cómo dices?
Tu aún dices ¿que decís?
Y lloras de emoción oyendo un bandoneón
Y aunque parezcas despistado con ese caminar pausado
Conozco la razón que hace doler tu corazón
Por eso quise hacerte esta canción
Ya vas a ver
Como van sanando poco a poco tus heridas
Ya vas a ver
Como va
La misma vida a decantar la sal que sobra del mar."
[Shakira]
^^
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Onde as palavras nunca se moldaram

I
"Vejo-te na soleira da porta
hesitas. Em cena apenas estou eu
penso em mudar-me mas entre erros
e desculpas falta-me espaço
se contares histórias serão daquelas que
ninguém quer ouvir
relatos de passeios de domingo onde há sempre ruínas
sim, restaram apenas ruínas escavadas no interior dos olhos
II
entras, não tens medo
rodeado de olhares com sono que ainda não sabem
que as palavras são sempre as mesmas
(uma espécie de cerimónia onde te repetes para evitar a morte)
mentimos os dois sobre uma história feita de fragmentos
dizes que nem sempre o guião é o mesmo
mas repetes-me o teu monólogo ao ouvido
“deixa-me sair” vou abandonar a personagem
que balança no vazio
ultima tentativa: observo-te e tu já não me vês
conheces-me tão pouco, não, isto…
isto não é um dueto, é um duelo
friamente o silêncio cai sobre nós
não há vozes nem adereços
(a cena está vazia)
há apenas uma cortina de vento onde as palavras
nunca se moldaram.
[eue]
^^
Janela
"Uma janela é suficiente
Uma janela para contemplar
Uma janela para escutar
Uma janela
parecida com o anel de um poço
a alcançar a terra na finitude do seu coração
abrindo para a vastidão desta bondade azul e repetitiva
uma janela limando as pequenas mãos da solidão
com a benevolência nocturna
do perfume de estrelas prodigiosas
janela de onde
é possível convocar o sol
para a alienação dos gerânios.
Uma janela ser-me-á suficiente.
Eu venho da terra das bonecas
de debaixo das sombras das árvores de papel
no jardim de um livro de desenhos
das estações secas das experiências incapazes na amizade e no amor
nas ruas sujas da inocência
dos anos das letras pálidas, crescendo, do alfabeto
atrás das mesas da escola tuberculosa
do minuto em que as crianças eram capazes de escrever pedra
no quadro
e os estorninhos eufóricos voavam abandonando
a velha árvore.
Eu venho do meio das raízes das plantas carnívoras
e o meu cérebro está ainda inundado
pelo guincho aterrorizado de uma borboleta
crucificada por alfinetes
num caderno.
Quando a minha confiança estava presa pelo frágil fio da justiça
e na cidade inteira
os corações das minhas lanternas eram feitos em bocados
quando os olhos infantis do meu amor
estavam a ser vendados com o lenço negro da Lei
e dos meus ansiosos templos do desejo
jorravam fontes de sangue
quando a minha vida se tornara nada
nada
senão o tique-taque de um relógio,
eu descobri
que tenho
tenho
tenho de amar,
loucamente.
Uma janela ser-me-á suficiente
uma janela para o momento da consciência
da observância
e do silêncio.
agora,
a pequena nogueira
cresceu tanto que é já capaz de explicar
o significado do muro
às suas jovens folhas.
Pergunta ao espelho
o nome do redentor.
Não estará a terra fremente debaixo dos teus pés mais só que tu?
os profetas trouxeram a missão da destruição para o nosso século
não serão estas consecutivas explosões
e nuvens venenosas
a reverberação dos versículos sagrados?
Tu,
camarada,
irmão,
confidente,
quando chegares à lua
escreve a história dos massacres das flores.
Os sonhos precipitam-se sempre da sua altura ingénua
e morrem.
Cheiro o trevo de quatro folhas
que cresceu sobre o túmulo dos significados arcaicos.
Não seria a mulher
enterrada no sudário da expectativa e da inocência
a minha juventude?
Subirei a escadaria da curiosidade
para saudar o bom Deus que se passeia no telhado?
Sinto que o tempo passou
sinto que o momento é a minha parte das páginas da história
sinto que a mesa é uma distância fingida
entre as minhas madeixas
e as mãos deste triste estranho.
Diz-me
Que mais poderá querer de ti aquele que oferece a ternura de um corpo quente
senão a encarnação da sensação de existir?
Fala comigo
eu estou no refúgio da janela
eu tenho uma relação com o Sol.
[Forugh Farrokhzad]
^^
quarta-feira, 1 de julho de 2009


