Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Pray For Forgiveness


Lindo jardim, pra onde você foi?
Minhas ilusões estão me deixando na tempestade
E eu não valorizo nenhuma bondade que eu encontro
Em algum lugar eu perdi tudo, o controle veio desabando

E eu rezo por perdão, procuro as respostas
Porque é díficil pra mim, ter que fingir
Você não pode ver o estado em que eu estou?
E ninguém notaria, ninguém notou
Porque sou eu onde tudo isso começa

Linda manhã, por favor não me acorde do meu sono
Porque eu preciso de algum conforto pra recuperar minha sanidade
E eu não quero sentir toda essa loucura
Eu não quero sentir toda essa mágoa
Destruida em milhões de pedaços
Eu estou com o coração quebrado
Não existe mais lugar pra correr
Não existe mais lugar pra ir
Então eu mantenho a esperança

Eu rezo por perdão, procuro as respostas
Porque é díficil pra mim, ter que fingir
Você não pode ver o estado em que eu estou?
E ninguém notaria, ninguém notou
Porque sou eu onde tudo isso começa
E eu rezo por perdão dentro de mim

Juro que a cada dia parece que minha mente está me assombrando
E eu penso em cada pequeno erro estúpido que eu cometi
Desta vez eu não tenho forças pra juntar a mim mesma

Estou caindo em pedaços

E eu rezo por perdão, procuro as respostas
Porque é díficil pra mim, ter que fingir
Você não pode ver o estado em que eu estou?

Eu rezo por perdão
Procuro por justiça
Procuro por respostas
Rezo por perdão, quebrando o silêncio

Ninguém sabe disso, ninguém notou
Que sou eu onde isso tudo começa


[Alicia Keys]


^^

I

Esclarecendo que o poema
é um duelo agudíssimo
quero eu dizer um dedo
agudíssimo claro
apontado ao coração do homem

falo
com uma agulha de sangue
a coser-me todo o corpo
à garganta

e a esta terra imóvel
onde já a minha sombra
é um traço de alarme


II

Piso do poema
chão de areia

Digo na maneira
mais crua e mais
intensa

de medir o poema
pela medida inteira

o poema em milímetro
de madeira

ou apodrece o poema
ou se alteia

ou se despedaça
a mão ateia

ou cinco seis astros
se percorre

antes que o deserto
mate a fome


[Luiza Neto Jorge]
^^

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Eu metia as mãos na água: adormecia, relembrava.




Minha cabeça estremece com todo o esquecimento.
Eu procuro dizer como tudo é outra coisa.
Falo, penso.

Sonho sobre os tremendos ossos dos pés.
É sempre outra coisa,
uma só coisa coberta de nomes.
E a morte passa de boca em boca com a leve saliva,
com o terror que há sempre
no fundo informulado de uma vida.

Sei que os campos imaginam as suas próprias rosas.
As pessoas imaginam os seus próprios campos de rosas.
E às vezes estou na frente dos campos
como se morresse;
outras, como se agora somente eu pudesse acordar.

Por vezes tudo se ilumina.
Por vezes sangra e canta.
Eu digo que ninguém se perdoa no tempo.
Que a loucura tem espinhos como uma garganta.
Eu digo: roda ao longe o outono,
e o que é o outono?
As pálpebras batem contra o grande dia masculino do pensamento.

Deito coisas vivas e mortas no espírito da obra.
Minha vida extasia-se como uma câmara de tochas.

- Era uma casa – como direi? – absoluta.

Eu jogo, eu juro.
Era uma casinfância.
Sei como era uma casa louca.
Eu metia as mãos na água: adormecia,
relembrava.
Os espelhos rachavam-se contra a nossa mocidade.

Apalpo agora o girar das brutais,
líricas rodas da vida.
Há no esquecimento, ou na lembrança total das coisas,
uma rosa como uma alta cabeça,
um peixe como um movimento rápido e severo.
Uma rosapeixe dentro da minha ideia desvairada.
Há copos, garfos inebriados dentro de mim.
- Porque o amor das coisas no seu tempo futuro
é terrivelmente profundo, é suave,
devastador.

