Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 3 de outubro de 2010

Fragmentos


Me quer? Não me quer? As mãos torcidas
os dedos
despedaçados um a um extraio
assim tira a sorte enquanto
no ar de maio
caem as pétalas das margaridas
Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e
que a prata dos anos tinja seu perdão
penso
e espero que eu jamais alcance
a impudente idade do bom senso.

[Vladimir Maiakóvski]
^^

Mulher sentada



Essa mulher sentada de ribeiro de pavia
nas maçãs salientes risco ao meio e ancas arqueadas
(das pernas nada digo pois sou púdico e além disso há a mesa de permeio)
essa mulher durante tantos anos perseguida e só muito raras vezes conseguida
no mínimo desenho do pintor alentejano
finalmente perdida como tudo com a vida essa mulher amendoada
(...) e de dois olhos
possivelmente obtidos a partir desse lápis-lazúli
ainda não há muito visto mesmo mais que entrevisto
em dois botões de punho que o hernani me deixou ao voltar para o chile
entre compreensivos conviventes versos sobre a mesa do meu quarto
de solteiro e amiúde solitário
da casa do brasil onde em madrid envelheci um ano
esse lápis-lazúli que eu esquecera em roma numa mesa de oratório
e tão bem conhecia do antónio nobre onde me conhecera
não menos que em courelas do guerreiro ou do costa alemão
(já não sei qual dos dois) concretamente se chamava
silicato complexo de alumínio e sódio
(que forma mais complexa se utiliza - lembro-me - pensava -
pra nomear uma só pedra embora rara baça sonhadoramente azul
que já de si se chama de maneira complicada)
essa mulher sentada jamais pode conhecer
quem envelhece ao fim do corredor dos dias
e acaba de passar ao lado de umas árvores moldadas despenteadas pelo vento
sob a macia abóbada do lusco-fusco
num carro porventura expressamente encarregado
de difundir esse quarteto salvo erro número dois de haydn
entre as íntimas ervas dos velados campos
onde perdeu coisas concretas como a sua juventude
um búzio um rancho de mulheres ou o varejo da azeitona
alguns cabelos uma chave ou uma rima original
Raios a partam e depois de todos estes digressivos versos
essa mulher na mesma ali sentada e assentada
sozinha à minha espera à espera de um sentido para a vida
à espera de um marido à espera do natal.


[Ruy Belo - Transporte No Tempo]


^^

Se





Você disse que não sabe se não
Mas também não tem certeza que sim
Quer saber?
Quando é assim
Deixa vir do coração
Você sabe que eu só penso em você
Você diz só que vive pensando em mim
Pode ser
Se é assim
Você tem que largar a mão do não
Soltar essa louca, arder de paixão
Não há como doer pra decidir
Só dizer sim ou não

Mas você adora um se...

Eu levo a sério mas você disfarça
Você me diz à beça e eu nessa de horror
E me remete ao frio que vem lá do sul
Insiste em zero a zero e eu quero um a um
Sei lá o que te dá, não quer meu calor
São Jorge por favor me empresta o dragão
Mais fácil aprender japonês em braile
Do que você decidir se dá ou não.


[Djavan]

^^

Amizade


A amizade é o sentimento que imanta as almas unas às outras, gerando alegria e bem-estar.
A amizade é suave expressão do ser humano que necessita intercambiar as forças da emoção sob os estímulos do entendimento fraternal.
Inspiradora de coragem e de abnegação. a amizade enfloresce as almas, abençoando-as com resistências para as lutas.
Há, no mundo moderno, muita falta de amizade!
O egoísmo afasta as pessoas e as isola.
A amizade as aproxima e irmana.
O medo agride as almas e infelicita.
A amizade apazigua e alegra os indivíduos.
A desconfiança desarmoniza as vidas e a amizade equilibra as mentes, dulcificando os corações.

