Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

https://www.facebook.com/danielle.manhaes --- Instagram: @danielle.manhaes @danielle.manhaes_psi

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Um passeio


Passei por uma esquina. Não gosto de passear em vão, só vou se precisar mesmo de alguma coisa. Ver o que há para ver, despachar o assunto, mas andar por andar, não ando. Só por andar, isso não.
E também não gosto de quebrar nada. Hoje caminhei um pouco até a esquina, depois regressei, continuei a caminhar, depois voltei para casa, fui ate a cozinha, tirei um copo do armário, não me perdi, tirei-o e lancei-o para o chão. Não faço cenas. Primeiro segurei-o, mas logo o deixei cair. Tudo isto aconteceu hoje. O som ecoou muito longe.


[Endre Kukorelly]

^^

quarta-feira, 9 de junho de 2010


Ela diz.
Apaixonei-me por ti.
E ele ouve-a,
Mas não diz nada.
Ele sabe
Que nada puderam fazer
A não ser acharem-se
Um dia
Apaixonados.
Ela por ele.
Ele por ela.
Sabem que foi
Assim que aconteceu.
Ele sabe.
Ela também.
E desconfiam,
Um e outro,
Desconfiam
Que não podia ser
De outra maneira.
.
.
[Luís Ene]

^^

terça-feira, 8 de junho de 2010

Todas as pessoas sozinhas


Todas as pessoas sozinhas dançam devagar na sala de espera mesmo que o dia seja quente e convide a passeios ao luar.

A música é sempre a mesma, assobiada ao ouvido por um rapazinho tímido e fechado do qual não se sabe o nome e a destreza que podemos alcançar, neste querer dar o passo certo, é apenas uma mínima ideia da força dos nossos desejos.

Todas as pessoas sozinhas sorriem em frente ao espelho e lavam os dentes como quem arranca beijos à emoção de ter ali, à nossa frente, alguém de quem gostamos muito.

A porta da rua é um lugar onde só se sai, a nossa família é uma fotografia pendurada na parede e os amigos são aqueles que nos dão bons dias no café.

Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas gritam baixinho os nomes esquecidos que outras pessoas sozinhas lhes sussurraram alto uma vez, quando ainda éramos todos uns dos outros.

Engomada a camisa, vestimo-nos com o cuidado solene daqueles que vestem camisas com emoção e significado enquanto esperam a hora certa para morrer ou nascer.

Todas as pessoas sozinhas embrulhadas em lençóis frescos porque é Verão a rebolar as dores de pescoço pelas duas almofadas da cama e a pensar que de tanto dormir assim sem ninguém vai ser difícil voltar a adormecer só num dos cantos do colchão. Todas as pessoas sozinhas todas as pessoas sozinhas.


[Luís Filipe Cristóvão]

^^

segunda-feira, 7 de junho de 2010

O caminho é sempre um certo vazio


Para se fazer qualquer caminho foi preciso arrasar, destruir.
Assim, no caminho do tempo, poderíamos dizer que o caminho do tempo passa arrasando o ser: o ser enquanto tal, e o ser daquele pelo qual transita: o homem, enquanto o sabemos.

Mas se um caminho o é verdadeiramente, se cumpre a sua função mediadora, terá destruído apenas para criar uma relação diferente; uma relação possível e válida. Tratando-se do tempo, uma relação possível e válida quer dizer adequada ao ser humano para quem o caminho do tempo se abre.

O tempo constitui a possibilidade de viver humanamente; de viver. Já que o viver não é o mesmo que a vida. A vida é dada, mas é um dom que exige de quem a recebe o vivê-la, e ao homem de uma maneira especial.

Viver humanamente é uma acção e não um simples deixar-se deslizar pela vida. O homem tem de fazer a própria vida, ao contrário da planta e do animal que a encontram já feita e que só têm que deslizar por ela, do mesmo modo que um astro percorre a sua órbita - adormecido -, diz. É indubitável.

Mas, por outro lado, o deixar-se deslizar pela vida que se estende já feita, o percorrê-la do mesmo modo que um astro na sua órbita é, sem dúvida, qualquer coisa que o homem sempre se esforçou por conseguir. A órbita é representação e símbolo da ordem perfeita.

