Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Adiamento


Depois de amanhã, sim, só depois de amanhã...
Levarei amanhã a pensar em depois de amanhã,
E assim será possível; mas hoje não...
Não, hoje nada; hoje não posso.
A persistência confusa da minha subjetividade objetiva,
O sono da minha vida real, intercalado,
O cansaço antecipado e infinito,
Um cansaço de mundos para apanhar um elétrico...
Esta espécie de alma...
Só depois de amanhã...
Hoje quero preparar-me,
Quero preparar-me para pensar amanhã no dia seguinte...
Ele é que é decisivo.
Tenho já o plano traçado; mas não, hoje não traço planos...
Amanhã é o dia dos planos.
Amanhã sentar-me-ei à secretária para conquistar o mundo;
Mas só conquistarei o mundo depois de amanhã...
Tenho vontade de chorar,
Tenho vontade de chorar muito de repente, de dentro...

Não, não queiram saber mais nada, é segredo, não digo.
Só depois de amanhã...
Quando era criança o circo de domingo divertia-me toda a semana.
Hoje só me diverte o circo de domingo de toda a semana da minha infância...
Depois de amanhã serei outro,
A minha vida triunfar-se-á,
Todas as minhas qualidades reais de inteligente, lido e prático
Serão convocadas por um edital...
Mas por um edital de amanhã...
Hoje quero dormir, redigirei amanhã...
Por hoje, qual é o espetáculo que me repetiria a infância?
Mesmo para eu comprar os bilhetes amanhã,
Que depois de amanhã é que está bem o espetáculo...
Antes, não...
Depois de amanhã terei a pose pública que amanhã estudarei.
Depois de amanhã serei finalmente o que hoje não posso nunca ser.
Só depois de amanhã...
Tenho sono como o frio de um cão vadio.
Tenho muito sono.
Amanhã te direi as palavras, ou depois de amanhã...
Sim, talvez só depois de amanhã...

O porvir...
Sim, o porvir...


[Álvaro de Campos]


^^

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010


Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito, ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha tristeza é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.

[António Ramos Rosa]
^^

terça-feira, 28 de dezembro de 2010


Que calor está aqui, tanto calor,
e parados os rios cinzentos
debaixo das pontes.

Se não houvesse oliveira,
esta exígua faixa escura,
não poderíamos ficar

Teríamos de correr atrás dos ventos, seguir
a sombra das nuvens como os pássaros
em tempos de caça.

[Hans-Ulrich Treichel]


^^

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Meus pensamentos


Tenho pensamentos que, se pudesse revelá-los e fazê-los viver, acrescentariam nova luminosidade às estrelas, nova beleza ao mundo e maior amor ao coração dos homens.


[Fernando Pessoa, em O Eu Profundo]


^^

domingo, 26 de dezembro de 2010

Notas para o diário


Sinto-me capaz de caminhar na língua aguçada deste
silêncio.
e na sua simplicidade, na sua clareza, no seu abismo.
sinto-me capaz de acabar com esse vácuo, e de acabar comigo mesmo.

a dor de todas as ruas vazias.

mas gosto da noite e do riso de cinzas. gosto do
deserto, e do acaso da vida. gosto dos enganos, da sorte e
dos encontros inesperados.
pernoito quase sempre no lado sagrado do meu coração, ou onde o medo tem a precaridade doutro corpo.

a dor de todas as ruas vazias.

pois bem, mário - o paraíso sabe-se que chega a lisboa na fragata do alfeite. basta pôr uma lua nervosa no cimo do mastro, e mandar arrear o velame.

é isto que é preciso dizer: daqui ninguém sai sem cadastro.

a dor de todas as ruas vazias.

sujo os olhos com sangue. chove torrencialmente. o
filme acabou. não nos conheceremos nunca.

a dor de todas as ruas vazias.

os poemas adormeceram no desassossego da idade.
fulguram na perturbação de um tempo cada dia mais
curto. e, por vezes, ouço-os no transe da noite. assolam-me
as imagens, rasgam-me as metáforas insidiosas, porcas... e
nada escrevo.
o regresso à escrita terminou. a vida toda fodida - e
a alma esburacada por uma agonia tamanho deste mar.

a dor de todas as ruas vazias.


[Al-Berto - Horto de Incêndio]
^^

sábado, 25 de dezembro de 2010

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

É Natal!!!


É Natal...Os sinos repicam
Anunciando o nascimento de nosso salvador!!
Que este, seja o Natal de renascimento do amor fraterno...
Que possamos nos unir na verdadeira paz de Cristo.

