Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 16 de maio de 2010


(...)

Eu quis o perigo
E até sangrei sozinho(a)
Entenda!
Assim pude trazer
Você de volta pra mim
Quando descobri
Que é sempre só você
Que me entende
Do início ao fim.

E é só você que tem
A cura pro meu vício
De insistir nessa saudade
Que eu sinto
De tudo que eu ainda não vi.

Nos deram espelhos
E vimos um mundo doente
Tentei chorar e não consegui.

[Legião Urbana]


^^

Saudade - de quem já partiu...

A saudade é o limite da presença,
estar em nós daquilo que é distante,
desejo de tocar que apenas pensa,
contorno doloroso do que era antes.
Saudade é um ser sozinho descontente
um amor contraído, não rendido,
um passado insistindo em ser presente
e a mágoa de perder no pertencido.
Saudade, irreversível tempo, espaço
da ausência, sensação em nós premente
de ser amor somente leve traço
num sonho vão de posse permanente.
Saudade, desterrada raiz, vida
que se prolonga e sabe que é perdida.


[Lupe Cotrim]


A senhora que foi duas vezes mãe...
duas vezes carinho...
duas vezes amor...
duas vezes compreensão...
o que mamãe fez por mim, você fez por ela também..
A senhora que foi exemplo de paz, de amor e de afeto...

Em seus lábios sempre encontrei
palavras de alívio para todos os sofrimentos.
E é reconfortante saber que a terei sempre presente no meu coração...

Obrigada por tudo!
Conselhos, exemplo de vida a copiar. Colo. O sorriso em seu semblante. Sinceridade. Proteção.

Em minhas lembranças estarão presentes todos os momentos de ternura, a sua necessidade de UNIÃO... De ver a família reunida... Obrigada pelos seus 87 anos de vida. Obrigada pelos elogios e incentivos. Obrigada por permitir todos os beijos e abraços apertados que eu pude te dar nessa vida.




Meu coração é só saudade, saudade, saudade... de ti, vovó.


Danni^^

sábado, 15 de maio de 2010


Suspensos na saudade
(moldada a medo)

deslizam pelo silêncio espelhos
em tons monocromáticos

criam sonhos desconexos
em pontas dos pés

onde a morte das abelhas envelhece as sombras
e peixes vermelhos brilham na violência do vento

delírios electrificados onde a luz canta baixinho
e as imagens dançam em desordem

é difícil acordar no interior da noite
(pintada em tons de sonho)
quando a luz amadurece nos corpos adormecidos

mergulhando num abismo de abelhas e peixes
sonhos cambaleando pela dor da respiração
numa ressaca onde acordo e apago memorias

ouvindo ainda restos da tua voz
perfumando o silencio.

[eue]


^^

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Um louco de Juízo

Que é loucura: ser cavaleiro andante
ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?
O que, acordado, sonha doidamente?

O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?

Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo.

[Carlos Drummond de Andrade - (Quixote e Sancho, de Portinari, 1974)]

^^

quinta-feira, 13 de maio de 2010

A Guerra Que Aflige Com Os Seus Esquadrões o Mundo



A guerra que aflige com os seus esquadrões o Mundo,
É o tipo perfeito de erro da filosofia.
A guerra, como tudo humano, quer alterar.
Mas a guerra, mais do que tudo, quer alterar e alterar muito
E alterar depressa.

Mas a guerra inflige a morte.
E a morte é o desprezo do universo por nós.
Tendo por conseqüência a morte, a guerra prova que é falsa.
Sendo falsa, prova que é falso todo o querer-alterar.

Deixemos o universo exterior e os outros homens onde a Natureza os pôs.
Tudo é orgulho e inconsciência.
Tudo é querer mexer-se, fazer cousas, deixar rasto.
Para o coração e o comandante dos esquadrões
Regressa aos bocados o universo exterior.

A química direta da Natureza
Não deixa lugar vago para o pensamento.

A humanidade é uma revolta de escravos.
A humanidade é um governo usurpado pelo povo.
Existe porque usurpou, mas erra porque usurpar é não ter direito.

Deixai existir o mundo exterior e a humanidade natural!
Paz a todas as cousas pré-humanas, mesmo no homem!
Paz à essência inteiramente exterior do Universo!

[Fernando Pessoa]

^^

quarta-feira, 12 de maio de 2010

A hora da partida


A hora da partida soa quando
Escurece o jardim e o vento passa,
Estala o chão e as portas batem, quando
A noite cada nó em si deslaça.

A hora da partida soa quando
as árvores parecem inspiradas
Como se tudo nelas germinasse.

