Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Crua


Há sempre um lado que pesa e um outro lado que flutua. Tua pele é crua.
Há sempre um lado que pesa e um outro lado que flutua. Tua pele é crua.
Dificilmente se arranca lembrança, lembrança, lembrança, lembrança...
Por isso da primeira vez dói, por isso não se esqueça: dói.
E ter que acreditar num caso sério e na melancolia que dizia.
(...)


[Otto]


^^

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Os domingos de Lisboa


Os domingos de Lisboa são domingos
Terríveis de passar - e eu que o diga!
De manhã vais à missa aS. Domingos
E à tarde apanhamos alguns pingos
De chuva ou coçamos a barriga.

As palavras cruzadas, o cinema ou a apa,
E o dia fecha-se com um último arroto.
Mais uma hora ou duas e a noite está
Passada, e agarrada a mim como uma lapa,
Tu levas-me p'ra a cama, onde chego já morto.

E então começam as tuas exigências, as piores!
Quer's por força que eu siga os teus caprichos!
Que diabo! Nem de nós mesmos seremos já senhores?
Estaremos como o ouro nas casas de penhores
Ou no Jardim Zoológico, irracionais, os bichos?
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Mas serás tu a minha «querida esposa»,
Aquela que se me ofereceu menina?
Oh! Guarda os teus beijos de aranha venenosa!
Fecha-me esse olho branco que me goza
E deixa-me sonhar como um prédio em ruína!...


[Alexandre O´Neill - Poesias Completas - 1951/1981]



^^

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sessão pipoca - It's My Life




Esta não é uma canção para um coração partido
Não é uma oração para quem perdeu a fé
Eu não vou ser só um rosto na multidão
Você vai ouvir a minha voz
Quando eu gritar isto bem alto

É a minha vida
É agora ou nunca
Eu não vou viver para sempre
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
(é a minha vida)
Meu coração é como uma rodovia aberta
Como Frankie disse
Eu fiz do meu jeito
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
É a minha vida

Isto é para aqueles que fizeram seu caminho
Para Tommy e Gina que nunca desistiram
Amanhã está ficando difícil não cometer nenhum erro
A sorte ainda não teve sorte
Tem de fazer suas próprias regras

É a minha vida
É agora ou nunca
Eu não vou viver para sempre
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
(é a minha vida)
Meu coração é como uma rodovia aberta
Como Frankie disse
Eu fiz do meu jeito
Eu só quero viver enquanto eu estou vivo
É a minha vida

É melhor estar alerta quando eles estão chamando por você
Não se curve, não quebre, baby, não desista.


[Composição: Jon Bon Jovi / Richie Sambora / Max Martin]


^^

Perdido(a)



Só porque estou perdendo
Não significa que eu esteja perdido
Não significa que irei parar
Não significa que deva me render...

Só porque estou sofrendo
Não significa que estou ferido
Não significa que eu não tenho o que eu mereço.
Nem o melhor e nem o pior
.

Eu apenas me perdi
Todo rio que tentei atravessar
Toda porta que testei, estava trancada
Estou... apenas esperando o brilho se apagar...


[Coldplay]

^^

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Comigo, a ver!


Ah estou vendo que a vida não é curta,
mas incomensuravelmente longa:
daqui em diante eu piso o mundo casto,
temperado, madrugador, crescente firme,
cada hora sêmen de séculos
e mais séculos.



Eu tenho de acompanhar
essas contínuas lições da terra, da água e do ar:
sinto que não tenho tempo a perder.


[Walt Whitman - Folhas das folhas de relva]


^^

A Violência Travestida Faz Seu Trottoir


No ar que se respira, nos gestos mais banais
em regras, mandamentos, julgamentos, tribunais
na vitória do mais forte, na derrota dos iguais

a violência travestida faz seu trottoir

Na procura doentia de qualquer prazer
Na arquitetura metafisica das catedrais
Nas arquibancadas, nas cadeiras, nas gerais

a violencia travestida faz seu trottoir

na maioria silenciosa, orgulhosa de não ter
vontade de gritar, nada pra dizer
a violência travestida faz seu trottoir
nos anúncios de cigarro que avisam que fumar faz mal

a violência travestida faz seu trottoir
em anúncios luminosos, lâminas de barbear
armas de brinquedo, medo de brincar
a violência travestida faz seu trottoir

no vídeo, idiotice intergaláctica
na mídia, na moda, nas farmácias
no quarto de dormir, na sala de jantar
a morte anda tão viva, a vida anda pra trás
é a livre iniciativa, igualdade aos desiguais
na hora de dormir, na sala de estar

a violência travestida faz seu trottoir

uma bala perdida encontra alguém perdido
encontra abrigo num corpo que passa por ali
e estraga tudo, enterra tudo, pá de cal
enterra todos na vala comum de um discurso liberal

