Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

https://www.facebook.com/danielle.manhaes --- Instagram: @danielle.manhaes @danielle.manhaes_psi

sábado, 20 de novembro de 2010



Talvez que o que eu lhe dissera sobre o homem tivesse tido uma repercussão abrupta, tal era a distância de experiência que nos separava. Não havia em mim qualquer lucidez cínica e arrepiante, como se desejar ter um homem fosse criminosamente uma ilusão.
Não.
De modo algum.

Falara-lhe apenas, antecipando a necessária deslocação do toque. Vê-la tocar no tecido fez-me lembrar, ou pensar que nela alguma memória habitaria mas tão diáfana e subtil que, por comparação, lhe seria difícil iniciar um esboço de inventário, dar nomes aos objectos, ou objectos aos nomes falar da brevíssima ou levíssima diferença que sobressaísse, mas onde cada coisa haveria de aparecer lentamente, tacteando.

Enquanto a mão percorria o espaldar, vi formar-se lentamente uma diferença iminente, uma presença ausente que já antes lhe roçara o corpo, e se esvaíra.
Olhei-a no rosto, o meu olhar encontrou-a a roçar-se pelo vestido pensei que estivesse nua, que apenas o vestido a vestisse, ou que o vestido apenas a vestisse, acreditei que falasse um nome, que o falasse abruptamente, sabendo que é infinita a violência da mulher, como é infinita a sedução do vestido que a veste, não sabendo, nós mulheres, pela primeira vez o digo, qual é em nós a substância, a mão que roça pelo espaldar, ou o tecido branco que cobre de atributos a própria mesa.

Se o toque não for decidido,
e o medo nos invadir,
não terei palavras para lho dizer.


Como dizer-lhe que uma lâmpada se funde inesperadamente que um prato cai sem darmos por isso, quando isso é a própria queda, que uma voz desaparece repentinamente de nos falar que um afecto é, de facto, tudo (mas não de tudo quanto o prende) que teria gostado de escrever romances se o tempo não existisse que se o toque fosse indiferente apenas existiriam atributos ou, se preferes, enquanto acaricias esse espaldar só haveria vestidos, e o corpo onde o deixarias
sem ter, sequer, a noção de afecto a quem o dar, não olhes para mim com esse olhar.
Sem uma memória decidida, as coisas desconhecidas fluctuam.
Sim, imagino.
Disse-lhe, soletrando todas as letras,
o cheiro fasto que se desprende do espaldar é de um homem, odor denso, de um homemincómodo, embaraçoso, opaco.


«Quem gostarias de ver a teu lado?»


[Maria Gabriela Llansol, in O jogo da liberdade da alma]

^^

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Sale El Sol


Estas semanas sin verte
Me parecieron años
Tanto te quise besar
Que me duelen los labios
Mira que el miedo nos hizo
Cometer estupideces
Nos dejó sordos y cegos
Tantas veces

Y un día después de la tormenta
Cuándo menos piensas sale el sol
De tanto sumar pierdes la cuenta
Porque uno y uno no siempre son dos
Cuándo menos piensas sale el sol

Te lloré hasta el extremo
De lo que era posible
Cuándo creía que era invencible
No hay mal que dure cen años
Ni cuerpo que lo aguante
Y lo mejor siempre espera adelante

Y un día después de la tormenta
Cuándo menos piensas sale el sol
De tanto sumar pierdes la cuenta
Porque uno y uno no siempre son dos
Cuándo menos piensas sale el sol
Cuándo menos piensas sale el sol...


[Shakira]


^^

Assim...


Assim como falham as palavras quando querem exprimir qualquer pensamento,
Assim falham os pensamentos quando querem exprimir qualquer realidade,
Mas, como a realidade pensada não é a dita mas a pensada.
Assim a mesma dita realidade existe, não o ser pensada.
Assim tudo o que existe, simplesmente existe.
O resto é uma espécie de sono que temos, infância da doença.
Uma velhice que nos acompanha desde a infância da doença.


[Alberto Caeiro]


^^

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

I wonder...


I
Passo a mão pela tua cabeça,
recurvamente, atentamente, e só com dedos brandos,
olhando-a como passa e vendo onde passou.

Quero saber o que tu pensas.


II
O que tu pensas, mas apenas como,
e quando e o porquê, e não
que estejas pensando ou não que a minha mão,
atenta e curvada, passa brandamente.

Quero saber aquilo que nem sabes.


III
Aquilo que nem sabes - como saberias
o que o pensar é antes de pensar-se?


A mão que pousa e vai passar atenta.
O olhar que espera ver passar o gesto.
A tácita lembrança de volver os olhos.
A brisa que sabemos vai soprar tão mansa,
ainda antes, no fremir de pétalas ou folhas,
mas não na expectativa do arrepio prévio.


IV
Por que esperaste, ciente, a pele da minha mão?