"Não sei se existe isto de que falo,
mas deixa-me reparar um pouco
no teu modo ternamente animal
de confundir palavras e sentimentos,
num quase-silêncio desabrigado e informe.
Um corpo serve para muito pouco,
desde os caprichos da libido
às infecções urinárias. Coisas às vezes
parecidas que disfarçamos com vinho
e com uns restos de astúcia. Não me ouças,
se não quiseres. Ainda não se perdeu o lume
das mãos redondas com que te despes
a um canto, singularmente igual
ao que de ti recordo num outro Inverno
distante. Deixemo-nos ficar esta noite,
enquanto Tom Waits nos volta a falar
de um camião chamado Phantom 309
ou de outra coisa qualquer, singularmente
igual - um pouco mais triste, talvez.
Não é isso que importa. Também cada um de nós
terá um dia de se despistar ao encontro
de alguma certeza irrisória e no entanto mortal.
Que o vinho não acabe, entretanto, e
que as canções não pereçam nesta noite
cativa do lume mas friamente corrupta.
Sò nos teus lábios posso encontrar os teus lábios.
Eis uma parva verdade a que por vezes regresso,
mais importante decerto do que a sagess de Verlaine
ou do que aquele velho bar onde dantes, pelo
fim da tarde, cumpríamos o amor. Deixa lá, no exacto
sítio da morte, essa teimosa paixão que não morre
nem finge viver. Tudo isto é inútil, embora
o empadão estivesse bom e eu já não saiba sequer
quantos anos passaram desde que um ao outro
oferecemos o engano e a miséria de um rosto.
O vinho depressa acabou, e é no teu peito
que agora adormeço, como se houvesse um lugar.
Daqui a algumas horas esperar-nos-á,
crudelíssimo, o terror tépido de mais um domingo
absolutamente dispensável. Só então saberemos
o que desta noite há-de a memória roubar.
Talvez um perfume a doer-lhe feliz, ou as roucas
onomatopeias de uma certeza insegura
- do lado mais esquivo da morte.
Mas bastam-me para já as mãos redondas
gentis que fazem chover o teu nome
sobre as ruas desertas do meu coração."
[Manuel de Freitas]
^^
[...]

"Tarde chuvosa sombria com
Las Vegas como destino de sonho
ideal, de pelúcia e flamingos
ouvindo pink martinis e vendo cowboys de neon
fumando lucky strikes deleitando-se com o striptease
de showgirls manhosas Barbies à procura do seu ELVIS
por entre as nuvens de fumo
de hotéis de luxo decadente
com lustres estilhaçados onde todos
os princípios barrocos são cortados
ou terminados no tapete ou na cama
dormir ou não dormir
eis a velha e eterna questão
que termina num cabide com ou sem roupa
de perfil por cima de igrejas coloridas
com casamentos ou farsas de tule
cultos mediáticos
católicos ou talvez não
Serão eles marítimos?
embarcações drifting up no meio de um mar de cimento
marés vivas com pin ups de vermelho
e canastrões embrutecidos
por que me escreves?
Quem és?
Será que importa? Talvez!
sim ou não?
mas como a curiosidade e os gatos são eternos
amigos amantes e ou rivais
eu estou morta ou talvez não
por saber as respostas ou perguntas!
O puro prazer da escrita e leitura suplanta por vezes o seu objectivo
velha questão literária
a forma ou o conteúdo
batalha campal entre formalistas
russos
ou talvez não."
[eue]
Las Vegas como destino de sonho
ideal, de pelúcia e flamingos
ouvindo pink martinis e vendo cowboys de neon
fumando lucky strikes deleitando-se com o striptease
de showgirls manhosas Barbies à procura do seu ELVIS
por entre as nuvens de fumo
de hotéis de luxo decadente
com lustres estilhaçados onde todos
os princípios barrocos são cortados
ou terminados no tapete ou na cama
dormir ou não dormir
eis a velha e eterna questão
que termina num cabide com ou sem roupa
de perfil por cima de igrejas coloridas
com casamentos ou farsas de tule
cultos mediáticos
católicos ou talvez não
Serão eles marítimos?
embarcações drifting up no meio de um mar de cimento
marés vivas com pin ups de vermelho
e canastrões embrutecidos
por que me escreves?
Quem és?
Será que importa? Talvez!
sim ou não?
mas como a curiosidade e os gatos são eternos
amigos amantes e ou rivais
eu estou morta ou talvez não
por saber as respostas ou perguntas!
O puro prazer da escrita e leitura suplanta por vezes o seu objectivo
velha questão literária
a forma ou o conteúdo
batalha campal entre formalistas
russos
ou talvez não."
[eue]
^^
(...)

"Vou pôr anúncio obsceno no diário
pedindo carne fresca pouco atlética
e nobres sentimentos de paixão.
Desejo um ser, como dizer, humano
que por acaso me descubra a boca
e tenha como eu fendidos cascos
bífida língua azul e insolentes
maneiras de cantar dentro da água.
Vou querer que me ame e abandone
com igual e serena concisão
e faça do encontro relatório
ou poema que conste do sumário
nas escolas ali além das pontes
E espero ao telefone que me digam
se sou feliz, real, ou simplesmente
uma espuma de cinza em muitas mãos."
[António Franco Alexandre]
^^
terça-feira, 30 de junho de 2009
Além de Mim
[...]
segunda-feira, 29 de junho de 2009
Borboleta = Desejo
O Sono no Limite das Palavras
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