As cadeiras ardiam nos lugares.
Minhas irmãs habitavam ao cimo do movimento
como seres pasmados.
Às vezes riam alto. Teciam-se
em seu escuro terrífico.
A menstruação sonhava podre dentro delas,
à boca da noite.
Cantava muito baixo.
Parecia fluir.
Rodear as mesas, as penumbras fulminadas.
Chovia nas noites terrestres.
Eu quero gritar paralém da loucura terrestre.
— Era húmido, destilado, inspirado.


Havia rigor. Oh, exemplo extremo.
Havia uma essência de oficina.
Uma matéria sensacional no segredo das fruteiras,
com as suas maçãs centrípetas
e as uvas pendidas sobre a maturidade.
Havia a magnólia quente de um gato.
Gato que entrava pelas mãos, ou magnólia
que saía da mão para o rosto da mãe sombriamente pura.
Ah, mãe louca à volta, sentadamente completa.
As mãos tocavam por cima do ardor
a carne como um pedaço extasiado.

Era uma casabsoluta – como direi? -
um sentimento onde algumas pessoas morreriam.
Demência para sorrir elevadamente.

Ter amoras, folhas verdes, espinhos
com pequena treva por todos os cantos.
Nome no espírito como uma rosapeixe.

- Prefiro enlouquecer nos corredores arqueados
agora nas palavras.

Prefiro cantar nas varandas interiores.
Porque havia escadas e mulheres que paravam
minadas de inteligência.
O corpo sem rosáceas, a linguagem para amar e ruminar.
O leite cantante.

Eu agora mergulho e ascendo como um copo.
Trago para cima essa imagem de água interna.
- Caneta do poema dissolvida no sentido primacial do poema.
Ou o poema subindo pela caneta,
atravessando seu próprio impulso,
poema regressando.
Tudo se levanta como um cravo,
uma faca levantada.
Tudo morre o seu nome noutro nome.

Poema não saindo do poder da loucura.
Poema como base inconcreta de criação.

Ah, pensar com delicadeza,
imaginar com ferocidade.
Porque eu sou uma vida com furibunda melancolia,
com furibunda concepção.
Com alguma ironia furibunda.

Sou uma devastação inteligente.
Com malmequeres fabulosos.

Ouro por cima.
A madrugada ou a noite triste tocadas
em trompete.
Sou alguma coisa audível, sensível.
Um movimento.

Cadeira congeminando-se na bacia,
feita o sentar-se.
Ou flores bebendo a jarra.
O silêncio estrutural das flores.
E a mesa por baixo.
A sonhar.



[Herberto Helder]

^^

domingo, 21 de novembro de 2010

Vive







Vive, dizes, no presente,
Vive só no presente.
Mas eu não quero o presente, quero a realidade;
Quero as cousas que existem, não o tempo que as mede.

O que é o presente?
É uma cousa relativa ao passado e ao futuro.
É uma cousa que existe em virtude de outras cousas existirem.
Eu quero só a realidade, as cousas sem presente.

Não quero incluir o tempo no meu esquema.
Não quero pensar nas cousas como presentes; quero pensar nelas
como cousas.
Não quero separá-las de si-próprias, tratando-as por presentes.

Eu nem por reais as devia tratar.
Eu não as devia tratar por nada.

Eu devia vê-las, apenas vê-las;
Vê-las até não poder pensar nelas,
Vê-las sem tempo, nem espaço,
Ver podendo dispensar tudo menos o que se vê.

É esta a ciência de ver, que não é nenhuma.


[Alberto Caeiro]


^^

O Esplendor


E o esplendor dos mapas, caminho abstrato para a imaginação concreta,
Letras e riscos irregulares abrindo para a maravilha.
O que de sonho jaz nas encadernações vetustas,
Nas assinaturas complicadas (ou tão simples e esguias) dos velhos livros.

Tinta remota e desbotada aqui presente para além da morte,
O que de negado à nossa vida quotidiana vem nas ilustrações,
O que certas gravuras de anúncios sem querer anunciam.