Viver descrevendo uma órbita é uma imagem ambivalente: infernal pelo que de movimento sem fim possui, pela falta de lugar próprio que significa. Imagem de um tempo vazio, sem princípio nem fim, de um tempo absolutizado; desprovido de transcendência. Mas se a órbita se descreve criando-a, dançando em roda, o que será sempre dança ainda que pareça só andar, então será a imagem da vida em estado puro, da vida bem-aventurada, obediente e livre ao mesmo tempo.

E assim parece que na vida, enquanto quem quer que seja, por afastado que esteja do astro, somente desliza, dorme e sonha, ao homem é-lhe exigido despertar. Há que despertar, ir despertando, o que significa ir despertando para o seu ser do sonho, despertar com ele.

Despertar no homem é despertar-se com o seu próprio ser na realidade e perante ela. A realidade que se apresenta de forma fragmentária e total, iniludível e relativa; chamando-o como o lugar de encontro com todos os outros homens. Porque a realidade é, em princípio, o lugar onde os seres se encontram porque aí se descobrem ao entrar. O lugar que põe, inexoravelmente, os seres a descoberto.

[María Zambrano]


^^

domingo, 6 de junho de 2010

Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido -
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? Será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.

[Teresa Balté]


^^

sábado, 5 de junho de 2010


O poema é texto? O poeta?
O poema é o texto + o poeta?
O poema é o poeta - o texto?
O texto é o contexto do poeta
Ou o poeta do contexto do texto?
O texto visível é o texto total
O antetexto e o antitexto
Ou as ruínas do texto?

O texto abole
Cria
Ou restaura?

[Murilo Mendes]

^^

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Procura da Poesia, in A Rosa do Povo

Ano facas versos sobre acontecimentos.
Ano ha' criação nem morte perante a poesia.
Diante dela, a vida é um sol estático,
ano aquece nem ilumina. (...)
Nem me reveles teus sentimentos,
que se prevalecem do equívoco e tentam longa viagem.
O que pensas e sentes, isso ainda ano é poesia. (...)
O canto ano é a natureza
nem os homens em sociedade.
Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança, nada significam.
A poesia (ano tires poesia das coisas)
elide sujeito e objeto. (...)
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas ano há desespero,
há calma e frescura na superfície inata
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.
Convive com teus poemas, antes de escreve-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silencio.
Ano forces o poema a desprender-se do limbo.
Ano colhas no chão o poema que se perdeu.
Ano adules o poema. Aceita-o
como ele aceitara' a sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega perto e contempla as palavras.
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta,
pobre ou terrível, que lhe deres:
Trouxeste a chave? (...)


[Carlos Drummond de Andrade]


^^

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Vestido

A quem deixar o meu guarda-roupa oculto
o guarda-roupa fantasma
de todos os vestidos
que tive e que me abandonaram
os vestidos
que nunca tive e que vesti em segredo
O vestido que veio demasiado cedo
e que nunca me caiu bem
o vestido
que chegou já tarde
para ir à festa
quando eu já tinha adormecido

O vestido de criança
tão igual ao vestido
da primeira boneca
O da menina com o corpete já estreito
que apertava os seios doendo-lhe em casulo
O da adolescente que pressentia o homem
ladrão de túnicas na sesta sufocante

O vestido esquecido
da mulher que sob a sombra
do homem eclipse ocultou-se uma noite
e amanheceu como a lua cheia
surpreendida pela luz na metade do céu

O vestido de guerra rasgado
como bandeira
da mãe partida em dois
para sentir-se inteira

O vestido de luto que não levei para os meus
mortos
que ainda vivem

Os vestidos que alguém me emprestou para sonhar

...Quando chegar a morte também será um vestido
que não verei porque estarei a dormir.

[Josefina Plá]

^^

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Fragmento - de Perto do Coração Selvagem


No momento em que a tia foi pagar a compra, Joana tirou o livro e meteu cuidadosamente entre os outros, embaixo do braço. A tia empalideceu. Na rua a mulher buscou as palavras com cuidado: — Joana... Joana, eu vi...

Joana lançou-lhe um olhar rápido. Continuou silenciosa: — Mas você não diz nada? — não se conteve a tia, a voz chorosa.— Meu Deus, mas o que vai ser de você? — Não sé assuste, tia.

— Mas uma menina ainda... Você sabe o que fez? — Sei...