[Joanna de Ângelis]

^^

Os versos
que te digam
a pobreza que somos
o bolor
nas paredes
deste quarto deserto
os rostos a apagar-se
no frémito
do espelho
e o leito desmanchado
o peito aberto
a que chamaste
amor.

[Carlos de Oliveira]


^^


Só você sabe bem quem sou
E por isso é seu o meu coração
Só você me faz perder a razão
E por isso que onde você queira eu vou

Não acredito que o mar algum dia
Perca o sabor de sal
Não acredito em mim ainda
Não acredito no azar

Só acredito no seu sorriso azul
No seu olhar de cristal
E nos beijos que você me dá
E em tudo o que você fala

Só você sabe bem quem sou
E por isso é seu o meu coração
Só você me faz perder a razão
E por isso que onde você queira eu vou
Se eu falo demais
Não se esqueça de que ninguém mais
Amará você
Assim como eu

Não acredito em Vênus nem em Marte
Não acredito em Karl Marx
Não acredito em Jean-Paul Sartre
Não acredito em Brian Weiss

Só acredito no seu sorriso azul
No seu olhar de cristal
E nos beijos que você me dá
E falem o que quiser


[Shakira]

^^

sábado, 2 de outubro de 2010


Podemos acreditar que tudo que a vida nos oferecerá no futuro é repetir o que fizemos ontem e hoje. Mas se prestarmos atenção, vamos nos dar conta de que nenhum dia é igual ao outro.

Cada manhã traz uma bênção escondida, uma bênção que só serve para esse dia e que não se pode guardar nem desaproveitar.

Se não usarmos este milagre hoje, ele vai se perder. Este milagre está nos detalhes do cotidiano; é preciso viver cada minuto porque ali encontramos saída para as nossas confusões, a alegria de nossos bons momentos, a pista correta para a decisão que tomaremos.

Nunca podemos deixar que cada dia pareça igual ao anterior porque todos os dias são diferentes, porque estamos em constante processo de mudança.

[Paulo Coelho]


^^

constantes apelos sensoriais (metáforas, sinestesias, aliterações e assonâncias).

Rômulo rema

Rômulo rema no rio.

A romã dorme no ramo,
a romã rubra. (E o céu.)

O remo abre o rio.
O rio murmura.

A romã rubra dorme
cheia de rubis. (E o céu.)

Rômulo rema no rio.

Abre-se a romã.
Abre-se a manhã.

Rolam rubis rubros do céu.

No rio,
Rômulo rema.


[Cecíla Meireles]


^^

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Elogiemos as Mulheres Estúpidas


(...)
Não vivem no mundo real, dizemos para nós próprios ternamente, mas que raio de critica é essa? Se elas conseguem não viver nele, melhor para elas. Nós também preferíamos não viver. E de facto elas não vivem nele, porque tais mulheres são ficção: compostas por outros, mas mais frequentemente por elas próprias, embora mesmo as mulheres estúpidas não sejam tão estúpidas como querem aparentar: elas fingem por amor.
Os homens amam-nas porque elas fazem com que mesmo os homens estúpidos se sintam espertos;
as mulheres pela mesma razão, e porque são relembradas de todas as coisas estúpidas que elas próprias fizeram; mas acima de tudo porque sem elas não haveria história.
Nenhuma história! Nenhuma história! Imaginem um mundo sem histórias.
Hypocrite lecteuse!Ma semblable! Ma soeur!

Elogiemos as mulheres estúpidas, que nos deram a li-te-ra-tu-ra.


[Margaret Atwood]



^^

De Volta Ao Começo


E o menino com o brilho do sol
Na menina dos olhos
Sorri e estende a mão
Entregando o seu coração
E eu entrego o meu coração


E eu entro na roda
E canto as antigas cantigas
De amigo irmão
As canções de amanhecer
Lumiar e escuridão


E é como se eu despertasse de um sonho
Que não me deixou viver
E a vida explodisse em meu peito
Com as cores que eu não sonhei


E é como se eu descobrisse que a força
Esteve o tempo todo em mim
E é como se então de repente eu chegasse
Ao fundo do fim
De volta ao começo
Ao fundo do fim
De volta ao começo


[Composição: Gonzaguinha]

^^

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Sessão pipoca - Alejandro



Eu sei que somos jovens
E eu sei que você pode me amar
Mas simplesmente não posso ficar com você desse jeito
Alejandro !