Tudo quanto sugere, ou exprime o que não exprime,
Tudo o que diz o que não diz,
E a alma sonha, diferente e distraída.


Ó enigma visível do tempo, o nada vivo em que estamos!


[Álvaro de Campos]

^^

No temas al silencio cuando ya no hay palabras en tus manos

En el desván del alma las cosas desempolvan nuevos
nombres
que habrán de obedecerte
dócilmente.


[Elizabeth Azcona Cranwell]


^^

sábado, 20 de novembro de 2010

Sessão pipoca - Inevitable



Se é questão de confessar
Não sei preparar café
E não entendo de futebol


Acredito que alguma vez fui infiel
Até ludo eu jogo mal
E jamais uso relógio

E para ser mais franca
Ninguém pensa em você como eu faço
Ainda que pra você dê no mesmo

(... )


Comigo nada é fácil
Já deve saber, você me conhece bem
E sem você tudo é chato

O céu já está cansado de ver
A chuva cair
E cada dia que passa é um mais
Parecido a ontem
Não encontro forma alguma de te esquecer
Porque seguir te amando é inevitável

Sempre soube que é melhor
Quando se tem que falar de dois
Começar por si mesmo

Você já saberá da situação
Aqui tudo está pior
Pelo menos ainda respiro

Não tem que dizer isto
Não vai voltar, te conheço bem
Já procurarei o que fazer comigo

O céu já está cansado de ver
A chuva cair
E cada dia que passa é um mais
Parecido a ontem
Não encontro forma alguma de te esquecer
Porque seguir te amando é inevitável

Sempre soube que é melhor
Quando se tem que falar de dois
Começar por si mesmo

[Shakira]


^^


Ao volante do Chevrolet pela estrada de Sintra,
Ao luar e ao sonho, na estrada deserta,
Sozinho guio, guio quase devagar, e um pouco
Me parece, ou me forço um pouco para que me pareça,
Que sigo por outra estrada, por outro sonho, por outro mundo,
Que sigo sem haver Lisboa deixada ou Sintra a que ir ter,
Que sigo, e que mais haverá em seguir senão não parar mas seguir?
Vou passar a noite a Sintra por não poder passá-la em Lisboa,
Mas, quando chegar a Sintra, terei pena de não ter ficado em Lisboa.
Sempre esta inquietação sem propósito, sem nexo, sem conseqüência,
Sempre, sempre, sempre,
Esta angústia excessiva do espírito por coisa nenhuma,
Na estrada de Sintra, ou na estrada do sonho, ou na estrada da vida...

Maieável aos meus movimentos subconscientes do volante,
Galga sob mim comigo o automóvel que me emprestaram.
Sorrio do símbolo, ao pensar nele, e ao virar à direita.
Em quantas coisas que me emprestaram eu sigo no mundo
Quantas coisas que me emprestaram guio como minhas!
Quanto me emprestaram, ai de mim!, eu próprio sou!

À esquerda o casebre — sim, o casebre — à beira da estrada
À direita o campo aberto, com a lua ao longe.
O automóvel, que parecia há pouco dar-me liberdade,
É agora uma coisa onde estou fechado
Que só posso conduzir se nele estiver fechado,
Que só domino se me incluir nele, se ele me incluir a mim.

À esquerda lá para trás o casebre modesto, mais que modesto.
A vida ali deve ser feliz, só porque não é a minha.
Se alguém me viu da janela do casebre, sonhará: Aquele é que é feliz.
Talvez à criança espreitando pelos vidros da janela do andar que está em cima
Fiquei (com o automóvel emprestado) como um sonho, uma fada real.
Talvez à rapariga que olhou, ouvindo o motor, pela janela da cozinha
No pavimento térreo,
Sou qualquer coisa do príncipe de todo o coração de rapariga,
E ela me olhará de esguelha, pelos vidros, até à curva em que me perdi.
Deixarei sonhos atrás de mim, ou é o automóvel que os deixa?

Eu, guiador do automóvel emprestado, ou o automóvel emprestado que eu guio?