— Sabe... sabe a palavra...?

— Eu roubei o livro, não é isso?

— Mas, Deus me valha! Eu já nem sei o que faço, pois ela ainda confessa!

— A senhora me obrigou a confessar.

— Você acha que se pode... que se pode roubar? — Bem... talvez não.

— Por que então...? — Eu posso.

— Você?! — gritou a tia.

— Sim, roubei porque quis. Só roubarei quando quiser. Não faz mal nenhum.

— Deus me ajude quando faz mal Joana?

Quando a gente rouba e tem medo. Eu não estou contente nem triste.


[Clarice Lispector]


^^

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Pronominais


Dê-me um cigarro
Diz a gramática
Do professor e do aluno
E do mulato sabido
Mas o bom negro e o bom branco
Da Nação Brasileira
Dizem todos os dias
Deixa disso camarada
Me dá um cigarro

[Oswald de Andrade]

^^

domingo, 30 de maio de 2010

E eu


Há mil portas atrás
quando eu era uma miúda solitária
numa casa grande com quatro
garagens e era verão
desde sempre,
da noite deitada na relva,
com os trevos a enrugarem-se por cima de mim
as estrelas sábias deitadas sobre mim,
a janela da minha mãe um funil
de calor amarelo a escorrer
a janela do meu pai, meia fechada,
um olho onde adormecidos passavam,
e as tábuas da casa
eram macias e brancas como a cera
e provavelmente um milhão de folhas
velejavam nos seus caules estranhos
enquanto os grilos faziam tiquetaque em uníssono
e eu, no meu corpo recém estreado,
que ainda não era o de uma mulher,
dizia às estrelas as minhas perguntas
e pensava que Deus poderia mesmo ver
o calor e a luz pintada,
cotovelos, joelhos, sonhos, boa noite.

[Anne Sexton]


^^

In Egoísta


Dizia-te do minuto certo. Do minuto certo do amor.
Dizia-te que queria olhar para os teus olhos e ter a certeza que pensavas em mim. Que me pensavas por dentro. Que era eu a tua fantasia, o teu banco de trás. O teu desconforto de calças caídas, de pernas caídas, da rua que não estava fechada porque nenhuma rua se fecha para o amor.
Na cidade do meu sono, havia palmeiras onde alguns repetiam. Mas eu nunca gostei de clichés. Nem de quartos de hotel. Nem de camas que não conheço. Eu nunca abri as pernas no liceu. Nunca abri as pernas aos dezassete anos, de cigarro na mão. Eu nunca me comovi com o sonho de ser tua. Eu nunca quis que ficasses, entendes? Que viesses. Queria que quisesses de mim esse minuto certo, essa rua húmida de ser norte. Queria que me quisesses certa, exacta, como o minuto onde me pudesses encontrar. Eu nunca quis de ti uma continuidade. mas um alívio, uma noção de ser gente, entendes? Eu nunca quis de ti o sonho do sono ou da viagem. Nunca te pedi o pequeno-almoço, a ternura. Nunca te disse que me abraçasses por trás, que adormecesses. Eu nunca quis que me desses casa e filhos e lógica. Que me convidasses para dançar. Queria os teus olhos a fecharem-se comigo por dentro e tu por dentro de mim.

Queria de ti um minuto. Um minuto.

[Filipa Leal, in Egoísta, nº 32]
^^



Tes unha frente de Apolo,
i uns ollos tes verde mar;
na miña vida vin outros
de máis hermoso mirar,
pero con eles non fico,
galán, de me namorar.

Que choras... galán, a moitos
cal ora a ti vin chorar;
que morres por min...
a cantos lle oín o mesmo cantar
e inda están vívo-los probes
defuntos que así falar.

Gústanme os teus ollos verdes.
¡Como non me han de gustar!
Gústame, galán, miralos
cando me veñen mirar.
Mais n'hei de ser en quen deles
nin d'outros se namorar.

[Rosalía de Castro]

^^

Definitivo




Definitivo, como tudo o que é simples.
Nossa dor não advém das coisas vividas,
mas das coisas que foram sonhadas e não se cumpriram.

