Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sábado, 8 de maio de 2010

XXVI - Às Vezes

Às vezes, em dias de luz perfeita e exata,
Em que as cousas têm toda a realidade que podem ter,
Pergunto a mim próprio devagar
Por que sequer atribuo eu
Beleza às cousas.
Uma flor acaso tem beleza?
Tem beleza acaso um fruto?
Não: têm cor e forma
E existência apenas.
A beleza é o nome de qualquer cousa que não existe
Que eu dou às cousas em troca do agrado que me dão.
Não significa nada.
Então por que digo eu das cousas: são belas?

Sim, mesmo a mim, que vivo só de viver,
Invisíveis, vêm ter comigo as mentiras dos homens
Perante as cousas,
Perante as cousas que simplesmente existem.

Que difícil ser próprio e não ver senão o visível!


[Alberto Caeiro]

^^

sexta-feira, 7 de maio de 2010

Longe Demais

Beijei seu rosto e guardei
Achei sincero e sem dúvida
Era quase de manhã, era madrugada
A noite esconde a cidade e você some
Será que é cria da noite e eu não sei?
As horas cessaram naquela manhã
Que vem é outro dia, outro dia
Será um desencontro e eu vou sozinha
Ele não dá um sentimento
Será um jogo intenso que se anuncia
Ele ri e sabe o que faz
Te quis pra minha vida, todo tempo esperei
E a vida agora está em torno de você
Amanhã é longe demais
Pra quem não tem
Pra quem não sabe
Amanhã é longe demais
Pra quem não tem a eternidade.


[Compositora: Vanessa Da Mata]

^^

quinta-feira, 6 de maio de 2010


A felicidade sentava-se todos os dias no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu próprio nome.

[Jorge de Sena]
^^

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Vida Obscura


Ninguém sentiu o teu espasmo obscuro,
Ó ser humilde entre os humildes seres.
Embriagado, tonto dos prazeres,
O mundo para ti foi negro e duro.

Atravessaste num silêncio escuro
A vida presa a trágicos deveres
E chegaste ao saber de altos saberes
Tornando-te mais simples e mais puro.

Ninguém Te viu o sentimento inquieto,
Magoado, oculto e aterrador, secreto,
Que o coração te apunhalou no mundo.

Mas eu que sempre te segui os passos
Sei que cruz infernal prendeu-te os braços
E o teu suspiro como foi profundo!


[Cruz e Sousa]

^^

terça-feira, 4 de maio de 2010


Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa actual e comum:
é uma lucidez vazia, como explicar?
assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.

Estou por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
que faço dessa lucidez?
Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que - em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
eu consisto,
amém..

[Clarice Lispector]

^^

segunda-feira, 3 de maio de 2010

O Poeta Está Vivo

Baby, compra o jornal vem ver o sol
Ele continua a brilhar, apesar de tanta barbaridade
Baby escuta o galo cantar, a aurora dos nossos tempos
Não é hora de chorar, amanheceu o pensamento
O poeta está vivo, com seus moinhos de vento
A impulsionar a grande roda da história
Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento
Se você não pode ser forte, seja pelo menos humana
Quando o papa e seu rebanho chegar, não tenha pena
Todo mundo é parecido, quando sente dor
Mas nu e só ao meio dia, só quem está pronto pro amor
O poeta não morreu, foi ao inferno e voltou
Conheceu os jardins do Éden e nos contou
Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento
Mas quem tem coragem de ouvir
Amanheceu o pensamento
Que vai mudar o mundo com seus moinhos de vento...

[Barão Vermelho]


^^
... a afetividade certamente é primordial. Afetividade é o motor de qualquer conduta. Mas a afetividade não modifica a estrutura cognitiva. Tomemos duas crianças em idade escolar, por exemplo. Uma que adora matemática é interessada e entusiasta, e possui todos os demais predicados que você imagina. E uma outra que tem sentimentos de inferioridade, que não gosta do professor, e assim por diante. Uma se adiantará muito mais rapidamente do que a outra, mas para ambas dois e dois fazem quatro no final. Não são três para a que não gosta de matemática, nem cinco para a que gosta. Dois e dois ainda serão quatro.



[Jean Piaget]

^^

domingo, 2 de maio de 2010

Ah, perante...