Na estrada de Sintra ao luar, na tristeza, ante os campos e a noite,
Guiando o Chevrolet emprestado desconsoladamente,
Perco-me na estrada futura, sumo-me na distância que alcanço,
E, num desejo terrível, súbido, violento, inconcebível,
Acelero...
Mas o meu coração ficou no monte de pedras, de que me desviei ao vê-lo sem vê-lo,

À porta do casebre,
O meu coração vazio,
O meu coração insatisfeito,
O meu coração mais humano do que eu, mais exato que a vida.

Na estrada de Sintra, perto da meia-noite, ao luar, ao votante,
Na estrada de Sintra, que cansaço da própria imaginação,
Na estrada de Sintra, cada vez mais perto de Sintra,
Na estrada de Sintra, cada vez menos perto de mim...


[Álvaro de Campos]


^^


Talvez que o que eu lhe dissera sobre o homem tivesse tido uma repercussão abrupta, tal era a distância de experiência que nos separava. Não havia em mim qualquer lucidez cínica e arrepiante, como se desejar ter um homem fosse criminosamente uma ilusão.
Não.
De modo algum.

Falara-lhe apenas, antecipando a necessária deslocação do toque. Vê-la tocar no tecido fez-me lembrar, ou pensar que nela alguma memória habitaria mas tão diáfana e subtil que, por comparação, lhe seria difícil iniciar um esboço de inventário, dar nomes aos objectos, ou objectos aos nomes falar da brevíssima ou levíssima diferença que sobressaísse, mas onde cada coisa haveria de aparecer lentamente, tacteando.

Enquanto a mão percorria o espaldar, vi formar-se lentamente uma diferença iminente, uma presença ausente que já antes lhe roçara o corpo, e se esvaíra.
Olhei-a no rosto, o meu olhar encontrou-a a roçar-se pelo vestido pensei que estivesse nua, que apenas o vestido a vestisse, ou que o vestido apenas a vestisse, acreditei que falasse um nome, que o falasse abruptamente, sabendo que é infinita a violência da mulher, como é infinita a sedução do vestido que a veste, não sabendo, nós mulheres, pela primeira vez o digo, qual é em nós a substância, a mão que roça pelo espaldar, ou o tecido branco que cobre de atributos a própria mesa.

Se o toque não for decidido,
e o medo nos invadir,
não terei palavras para lho dizer.


Como dizer-lhe que uma lâmpada se funde inesperadamente que um prato cai sem darmos por isso, quando isso é a própria queda, que uma voz desaparece repentinamente de nos falar que um afecto é, de facto, tudo (mas não de tudo quanto o prende) que teria gostado de escrever romances se o tempo não existisse que se o toque fosse indiferente apenas existiriam atributos ou, se preferes, enquanto acaricias esse espaldar só haveria vestidos, e o corpo onde o deixarias
sem ter, sequer, a noção de afecto a quem o dar, não olhes para mim com esse olhar.
Sem uma memória decidida, as coisas desconhecidas fluctuam.
Sim, imagino.
Disse-lhe, soletrando todas as letras,
o cheiro fasto que se desprende do espaldar é de um homem, odor denso, de um homemincómodo, embaraçoso, opaco.


«Quem gostarias de ver a teu lado?»


[Maria Gabriela Llansol, in O jogo da liberdade da alma]

^^

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sale El Sol


Estas semanas sin verte
Me parecieron años
Tanto te quise besar
Que me duelen los labios
Mira que el miedo nos hizo
Cometer estupideces
Nos dejó sordos y cegos
Tantas veces

Y un día después de la tormenta
Cuándo menos piensas sale el sol
De tanto sumar pierdes la cuenta
Porque uno y uno no siempre son dos
Cuándo menos piensas sale el sol

Te lloré hasta el extremo
De lo que era posible
Cuándo creía que era invencible
No hay mal que dure cen años
Ni cuerpo que lo aguante
Y lo mejor siempre espera adelante

Y un día después de la tormenta
Cuándo menos piensas sale el sol
De tanto sumar pierdes la cuenta
Porque uno y uno no siempre son dos
Cuándo menos piensas sale el sol
Cuándo menos piensas sale el sol...


