Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Só nosso


é assim o nosso silêncio
que diz tanto de nós dois...

Danni^^

Fim de semana


Estirado na areia, a olhar o azul,
ainda me treme o parvalhão do corpo,
do que houve que fazer para ganhar o nosso,
do que houve que esburgar para limpar o osso,
do que houve que descer para alcançar o céu,
já não digo esse de Vossa Reverência,
mas este onde estou, de azul e areia,
para onde, aos milhares, nos abalançamos,
como quem, às pressas, o corpo semeia.


[Alexandre O´Neill - Poesias Completas - 1951/1981]


^^

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


À infância só se chega partindo de muito longe. A infância é aí, onde partes, não onde chegas. Olha para trás. Que vês? Nada. A memória é a única coisa que verdadeiramente te pertence, mas lembras-te de um estranho. Como poderias, há muitos anos, saber que eras apenas a lembrança de um estranho:

tu?

Palavras é tudo o que tens. Palavras. Palavras. Palavras. Alguma vez tiveste outra coisa?


[Manuel António Pina]


^^

Aqui neste profundo apartamento


Aqui neste profundo apartamento
Em que, não por lugar, mas mente estou,
No claustro de ser eu, neste momento
Em que me encontro e sinto-me o que vou,
Aqui, agora, rememoro
Quanto de mim deixer de ser
E, inutilmente, [....] choro
O que sou e não pude ter.


[Fernando Pessoa]
^^

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Você não sabe amar


Você não sabe amar, meu bem,
Não sabe o que é o amor
Nunca viveu, nunca sofreu,
E quer saber mais que eu
O nosso amor parou aqui
E foi melhor assim
Você esperava e eu também
Que fosse esse seu fim
O nosso amor não teve querida
as coisas boas da vida
E foi melhor para você
E foi também melhor pra mim


[Composição: Carlos Guinle / Dorival Caymmi / Hugo Lima]


^^

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Fotos na Estante

Sem mais nem menos
Sem remédio, sem desculpa
Em horas tortas
Horas tímidas, ocultas
Pelas esquinas
De olhares indiscretos
O nosso amor
Amor claro de objeto
Sem dor ou crime
Amor simples e direto
Entre os pássaros de barro descansando na estante
Pelas costas amarelas dessas fotos insinceras
Descobri lindas mentiras tão terríveis quanto belas
Digo o que fazer então, são memórias tão reais
Do que nunca aconteceu

Desenhei miragens tolas
Nas margens do seu deserto
E uma verdade impossível
Só pra ter você por perto

Sem dor ou crime
Amor simples e direto
Entre os pássaros de barro descansando nas estantes
Pelas esquinas
De olhares indiscretos
O nosso amor
Quebrou feito objeto
Digo o que fazer então, são memórias tão reais
Do que nunca aconteceu...



[Skank]


^^

Cama Vazia



Não faço rodeios, não meço palavras
Eu digo o que sinto
Não perco meu tempo, amar não tem hora
Eu sigo seu ritmo
Te abraço apertado, adoro seu corpo colado no meu
No nosso futuro nós dois para sempre, só você e eu
Tá tudo deserto, na cama vazia, eu sinto seu cheiro
Deixou seu perfume do lado direito do meu travesseiro
Eu sonho acordada, adoro seu jeito, igualzinho ao meu
No nosso futuro nós dois para sempre, só você e eu
Tá tudo deserto, na cama vazia, eu sinto seu cheiro
Deixou seu perfume do lado direito do meu travesseiro
Eu sonho acordada, adoro seu jeito, igualzinho ao meu
No nosso futuro nós dois para sempre, só você e eu
Eu sonho acordada, adoro seu jeito, igualzinho ao meu
No nosso futuro nós dois para sempre, só você e eu


[Compositores: Celso Fonseca e Ronaldo Bastos]


^^

domingo, 16 de janeiro de 2011

Sessão Pipoca - Fogo e gasolina




Você é um avião e eu sou um edifício
Eu sou um abrigo e você é um missil
Eu sou a mata e você é a moto-serra
Eu sou um terremoto e você a Terra.

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina

Você é o fósforo e eu sou o pavio
Você é um torpedo e eu sou um navio
Você é o trem e eu sou o trilho
Eu sou o dedo e você é o meu gatilho

O nosso jogo é perigoso, menina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gás

Eu sou a veia e você é a agulha
Eu sou o gás e você é a fagulha
Eu sou o fogo e você é a gasolina
Eu sou a pólvora e você a mina

O nosso jogo perigoso combina
Nós somos fogo
Nós somos fogo
Nós somos fogo e gasolina


[Composição: Pedro Luís e Carlos Rennó]
[Voz: Roberta Sá]


^^

Alô, liberdade


Alô, liberdade
Desculpa eu vir
Assim sem avisar
Mas já era tarde
E os galos tão
Cansados de cantar

Bom dia, alegria
A minha companhia
Vai cantar
Sutil melodia
Pra te acordar


[Composição: Enriquez/Bardotti/Chico Buarque]


^^

sábado, 15 de janeiro de 2011

A Traição


Quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse.



[Alexandre O'Neill (1924-1986) - Poesias Completas]



^^

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

10.000 Destinos


Meus esforços pra entender o mundo fracassaram
São destroços frágeis de um naufrágio

Minha cruz, uma chave philips, cinco linhas
Um boteco na esquina entre o profano e o sagrado

Morde a morte, a mordida
Solte o bote, salva-vidas
Há mais de mil destinos na esquina
Outras vidas esperando em cada esquina

Adoro manter as cores vivas, com certeza
Vermelho sangue, amarelo ouro, verdes mares
Azul do céu, azul do mar, aí está outra dúvida
Entre a cruz e a espada

10.000 destinos, em cada esquina...
10.000 destinos...