Ah, perante esta única realidade, que é o mistério,
Perante esta única realidade terrível — a de haver uma realidade,
Perante este horrível ser que é haver ser,
Perante este abismo de existir um abismo,
Este abismo de a existência de tudo ser um abismo,
Ser um abismo por simplesmente ser,
Por poder ser,
Por haver ser!
— Perante isto tudo como tudo o que os homens fazem,
Tudo o que os homens dizem,
Tudo quanto constroem, desfazem ou se constrói ou desfaz através deles,
Se empequena!
Não, não se empequena... se transforma em outra coisa —
Numa só coisa tremenda e negra e impossível,
Urna coisa que está para além dos deuses, de Deus, do Destino
—Aquilo que faz que haja deuses e Deus e Destino,
Aquilo que faz que haja ser para que possa haver seres,
Aquilo que subsiste através de todas as formas,
De todas as vidas, abstratas ou concretas,
Eternas ou contingentes,
Verdadeiras ou falsas!
Aquilo que, quando se abrangeu tudo, ainda ficou fora,
Porque quando se abrangeu tudo não se abrangeu explicar por que é um tudo,
Por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa, por que há qualquer coisa!

Minha inteligência tornou-se um coração cheio de pavor,
E é com minhas idéias que tremo, com a minha consciência de mim,
Com a substância essencial do meu ser abstrato
Que sufoco de incompreensível,
Que me esmago de ultratranscendente,
E deste medo, desta angústia, deste perigo do ultra-ser,
Não se pode fugir, não se pode fugir, não se pode fugir!

Cárcere do Ser, não há libertação de ti?
Cárcere de pensar, não há libertação de ti?
Ah, não, nenhuma — nem morte, nem vida, nem Deus!
Nós, irmãos gêmeos do Destino em ambos existirmos,
Nós, irmãos gêmeos dos Deuses todos, de toda a espécie,
Em sermos o mesmo abismo, em sermos a mesma sombra,
Sombra sejamos, ou sejamos luz, sempre a mesma noite.
Ah, se afronto confiado a vida, a incerteza da sorte,
Sorridente, impensando, a possibilidade quotidiana de todos os males,
Inconsciente o mistério de todas as coisas e de todos os gestos,
Por que não afrontarei sorridente, inconsciente, a Morte?
Ignoro-a? Mas que é que eu não ignoro?
A pena em que pego, a letra que escrevo, o papel em que escrevo,
São mistérios menores que a Morte? Como se tudo é o mesmo mistério?
E eu escrevo, estou escrevendo, por uma necessidade sem nada.
Ah, afronte eu como um bicho a morte que ele não sabe que existe!
Tenho eu a inconsciência profunda de todas as coisas naturais,
Pois, por mais consciência que tenha, tudo é inconsciência,
Salvo o ter criado tudo, e o ter criado tudo ainda é inconsciência,
Porque é preciso existir para se criar tudo,
E existir é ser inconsciente, porque existir é ser possível haver ser,
E ser possível haver ser é maior que todos os Deuses.

[Álvaro de Campos]


^^

A Mulher Maravilha do Século XXI


Se fosse pra escolher um super-herói de desenhos animados, eu seria a Mulher Maravilha. Esta escolha não é pelo motivo dela ser a princesa de Themyscira (às vezes chamada de Ilha Paraíso), filha da rainha das amazonas, Hipólita. Nem por ela ter a força física sobre-humana (capaz de rivalizar com seres poderosos como Superman), grande velocidade e agilidade e grande resistência física. Uma a força de Herácles, a sabedoria de Atena, a beleza de Afrodite e a velocidade de Hermes. Muito menos por ela ter sido treinada em todas as habilidades de luta armada e desarmada da antiga Grécia. Falar as línguas Themysciriana, Grego moderno e antigo, Inglês, Português, Espanhol, Francês, Mandarin Chinês, Russo e Hindi. Nem pelo fato dela ter se tornado integrante da Liga da Justiça, assim como Superman e Batman. Afinal de contas, trabalhar ao lado desses caras, não é pra qualquer uma, né?

Então, eu não ia revelar, mas minha língua tá coçando dentro da boca...rsrs. A Mulher Maravilha e o Superman juntaram os trapinhos, as escovas de dentes, seus poderes e outras cositas más... Pronto, falei.
Vale lembrar que antes dela escolher o Superman pra ser seu maridão, ela já havia dado uns pegas no Batman, num momento de carência, há um tempo atrás. Ou seja, está tudo em casa. Mas esse, ainda, não é o motivo da minha escolha por essa grande heroína.