[Shakira]


^^

Assim...


Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade,
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada.
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença.
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.


[Alberto Caeiro]


^^

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

I wonder...


I
Passo a mão pela tua cabeça,
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
olhando-a como passa e vendo onde passou.

Quero saber o que tu pensas.


II
O que tu pensas, mas apenas como,
e quando e o porquê, e não
que estejas pensando ou não que a minha mão,
atenta e curvada, passa brandamente.

Quero saber aquilo que nem sabes.


III
Aquilo que nem sabes - como saberias
o que o pensar é antes de pensar-se?


A mão que pousa e vai passar atenta.
O olhar que espera ver passar o gesto.
A tácita lembrança de volver os olhos.
A brisa que sabemos vai soprar tão mansa,
ainda antes, no fremir de pétalas ou folhas,
mas não na expectativa do arrepio prévio.


IV
Por que esperaste, ciente, a pele da minha mão?


[Jorge de Sena]


^^

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Un viento frio en el alma




Un viento frío en el alma
despierta un profundo sueño
que había trepado muy alto
buscando el amor eterno…

Buscó quedarse dormido,
buscó el aire perfumado
para fugarse con él
y darle al aire su llanto…

La noche casi invernal,
empaña el cristal del alma
deambula rumbo al jagüel,
a conversar con el agua…

Un viento frío en el alma
desvaneció la alegría
y tiritando en silencio
se humedeció su sonrisa…

Pidió prestado a la noche
un instante su secreto,
para que le cuente al alma
como se cobija un sueño…

Porque buscar el porque
si un nuevo día despierta
para empezar otra vez
con una esperanza nueva…

Tiene el amor una luna
tiene el amor primaveras,
bebe dulzuras de mieles
del néctar de las praderas…

[Daniel Guerra]


^^

Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta que traçamos?...
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui.

[Álvaro de Campos]


^^

terça-feira, 16 de novembro de 2010


Para que o encontro se prolongue
na ausência do nosso cruzar
de dedos,
há uma celebração quotidiana
do teu nome fora da minha boca.
Chamo-te como se de perto
me ouvisses, é só um murmurar
fugidio para que aqui te quedes.

[Lidia Martinez, Um adeus perfeito]


^^

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pretextos para fugir do Real


A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado

E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

[Alexandre O´Neill - Poesias Completas]


^^

Gostaria de descrever a emoção mais simples
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol

Gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim

mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante

Gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade

sem agitar um copo cheio de água

Dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra

arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele

mas aparentemente isso não é possível

E só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto

E a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz

Tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento

Adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas

Os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente

[Zbigniew Herbert]
^^

domingo, 14 de novembro de 2010

Antes De Las Seis


No actúes tan extraño
Duro como una roca
Si te mostré pedazos de piel
Que la luz del sol aun no toca
Y tantos lunares que ni yo misma conocía
Te mostré mi fuerza bruta
Mi talón de Aquiles, mi poesía


Qué harás?
Sólo una historia más
Qué haré si no te vuelvo a ver?
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Mucho antes

No dejes el barco
Tanto antes de que zarpemos
Hacia alguna isla desierta
Y después, después veremos

Si me ves desarmada
Por qué lanzas tus misiles?
Si ya conoces mis puntos cardinales
Los más sensibles y sutiles

Qué harás, la vida lo dirá
Qué haré si no te vuelvo a ver?
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Mucho antes de las seis
Mucho antes


[Shakira]


^^

Beijar


Quando partilhares comigo o sabor
de um beijo recorda-te por favor

beijar é acto de dar
e
beijar-te será acto de amar

então se
beijar-te for acto de amor

beijar será o acto
e
tu o amor


[Daniel Sant'Iago, Brinco de palavras]


^^

sábado, 13 de novembro de 2010

A matéria das Palavras



Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.


Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.



[Ana Hatherly]


^^