Um Ano Novo de amor,
Paz
e
Harmonia!
^^

Antes Das Seis


Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Vem e me diz o que aconteceu
Faz de conta que passou
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Daqui vejo seu descanso
Perto do seu travesseiro
Depois quero ver se acerto
Dos dois quem acorda primeiro
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Quem inventou o amor?
Me explica por favor
Quem inventou o amor?
Me explica por favor

Enquanto a vida vai e vem
Você procura achar alguém
Que um dia possa lhe dizer
-Quero ficar só com você

Quem inventou o amor?

[Composição: Renato Russo]


^^

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Como dizer o silêncio?


Se em folhagem de poema
me catais anacolutos
é vossa a fraude. A gema
não desce a sons prostitutos.

O saltério, diletante,
fere a Musa com um jasmim?
Só daí para diante
da busca estará o fim.

Aberta a porta selada,
sou pensada já não penso.
Se a Musa fica calada
como dizer o silêncio?

Atirar pérola a porco?
Não me queimo na parábola.
Em mãos que brincam com o fogo
é que eu não ponho a espada.

Dos confins, o peristilo
calo com pontas de fogo,
e desse casto sigilo
versos são só desafogo.

E também para que me lembrem
deixo-os no mercado negro,
que neles glórias se vendem
e eu não sou só desapego.

Raiz de Deus entre os dentes,
aí, pára a transmissão.
Ultra-sons dessas nascentes
só aves entenderão.

[Natália Correia - Poesia Completa]
^^

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Insônia


Não durmo, nem espero dormir.
Nem na morte espero dormir.
Espera-me uma insônia da largura dos astros,
E um bocejo inútil do comprimento do mundo.

Não durmo; não posso ler quando acordo de noite,
Não posso escrever quando acordo de noite,
Não posso pensar quando acordo de noite —
Meu Deus, nem posso sonhar quando acordo de noite!

Ah, o ópio de ser outra pessoa qualquer!

Não durmo, jazo, cadáver acordado, sentindo,
E o meu sentimento é um pensamento vazio.
Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que me não sucederam
— Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
Passam por mim, transtornadas, coisas que não são nada,
E até dessas me arrependo, me culpo, e não durmo.

Não tenho força para ter energia para acender um cigarro.
Fito a parede fronteira do quarto como se fosse o universo.
Lá fora há o silêncio dessa coisa toda.
Um grande silêncio apavorante noutra ocasião qualquer,
Noutra ocasião qualquer em que eu pudesse sentir.

Estou escrevendo versos realmente simpáticos —
Versos a dizer que não tenho nada que dizer,
Versos a teimar em dizer isso,
Versos, versos, versos, versos, versos...
Tantos versos...
E a verdade toda, e a vida toda fora deles e de mim!

Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.
Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstração de autoconsciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo — sei lá salvo o quê...

Não durmo. Não durmo. Não durmo.
Que grande sono em toda a cabeça e em cima dos olhos e na alma!
Que grande sono em tudo exceto no poder dormir!

Ó madrugada, tardas tanto... Vem...
Vem, inutilmente,
Trazer-me outro dia igual a este, a ser seguido por outra noite igual a esta...
Vem trazer-me a alegria dessa esperança triste,
Porque sempre és alegre, e sempre trazes esperança,
Segundo a velha literatura das sensações.

Vem, traz a esperança, vem, traz a esperança.
O meu cansaço entra pelo colchão dentro.
Doem-me as costas de não estar deitado de lado.
Se estivesse deitado de lado doíam-me as costas de estar deitado de lado.
Vem, madrugada, chega!

Que horas são? Não sei.
Não tenho energia para estender uma mão para o relógio,
Não tenho energia para nada, para mais nada...
Só para estes versos, escritos no dia seguinte.
Sim, escritos no dia seguinte.
Todos os versos são sempre escritos no dia seguinte.

Noite absoluta, sossego absoluto, lá fora.
Paz em toda a Natureza.
A Humanidade repousa e esquece as suas amarguras.
Exatamente.
A Humanidade esquece as suas alegrias e amarguras.
Costuma dizer-se isto.
A Humanidade esquece, sim, a Humanidade esquece,
Mas mesmo acordada a Humanidade esquece.
Exatamente. Mas não durmo.


[Álvaro de Campos]

^^

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

É por estas e outras que eu "amo" o VERÃO...

Vem chegando o Verão...
o calor no coração
Essa magia co-lo-ri-da
São coisas da vida...
Não demora muito agora Toda de bundinha de fora
Top less na areiaVirando sereia
(...)

