
Não.
De modo algum.
Olhei-a no rosto, o meu olhar encontrou-a a roçar-se pelo vestido pensei que estivesse nua, que apenas o vestido a vestisse, ou que o vestido apenas a vestisse, acreditei que falasse um nome, que o falasse abruptamente, sabendo que é infinita a violência da mulher, como é infinita a sedução do vestido que a veste, não sabendo, nós mulheres, pela primeira vez o digo, qual é em nós a substância, a mão que roça pelo espaldar, ou o tecido branco que cobre de atributos a própria mesa.
Se o toque não for decidido,
e o medo nos invadir,
não terei palavras para lho dizer.
Como dizer-lhe que uma lâmpada se funde inesperadamente que um prato cai sem darmos por isso, quando isso é a própria queda, que uma voz desaparece repentinamente de nos falar que um afecto é, de facto, tudo (mas não de tudo quanto o prende) que teria gostado de escrever romances se o tempo não existisse que se o toque fosse indiferente apenas existiriam atributos ou, se preferes, enquanto acaricias esse espaldar só haveria vestidos, e o corpo onde o deixarias
sem ter, sequer, a noção de afecto a quem o dar, não olhes para mim com esse olhar.
Sem uma memória decidida, as coisas desconhecidas fluctuam.
Sim, imagino.
Disse-lhe, soletrando todas as letras,
o cheiro fasto que se desprende do espaldar é de um homem, odor denso, de um homemincómodo, embaraçoso, opaco.
«Quem gostarias de ver a teu lado?»
[Maria Gabriela Llansol, in O jogo da liberdade da alma]
