Tudo que ele deixou foi uma carta de amor pra uma apresentadora de programa infantil. Nela ele dizia que já não era criança, e que a esperança também dança como monstros de um filme japonês. Tudo que ele tinha era uma foto desbotada, recortada de revista especializada em vida de artista. Tudo que ele queria era encontrá-la um dia (todo suicida acredita na vida depois da morte). Tudo que ele tinha cabia no bolso da jaqueta. A vida quando acaba, cabe em qualquer lugar.


E a violência travestida faz seu trottoir...

não se renda às evidências
não se prenda à primeira impressão

eles dizem com ternura:
"o que vale é a intenção"
e te dão um cheque sem fundos
do fundo do coração

no ar que se respira
nessa total falta de ar
a violência travestida
faz seu trottoir

em armas de brinquedo, medo de brincar
em anúncios luminosos, lâminas de barbear
nos anúncios de cigarro que avisam que fumar faz mal

a violência travestida faz seu trottoir
a violência travestida faz seu trottoir



[Composição: Humberto Gessinger]


^^

domingo, 23 de janeiro de 2011

O quotidiano "não"


Estamos todos bem servidos
de solidão.
De manhã a recolhemos
do saco, em lugar de pão.

Pão é claro que temos
(não sou exageradão)
mas esta imagem do saco
contendo um pequeno «não»

não figura nesta prosa
assim do pé para a mão,
pois o saco utilizado,
que pode ser o do pão,

recebe modestamente
a corriqueira fracção
desse alimento que é
tão distribuído, tão

a domicílio como
o leite ou o pão.
Mas esse leitor aí
(bem real!) já diz que não,

que nunca viu no tal saco
o tal «não».
Ao que o poeta responde,
sem maior desilusão:

- Para dizer a verdade,
eu também não...
Mas estava confiante
na sua imaginação

(ou na minha...) e que sentia
como eu a solidão
e quanto ela é objecto
da carinhosa atenção

de quem hoje nos fornece
o quotidiano «não»,
por todos os meios, desde
a fingida distracção,

até ao entre-parêntesis
de qualquer reclusão...



[Alexandre O´Neill - Poesias Completas - 1951/1981]

^^

sábado, 22 de janeiro de 2011

Leve


Não me leve a mal
Me leve à toa pela última vez
A um quiosque, ao planetário
Ao cais do porto, ao paço

O meu coração, meu coração
Meu coração parece que perde um pedaço, mas não
Me leve a sério
Passou este verão
Outros passarão
Eu passo


[Composição: Carlinhos Vergueiro - Chico Buarque]


^^

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A Canção Da Despedida


Eu saí da estrada há muito tempo atrás
Indo atrás de uma miragem que desapareceu
Só os loucos acreditam em fantasmas
Como o amor eterno que alguém prometeu
Eu dei mais do que podia e isso não bastou
Mas um dia a gente acorda e a febre já passou

E hoje estou de volta à vida
Aos amigos, aos sorrisos, sob o sol
E hoje estou de volta à vida
Prá você essa é a canção da despedida

Dessa vez perdi o rumo e a medida
Fiquei tão fraco quanto alguém pode ficar
Nessa viagem quase cego eu te seguia
E eu fazia quase tudo pra agradar
Eu tentava acreditar que isso é que era amor
Eu estive tão doente, agora já passou

Eu tentava acreditar que isso é que era amor
Eu estive tão doente, agora já passou...


[Heróis da Resistência]


^^

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Só nosso


é assim o nosso silêncio
que diz tanto de nós dois...

Danni^^

Fim de semana


Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia,
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.


[Alexandre O´Neill - Poesias Completas - 1951/1981]


^^

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


À infância só se chega partindo de muito longe. A infância é aí, onde partes, não onde chegas. Olha para trás. Que vês? Nada. A memória é a única coisa que verdadeiramente te pertence, mas lembras-te de um estranho. Como poderias, há muitos anos, saber que eras apenas a lembrança de um estranho:

tu?

Palavras é tudo o que tens. Palavras. Palavras. Palavras. Alguma vez tiveste outra coisa?


