Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Florir


O florir do encontro casual
Dos que hão sempre de ficar estranhos...

O único olhar sem interesse recebido no acaso
Da estrangeira rápida ...

O olhar de interesse da criança trazida pela mão
Da mãe distraída...

As palavras de episódio trocadas
Com o viajante episódico
Na episódica viagem ...

Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...
Caminho sem fim...


[Álvaro de Campos]


^^

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sessão pipoca - Eu só Penso em você



Saí de casa à procura de ilusões
Coincidências e confirmações
Alguém com seu nome, alguma lembrança
Alguma palavra, aquelas canções
O mundo assim parece tão pequeno
e eu continuo tendo visões

Depois que nos encontramos
eu esqueço todo tempo
que fiquei sem te ver
Fora tanto que eu me perco
fora tudo mais que eu penso
eu só penso em você
só penso em você

Eu só penso em você
Só penso em você
Só penso em você
Só penso...

Fiquei em casa a espera de nada
Nenhuma visita, nenhuma chamada
Ninguém com seu nome, nem sua feição
Nenhuma esperança, nenhuma canção
O mundo assim parece tão imenso
E eu continuo vivendo em vão


[Composição: George Israel / Paula Toller]


^^

Tristeza do Infinito


Anda em mim, soturnamente,
uma tristeza ociosa,
sem objetivo, latente,
vaga, indecisa, medrosa.
Como ave torva e sem rumo,
ondula, vagueia, oscila
e sobe em nuvens de fumo
e na minh'alma se asila.

Uma tristeza que eu, mudo,
fico nela meditando
e meditando, por tudo
e em toda a parte sonhando.

Tristeza de não sei donde,
de não sei quando nem como...
flor mortal, que dentro esconde
sementes de um mago pomo.

Dessas tristezas incertas,
esparsas, indefinidas...
como almas vagas, desertas
no rumo eterno das vidas.

Tristeza sem causa forte,
diversa de outras tristezas,
nem da vida nem da morte
gerada nas correntezas...

Tristeza de outros espaços,
de outros céus, de outras esferas,
de outros límpidos abraços,
de outras castas primaveras.

Dessas tristezas que vagam
com volúpias tão sombrias
que as nossas almas alagam
de estranhas melancolias.

Dessas tristezas sem fundo,
sem origens prolongadas,
sem saudades deste mundo,
sem noites, sem alvoradas.

Que principiam no sonho
e acabam na Realidade,
através do mar tristonho
desta absurda Imensidade.

Certa tristeza indizível,
abstrata, como se fosse
a grande alma do Sensível
magoada, mística, doce.

Ah! tristeza imponderável,
abismo, mistério, aflito,
torturante, formidável...
ah! tristeza do Infinito!


[Cruz e Sousa]

^^

Limiar


Somos ainda o limiar - espessa
nuvem embrionária.
Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida
das ondas. Somos
o medo ou sua
improvável renúncia.
O que
sabemos do
amor, da morte, é só
difusa,
opaca,
luminosa fábula.


[Albano Martins]


^^

sábado, 11 de dezembro de 2010

E Que O Tempo Nos Espera


São teus meios, entre universos
Descubram as nuvens
E me coloque mais perto
Porque você sempre esqueceu
Ao mesmo, nem existiu
Estes passos são longos
Sem rumo, nem céu
Dialogo profundo
Queriam te encontrar num instante
Você não existe, eu sei
Quando você olha, seus olhos são cegos
Quando eu me toquei
não era nada em comum
sou eu sem alguém

E que o tempo nos espera
Semanas e meses
E o tempo é uma febre
Anos sem curas
E que o tempo nos espera
Sem enredos, sem preces
Procurei por alguém
Estes dias sem qualquer lugar