[Composição: Humberto Gessinger]


^^

Aconteceu-me do Alto do Infinito


Aconteceu-me do alto do infinito
Esta vida. Através de nevoeiros,
Do meu próprio ermo ser fumos primeiros,
Vim ganhando, e través estranhos ritos
De sombra e luz ocasional, e gritos
Vagos ao longe, e assomos passageiros
De saudade incógnita, luzeiros
De divino, este ser fosco e proscrito...

Caiu chuva em passados que fui eu.
Houve planícies de céu baixo e neve
Nalguma cousa de alma do que é meu.

Narrei-me à sombra e não me achei sentido.
Hoje sei-me o deserto onde Deus teve
Outrora a sua capital de olvido...

[Fernando Pessoa]


^^

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Resgate dramático



Este resgate aconteceu na região serrana do Rio de Janeiro - em São José do Rio Preto. Há mais ou menos 3 horas da minha casa.
Não é à toa que eu detesto o verão. Todos os anos estas tragédias. Mudam-se os cenários e os personagens... Mas, o roteiro é sempre o mesmo. Deixo aqui, meus sentimentos à todas as vítimas desta catástrofe.

...

A Ciência

A CIÊNCIA, a ciência, a ciência...
Ah, como tudo é nulo e vão!
A pobreza da inteligência
Ante a riqueza da emoção!
Aquela mulher que trabalha
Como uma santa em sacrifício,
Com tanto esforço dado a ralha!
Contra o pensar, que é o meu vício!

A ciência! Como é pobre e nada!
Rico é o que alma dá e tem.


[Fernando Pessoa]

^^

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Fraldiqueiros


Coitarados!
Meninos, tiveram pouca mamã.
Carências afectivas afunilaram-nos psiquicamente
desde a impoética infância até este corrimento sentimental
em que, grandinhos, se compensam, comprazem.
Continuam a gotejar.

Coitarados!
Gulosos de pontas de dedos,
perdem-se em beijoqueirices, diminutivas ternurinhas.
Têm sempre rebuçadinhos d'alma para as mulheres.
Falam freud ao colo das amigas.

Fraldiqueiros. . .
Vailevar-lhes isso a nojo, machão?
MuIheres gostam. Riem, prazidas.
«Venha cá à mamã!»

O golpe do coitadinho (não confundir com o golpe
do irmãozinho, esse na base do esquema da alma gémea)
é o que estás a ver: saltar para o regaço e pedir nhém
nhém
em nome do Sigismundo, daquele que dizia, salvo erro:
A alma? Geme-a...

Fraldiqueiros
a mandarem beijinhos por teleférico!
de saliva
Engatinhantes, tiram do estojo complexos em forma
de saxofone
e tocantam-lhes a pingona freudista canção do bandido

Fraldiqueiros. . .
Mulheres gostam. Até onde?



[Alexandre O´Neill - Poesias Completas - 1951/1981]

^^

terça-feira, 11 de janeiro de 2011


Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se...
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro...
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora...
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim...
Há uma interrupção lateral na minha consciência...
Continuam encostadas as portas da janela desta tarde
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par...
Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma...


Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois...
Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem...
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir...


[Álvaro de Campos]


^^

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Sessão pipoca - My Girl



Eu tenho o brilho do sol
Num dia nublado
Quando está frio lá fora
Para mim é como se fosse a primavera

Bem, você vai me perguntar:
O que pode me fazer sentir desse jeito?
Minha garota
Eu estou falando da minha garota (minha garota)

Eu tenho muito mel
As abelhas me invejam
Eu tenho uma canção mais doce
Que a dos pássaros nas árvores

Bem, você vai me perguntar:
O que pode me fazer sentir desse jeito?
Minha garota
Eu estou falando da minha garota (minha garota)


Ooooh, Hoooo.



[Tiago Iorc]


^^

E um olhar perdido é tão difícil de encontar
como o é congregar ventos dispersos pelo mar.

[Ruy Belo]


^^

domingo, 9 de janeiro de 2011

Em pleno azul


Com horror mal disfarçado
sincero desgosto (sim!)
lágrima azul aflita
mão crispada de piedade
vêem-me passar cantando
calamidades desastres
impossíveis de evitar
as mães
as minhas a tua
as que estropiam ternamente os filhos
para monótono e prudente
avanço da família

E quando páro e faço a propaganda
dos lugares mais comuns da poesia
há um terror quase obsceno
nos seus olhos maternais

Então prometo congressos
em pleno azul

Prometo uma solução
em pleno azul

Prometo não fazer nada
em pleno azul

sem consultar o «bureau»
em pleno azul

Visivelmente sossegadas
é a hora de não cumprir
de recomeçar cantando
calamidades desastres
ruínas por decifrar

Se eu não estivesse a dormir
perguntaria aos poetas
A que horas desejam que vos acorde?

Vamos decifrar ruínas
identificar os mortos
dormir com mulheres reais
denunciar os traidores
e atraiçoar a poesia
envenenada nas palavras
que respiram ausência podre
vamos dizer sem maiúsculas
o amor a vida e a morte

E as mães
onde estão elas?

As mães rezam as mães
cosem farrapos de dor
as mães gritam
choram
uivam
no espesso rio de um sono
já quase só animal.


[Alexandre O´Neill - Poesias Completas -1951/1981]
^^

sábado, 8 de janeiro de 2011


Não se perdeu nenhuma coisa em mim.
Continuam as noites e os poentes
Que escorreram na casa e no jardim,
Continuam as vozes diferentes
Que intactas no meu ser estão suspensas.
Trago o terror e trago a claridade,
E através de todas as presenças
Caminho para a única unidade.


[Sophia de Mello Breyner Andresen]


^^