Sofremos por quê? Porque automaticamente esquecemos
o que foi desfrutado e passamos a sofrer pelas nossas projeções
irrealizadas, por todas as cidades que gostaríamos de ter conhecido ao lado
do nosso amor e não conhecemos, por todos os filhos que gostaríamos de ter
tido junto e não tivemos,por todos os shows e livros e silêncios que
gostaríamos de ter compartilhado,
e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, pela eternidade.

Sofremos não porque nosso trabalho é desgastante e paga pouco, mas por todas
as horas livres que deixamos de ter para ir ao cinema, para conversar com um
amigo, para nadar, para namorar.

Sofremos não porque nossa mãe é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos estar confidenciando a ela nossas mais profundas
angústias se ela estivesse interessada em nos compreender.

Sofremos não porque nosso time perdeu, mas pela euforia sufocada.

Sofremos não porque envelhecemos, mas porque o futuro está sendo
confiscado de nós, impedindo assim que mil aventuras nos aconteçam,
todas aquelas com as quais sonhamos e nunca chegamos a experimentar.

Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável,um tempo feliz.

Como aliviar a dor do que não foi vivido? A resposta é simples como um
verso:

Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida
está no amor que não damos, nas forças que não usamos,
na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do
sofrimento,perdemos também a felicidade.

A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional...



[Carlos Drumond de Andrade]


Hoje estou de pernas para o ar, definitivamente, a Céu Aberto. Entre aqui e confira.

sábado, 29 de maio de 2010

Era da dor e do resto
que se fazia a música:
o que ficava das intactas madrugadas,
do sol baço, dos inclinados
meios do dia
de fome e de solfejo.

Mesmo se rias, se os teus olhos míopes
em nós dançavam,
era como se um lance mais profundo,
uma agonia, difusa, abstracta,
lhes tocasse as pálpebras
febris.
E, nota a nota, nuvens
soltas, farrapos de céu numa aberta
de outono,
as cordas eram dedos
suspensos na nossa
repartida solidão.

Mas, dança, enfim, dancemos
na poeira estelar das tuas pernas já desfeitas,
antes que soe a riso claro
a eterna dor de que criaste
a vida que anima
o coração.

[António Mega Ferreira]





^^

quinta-feira, 27 de maio de 2010

A criança que pensa em fadas...


A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as coisas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.

[Fernando Pessoa]


^^

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Hoje venho dizer-te que morreste e que velo o teu corpo no meu
leito , um corpo estranho e surdo um corpo incompreensível.

Aquele desespero que deixou de ter forças para erguer os portais do
outro reino tristeza de menino a quem tiraram tudo , até
a tinta e as flores e o prazer de gritar.

Esse (foi visto) deve subsistir porque é a tua maneira de tomar banho
no cosmos , olhar o cosmos como os que ainda podem
interrogar as ondas e morrer.

Mas tu ainda não sabes a que ponto morreste; vais até à janela, aspiras
com cuidado o oxigénio que o espaço te oferece apontas
rindo a meiga criatura que pela rua arrasta a sua condição
de animal fulminado.

Depois olhas para mim, olhas as tuas mãos, e elas ambas, tão claras
tão seguras, são as mãos de um soldado a arder em febre,
aves a percorrer o seu novo deserto.

Mas sabes, tu viste, e mais do que eu; a mão do homem é doce e
iluminada como a noite como um rasto de fumo sobre
os hospitais...

Tivemos uma história mas a história foi-se, em fileiras angélicas e
gratas, a fazer a manhã de outras paragens; outra sombra,
outros olhos semelhantes.

Noutro leito nas nuvens deito os teus cabelos, o teu cansaço e a
minha miséria, os teus braços e os meus, altos como
cidades, altos como flores.

Parou o automóvel, lá em baixo, e eu não tenho mais que descer as escadas, fechar ainda a porta do teu quarto, atravessar de
um pulo a minha própria vida.


Agora posso sonhar até deixar de te ver
belo rio sem lágrimas...