Como será que ela conseguiu laçar o Superman?
Eu explico: A Mulher-Maravilha, além dos poderes, recebeu dos deuses uns presentes que ajudam a aumentar suas habilidades: dois braceletes indestrutíveis, que usa para desviar projéteis e raios, uma tiara que pode ser usada como bumerangue e um laço mágico inquebrável que faz com que as pessoas tocadas digam a verdade. Este laço (às vezes apelidado de laço da verdade) é um símbolo da verdade em nosso mundo, cabendo a Mulher-Maravilha, portanto, o papel de guardiã da verdade. À princípio, essa era a função do laço mágico, mas ela se cansou de usá-lo para essa finalidade. Até porque, dá muito trabalho arrancar a verdade das pessoas, né?! As pessoas, transpiram mentiras, respiram mentiras, só falam mentiras o tempo todo...
Ela preferiu usar o seu laço em benefício próprio e laçou o seu amor, literalmente.

Eis o grande motivo da minha escolha por essa heroína: A Mulher Maravilha abriu mão de seus super poderes, principalmente, o laço da verdade, pelos simples fato de que, os seres humanos se acostumaram com a mentira, e preferiram não saber da verdade. Se conformaram com mentiras sinceras, pois elas, muitas vezes são mais convenientes e agradáveis aos ouvidos. Sobretudo, este ano, que é ano de eleição, as mentiras são até comercializadas por R$50.00 ou R$100.00, na boca de urna. E se gritasse: 'Tem mentiroso, entrega de propina em cuecas e meias e promessas falsas, aí?' - Não restaria um, na Capital do Brasil, e em todo local que envolva política – 'meu irmão.'

A Mulher Maravilha teve dois filhos com o Superman, está grávida do terceiro e vive feliz, obrigada.
Por hoje, era tudo que eu queria: ser a Mulher Maravilha do Século XXI.


Danni^^

sábado, 1 de maio de 2010

S.I.N.A.I.S


Um dia escrevi que tudo é autobiografia, que a vida de cada um de nós a estarmos contando em tudo quanto fazemos e dizemos, nos gestos, na maneira como nos sentamos, como andamos e olhamos, como viramos a cabeça ou apanhamos um objeto no chão. Queria eu dizer então que, vivendo rodeados de sinais, nós próprios somos um sistema de sinais.

[José Saramago - Cadernos de Lanzarote, 1997]

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Reconhece-me pelos pés.
Os pés sabem tudo, todos os caminhos
– ou quase.

esta máquina (corpo)
se oferece em nova geografia:

Começa então pelos pés.

[Olga Savary]


^^

sexta-feira, 30 de abril de 2010

As Bolas de Sabão


As bolas de sabão que esta criança
Se entretém a largar de uma palhinha
São translucidamente uma filosofia toda.
Claras, inúteis e passageiras como a Natureza,
Amigas dos olhos como as coisas,
São aquilo que são
Com uma precisão redondinha e aérea,
E ninguém, nem mesmo a criança que as deixa,
Pretende que elas são mais do que parecem ser.
Algumas mal se vêem no ar lúcido.
São como a brisa que passa e mal toca nas flores
E que só sabemos que passa
Porque qualquer coisa se aligeira em nós
E aceita tudo mais nitidamente.

[Alberto Caeiro]

^^

quinta-feira, 29 de abril de 2010

***

Não, não quero este decassílabo.
O que eu queria dizer era:
O segundo, não o tempo é implacável.
Tolera-se o minuto. A hora suporta-se.
Admite-se o dia, o mês, o ano, a vida,
A possível eternidade.
Mas o segundo é implacável.
Sempre vigiando e correndo e vigiando.
De mim não se condói, não para, não perdoa.
Avisa talvez que a morte foi adiada
Ou apressada
Por quantos segundos?

[Carlos Drummont de Andrade]

^^

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Onde está quem amamos


Onde está quem amamos quando amamos
outro corpo de fogo em movimento?
Pra que abismo corremos pra que enganos
quando as promessas são poeira ao vento?

De que matéria alheia mal tentamos
fugir quando a verdade mora dentro
de alguém a cujo céu nos entregamos
numa noite de sonho e de tormento?

Ainda somos humanos se traímos
por instinto um amor de tantos anos
e só àquele instante obedecemos?

Ainda somos humanos? Ou seremos
a febre que há no sangue quando vimos
de súbito morrer num corpo e vamos
em busca do inferno que merecemos?

