Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

A Distância


Nunca mais você ouviu falar de mim
Mas eu continuei a ter você
Em toda esta saudade que ficou...
Tanto tempo já passou e eu não te esqueci.

Quantas vezes eu pensei voltar
E dizer que o meu amor nada mudou
Mas o meu silêncio foi maior
E na distância morro
Todo dia sem você saber.

O que restou do nosso amor ficou
No tempo, esquecido por você...

Vivendo do que fomos ainda estou
Tanta coisa já mudou, só eu não te esqueci.

Eu só queria lhe dizer que eu
Tentei deixar de amar, não consegui
Se alguma vez você pensar em mim
Não se esqueça de lembrar
Que eu nunca te esqueci


[Vanessa da Mata]
^^

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

... de Ontem em Diante


De ontem em diante serei o que sou no instante agora
Onde ontem, hoje e amanhã são a mesma coisa
Sem a idéia ilusória de que o dia, a noite e a madrugada
[são coisas distintas]
Separadas pelo canto de um galo velho
Eu apóstolo contigo que não sabes do evangelho
Do versículo e da profecia
Quem surgiu primeiro? o antes, o outrora, a noite ou o dia?
Minha vida inteira é meu dia inteiro
Meus dilúvios imaginários ainda faço no chuveiro!
Minha mochila de lanches?
É minha marmita requentada em banho Maria!
Minha mamadeira de leite em pó
É cerveja gelada na padaria
Meu banho no tanque?
É lavar carro com mangueira
E se antes um pedaço de maçã
Hoje quero a fruta inteira
E da fruta tiro a polpa... da puta tiro a roupa
Da luta não me retiro
Me atiro do alto e que me atirem no peito

Da luta não me retiro...
Todo dia de manhã é nostalgia das besteiras que fizemos ontem.


[Teatro Mágico]


^^

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mulher Carioca


Ela tem um jeitinho como ninguém
Que ninguém tem


A gaúcha tem a fibra
A mineira o encanto tem
A baiana quando vibra
Tem tudo isso e o céu também

A capixaba bonita
É de dar água na boca
E a linda pernambucana
Ai, meu Deus, que coisa louca!

A mulher amazonense
Quando é boa é demais
Mas a bela cearense
Não fica nada para trás

A paulista tem a "erva"
Além das graças que tem
A nordestina conserva
Toda a vida e o querer-bem

A mulher carioca
O que é que ela tem?

Ela tem tanta coisa
Que nem sabe que tem

Ela tem o bem que tem
Tem o bem que tem o bem
Tem o bem que ela tem
Que ninguém tem, que tem

Ela tem um pouquinho que ninguém tem
Ela faz um carinho como ninguém
Ela tem um passinho que vai e que vem
Ela tem um jeitinho de nhem-nhem-nhem
A carioca tem um jeitinho de nhem-nhem-nhem
Tem um jeitinho de nhem-nhem-nhem
Tem um carinho também
A carioca faz um passinho de nhem-nhem-nhem...


[Vinicius de Moraes]


^^

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A Cor do Som


Abri a porta,
Apareci,
A mais bonita,
Sorriu pra mim ...
Naquele instante me convenci
O bom da vida vai prosseguir

Vai prosseguir, vai dar pra lá do céu azul
Onde eu não sei, lá onde a lei seja o amor
E usufruir do bem, do bom e do melhor seja comum
Pra qualquer um, seja quem for.



[Adriana Calcanhotto]
^^

domingo, 29 de janeiro de 2012

78 Rotações


Ela vinha numa manhã
Rachada
Pelo vento que soprou
De madrugada
No frio de uma manhã de maio
De franja na testa
Tentava esconder o pensamento
Que só pensava em mim
Ela pensava em nós
Meu cigarro clareando
A madrugada
Nosso quarto, nossa vida, nossa casa
Na beira do mangue
Na beira da lama
Na beira de Olinda

Eu nem me lembro da casinha
pequenina
Na beira do mangue
Na beira da lama
Na beira de Olinda

Perdida em 78 rotações...


[Alceu Valença]


^^

Porque a vida segue.

Mas o que foi bonito fica com toda a força. Mesmo que a gente tente apagar com outras coisas bonitas ou leves, certos momentos nem o tempo apaga. E a gente lembra. E já não dói mais. Mas dá saudade. Uma saudade que faz os olhos brilharem por alguns segundos e um sorriso escapar volta e meia, quando a cabeça insiste em trazer a tona, o que o coração vive tentando deixar pra trás.

[Caio Fernando Abreu]


^^

sábado, 28 de janeiro de 2012

Sessão pipoca - Sweet Child O'Mine




♪♫ She's got a smile that it seems to me
Reminds me of childhood memories
Where everything was as fresh
As the bright blue sky

Now and then when I see her face
She takes me away to that special place
And if I stare too long
I'd probably break down and cry

Ohh! Ohh! Sweet child o' mine
Ohh! Ohh! Sweet love of' mine

She's got eyes of the bluest skies
As if they thought of rain
I hate to look into those eyes
And see an ounce of pain

Her hair reminds me of a warm safe place
Where as a child I'd hide
And pray for the thunder and the rain
To quietly pass me by

Ohh! Ohh! Sweet child o' mine
Ohh! Ohh! Sweet love of mine
Ohh! Ohh! Sweet child o' mine
Ohh! Ohh! Sweet child of mine
Ohh! Ohh! Sweet child o' mine
Ohh! Ohh! Sweet child o' mine

Where do we go(...)
Where do we go now
Where do we go (sweet child)
Where do we go now
childSweet child o' mine ♪♫


[Guns N' Roses]


^^

Não tenho nada para dizer


não tenho pressa
nada se repete ao encontro do meu olhar
assim percorro a distância entre mim e o nada
abandonando-me ao instante e ao seu silêncio
enquanto o mar, ao longe, inexpressivo
me contempla
e da janela eu as espreito, luz e sombra
devagar pelo meu quarto.