Sabe-se que eu não te encontrei
Mesmo nesse planeta terra
Preferia estar ao teu lado
Porque você não entendeu?
Queremos o mesmo obvio
Meus passos são longos
Sem rumo, nem céu
Dialogo profundo
Queriam te encontrar num instante
Você não existe, eu sei
Quando você olha, seus olhos me entrega

E que o tempo nos espera
Semanas e meses
E o tempo é uma febre
Anos sem curas
E que o tempo nos espera
Sem medo nem rezas
Procurei por alguém
Estes dias sem qualquer lugar

São teus olhos
Não me distancie
Quem sabe eu não tente
E que o tempo nos espera
Semanas e meses
E o tempo é uma febre
Anos sem curas


[Composição: Samuel Rosa e Chico Amaral]


^^

O amor é o amor


O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!

[Alexandre O´Neill - Poesias Completas]


^^

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O que é o espaço?


O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível.

[Ana Hatherly]

^^

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Se o mundo inteiro é um palco,


onde está o público sentado?
^^



Sempre acontece sempre em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco em lixo e rasteiro o poema que te envio.
A ti primeiro.

Depois aquela parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte

apenas ódio, ou amor?
Já não distingo - ao que se chega!
um verso maior de um menor

alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?


[Helga Moreira]

^^

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sessão pipoca - Imagine



Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existir países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia
você se junte a nós
E o mundo, então, será como um só

Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo, então, será como um só


[Composição: John Lennon]


^^

(...)
É um vento que diz:
Não se pode sair duma casa vazia.
Tudo o que alguma vez aconteceu
acontece para sempre.



[Benjamin Prado]


^^

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A rigidez dos gestos parados


Porque o tempo é invisível perdi
o poder de te nomear

se algum dia voltares não vais reconhecer
o grau zero das nossas despedidas:

conhecer por antecipação o cenário
silencioso onde alguém fala palavras
que não ouves

tens em ti a rigidez dos gestos parados
entre os silêncios


[Maria Sousa]


^^

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Dos Mundos


Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.

[Mário Quintana - Espelho Mágico]
^^

domingo, 5 de dezembro de 2010

Permissão


Sou construída por emoções secretas.
Podem até comentar sobre mim,
mas me capturar...
Só com minha permissão!


[Martha Medeiros]


^^

Aatini Al-nay


Me dê a flauta e cante
A imortalidade vive numa música
E mesmo depois que tivermos perecido
A flauta continuará seu lamento.

[shakira]


^^

sábado, 4 de dezembro de 2010

Louco, sim


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.


Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?


[Fernando Pessoa]



^^

Sessão pipoca - Eu não esqueço nada



Vejo você de tão longe
Que só eu sei que é você
Só eu sei te ver

Lembro de tudo que houve
De tudo o que ia haver
Do que não foi nada
Dentro dos nadas que havia

Porque eu não esqueço nada
A não ser de te esquecer
Nem ao meio-dia
Nem de madrugada
Eu não esqueço nada
Eu não esqueci

Nem o alivio do fim
Nem o delírio do começo
Nem um dia comum

Você me trata tão bem
Mantém meu coração ferido
Vou lhe fazer um pedido
Não fique perto de mim


[Composição: George Israel / Paula Toller]



^^

(...) A infância vem da eternidade.
Depois só a morte magnífica
— Destruição da mordaça:
E talvez já a tivesse entrevisto
Quando brincavas com o pião
Ou quando desmontaste o besouro. Entre duas eternidades
Balançam-se espantosas
Fome de amor e a música: Rude doçura
Ultima passagem livre.
Só vemos o céu pelo avesso.