[E enquanto isso... fico aqui, na contagem regressiva
para a chegada do outono]
^^

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Sessão pipoca - Heroes



Eu, eu gostaria que você pudesse nadar
Como os golfinhos, como os golfinhos conseguem nadar
Embora nada, nada nos manterá juntos
Nós podemos derrota-los
Para todo o sempre
Nós podemos ser heróis
Só por um dia

Eu, eu serei rei
E você, você será rainha
Embora nada, nada os levará para longe
Nós podemos ser heróis,
Só por um dia
Nós podemos derrota-los
Só por um dia

Eu, eu me lembro
De pé ao lado do muro
As armas atiraram por sobre nossas cabeças
E nós nos beijamos, como se no entanto nada pudesse vir abaixo
E a vergonha estava do outro lado
Nós podemos derrota-los para todo o sempre
Então nós podemos ser heróis
Só por um dia

Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis
Nós podemos ser heróis, só por um dia

[Composição: David Bowie]

^^

Gostava de gostar de gostar...

Gostava de gostar de gostar.
Um momento... Dá-me de ali um cigarro,
Do maço em cima da mesa de cabeceira.
Continua... Dizias
Que no desenvolvimento da metafisica
De Kant a Hegel
Alguma coisa se perdeu.
Concordo em absoluto.
Estive realmente a ouvir.
Nondum amabam et amare amabam (Santo Agostinho).
Que coisa curiosa estas associações de idéias!
Estou fatigado de estar pensando em sentir outra coisa.
Obrigado. Deixa-me acender. Continua. Hegel...

[Álvaro de Campos]


^^

L'homme et la mer



Homme libre, toujours tu chériras la mer!
La mer est ton miroir; tu contemples ton âme
Dans le déroulement infini de sa lame,
Et ton esprit n'est pas un gouffre moins amer.

Tu te plais à plonger au sein de ton image;
Tu l'embrasses des yeux et des bras, et ton coeur
Se distrait quelquefois de sa propre rumeur
Au bruit de cette plainte indomptable et sauvage.

Vous êtes tous les deux ténébreux et discrets:
Homme, nul n'a sondé le fond de tes abîmes;
Ô mer, nul ne connaît tes richesses intimes,
Tant vous êtes jaloux de garder vos secrets!

Et cependant voilà des siècles innombrables
Que vous vous combattez sans pitié ni remord,
Tellement vous aimez le carnage et la mort,
Ô lutteurs éternels, ô frères implacables!

[Charles BAUDELAIRE]


^^

domingo, 19 de dezembro de 2010

Frutos


Quando a amada oferece
o seu corpo, ela sabe
que dos frutos apenas
se colhe o sabor.

É então
que os dedos
separam as películas,
que a lâmina desce e a água
e o fogo se misturam.
E é então que a vida
e a morte convivem
sob o mesmo tecto.


[Albano Martins - Escrito a vermelho]


^^

sábado, 18 de dezembro de 2010

♪ Então é NaTaL! ♪

Estamos no mês de dezembro, o Natal está batendo à porta, 13º na mão e a galera toda serelepe para ir às compras de final de ano. Todo ano a mesma coisa... Deixa eu ver se o espírito do Natal já está na sua casa. Não, não quero ver a árvore iluminada na sala, nem quero saber quanto você já gastou em presentes, muito menos se o Papai Noel vai descer a chaminé na noite de Natal... Chega desse papinho: Papai Noel não existe. A verdade é essa. Mas todo ano, é a cara do bom velhinho que eu vejo circulando pelas esquinas, praças, shopping e, é essa musiquinha agradááááaável que ouço nas propagandas da TV. O que eu gostaria de ver mesmo, no dia 25 de dezembro, nada mais é do que a celebração do nascimento de Jesus Cristo, mas, a impressão que eu tenho é que todo mundo deixa de ser cristão exatamente neste dia.

A verdade é que o Natal está banalizado! Natal só existe para o aumento do consumismo fútil. Porque, na verdade, quase ninguém exerce bondade nessa época. “E não vou dar presente pra você, porque você nunca me deu presente e pronto.” É um querendo ter o Peru melhor do que do outro todos os anos, mesmo reclamando que preço está alto. É uma gula acima do normal.

Vou citar aqui, o que você vai ver neste, no ano que vem e em todos os Natais da sua vida. E não preciso ser vidente pra saber:
...
A Simone cantando: “Então é Natal... e o Ano Novo também...” Se vocês soubessem como isso me irrita! Da mesma forma que todo final de primavera começa (Marina Lima) com: “Vem chegando o verão... o calor no coração...” Gente, na boa... Não agüento mais tanta cafonisse. Se é pra ser brega, então vamos ser, mas vamos cantar o que é bom. Por que será que ninguém até hoje inventou uma música pra melhor estação do ano? O Inverno. Aqui eu sou plenamente feliz! Durmo bem, trabalho bem, namoro bem, estudo bem, me arrumo bem... Tão bom o Inverno! Quando toca a musiquinha do verão, me dá até um frio na espinha: ♪“Vem chegando o verão ♪...” pode se preparar: Vem chegando os furacões, enchentes, gente perdendo suas casas, patrimônios de uma vida inteira, aquele calor de 42º na sombra, aquela enxaqueca que acaba com meus nervos... Afff! =(

Mas voltando ao Natal...