[Mário Cesariny]

^^

terça-feira, 25 de maio de 2010

E eu quero brincar às escondidas contigo e dar-te as minhas roupas e dizer que gosto dos teus sapatos e sentar-me nos degraus enquanto tu tomas banho e massajar o teu pescoço e beijar-te os pés e segurar na tua mão e ir comer uma refeição e não me importar se tu comes a minha comida e encontrar-me contigo no Rudy e falar sobre o dia e passar à máquina as tuas cartas e carregar as tuas caixas e rir da tua paranóia e dar-te cassetes que tu não ouves e ver filmes óptimos ver filmes horríveis e queixar-me da rádio e tirar-te fotografias a dormir e levantar-me para te ir buscar café e brioches e folhados e ir ao Florent beber café à meia-noite e tu a roubares-me os cigarros e a nunca conseguir achar sequer um fósforo e falar-te sobre o programa da televisão que vi na noite anterior e levar-te ao oftalmologista e não rir das tuas piadas e querer-te de manhã mas deixar-te dormir um bocado e beijar-te as costas e tocar na tua pele e dizer quanto gosto do teu cabelo dos teus olhos dos teus lábios do teu pescoço dos teus peitos do teu rabo do teu ________ e sentar-me nos degraus a fumar até o teu vizinho chegar a casa e se sentar nos degraus a fumar até tu chegares a casa e preocupar-me quando estás atrasada e ficar surpreendido quando chegas cedo e dar-te girassóis e ir à tua festa e dançar até ficar todo negro e pedir desculpa quando estou errado e ficar feliz quando me desculpas e olhar para as tuas fotografias e desejar ter-te conhecido desde sempre e ouvir a tua voz no meu ouvido e sentir a tua pele na minha pele e ficar assustado quando estás zangada e um dos teus olhos vermelho e o outro azul e o teu cabelo para a esquerda e o teu rosto para oriente e dizer-te que és lindíssima e abraçar-te quando estás ansiosa e amparar-te quando estás magoada e querer-te quando te cheiro e ofender-te quando te toco e choramingar quando estou ao pé de ti e choramingar quando não estou e babar-me para o teu peito e cobrir-te à noite e ficar frio quando me tiras o cobertor e quente quando não o fazes e derreter-me quando sorris e desintegrar-me quando te ris e não compreender porque é que pensas que eu te estou a deixar quando eu não te estou a deixar e pensar como é que tu podes achar que eu alguma vez te podia deixar e pensar quem tu és, mas aceitar-te na mesma e contar-te sobre o rapaz da floresta encantada de árvores-anjo que voou por cima do oceano porque te amava e escrever-te poemas e pensar porque é que tu não acreditas em mim e ter um sentimento tão profundo que para ele não existem palavras e querer comprar-te um gatinho do qual teria ciúmes porque teria mais atenção que eu e atrasar-te na cama quando tens de ir e chorar como um bebé quando finalmente vais e ver-me livre das baratas e comprar-te prendas que tu não queres e levá-las de volta outra vez e pedir-te em casamento e tu dizeres não outra vez mas eu continuar a pedir-te porque embora tu penses que eu não estou a falar a sério eu estou mesmo a falar a sério desde a primeira vez que te pedi e vaguear pela cidade pensando que ela está vazia sem ti e querer aquilo que queres e achar que me estou a perder mas saber que estou seguro contigo e contar-te o pior que há em mim e tentar dar-te o meu melhor porque não mereces menos e responder às tuas perguntas quando deveria não o fazer e dizer-te a verdade quando na verdade não o quero e tentar ser honesto porque sei que preferes assim e pensar que acabou tudo mas ficar agarrado a apenas mais dez minutos antes de me atirares para fora da tua vida e esquecer-me de quem eu sou e tentar chegar mais perto de ti porque é maravilhoso aprender a conhecer-te e vale bem o esforço e falar mau alemão contigo e pior ainda em hebreu e fazer amor contigo às três da manhã e de alguma maneira, de alguma maneira, de alguma maneira, transmitir algum do esmagador, imortal, irresistível, incondicional, abrangente, preenchedor, desafiante, contínuo e infindável amor que tenho por ti.


[Sarah Kane]




^^

domingo, 23 de maio de 2010

Porque hoje a noite me parece uma invenção em aberto
sobre a cama abandono palavras

Tenho o tempo nas pálpebras

Assim, quando alguém me perguntar pelo sentido da insónia

Eu, parada no meio do quarto,
direi que não sabia que na solidão se grita alto
para sobreviver ao medo.


[Maria Sousa]


^^

Homens mais velhos são mais sedutores. Eu garanto! ¬¬




Clique em un dos tigrões acima, e vá direto ao paraíso...
^^