[Murilo Mendes - Poesia de Liberdade]

^^

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Por um triz



Brandiu assim o ferro quente
E seu rosto em minha mente
Foi queimando feito cicatriz

Do corpo estreito quase ausente
O cheiro ardido e transparente
Era certo da questão o xis

Que o líquido fermente
Se separem as sementes
Ponham-se os pingos nos ís

Que a lente do amor aumente
Faça em presença o que é ausente
Porque só se vive por um triz

Só o amor pode juntar
O que o desejo separou
Não poderia ontem se
Vestir de amanhã

Só o amor pode apagar
O que o desejo rasurou
Inventaria ontem
Pra existir amanhã



[Composição: Samuel Rosa – Rodrigo F. Leão]
^^

Pousa a mão na minha testa


Não te doas do meu silêncio:
Estou cansado de todas as palavras.
Não sabes que eu te amo?
Pousa a mão na minha testa:
Captarás numa palpitação inefável o sentido da única palavra essencial


- Amor


[Manuel Bandeira]


^^

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010


Acordo com o teu nome nos
meus lábios — amargo beijo

esse que o tempo dá sem
aviso a quem não esquece.

[Maria do Rosário Pedreira - Nenhum nome depois]

^^

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

A chave do meu coração...


Se o mundo é mesmo parecido com o que vejo.
prefiro acreditar no mundo do meu jeito.
E você estava esperando voar
Mas como chegar até as nuvens com os pés no chão?

O que sinto muitas vezes faz sentido
E outras vezes não descubro o motivo
Que me explica porque é que não consigo ver sentido

No que sinto, no que procuro e desejo que faz parte do meu mundo.

O arco-íris tem sete cores
E fui juiz supremo
Vai, vem embora, volta...
Todos têm, todos têm suas próprias razões.

Qual foi a semente que você plantou?
Tudo acontece ao mesmo tempo
Nem eu mesmo sei direito o que está acontecendo
E daí, de hoje em diante, todo dia vai ser o dia mais importante

Se você quiser alguém pra ser só seu
É só não se esquecer eu estarei aqui.


Ou então não terás jamais a chave do meu coração. ( ♥ )


[Legião Urbana]

^^

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

A súbita Revelação da Fragilidade Humana


As rotinas do trabalho ocultam a nossa verdade. Mas elas não podem impedir nem que a tarde chegue, com suas cores de adeus, e nem que o outono chegue(...). Se prestarmos atenção e ouvirmos o que nos dizem, ficaremos sábios. Por que sabedoria é isto: contemplar o Abismo, sem ser destruído por ele.

[Rubens Alves - O retorno e terno]


^^

Difícil Poema de Amor


Separo-me de ti nos solstícios de verão, diante da mesa do juiz supremo dos amantes. Para que os juízes me possam julgar, conhecerão primeiro o amor desonesto infinito feito de marés ambulantes de espinhos nas pálpebras onde as ruas são os pontos únicos do furor erótico e onde todos os pontos únicos do amor são ruas estreitíssimas velocíssimas que se percorrem como um fio de prumo sem oscilação.

Ontem antes de ontem antes de amanhã antes de hoje antes deste número-tempo deste número-espaço uma boca feita de lábios alheios beijou. Precipício aberto: ele nada revela que tu já não saibas. Porque este contágio de precipícios foste tu que mo comunicaste maléfico como um pássaro sem bico.

Num silêncio breve vestiu-se a cidade. Muito bom-dia querido moribundo. Sozinho declaraste a terceira grande paz mundial quando abrindo os olhos me deste de comer cronometricamente às mil e tantas horas da manhã de hoje.

Deito-me cedo contigo o meu sono é leve para a liberdade acordas-me só de pensares nela. As casas e os bichos apoiam-se em ti. Não fujas não te mexas: vou fixar-te para sempre nessa posição.

Que há? Abrem-se fendas no ar que respiro vejo-lhe o fundo. Tens os olhos vasados. Qual de nós os dois "quero-Te" gritou?

Bebe-me espaçadamente encostada aos muros. Se és poeta que fazes tu? Comes crianças jogas ases sentado és uma estátua de pé a cauda de um cometa.

Mães entretanto vão parindo. Os filhos morrerão ainda? Entregas-te a
cálculos. Amas-me demais.
Confesso: não sei se sou amada por ti.