E aquelas propagandas de panetone? Alguém pode me explicar este conceito? A família reunida, saboreando aquele “bolo” duro sem graça, seco e pra piorar com aquelas frutas cristalizadas como recheio. Aí fazem aquela cara de felicidade como se estivessem saboreando a melhor coisa do mundo. O que é que um panetone tem a ver com o verdadeiro Natal? Me digam qual foi o país que influenciou o Brasil com a "cultura panetoniana"?? Aaaah, se eu pego!!!

Show do Roberto Carlos na Globo! É incrível como que a cada ano que passa tudo fica cada vez mais igual. A roupa azul ou branca; e mais: sabe qual vai ser a primeira música que ele vai cantar no seu próximo show? Eu sei, eu sei: “Emoções”. Quer apostar quanto?!... Desde criança, essa é a primeira música de abertura dos shows do rei. Parece até um ritual. Gente, eu adoro o Roberto, mas passou da hora dele rever seus conceitos e atualizar seu repertório. Se alguém pegar uma fita com o especial dele lá pras bandas de 1981, outro de 1990, outro de 2000 e a do ano passado, a única diferença que vai encontrar é o cabelo do rei. Pronto, falei! ¬¬

Não sei se com vocês acontece assim, mas comigo, natal é sinônimo de encontro de família todo final do ano, e sempre é muito hilário. É tio, tia, primos, primas e no meu caso, família extra-grande, vem a "parentada" toda, do norte à sul do pais pra um só lugar: a casa da vovó. Aí já viu né... um falatório só, todo mundo contando o que fez e o que não fez durante o ano todo, na mesma hora, tudo junto e misturado... Quem passa na rua pensa que é briga, diante de tanta gritaria. A única hora em que se tem um pouco de silêncio e na hora da ceia. E pra variar, todo ano é aquele ataque coletivo à ceia, antes da meia noite... Família é família, fazer o que?!... \o/

E pra não dizer que não falei sobre flores... Hôu, hôu, hôu!!! Feliz Natal!!

... Feliz Natal aos caçadores de borboletas azuis,
artífices de rupestres enigmas, febris conquistadores
a cavalgar, solenes, nos campos férteis de sedutoras
esperanças...

Feliz Natal a quem voa sem asas, molda em argila insensatez e faz dela jarro repleto de sabedoria,
e aos que... sabem que as palavras brotam da mesma fonte que abastece o coração de ternura.

Feliz Natal aos que sobrevoam abismos e plantam gerânios nos canteiros da alma, vozes altissonantes
em desertos da solidão,...

[Frei Betto]



Danni^^

Escrito Num Livro Abandonado em Viagem


Venho dos lados de Beja.
Vou para o meio de Lisboa.
Não trago nada e não acharei nada.
Tenho o cansaço antecipado do que não acharei,
E a saudade que sinto não é nem no passado nem no futuro.
Deixo escrita neste livro a imagem do meu desígnio morto:
Fui, como ervas, e não me arrancaram.


[Álvaro de Campos]

^^

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Poema em linha recta


Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e erróneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que tenho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


[Álvaro de Campos]

^^

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Estou e não me Respondo


Estou e não me respondo.
Assisto. Em mim se decide
um inútil afã e se some
a vida que me preside.

E passo, ainda... Meu nome
há muito não coincide
comigo se estar se consome
e tantas vezes me elide.

Me move o tempo mais frio
de tanto pranto afogado
num quase mito de mim.

Vou morando em desvario
quase em sonho inaugurado
para um começo, meu fim.


[Maria Ângela Alvim - Superfície - Toda Poesia]


^^

Estou


Estou tonto,
Tonto de tanto dormir ou de tanto pensar,
Ou de ambas as coisas.
O que sei é que estou tonto
E não sei bem se me devo levantar da cadeira
Ou como me levantar dela.
Fiquemos nisto: estou tonto.
Afinal
Que vida fiz eu da vida?
Nada.
Tudo interstícios,
Tudo aproximações,
Tudo função do irregular e do absurdo,
Tudo nada.
É por isso que estou tonto ...

Agora
Todas as manhãs me levanto
Tonto ...

Sim, verdadeiramente tonto...
Sem saber em mim e meu nome,
Sem saber onde estou,
Sem saber o que fui,
Sem saber nada.


Mas se isto é assim, é assim.
Deixo-me estar na cadeira,
Estou tonto.
Bem, estou tonto.
Fico sentado
E tonto,
Sim, tonto,
Tonto...
Tonto.

[Álvaro de Campos]

^^