(...)

Você sabe que eu te amo, garoto
Quente como o México,
Alegrem-se!
Neste momento eu tenho que escolher
Nada a perder

Não chame o meu nome
Não chame o meu nome
Alejandro...


[Composição: Lady GaGa / Red One]


^^

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Um Tempo




Interrompo a programação normal para
resolver assuntos pessoais de fundo emocional-cultural-social-organizacional-existencial-humanista. (oi?)

Até breve...
^^

segunda-feira, 9 de agosto de 2010


Aqui tudo é amarelo e verde.
Ouçam a sua garganta e a sua pele de terra,
a voz completamente seca dos pimentos
enquanto eles palpitam como anúncios.
Os pequenos animais do bosque
estão a levar as suas máscaras funerárias
para uma estreita caverna de Inverno.
O espantalho arrancou
os seus dois olhos como diamantes
e caminhou para a aldeia.
O general e o carteiro
tiraram as suas mochilas.
Tudo isto já aconteceu antes
mas nada aqui é obsoleto.
Tudo aqui é possível.

Por causa disto talvez uma jovem rapariga tenha despido
as suas roupas de Inverno e sentou-se
ao acaso num ramo de árvore
que está por cima de um lago no rio.
Ela foi vertida para o ramo,
rente à casa dos peixes
enquanto eles nadam para dentro e para fora do seu reflexo
e para cima e para baixo das escadas das suas pernas.
O seu corpo leva as nuvens até casa.
Ela está a olhar para a sua cara feita de água
no rio onde os homens cegos
vêm tomar banho ao meio dia .

Por causa disto
o chão, esse pesadelo de Inverno
curou as suas chagas e rebentou
com pássaros verdes e vitaminas.
Por causa disto
as arvores entregam as suas valas
e seguram pequenas chávenas de chuva
com os seus dedos esguios.
Por causa disto
uma mulher está ao pé do seu fogão
a cantar e a cozinhar flores.
Tudo aqui é amarelo e verde.

Com certeza que a Primavera vai permitir
que uma rapariga nua
se vire suavemente na sua luz solar
e não tenha medo da sua cama.
Ela já contou seis
flores no seu espelho verde verde.
Dois rios fundem-se debaixo dela.
A cara da criança enruga-se
na água e desaparece para sempre.
A mulher é tudo o que pode ser visto
na sua beleza animal.
A sua pele acarinhada e obstinada
permanece profundamente debaixo da árvore feita de água.
Tudo aqui é completamente possível
e os homens cegos também podem ver.


[Anne Sexton]
^^

Um dia


Um dia voltarei à morada das papoilas
colher os versos vermelhos
que semeei na seara.

Um dia o vento estará maduro.


[Albano Martins]



^^

A Esperança


Quantas vezes a angústia
Nos atinge nessa vida,
E a dor parece que não tem mais fim?
E parece impossível,
Outra vez, ser feliz...

Se ouvesse em nós um meio
De mudar as circunstâncias,
Se estivesse em nossas mãos esse poder...
E apesar de parecer não ter sentido,
Eu vou dizer:

Que existe uma esperança
Que existe uma saída,
Que existe um bom motivo pra viver...

A esperança é Jesus Cristo
É consolo, Graça, Abrigo
E em suas mãos está todo o poder...


[Composição: Ludmila Ferber]
^^

... Nós viemos de longe, muito longe,
escapados de nós mesmos, foragidos,
em busca do lugar onde
nos apelavam os sentidos.