Virás
quando houver uma fala indestrutível devolvida à boca dos mais vivos. Então
virás
vivo também. Sempre esperei ver-te ressuscitado. Desiludiste-me.

E iremos com o plural de nós nos leitos menores onde o riso, onde o leito do rio é um filho entre os dois. Que farei de teus braços de meus cabelos benignos que faremos?

Nasci-te da minha pele com algumas fêmeas te deitei por vezes.
Conheces-me.
Não me tens amor

Grave esta corda cortada agudo seixo me ataste aos olhos para me
afundar.

Só por grande angústia me condenas à morte se de mim te veio a cidade e os minúsculos objectos que já amaste ou que irás amar um dia espero.
Ah a cratera o abismo eléctrico!

Por isso o teu novo amor será comigo mais perigoso que este imaculado com mais visco de amor cópula mortal.

Calo-me.
Reparei de repente que não estavas aqui. Pus-me a falar a falar. Coisas de mulher desabitada. Sei que um dia desviarei sem ti os passeios rectos esvaziarei os gordos manequins falantes. A razão é uma chapa de ferro ao rubro: se acredito na tua morte começo o suicídio.

Enquanto penetrantemente te espero a luz coalhou. Os pássaros coalharam enquanto te espero. O leite enquanto te espero coalhou. Haverá outro verbo?
Submersa, muito distante de qualquer inferno de um paraíso qualquer existo eu.

Existirão tais palavras?

É a altura de escrever sobre a espera. A espera tem unhas de fome, bico calado, pernas para que as quer. Senta-se de frente e de lado em qualquer assento. Descai com o sono a cabeça de animal exótico enquanto os olhos se fixam sobre a ponta do meu pé e principiam um movimento de rotação em volta de mim em volta de mim de ti.

Nunca te conheci - assim explico o teu desaparecimento. Ou antes: separei-me de ti no solstício de um verão ultrapassado. As mulheres viajavam pela cidade completamente nuas de corpo e espírito. Os homens mordiam-se com cio. Imperturbável pertenceste-me. Assim nos separamos.

Não calhasse morrer um de nós primeiro que o outro porque ambos ao mesmo tempo será impossível enquanto não houver relógios que meçam este tempo e as horas fielmente se adiantarem e atrasarem.

Alguma vez pretendi dizer-te o que quer que fosse? Falava por paixão por tibieza por desgosto por claridade por frio por cansaço nunca por pretender dizer o que quer que fosse.

Não me desculpo. Se já me cai o cabelo se já não sinto os ombros é porque o amor é difícil ou a minha cabeça uma pedra escura que carrego sobre o corpo a horas e desoras ostentando-a como objecto público sagrado purulento. O odor que as pedras têm quando corpos. O apocalipse de tudo quando amamos. O nosso sangue em pó tornado entornado.

O teu amor espreita o meu corpo de longe. De longe por gestos
lhe respondo. Tenho raízes nos vulcões ternuras íntimas medos reclusos beijos nos dentes.

A pobreza surge dentro de nós embora cautelosos deitados de manhã e de tarde ou simplesmente de noite despertos. Ambos meu amigo estamos sentados neste momento perfeitamente incautos já. Contemplamos um país e sentamo-nos e vestimo-nos e comemos e admiramos os monumentos e morremos.

Inventei a nossa morte em toda a impossível extensão das palavras.
Aterrorizei-me segundos a fio enquanto em corpo nu ouvindo-me adormecias devagar.

Com a precaução de quem tem flores fechadas no peito passeei de noite pela casa. Um fantasma forçou uma porta atrás de mim. Gemendo como um animal estrangulado acordei-te.

Enterro o meu terror como um alfange na terra. Porque é preciso ter medo bastante para correr bastante toda a casa celebrar bastantes missas negras atravessar bastante todas as ruas com demónios privados nas esquinas.