[Jorge de Sena]


^^

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Un viento frio en el alma




Un viento frío en el alma
despierta un profundo sueño
que había trepado muy alto
buscando el amor eterno…

Buscó quedarse dormido,
buscó el aire perfumado
para fugarse con él
y darle al aire su llanto…

La noche casi invernal,
empaña el cristal del alma
deambula rumbo al jagüel,
a conversar con el agua…

Un viento frío en el alma
desvaneció la alegría
y tiritando en silencio
se humedeció su sonrisa…

Pidió prestado a la noche
un instante su secreto,
para que le cuente al alma
como se cobija un sueño…

Porque buscar el porque
si un nuevo día despierta
para empezar otra vez
con una esperanza nueva…

Tiene el amor una luna
tiene el amor primaveras,
bebe dulzuras de mieles
del néctar de las praderas…

[Daniel Guerra]


^^

Às vezes tenho idéias felizes,
Idéias subitamente felizes, em idéias
E nas palavras em que naturalmente se despegam...

Depois de escrever, leio...
Por que escrevi isto?
Onde fui buscar isto?
De onde me veio isto? Isto é melhor do que eu...
Seremos nós neste mundo apenas canetas com tinta que traçamos?...
Com que alguém escreve a valer o que nós aqui.

[Álvaro de Campos]


^^

terça-feira, 16 de novembro de 2010


Para que o encontro se prolongue
na ausência do nosso cruzar
de dedos,
há uma celebração quotidiana
do teu nome fora da minha boca.
Chamo-te como se de perto
me ouvisses, é só um murmurar
fugidio para que aqui te quedes.

[Lidia Martinez, Um adeus perfeito]


^^

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Pretextos para fugir do Real


A uma luz perigosa como água
De sonho e assalto
Subindo ao teu corpo real
Recordo-te
Ternura quase impossível
De suportar
Por isso fecho os olhos
(O amor faz-me recuperar incessantemente o poder da
provocação. É assim que te faço arder triunfalmente
onde e quando quero. Basta-me fechar os olhos)
Por isso fecho os olhos
E convido a noite para a minha cama
Convido-a a tornar-se tocante
Familiar concreta
Como um corpo decifrado

E sob a forma desejada
A noite deita-se comigo
E é a tua ausência
Nua nos meus braços

Experimento um grito
Contra o teu silêncio
Experimento um silêncio
Entro e saio
De mãos pálidas nos bolsos

[Alexandre O´Neill - Poesias Completas]


^^

Gostaria de descrever a emoção mais simples
alegria ou tristeza
mas não como os outros fazem
procurando chegar a dardos de chuva ou sol

Gostaria de descrever a luz
que está a nascer em mim

mas sei que não se parece
com nenhuma estrela
porque não é tão brilhante
nem tão pura
e é inconstante

Gostaria de descrever a coragem
sem arrastar atrás de mim um leão poeirento
e também a ansiedade

sem agitar um copo cheio de água

Dizendo de outra maneira
daria todas as metáforas
em troca de uma palavra

arrancada do meu peito como uma costela
por uma palavra
contida dentro dos limites
da minha pele

mas aparentemente isso não é possível

E só para dizer — eu amo
corro em círculos como um louco
apanhando mãos cheias de pássaros
e a minha ternura
que afinal de contas não é feita de água
pergunta à água por um rosto

E a ira
diferente do fogo
pede-lhe emprestada
uma língua loquaz

Tudo tão emaranhado
tudo tão emaranhado
em mim
que o senhor de cabelo branco
desfez o emaranhado de uma vez por todas
e disse este é o sujeito
e este é o complemento

Adormecemos
com uma mão debaixo da cabeça
e com a outra
num aterro de planetas

Os nossos pés abandonam-nos
e tocam a terra
com as suas raízes minúsculas
que de manhã
arrancamos dolorosamente

[Zbigniew Herbert]
^^

domingo, 14 de novembro de 2010

Antes De Las Seis


No actúes tan extraño
Duro como una roca
Si te mostré pedazos de piel
Que la luz del sol aun no toca
Y tantos lunares que ni yo misma conocía
Te mostré mi fuerza bruta
Mi talón de Aquiles, mi poesía


Qué harás?
Sólo una historia más
Qué haré si no te vuelvo a ver?
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Mucho antes

No dejes el barco
Tanto antes de que zarpemos
Hacia alguna isla desierta
Y después, después veremos

Si me ves desarmada
Por qué lanzas tus misiles?
Si ya conoces mis puntos cardinales
Los más sensibles y sutiles

Qué harás, la vida lo dirá
Qué haré si no te vuelvo a ver?
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Si desde el día en que no estás
Vi la noche llegar mucho antes de las seis
Mucho antes de las seis
Mucho antes


[Shakira]


^^

Beijar


Quando partilhares comigo o sabor
de um beijo recorda-te por favor

beijar é acto de dar
e
beijar-te será acto de amar

então se
beijar-te for acto de amor

beijar será o acto
e
tu o amor


[Daniel Sant'Iago, Brinco de palavras]


^^

sábado, 13 de novembro de 2010

A matéria das Palavras



Estamos aqui. Interrogamos símbolos persistentes.
É a hora do infinito desacerto-acerto.