Talvez por um momento então sejamos
sonâmbulos fantasmas do que fomos
reflectidos num espelho que não vemos

Ou talvez nesse corpo descubramos
a memória da alma que perdemos
pra sempre no momento em que transpomos
a fronteira dos gestos quotidianos
e ao sabor de um desejo destruímos
todas as intenções todos os planos,
em nome dos prazeres mais supremos
na noite em que deixamos de ser donos
do nosso próprio corpo e abandonamos
angústias e remorsos e partimos
em busca da manhã que não sabemos

Onde está quem amamos quando somos
mais do que humanos? Mais? Ou muito menos?

[Fernando Pinto do Amaral]

^^

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Sessão pipoca - Aonde quer que eu vá



^^

Pra sempre em Azul


A)- Já disse que estou cansada, farta desse argumento estúpido. Que me interessa a tua idade, os teus filhos, os teus oito netos e uma mulher que desde sempre te arrumou as camisas no lugar certo e te acompanhou na morte das tias, no casamento da Rita, no baptizado do João, te comprou a gravata a dar com o blazer. Estou-me nas tintas para esse caixote de fotografias, a aliança dobrada, o carro a meias, os juros acumulados na conta da reforma, o primeiro namoro, o único namoro, as noites de natal e os presentes sugeridos. Quero lá saber das amarras de trinta anos de um casamento igual ao de trinta milhões de outros, ou por acaso a tua magnífica ingenuidade te faz acreditar que és o único homem a quem acontece o fascínio da última viagem?

B)- Já pensaste que amanhã nem sequer resistiremos ao pó, que outros irão em romarias de alguma disponibilidade devidamente apontada, depositar um magro ramo de flores numa qualquer cidade de mortos, e que nem na memória dos filhos ultrapassamos a linha da dor que o tempo amortece?

C)- Já pensaste que ninguém recupera o brilho, o fulgor da pele, o fio do prazer, a sede do gesto, a alegria do coração a pular, a adolescência do amor?

D)- Eu sei, já me disseste vezes sem conta que és o filho pródigo do teu medo, o operário forçado da tua solidão partilhada, o elo inquebrável de uma imensa cadeia dourada e alcatifada pelos compromissos sociais, o patriarca frágil de um sistema de reformas velhas de mil anos, o homem com um passado ligado à relva do seu pequeno jardim.

E)- Mas também sei que me amas, que te revês na minha fuga ao tempo, que cresces no meu sonho onde o lugar do amor é só planícies e montanhas onde nenhuma casa nos espera, nenhum móvel para mudar, todos os silêncios podem ser sedução ou ponto final.

F)- E depois quem te pode garantir que na manhã seguinte ainda estarei ao teu lado para te dar o cigarro e dizer que são horas da assembleia geral, rir do teu pijama às riscas, irritar-me com a tua obsessão pela pasta de dentes meticulosamente espremida, dizer-te não te esqueças de telefonar à Zeca, e assistir ao teu nó de gravata bem comportado? E depois como terás a certeza da minha felicidade, eu tão jovem, tão acessível ao desejo, tão livre para escolher o restaurante, o perfume, o quadro, o sexo?

G)- Confessa António que te assusta a impotência, o desejo encolhido ao canto das virilhas, escondido entre duas pregas rugosas, amor talhado entre músculos flácidos, sem aquele arrojo juvenil de que tanto te orgulhaste aos vinte, trinta anos de pujança sexual.

H)- Confessa que tens medo do espelho, que fazes a barba a correr para não te defrontares com as rugas, o cansaço, os lábios secos, as maçãs do rosto descaídas, os dentes postiços, o cabeço completamente branco, o tempo a rir-se de ti e com ele o olhar cínico e acusador da mulher que abandonaste por uma miragem.

I)- Eu sei que já viste este filme e na altura até o achaste credível e elogiaste o realizador, o argumento, a representação, e na tua voz clara e pausada fizeste uma sinopse ao teu mais íntimo amigo, e ficaram os dois bebendo descafeínados, trocando opiniões muito analíticas, muito ilustradas por comentários tipo, pois é, a gente perde sempre o último combóio ou por medo ou subserviência ao que não é importante mas é funcional.

J)- E foram cada um para as suas moradias voltadas para o mar da serenidade conformada, para a conta a prazo da velhice a dois, cinco, ao cão, à bicicleta no canto da garagem.