Só o amor tem uma voz e um gesto mesmo no rosto da ideia que me impus da morte.
És tu tão único como a noite é um astro.

Sobre a poeira que te cobre o peito deixo o meu cartão de visita o meu nome profissão morada telefone.

Disse-te: Eis-me.
E decepei-te a cabeça de um só golpe.

Não queria matar-te. Choro. Eis-me! Eis-me!


[Luiza Neto Jorge]


^^

domingo, 28 de novembro de 2010

Aquele Abraço


O Rio de Janeiro
Continua lindo
O Rio de Janeiro
Continua sendo
O Rio de Janeiro
Fevereiro e março

(...)

Meu caminho pelo mundo
Eu mesmo traço
A Bahia já me deu
Régua e compasso
Quem sabe de mim sou eu
Aquele Abraço!
Prá você que me esqueceu
Ruuummm!
Aquele Abraço!
Alô Rio de Janeiro
Aquele Abraço!
Todo o povo brasileiro
Aquele Abraço!

[Composição: Gilberto Gil]


^^

Verdade - Mentira



Verdade, mentira, certeza, incerteza...
Aquele cego ali na estrada também conhece estas palavras.
Estou sentado num degrau alto e tenho as mãos apertadas
Sobre o mais alto dos joelhos cruzados.
Bem: verdade, mentira, certeza, incerteza o que são?
O cego pára na estrada,
Desliguei as mãos de cima do joelho
Verdade mentira, certeza, incerteza são as mesmas?
Qualquer cousa mudou numa parte da realidade — os meus joelhos
e as minhas mãos.
Qual é a ciência que tem conhecimento para isto?
O cego continua o seu caminho e eu não faço mais gestos.
Já não é a mesma hora, nem a mesma gente, nem nada igual.
Ser real é isto.

[Alberto Caeiro]

^^

O Sonho


Sonhe com aquilo que você quer ser,
porque você possui apenas uma vida
e nela só se tem uma chance
de fazer aquilo que quer.

Tenha felicidade bastante para fazê-la doce.
Dificuldades para fazê-la forte.
Tristeza para fazê-la humana.
E esperança suficiente para fazê-la feliz.

As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas.
Elas sabem fazer o melhor das oportunidades
que aparecem em seus caminhos.

A felicidade aparece para aqueles que choram.
Para aqueles que se machucam
Para aqueles que buscam e tentam sempre.
E para aqueles que reconhecem
a importância das pessoas que passaram por suas vidas.

[Clarice Lispector]


^^

sábado, 27 de novembro de 2010

Como As Espigas


Finalmente (embora
saibas que não há
nem fim nem princípio):
deves dizer ainda
que há uma rosa de espuma
no teu peito e que
o seu perfume
não se esgota.
E que lá
também existe
uma fonte onde bebem
as flores silvestres
. Mas não
humildes, como ias
chamar-Ihes: altas
como as espigas
do vento, que no vento
se esquecem e que no vento
amadurecem.

[Albano Martins - in Escrito a Vermelho]
^^

Sessão pipoca - Me Adora



Tantas decepções eu já vivi
Aquela foi de longe a mais cruel
Um silêncio profundo e declarei:
Só não desonre o meu nome...

Você que nem me ouve até o fim
Injustamente julga por prazer
Cuidado quando for falar de mim
E não desonre o meu nome...

Será que eu já posso enlouquecer?
Ou devo apenas sorrir?
Não sei mais o que eu tenho que fazer
Pra você admitir

Que você me adora
Que me acha foda
Não espere eu ir embora pra perceber

Perceba que não tem como saber
São só os seus palpites na sua mão
Sou mais do que o seu olho pode ver
Então não desonre o meu nome...

Não importa se eu não sou o que você quer
Não é minha culpa a sua projeção

Aceito a apatia, se vier
Mas não desonre o meu nome...