[Manuel António Pina]


^^

Aqui neste profundo apartamento


Aqui neste profundo apartamento
Em que, não por lugar, mas mente estou,
No claustro de ser eu, neste momento
Em que me encontro e sinto-me o que vou,
Aqui, agora, rememoro
Quanto de mim deixer de ser
E, inutilmente, [....] choro
O que sou e não pude ter.


[Fernando Pessoa]
^^

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Você não sabe amar


Você não sabe amar, meu bem,
Não sabe o que é o amor
Nunca viveu, nunca sofreu,
E quer saber mais que eu
O nosso amor parou aqui
E foi melhor assim
Você esperava e eu também
Que fosse esse seu fim
O nosso amor não teve querida
as coisas boas da vida
E foi melhor para você
E foi também melhor pra mim


[Composição: Carlos Guinle / Dorival Caymmi / Hugo Lima]


^^

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Fotos na Estante

Sem mais nem menos
Sem remédio, sem desculpa
Em horas tortas
Horas tímidas, ocultas
Pelas esquinas
De olhares indiscretos
O nosso amor
Amor claro de objeto
Sem dor ou crime
Amor simples e direto
Entre os pássaros de barro descansando na estante
Pelas costas amarelas dessas fotos insinceras
Descobri lindas mentiras tão terríveis quanto belas
Digo o que fazer então, são memórias tão reais
Do que nunca aconteceu

Desenhei miragens tolas
Nas margens do seu deserto
E uma verdade impossível
Só pra ter você por perto

Sem dor ou crime
Amor simples e direto
Entre os pássaros de barro descansando nas estantes
Pelas esquinas
De olhares indiscretos
O nosso amor
Quebrou feito objeto
Digo o que fazer então, são memórias tão reais
Do que nunca aconteceu...



[Skank]


^^

Cama Vazia



Não faço rodeios, não meço palavras
Eu digo o que sinto
Não perco meu tempo, amar não tem hora
Eu sigo seu ritmo
Te abraço apertado, adoro seu corpo colado no meu
No nosso futuro nós dois para sempre, só você e eu
Tá tudo deserto, na cama vazia, eu sinto seu cheiro
Deixou seu perfume do lado direito do meu travesseiro
Eu sonho acordada, adoro seu jeito, igualzinho ao meu
No nosso futuro nós dois para sempre, só você e eu
Tá tudo deserto, na cama vazia, eu sinto seu cheiro
Deixou seu perfume do lado direito do meu travesseiro
Eu sonho acordada, adoro seu jeito, igualzinho ao meu
No nosso futuro nós dois para sempre, só você e eu
Eu sonho acordada, adoro seu jeito, igualzinho ao meu
No nosso futuro nós dois para sempre, só você e eu


[Compositores: Celso Fonseca e Ronaldo Bastos]


^^

domingo, 16 de janeiro de 2011

Sessão Pipoca - Fogo e gasolina




Você é um avião e eu sou um edifício
Eu sou um abrigo e você é um missil
Eu sou a mata e você é a moto-serra
Eu sou um terremoto e você a Terra.

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina

Você é o fósforo e eu sou o pavio
Você é um torpedo e eu sou um navio
Você é o trem e eu sou o trilho
Eu sou o dedo e você é o meu gatilho

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gás

Eu sou a veia e você é a agulha
Eu sou o gás e você é a fagulha
Eu sou o fogo e você é a gasolina
Eu sou a pólvora e você a mina

O nosso jogo perigoso combina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina


[Composição: Pedro Luís e Carlos Rennó]
[Voz: Roberta Sá]


^^

Alô, liberdade


Alô, liberdade
Desculpa eu vir
Assim sem avisar
Mas já era tarde
E os galos tão
Cansados de cantar

Bom dia, alegria
A minha companhia
Vai cantar
Sutil melodia
Pra te acordar


[Composição: Enriquez/Bardotti/Chico Buarque]


^^

sábado, 15 de janeiro de 2011

A Traição


Quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse.



[Alexandre O'Neill (1924-1986) - Poesias Completas]



^^

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

10.000 Destinos


Meus esforços pra entender o mundo fracassaram
São destroços frágeis de um naufrágio

Minha cruz, uma chave philips, cinco linhas
Um boteco na esquina entre o profano e o sagrado

Morde a morte, a mordida
Solte o bote, salva-vidas
Há mais de mil destinos na esquina
Outras vidas esperando em cada esquina

Adoro manter as cores vivas, com certeza
Vermelho sangue, amarelo ouro, verdes mares
Azul do céu, azul do mar, aí está outra dúvida
Entre a cruz e a espada

10.000 destinos, em cada esquina...
10.000 destinos...


[Composição: Humberto Gessinger]


^^