Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Perfeição


Vamos celebrar
A estupidez humana
A estupidez de todas as nações
O meu país e sua corja
De assassinos
Covardes, estupradores
E ladrões...

Vamos celebrar
A estupidez do povo
Nossa polícia e televisão
Vamos celebrar nosso governo
E nosso estado que não é nação...

Celebrar a juventude sem escolas
As crianças mortas
Celebrar nossa desunião...

Vamos celebrar Eros e Thanatos
Persephone e Hades
Vamos celebrar nossa tristeza
Vamos celebrar nossa vaidade...

Vamos comemorar como idiotas
A cada fevereiro e feriado
Todos os mortos nas estradas
Os mortos por falta
De hospitais...

Vamos celebrar nossa justiça
A ganância e a difamação
Vamos celebrar os preconceitos
O voto dos analfabetos
Comemorar a água podre
E todos os impostos
Queimadas, mentiras
E seqüestros...

Nosso castelo
De cartas marcadas
O trabalho escravo
Nosso pequeno universo
Toda a hipocrisia
E toda a afetação
Todo roubo e toda indiferença
Vamos celebrar epidemias
É a festa da torcida campeã...

Vamos celebrar a fome
Não ter a quem ouvir
Não se ter a quem amar
Vamos alimentar o que é maldade
Vamos machucar o coração...

Vamos celebrar nossa bandeira
Nosso passado
De absurdos gloriosos
Tudo que é gratuito e feio
Tudo o que é normal
Vamos cantar juntos
O hino nacional
A lágrima é verdadeira
Vamos celebrar nossa saudade
Comemorar a nossa solidão...

Vamos festejar a inveja
A intolerância
A incompreensão

Vamos festejar a violência
E esquecer a nossa gente
Que trabalhou honestamente
A vida inteira
E agora não tem mais
Direito a nada...

Vamos celebrar a aberração
De toda a nossa falta
De bom senso
Nosso descaso por educação
Vamos celebrar o horror
De tudo isto
Com festa, velório e caixão
Tá tudo morto e enterrado agora
Já que também podemos celebrar
A estupidez de quem cantou
Essa canção...

Venha!
Meu coração está com pressa
Quando a esperança está dispersa
Só a verdade me liberta
Chega de maldade e ilusão
Venha!
O amor tem sempre a porta aberta
E vem chegando a primavera
Nosso futuro recomeça
Venha!
Que o que vem é Perfeição!...


[Composição: Renato Russo]


^^

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Flores


Flores que colho, ou deixo,
Vosso destino é o mesmo.

Via que sigo, chegas
Não sei aonde eu chego.

Nada somos que valha,
Somo-lo mais que em vão.


[Ricardo Reis]


^^

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O Florir


O florir do encontro casual
Dos que hão sempre de ficar estranhos...

O único olhar sem interesse recebido no acaso
Da estrangeira rápida ...

O olhar de interesse da criança trazida pela mão
Da mãe distraída...

As palavras de episódio trocadas
Com o viajante episódico
Na episódica viagem ...

Grandes mágoas de todas as coisas serem bocados...
Caminho sem fim...


[Álvaro de Campos]


^^

domingo, 12 de dezembro de 2010

Sessão pipoca - Eu só Penso em você



Saí de casa à procura de ilusões
Coincidências e confirmações
Alguém com seu nome, alguma lembrança
Alguma palavra, aquelas canções
O mundo assim parece tão pequeno
e eu continuo tendo visões

Depois que nos encontramos
eu esqueço todo tempo
que fiquei sem te ver
Fora tanto que eu me perco
fora tudo mais que eu penso
eu só penso em você
só penso em você

Eu só penso em você
Só penso em você
Só penso em você
Só penso...

Fiquei em casa a espera de nada
Nenhuma visita, nenhuma chamada
Ninguém com seu nome, nem sua feição
Nenhuma esperança, nenhuma canção
O mundo assim parece tão imenso
E eu continuo vivendo em vão


[Composição: George Israel / Paula Toller]


^^

Tristeza do Infinito


Anda em mim, soturnamente,
uma tristeza ociosa,
sem objetivo, latente,
vaga, indecisa, medrosa.
Como ave torva e sem rumo,
ondula, vagueia, oscila
e sobe em nuvens de fumo
e na minh'alma se asila.

Uma tristeza que eu, mudo,
fico nela meditando
e meditando, por tudo
e em toda a parte sonhando.

Tristeza de não sei donde,
de não sei quando nem como...
flor mortal, que dentro esconde
sementes de um mago pomo.

Dessas tristezas incertas,
esparsas, indefinidas...
como almas vagas, desertas
no rumo eterno das vidas.

Tristeza sem causa forte,
diversa de outras tristezas,
nem da vida nem da morte
gerada nas correntezas...

Tristeza de outros espaços,
de outros céus, de outras esferas,
de outros límpidos abraços,
de outras castas primaveras.

Dessas tristezas que vagam
com volúpias tão sombrias
que as nossas almas alagam
de estranhas melancolias.

Dessas tristezas sem fundo,
sem origens prolongadas,
sem saudades deste mundo,
sem noites, sem alvoradas.

Que principiam no sonho
e acabam na Realidade,
através do mar tristonho
desta absurda Imensidade.

Certa tristeza indizível,
abstrata, como se fosse
a grande alma do Sensível
magoada, mística, doce.

Ah! tristeza imponderável,
abismo, mistério, aflito,
torturante, formidável...
ah! tristeza do Infinito!