Soa quando no fundo dos espelhos
Me é estranha e longínqua a minha face
E de mim se desprende a minha vida.

[Sophia de Mello Breyner Andresen]


^^

Chocolate


Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate... Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber...

Não quero chá, não quero café
Não quero coca-cola, me liguei no chocolate
Eu me liguei, só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber

Chocolate, chocolate, chocolate
Eu só quero chocolate.... Só quero chocolate
Não adianta vir com guaraná pra mim
É chocolate que eu quero beber.
[Marisa Monte]

^^

terça-feira, 11 de maio de 2010

A Miragem


Ah, se pudéssemos contar as voltas que a vida dá
Pra que a gente possa encontrar um grande amor...
É como se pudéssemos contar todas estrelas do céu,
os grãos de areia desse mar, ainda sim...

Pobre coração o dos apaixonados
que cruzam o deserto em busca de um oásis em flor.
Arriscando tudo por uma miragem,
pois sabem que há uma fonte oculta nas areias.
Bem aventurados os que dela bebem,
porque para sempre serão consolados.

Somente por amor a gente põe a mão
no fogo da paixão e deixa se queimar,
somente por amor, movemos terra e céus,
rasgando sete véus, saltamos no abismo sem olhar pra trás,
somente por amor...
e a vida se refaz e a morte não é mais pra nós.

[Marcus Viana]

^^

domingo, 9 de maio de 2010

Feliz dia das mães!!



^^
Segundo a Wikipédia a adolescência é a fase do desenvolvimento humano que marca a transição entre a infância e a idade adulta. Com isso essa fase caracteriza-se por alterações em diversos níveis - físico, mental e social - e representa para o indivíduo um processo de distanciamento de formas de comportamento e privilégios típicos da infância e de aquisição de características e competências que o capacitem a assumir os deveres e papéis sociais do adulto.


Hoje lá no Céu, contarei como foi essa fase de desenvolvido vivida por mim. Nos mínimos detalhes... Entre aqui e confira!


^^

sábado, 8 de maio de 2010

XXVI - Às Vezes

Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


[Alberto Caeiro]

^^

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Longe Demais

Beijei seu rosto e guardei
Achei sincero e sem dúvida
Era quase de manhã, era madrugada
A noite esconde a cidade e você some
Será que é cria da noite e eu não sei?
As horas cessaram naquela manhã
Que vem é outro dia, outro dia
Será um desencontro e eu vou sozinha
Ele não dá um sentimento
Será um jogo intenso que se anuncia
Ele ri e sabe o que faz
Te quis pra minha vida, todo tempo esperei
E a vida agora está em torno de você
Amanhã é longe demais
Pra quem não tem
Pra quem não sabe
Amanhã é longe demais
Pra quem não tem a eternidade.


[Compositora: Vanessa Da Mata]

^^

quinta-feira, 6 de maio de 2010


A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.

[Jorge de Sena]
^^

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vida Obscura


Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém Te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!


[Cruz e Sousa]

^^

terça-feira, 4 de maio de 2010


Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa actual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que - em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém..

[Clarice Lispector]

^^

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Poeta Está Vivo

Baby, compra o jornal vem ver o sol
Ele continua a brilhar, apesar de tanta barbaridade
Baby escuta o galo cantar, a aurora dos nossos tempos
Não é hora de chorar, amanheceu o pensamento
O poeta está vivo, com seus moinhos de vento
A impulsionar a grande roda da história
Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento
Se você não pode ser forte, seja pelo menos humana
Quando o papa e seu rebanho chegar, não tenha pena
Todo mundo é parecido, quando sente dor
Mas nu e só ao meio dia, só quem está pronto pro amor
O poeta não morreu, foi ao inferno e voltou
Conheceu os jardins do Éden e nos contou
Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento
Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento...

[Barão Vermelho]


^^
... a afetividade certamente é primordial. Afetividade é o motor de qualquer conduta. Mas a afetividade não modifica a estrutura cognitiva. Tomemos duas crianças em idade escolar, por exemplo. Uma que adora matemática é interessada e entusiasta, e possui todos os demais predicados que você imagina. E uma outra que tem sentimentos de inferioridade, que não gosta do professor, e assim por diante. Uma se adiantará muito mais rapidamente do que a outra, mas para ambas dois e dois fazem quatro no final. Não são três para a que não gosta de matemática, nem cinco para a que gosta. Dois e dois ainda serão quatro.



[Jean Piaget]

^^

domingo, 2 de maio de 2010

Ah, perante...

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

[Álvaro de Campos]


^^