Mas tão depressa nos perdemos, tão depressa
a memória das coisas nos fugiu
que, rápida, a estranheza
do tempo nos tomou, como se um rio,
em passando por nós, nos esquecera.

Não é fácil amar-te, não é fácil
possuir-se a ausência de si mesmo.
Mais difícil, porém, é sempre o espaço
a vencer de regresso ao que esquecemos.

[Torquato da Luz]


^^

domingo, 8 de agosto de 2010

Um Dia Perfeito


Quase morri
Há menos de vinte e duas horas atrás
Hoje a gente fica na varanda
Um dia perfeito, com as crianças.

São as pequenas coisas que valem mais
É tão bom estarmos juntos
E tão simples : um dia perfeito.

Corre, corre, corre
Que vai chover
Olha a chuva!

Não vou me deixar embrutecer
Eu acredito nos meus ideais
Podem até maltratar meu coração
Que meu espírito
Ninguém vai conseguir quebrar...

[Legião Urbana]


^^

Exactamente como foi, o medo de me enganar
mais tarde na memória - é tudo o que me resta: estar
de noite às escuras a pensar em ti

E se me lembro mal, se troco as vezes, naquela
quinta-feira o dia do amor em vez de ser
na quarta, o erro surge-me gigante,
um peso carregado como Atlas

Por isso é que preciso de lembrar coisas
exactas, como aconteceu tudo; não só
transpor depois na ficção recolhida, sou eu
que te preciso e dos teus dias
que me foram meus

Lembrar-me exactamente como foi, o que usei
nesse dia e o que usei no outro, até que horas
tudo, se havia gente ou não
e em que dia. Porque as palavras depois se
reconstroem

O que se disse então torna-se fácil.
Assim dito parece coisa pouca,
lugar comum e
fácil, mas as noites são grandes

E lembrar-se
exactamente,
de uma forma correcta

É-me tão importante
dentro das noites a pensar em ti
sabendo: não te vejo nunca mais


[Ana Luisa Amaral]


^^

sábado, 7 de agosto de 2010

Sessão pipoca - Ode To My Family




Entenda as coisas que eu digo, não vire as costas para mim
Porque eu passei metade da minha vida lá fora, você não faria diferente
Você me compreende? Você compreende?
Você gosta de mim? Você gosta de mim ficando lá?
Você percebe? Você sabe?
Você me compreende? Você me compreende?
Alguém se importa?

Infelicidade havia quando eu era jovem e nós não dávamos importância
Porque nós fomos educados para ver a vida como diversão e levá-la se pudermos
Minha mãe, minha mãe, ela me abraça, ela me abraçou quando eu estava lá fora?
Meu pai, meu pai, ele gostava de mim, oh, ele gostava de mim, alguém se importa?

Entenda no que eu me tornei, esse não era meu projeto
E pessoas de todo lugar pensam alguma coisa melhor do que eu sou
Mas eu sinto sua falta, eu sinto falta
Porque eu gostava disso, porque eu gostava disso quando eu estava lá fora
Você percebe? Você sabe?
Você não me encontrou, você não encontrou
Alguém se importa?

Infelicidade havia quando eu era jovem e nós não dávamos importância
Porque nós fomos educados para ver a vida como diversão e levá-la se pudermos
Minha mãe, minha mãe, ela me abraça, ela me abraçou quando eu estava lá fora?
Meu pai, meu pai, ele gostava de mim, oh, ele gostava de mim

Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?
Alguém se importa?


[The Cranberries]

^^

Agora estamos num lugar escuro
insuspeitos de amor
ou generosidade.
Outrora transbordámos de palavras
hoje amamos a dor.
Coração repleto
jamais reconhece a abundância.

O espelho doméstico ensaia
o côncavo sorriso
crua necessidade
de um tempo de pausa
em que me revejo
e ausento.
Mas haverá beleza na imobilidade?


[Ana Marques Gastão]


^^