[Cruz e Sousa]

^^

Limiar


Somos ainda o limiar - espessa
nuvem embrionária.
Verdes,
imaturos crustáceos
emergimos
à superfície grávida
das ondas. Somos
o medo ou sua
improvável renúncia.
O que
sabemos do
amor, da morte, é só
difusa,
opaca,
luminosa fábula.


[Albano Martins]


^^

sábado, 11 de dezembro de 2010

E Que O Tempo Nos Espera


São teus meios, entre universos
Descubram as nuvens
E me coloque mais perto
Porque você sempre esqueceu
Ao mesmo, nem existiu
Estes passos são longos
Sem rumo, nem céu
Dialogo profundo
Queriam te encontrar num instante
Você não existe, eu sei
Quando você olha, seus olhos são cegos
Quando eu me toquei
não era nada em comum
sou eu sem alguém

E que o tempo nos espera
Semanas e meses
E o tempo é uma febre
Anos sem curas
E que o tempo nos espera
Sem enredos, sem preces
Procurei por alguém
Estes dias sem qualquer lugar

Sabe-se que eu não te encontrei
Mesmo nesse planeta terra
Preferia estar ao teu lado
Porque você não entendeu?
Queremos o mesmo obvio
Meus passos são longos
Sem rumo, nem céu
Dialogo profundo
Queriam te encontrar num instante
Você não existe, eu sei
Quando você olha, seus olhos me entrega

E que o tempo nos espera
Semanas e meses
E o tempo é uma febre
Anos sem curas
E que o tempo nos espera
Sem medo nem rezas
Procurei por alguém
Estes dias sem qualquer lugar

São teus olhos
Não me distancie
Quem sabe eu não tente
E que o tempo nos espera
Semanas e meses
E o tempo é uma febre
Anos sem curas


[Composição: Samuel Rosa e Chico Amaral]


^^

O amor é o amor


O amor é o amor - e depois?!
Vamos ficar os dois
a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito,
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!
O amor é o amor - e depois?!

[Alexandre O´Neill - Poesias Completas]


^^

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O que é o espaço?


O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível.

[Ana Hatherly]

^^

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Se o mundo inteiro é um palco,


onde está o público sentado?
^^



Sempre acontece sempre em repetição nada serena
faço e desfaço um pouco em lixo e rasteiro o poema que te envio.
A ti primeiro.

Depois aquela parte
que não digo por pudor.
Isto é arte, apenas arte

apenas ódio, ou amor?
Já não distingo - ao que se chega!
um verso maior de um menor

alguns perfeitos. Que pena!
diz-me a voz interior
rasgo-os, levo-os à cena?


[Helga Moreira]

^^

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Sessão pipoca - Imagine



Imagine que não há paraíso
É fácil se você tentar
Nenhum inferno abaixo de nós
Acima de nós apenas o céu
Imagine todas as pessoas
Vivendo para o hoje

Imagine não existir países
Não é difícil de fazê-lo
Nada pelo que matar ou morrer
E nenhuma religião também
Imagine todas as pessoas
Vivendo a vida em paz

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia
você se junte a nós
E o mundo, então, será como um só

Imagine não existir posses
Me pergunto se você consegue
Sem necessidade de ganância ou fome
Uma irmandade de homens
Imagine todas as pessoas
Compartilhando todo o mundo

Você pode dizer
Que eu sou um sonhador
Mas eu não sou o único
Espero que um dia
Você se juntará a nós
E o mundo, então, será como um só


[Composição: John Lennon]


^^

(...)
É um vento que diz:
Não se pode sair duma casa vazia.
Tudo o que alguma vez aconteceu
acontece para sempre.



[Benjamin Prado]


^^

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

A rigidez dos gestos parados


Porque o tempo é invisível perdi
o poder de te nomear

se algum dia voltares não vais reconhecer
o grau zero das nossas despedidas:

conhecer por antecipação o cenário
silencioso onde alguém fala palavras
que não ouves

tens em ti a rigidez dos gestos parados
entre os silêncios


[Maria Sousa]


^^

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Dos Mundos


Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo...
Decerto não gostou lá muito do que via...
E foi logo inventando o outro mundo.

[Mário Quintana - Espelho Mágico]
^^

domingo, 5 de dezembro de 2010

Permissão


Sou construída por emoções secretas.
Podem até comentar sobre mim,
mas me capturar...
Só com minha permissão!


[Martha Medeiros]


^^

Aatini Al-nay


Me dê a flauta e cante
A imortalidade vive numa música
E mesmo depois que tivermos perecido
A flauta continuará seu lamento.

[shakira]


^^

sábado, 4 de dezembro de 2010

Louco, sim


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.


Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?


[Fernando Pessoa]



^^

Sessão pipoca - Eu não esqueço nada



Vejo você de tão longe
Que só eu sei que é você
Só eu sei te ver

Lembro de tudo que houve
De tudo o que ia haver
Do que não foi nada
Dentro dos nadas que havia

Porque eu não esqueço nada
A não ser de te esquecer
Nem ao meio-dia
Nem de madrugada
Eu não esqueço nada
Eu não esqueci

Nem o alivio do fim
Nem o delírio do começo
Nem um dia comum

Você me trata tão bem
Mantém meu coração ferido
Vou lhe fazer um pedido
Não fique perto de mim


[Composição: George Israel / Paula Toller]



^^

(...) A infância vem da eternidade.
Depois só a morte magnífica
— Destruição da mordaça:
E talvez já a tivesse entrevisto
Quando brincavas com o pião
Ou quando desmontaste o besouro. Entre duas eternidades
Balançam-se espantosas
Fome de amor e a música: Rude doçura
Ultima passagem livre.
Só vemos o céu pelo avesso.

[Murilo Mendes - Poesia de Liberdade]

^^