K)- Eu sei que dois mais dois são quatro, que o mundo já era antes de mim, que a vida tem de ser gerida pelos polícias da normalidade, que tudo tem um preço, que o tempo tudo apaga, que há regras que valem e fazem o ouro, mas não quero saber. Aliás, ninguém quer saber de ninguém. É tudo mentira, António, tudo, nada resiste à claridade. Todos os contornos se desfazem contra a faca do irremediável e nenhum gume corta mais fundo que a vontade de ser, o terrível desejo de viver neste tempo enquanto os olhos vêem, o coração bate, a pele exige.

L)- O resto, é o que virá depois de mim, depois de nós, depois das sombras se coserem às escarpas da memória, e essa é tão breve que nem com sílabas de aço se passa à eternidade.

M)- Por isso insisto na autonomia de realizar o meu filme sem filtros especiais nem montagens em estúdios sofisticados. Construí o meu palco sobre o rio e todos os dias desaguo no vertiginoso estuário da coragem, doa a quem der, o último barco a passar há de ser o meu, nem que tenha todos os dias, todos os instantes de dobrar o cabo da angústia, porque sabes António, ao leme deste querer, mais do que eu manda o desejo de gritar, de acontecer.

N)- Quero lá saber do porta-chaves ou da máquina de lavar que já não lava, ou do imposto profissional, ou das férias em Itália, o teu fato precisa de ir para a lavandaria? E isso é importante? Amanhã é outra lua, deixa-me ler este artigo sobre moda, vai chover? Eu vou comprar um disco de Jazz. Sim, é tão bom passear na praia, perder o pé na areia, encontrá-lo cheio de cascas de búzios, mergulhar nua, correr contra o vento, chegar a casa e encontrar-te. És tão bonito assim, azul, azul até ao infinito. Amo-te.

O)- E é verdade, António, todos os filmes são possíveis. Isso, vamos sair, vamos ao cinema ver Bergman, melhor, vamos fazer amor... estava só a ver se te irritava, sabes como eu gosto de te acicatar, afinal, estamos tão velhos e gastos meu amor.

P)- Como foi bom envelhecer contigo... Aconchegar a noite na concha das tuas costas, beijar nos teus dedos a renda da ternura. Amo-te tanto, António. Fica comigo neste quadro.

[Isabel Mendes Ferreira, Ponto Final]

^^

domingo, 25 de abril de 2010

Metafísica do Estilo

Temos à escolha um ou outro dos hemisférios cerebrais; mas vamos por este, que é onde nascem os substantivos. Os adjetivos nascem no da esquerda. Descoberta minha, que ainda assim não é a principal, mas a base dela, como se vai ver. Sim, meu senhor, os adjetivos nascem de um lado, e os substantivos de outro, e toda a sorte de vocábulos está assim dividida por motivo da diferença sexual...

— Sexual?

Sim, minha senhora, sexual. As palavras têm sexo. Estou acabando a minha grande memória psico-léxico-lógica, em que exponho e demonstro esta descoberta. Palavra tem sexo.

— Mas, então, amam-se umas às outras?

Amam-se umas às outras. E casam-se. O casamento delas é o que chamamos estilo. Senhora minha, confesse que não entendeu nada.

[Machado de Assis - O cônego ou Metafísica do estilo, 1896]


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As Aparências Enganam


O admirável filósofo grego Platão (viveu de -428 a.C. até -348 a.C.) conta-nos que quando os homens viviam nas cavernas ainda temiam a natureza e seus fenômenos. Por isso, viviam trancafiados, procurando apenas solucionar seus problemas básicos de subsistência. O mito da caverna encontra-se no livro de Platão intitulado “A República”.

“Imaginemos um muro bem alto separando o mundo externo e uma caverna”. Na caverna existe uma fresta por onde passa um feixe de luz exterior. No interior da caverna permanecem seres humanos, que nasceram e cresceram ali.
Ficam de costas para a entrada, acorrentados, sem poder de locomoção, forçados a olharem somente a parede do fundo da caverna, onde são projetadas sombras de outros homens que, além do muro, mantêm acesa uma fogueira.
Os prisioneiros julgam que essas sombras sejam a realidade.
Um dos prisioneiros decide abandonar essa condição e fabrica um instrumento com o qual quebra os grilhões. Aos poucos vai se movendo e avança na direção do muro e o escala, com dificuldade enfrenta os obstáculos que encontra e sai da caverna, descobrindo não apenas que as sombras eram feitas por homens como eles, e mais além todo o mundo e a natureza.”


E o que tem a ver o Mito da Caverna com o post de hoje? Eu respondo: TUDO.