[Rui Machado]


^^

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

A Palavra


Ao descascar a palavra esperança encontrei polpa de maçã
e caroço de pedra.

Ao descascar a palavra amor achei pele de pêssego
e carne de cinza.

Ao descascar a palavra verdade, encheu as minhas mãos
e ao chegar à minha boca não existia...


[Josefina Plá]


^^

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A fúria dos pores-do-sol





Algo
frio está no ar,
uma aura de gelo
e apatia
Todo o dia construí
uma vida inteira
e agora
o sol afunda-se para
a desfazer.
O horizonte sangra
e chupa o seu polegar
o pequeno polegar vermelho
desaparece.
E eu interrogo-me sobre
esta vida inteira comigo,
este sonho que estou a viver.
E podia comer o céu
como uma maçã
mas prefiro
perguntar à primeira estrela:

porque estou aqui?
porque vivo nesta casa?
quem é o responsável?
hã?



[Anne Sexton]


^^

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Descreve-me.



Conta-me uma história sem que grites uma mentira. Sem que dês uma facada no mundo; em mim. Cá dentro – onde as palavras não chegam – quantas horas de solidão? Uma perdição desconhecida – e é como quem diz febre excessiva – que ofereça de beber às lágrimas. Ninguém pode saber que o dia começa tarde, que a dor sufocou ao canto da cama, que o amor aconteceu e já ninguém sabe se volta. É assim que se prova a imprudência? As cores dos objectos todas fora do lugar; uma ligeira corrente de ar assustada pelos malabarismos de um corpo que finalmente se entrega ao cansaço – o amor permanece? – e a lua reflectida no mar. Às vezes isto. Bastava dizeres-te aqui. Eu podia fingir olhar para o tecto, imaginar-me dentro das ausências do mundo, e esquecer o impossível. Entre o teu corpo e o meu uma vaga – ou precipício? - onde não nos deixamos cair por capricho. Adormecemos. Eu queria plantar rios, regar todas as flores, transpirar mapas e esbater fronteiras inúteis até que se rasgassem de raiva. Se no lugar do coração tivessem crescido mãos dadas os pássaros não mais se esconderiam. Venham ter comigo. Esfrego os olhos e escrevo em colapso: sou uma folha que se fechou antes mesmo de existir. Tic tac Tic tac Tic tac Tic tac. Não há tempo para vender a alma. Carrego memórias de um lado para o outro e sorrio a quem passa. Começa tu de novo, por favor: conta-me uma história de gestos vermelhos que queimam como lava e tanto salvam como maldizem. Estende-me esse olhar – e é como quem diz – Ama-me. Vem comigo. Há palavras que merecem silêncio.


Mas quem é capaz de percebê-las sem antes precisar sangrá-las na sua insensatez?


[autor desconhecido]


^^

Antes nós



Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?


[Ricardo Reis]


^^

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sabes quem sou?



Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr
.

[Fernando Pessoa]


^^

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Há doenças piores que as doenças,



Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.


Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.


[Fernando Pessoa]


^^

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Noite de Verão



Este não sou eu
Meus lábios nos seus lábios não são meus
O meu olho no seu olho no meu olho no seu
Duvida do que vê

Deve ser um rei
Deve ser um deus
O homem que possui você

Não pode ser eu
Você fala meu nome, quem sou eu?
Você fala meu homem, sim,
Meu homem, sim, mas qual?
Eu nunca fui ninguém

Deve ser demais
Deve ser o tal
O homem que lhe faz tão bem


[Chico Buarque]


^^

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ternura Antiga

Ai, a rua escura, o vento frio
Essa saudade, esse vazio
Essa vontade de chorar.

Ai, tua distância tão amiga
Essa ternura tão antiga
E o desencanto de esperar.


Sim, eu não te amo porque quero.
Ah, se eu pudesse esqueceria.

Vivo, e vivo só porque te espero.
Ai, esta amargura, esta agonia.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu...


[Maria Bethânia]


^^

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Quase não te lembras do rasto do teu corpo



e no entanto pesam-te
as suas palavras
como o eco duma avalanche
que se aproxima.

Não existes, não és nada,
não imagines amor
onde apenas há sombras.

És a estrada secundária
o desvio de um dia sem pressas
para alguém que brinca
a mudar de destino
mas leva uma bússola
e volta sempre a casa.


[Ana Merino]


^^

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Contudo


Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,

Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim.


[Álvaro de Campos]


^^

domingo, 8 de janeiro de 2012

Chove? Nenhuma chuva cai...



Chove ? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?
Onde é que chove, que eu o ouço ?
Onde é que é triste, ó claro céu ?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...


No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés

No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...



[Fernando Pessoa]



^^

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^^