[Composição: Pitty / Derrick Green / Andreas Kisser]


^^

A porta aporta


a porta roda ao invés da lua
a porta roda bússula enterrada ao invés dos olhos
a porta geme é um cão nocturno
a porta geme extinta na trela da noite
a porta areia
a porta caruncho pária de mar
a porta maré que vem e que vai que bate e que fecha
a porta com máscara de morte
a porta sem sorte
a porta joelho na alma das portas
a porta mulher da casa de passe
a porta manchou a manhã com o grito de porta
a porta enforcada no mastro da casa
a porta por asa
a porta roda
a porta sexo a vida toda
a porta tosca da madrugada pregos são estrelas mortas
a porta pregada
a porta leilão
a porta batente a porta aranha por coração
a porta tu
a porta eu
a porta ninguém na terra pequena
a porta roda
a porta geme
a porta facho
a porta leme

[Luiza Neto Jorge]


^^

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Onde Estão?


Fecho os olhos
Peço para Deus
Que possa atender
Esses versos e prosa
Que eu deixei
E eu não sei
Se irão
Tocá-lo em servidão

Abro a porta
Olho para o céu
Será que já choveu?
No jardim essas rosas
Que eu plantei
E eu não sei
Se estão
Mortas ou em botão

E eu me perguntei:
Onde estão
Todas as crianças
Todas as pessoas
Que eu já chamei
Que eu procurei aqui
E que eu tanto amei?
Onde estão meus irmãos?
Onde estão?

Abro os braços
Tanta emoção
Quando eu irei te ver?
No jardim, essas rosas
Que eu plantei
Mas eu não sei
Se irão
Abrir esses botões

Fecho os olhos
Peço para Deus
Que tente entender
Esses versos e prosa
Que eu não sei
Se eu deixei
Em vão
Tocar a imensidão

[Composição: Samuel Rosa / Nando Reis]


^^

Arte de amar


Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.


[Manuel Bandeira]

^^

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

A Oração da Gestalt


Eu faço minhas coisas, e você faz as suas.
Eu não estou neste mundo para viver as suas expectativas.
E você não está neste mundo para viver as minhas.
Você é você, e eu sou eu,
E, se por acaso, nós nos encontrarmos, será ótimo.
Se não, nada se pode fazer .


[Frederick Perls]


^^

Fácil é julgar


Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas pelas circunstâncias.
Díficil é encontrar e refletir sobre seus erros, ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
E é assim que perdemos pessoas especiais.


[C. Drummond de Andrade]


^^

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Flor que não dura


Flor que não dura
Mais do que a sombra dum momento
Tua frescura
Persiste no meu pensamento.
Não te perdi
No que sou eu,
Só nunca mais, ó flor, te vi
Onde não sou senão a terra e o céu.


[Fernando Pessoa]


^^

Memórias de uma boneca de Cristal




Não passo o sinal vermelho
Não ando de pés descalços
Não ponho o dedo na tomada
Não dou gargalhadas

Não durmo sem baby doll
Não deito depois das 10
Não faço mal criações
Não falo de futebol
Não faço canções

Eu fecho as pernas pra sentar
Eu cuido pra roupa não sujar
Eu tomo o remédio na hora certa
Eu escolho as palavras pra falar
Eu saio na rua à procura de um lugar
Eu espero, eu espero...