O vulto da nossa singularidade viaja por palavras
matéria insensível de um poder esquivo.

Confissões discordantes pavimentam a nossa hesitação.
Há uma embriaguês de luto em nossos actos-chaves.

Aspiramos à alta liberdade
um bem sempre suspenso que nos crucifica.

Cheios de ávidas esperanças sobrevoamos
e depois mergulhamos nessa outra esfera imaginária.

Com arriscada atenção aspiramos à ditosa notícia de uma
perfeição
especialista em fracassos.


Estrangeiros sempre
agudamente colhemos os frutos discordantes.



[Ana Hatherly]


^^

Acreditei no Mar


Percorri a umbria de um eclipse
que nas vagas não reflectia

Apaguei os olhos e sorri com uma lágrima

Ao abrir , fitei o azul
o azul do céu , do mar e da lua

Ouvi então estremecerem as ondas
e a areia lacrimar.

Voltaram os raios lunares,
voltei ao luar da noite
húmida e fria
em que me movo
e te deito.

Minha gárgula de vida,
meu eterno mar.


[Nuno Travanca]


^^

^^

Especial: 3

^^

Respiro o teu Corpo



Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.

[Eugénio de Andrade]


^^

Onde o Silêncio se Esconde?


Que rompam as águas:
é dum corpo que falo.
Nunca tive outra pátria,
nem outro espelho,
nem outra casa.

É dum rio que falo,
desta margem onde soam ainda,
leves,
umas sandálias de oiro e de ternura.

Aqui moram as palavras;
as mais antigas,
as mais recentes:
mãe, árvore,
adro, amigo.

Aqui conheci o desejo
mais sombrio,
mais luminoso,
a boca
onde nasce o sol,
onde nasce a lua.

E sempre um corpo,
sempre um rio;
corpos ou ecos de colunas,
rios ou súbitas janelas
sobre dunas;
corpos:
dóceis, doirados montes de feno;
rios:
frágeis, frias flores de cristal.

E tudo era água,
água,
desejo só
dum pequeno charco de luz.

De luz?
Que sabemos nós
dessas nuvens altas,
dessas agulhas
nuas
onde o silêncio se esconde?
Desses olhos redondos,
agudos de verão,
e tão azuis
como se fossem beijos?

Um corpo amei,
um corpo, um rio,
um pequeno tigre de inocência,
com lágrimas
esquecidas nos ombros,
gritos
adormecidos nas pernas,
com extensas,
arrefecidas
primaveras nas mãos.

Quem não amou
assim? Quem não amou?
Quem?

Quem não amou
está morto.

Piedade,
também eu sou mortal.
Piedade
por um lenço de linho
debruado de feroz melancolia,
por uma haste de espinheiro
atirada contra o muro,
por uma voz que tropeça
e não alcança os ramos.

Dum corpo falei:
que rompam as águas.

[Eugénio de Andrade]

^^

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Contudo


Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,
Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim.

[Álvaro de Campos]


^^

Vice versa


Tenho medo de te ver
Necessidade de te ver
Esperança de te ver
Inquietação de te ver

Tenho ganas de te encontrar
Preocupação de te encontrar
Certeza de te encontrar
Pobres dúvidas de te encontrar

Tenho urgência de te ouvir
Alegria de te ouvir
Boa sorte de te ouvir
E temores de te ouvir

Ou seja
Resumindo
Estou fodido
E radiante
Talvez mais o primeiro
Que o segundo
E também
Vice versa

[Mario Benedetti]


^^

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sessão pipoca - Déjà Vu



Nenhuma verdade me machuca
Nenhum motivo me corrói
Até se eu ficar
Só na vontade, já não dói
Nenhuma doutrina me convence
Nenhuma resposta me satisfaz
Nem mesmo o tédio me surpreende mais

Mas eu sinto que eu tô viva
A cada banho de chuva
Que chega molhando o meu corpo

Nenhum sofrimento me comove
Nenhum programa me distrai
Eu ouvi promessas e isso não me atrai

E não há razão que me governe
Nenhuma lei pra me guiar
Eu tô exatamente aonde eu queria estar

Mas eu sinto que eu tô viva
A cada banho de chuva
Que chega molhando o meu corpo

A minha alma nem me lembro mais
Em que esquina se perdeu
Ou em que mundo se enfiou

Mas já faz algum tempo
Já faz algum tempo
Já faz algum tempo
Faz algum tempo

A minha alma nem me lembro mais
Em que esquina se perdeu
Ou em que mundo se enfiou

Mas eu não tenho pressa
Já não tenho pressa
Eu não tenho pressa
Não tenho pressa...


[Pitty]


^^

Neste Lugar

Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo
Mal de te amar neste lugar de imperfeição
Onde tudo nos quebra e emudece
Onde tudo nos mente e nos separa.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


^^