Muitas pessoas ao sentar na frente de seus monitores, acreditam que o mundo virtual é puro e verdadeiro. Acreditam em tudo que leem. Acham que as pessoas são o espelho daquilo que escrevem. Eu comparo a internet com a parede no fundo da caverna, onde são projetadas muitas sombras, imagens, mensagens ou seja, um mundo de ilusões. Quem projeta essas sombras são os(as) blogueiros(as) ou titulares de sites de relacionamentos. Os leitores são os prisioneiros que leem as fantasias, mensagens, sonhos e ilusões...
É claro que, existem pessoas que fazem de seus blogs um diário pessoal, e escrevem, realmente, tudo aquilo que sente, suas experiências no seu mundo real e projetam para nós leitores, o que realmente acontece em suas vidas. Existem aqueles que escrevem sobre política, economia, saúde, culinária, artes, acontecimentos do dia-a-dia,... ou seja assuntos impessoais, ou fazem desses assuntos impessoais, suas opiniões pessoais... ou seja, tem de tudo um pouco nesse mundo virtual.


Mas a pergunta é: Como saber o que é REAL ou VIRTUAL?

Eu por exemplo, na minha página de relacionamento,(o orkut) coloquei que moro na Espanha. Quem não me conhece, pode até acreditar, e nunca imaginar que a Espanha é o lugar que eu pretendo conhecer, e por isso eu "projetei esse sonho como se fosse realidade". Se eu quiser colocar que moro na Conchinchina eu coloco e pronto. Até por que, o orkut é meu, e eu escrevo o que eu quiser. Posso até colocar uma foto da Angelina Jolie e dizer que sou a esposa do Brad Pitt. E daí? ¬¬
O que não pode acontecer, mas acontece, são as pessoas acreditarem em verdade verossímel. Acharem que sabem tudo sobre nossas vidas, nossa personalidade, nossa intimidade, nossos sentimentos, pelo que está num site de relacionamento ou num texto de um blog. Mas, infelizmente, tem gente que acredita. Alguém me explica: como pode ser? Tsc,tsc, tsc,...
Será que as pessoas são tão ingênuas a esse ponto? Seria carência? Ignorância? Imaturidade? Ou falta de noção, mesmo?


Assim são os blogs, caros leitores. Quem foi que disse que tudo que escrevo são experiências vividas por mim? São pensamentos e sentimentos meus? E se for a história da vizinha? Do bêbado ali, no bar da esquina? Do colega de trabalho? Da prima distante? Do paciente esquizofrênico do hospital psiquiátrico em que estagio? Quem garante que este texto é meu? Quem garante que este blog existe? Quem garante que eu existo? Quem garante que tudo não passa de um sonho? Ou de uma imagem projetada num fundo da caverna?

As aparências enganam, e para não se iludir, o bom leitor deve ser questionador, deve ser aquele que consegue ler nas entrelinhas e sabe filtrar as informações que mais lhe apetece. Sabe diferenciar o mundo real do mundo virtual. Portanto, eu peço: Liberte-se da caverna que lhe aprisiona. Pare de se enganar. Existem vidas reais fora da caverna. E não idealize as pessoas baseando-se naquilo que elas escrevem. Em casos mais graves, eu diria até, patológico: Não julgue, muito menos rotule.
...
Acorda pra vida.
Fantasias são apenas fantasias, e só.

^^

sábado, 24 de abril de 2010

[...]


Pela noite à eterna dor se chega
cruel é a terra, diversa terra
quando teu rosto se esvai
e a névoa com voz de pranto
cai jamais leve sobre nós.

De breve uso, cresce no peito
uma tímida pálida alegria
precioso corpo luz, borboleta
de asas nítidas e tranquilas
que vigia o coração dos mortos.

Diz-me secretas brandas palavras
porque sou refúgio e escombro
de um vasto dia, áspero exílio
nas suaves sílabas de precisos
e curvos juncos, clarão sem sol.

Desce então pelo fulgor da luz
espírito suspenso em minhas mãos.
A espera é movimento cego.
Desce, sonâmbulo, extenso amor.

[Ana Marques Gastão]
^^

sexta-feira, 23 de abril de 2010


Quando os relógios batem tão perto
como dentro do próprio coração,
e as coisas com vozes débeis
perguntam umas às outras:

- Estás aí? -

Então não sou o mesmo que de manhã acordou,
a noite dá-me um nome
que nenhum daqueles a quem de dia falei
ouviria sem angústia -

Cada porta
cede dentro de mim...

[Rainer Maria Rilke]


^^