Eu espero um dia me encontrar
Eu espero um dia
Eu espero um
Eu espero
Eu

[Luka]

^^

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pray For Forgiveness


Lindo jardim, pra onde você foi?
Minhas ilusões estão me deixando na tempestade
E eu não valorizo nenhuma bondade que eu encontro
Em algum lugar eu perdi tudo, o controle veio desabando

E eu rezo por perdão, procuro as respostas
Porque é díficil pra mim, ter que fingir
Você não pode ver o estado em que eu estou?
E ninguém notaria, ninguém notou
Porque sou eu onde tudo isso começa

Linda manhã, por favor não me acorde do meu sono
Porque eu preciso de algum conforto pra recuperar minha sanidade
E eu não quero sentir toda essa loucura
Eu não quero sentir toda essa mágoa
Destruida em milhões de pedaços
Eu estou com o coração quebrado
Não existe mais lugar pra correr
Não existe mais lugar pra ir
Então eu mantenho a esperança

Eu rezo por perdão, procuro as respostas
Porque é díficil pra mim, ter que fingir
Você não pode ver o estado em que eu estou?
E ninguém notaria, ninguém notou
Porque sou eu onde tudo isso começa
E eu rezo por perdão dentro de mim

Juro que a cada dia parece que minha mente está me assombrando
E eu penso em cada pequeno erro estúpido que eu cometi
Desta vez eu não tenho forças pra juntar a mim mesma

Estou caindo em pedaços

E eu rezo por perdão, procuro as respostas
Porque é díficil pra mim, ter que fingir
Você não pode ver o estado em que eu estou?

Eu rezo por perdão
Procuro por justiça
Procuro por respostas
Rezo por perdão, quebrando o silêncio

Ninguém sabe disso, ninguém notou
Que sou eu onde isso tudo começa


[Alicia Keys]


^^

I

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta

e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme


II

Piso do poema
chão de areia

Digo na maneira
mais crua e mais
intensa

de medir o poema
pela medida inteira

o poema em milímetro
de madeira

ou apodrece o poema
ou se alteia

ou se despedaça
a mão ateia

ou cinco seis astros
se percorre

antes que o deserto
mate a fome


[Luiza Neto Jorge]
^^

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Eu metia as mãos na água: adormecia, relembrava.




Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.

Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa – como direi? – absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.


Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta – como direi? -
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.

Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.

Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.

Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.

Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.

Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.



[Herberto Helder]

^^

domingo, 21 de novembro de 2010

Vive







Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.

É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


[Alberto Caeiro]


^^

O Esplendor


E o esplendor dos mapas, caminho abstrato para a imaginação concreta,
Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.
O que de sonho jaz nas encadernações vetustas,
Nas assinaturas complicadas (ou tão simples e esguias) dos velhos livros.

Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte,
O que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações,
O que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam.

Tudo quanto sugere, ou exprime o que não exprime,
Tudo o que diz o que não diz,
E a alma sonha, diferente e distraída.


Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!


[Álvaro de Campos]

^^

No temas al silencio cuando ya no hay palabras en tus manos

En el desván del alma las cosas desempolvan nuevos
nombres
que habrán de obedecerte
dócilmente.


[Elizabeth Azcona Cranwell]


^^

sábado, 20 de novembro de 2010

Sessão pipoca - Inevitable



Se é questão de confessar
Não sei preparar café
E não entendo de futebol


Acredito que alguma vez fui infiel
Até ludo eu jogo mal
E jamais uso relógio

E para ser mais franca
Ninguém pensa em você como eu faço
Ainda que pra você dê no mesmo

(... )


Comigo nada é fácil
Já deve saber, você me conhece bem
E sem você tudo é chato

O céu já está cansado de ver
A chuva cair
E cada dia que passa é um mais
Parecido a ontem
Não encontro forma alguma de te esquecer
Porque seguir te amando é inevitável

Sempre soube que é melhor
Quando se tem que falar de dois
Começar por si mesmo

Você já saberá da situação
Aqui tudo está pior
Pelo menos ainda respiro

Não tem que dizer isto
Não vai voltar, te conheço bem
Já procurarei o que fazer comigo

O céu já está cansado de ver
A chuva cair
E cada dia que passa é um mais
Parecido a ontem
Não encontro forma alguma de te esquecer
Porque seguir te amando é inevitável

Sempre soube que é melhor
Quando se tem que falar de dois
Começar por si mesmo

[Shakira]


^^