Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 14 de fevereiro de 2010

♪ São olhos Iguais aos seus, Iguais ao Céu ao seu redor...♪

♪ Uma nuvem cobre o céu
Uma sombra envolve o seu olhar
Você olha ao seu redor
E acha melhor parar de olhar
São olhos iguais aos seus
Iguais ao céu ao seu redor
São olhos iguais aos seus... ♪

O que faz as pessoas parecerem tão iguais?

O que faz as pessoas parecerem tão iguais?

O que faz as pessoas parecerem tão iguais?

Por que razão essa igualdade se desfaz?

Qual é a razão desse disfarce no olhar?


Para conferir o tema da semana, clique aqui.

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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O Meu Amado


O meu amado chega e enquanto despe as sandálias de couro
marca com o seu perfume as fronteiras do meu quarto.
Solta a mão e cria barcos sem rumo no meu corpo. Planta árvores
de seiva e folhas. Dorme sobre o cansaço embalado pelo momento
breve da esperança.
Traz-me laranjas. Divide comigo os intervalos da vida. Depois parte.


Deixa perdidas como um sonho as belas sandálias de couro.

[Ana Paula Tavares]

^^

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Mudando-me a mim?





















Aceito a ordem
das coisas, a geometria
imposta do quarto?
Os objectos no
seu lugar de sempre,
a distância exacta
da cadeira à mesa,
do meiple à janela?
O sono do tapete?
O universo diário
do quarto alugado,
as molduras que
cercam, resguardam
naturezas mortas,
paisagens imóveis?
Aceito a minha vida?
Ou mexo no candeeiro,
desvio-o alguns centímetros
na mesa, altero
as relações das coisas,
afinal tão frágeis
que o simples desvio
dum objecto pode
romper o equilíbrio?
Pego no telefone
e grito ao primeiro
desconhecido: ouves-me?
Ou deixo tudo
tal como está,
medido, quieto
no rigor do quarto,
e eu hesitante
entre o soalho e o tecto?
Desloco o cinzeiro
sabendo que posso
matar mandarins,
provocar cataclismos,
fracturas, amores,
eclipses, sonhos,
com a ponta dum dedo?
Ou apago a lâmpada
eléctrica e entro
no mesmo torpor
que as flores do tapete,
a fruta dos quadros,
o frio, o bolor,
no chão, nas paredes,
o poema na mesa,
a mesa no espaço
do quarto comprado
mês a mês? Confundo
o aluguel e o tempo,
deixo-me ser
em cada milímetro,
em cada segundo,
do quarto, da vida,
o outro objecto
chamado inquilino?
Ou desencadeio
a insurreição
mudando de sítio
o meiple, a cadeira,
mudando-me a mim?



[Carlos de Oliveira]

^^

domingo, 7 de fevereiro de 2010

(...)


Pétalas de rosas
tombam lentamente, silenciosas...
E de vagar
vem entrando
a farândola rítmica
e silente
dos góticos bailados do luar!...

Sobre as dobras macias
e assediantes
da seda do meu leito desmanchado,
esguias sombras
adelgaçando afagos,
poisam no meu peito desvestido...
E a boca hipnótica e algente
do meu luarento amante,
vai esculpindo o meu corpo
pálido e vencido!...

No espaço azul e vago,
esvoaça subtiltmente
a cálida lembrança
da tua voz!

Busco a verdade viva do teu beijo
e encontro apenas
esta estranha heresia,
crispando o alvo recorte
do meu corpo magoado!...

Estilhaçam-se, vibrando
numa ânsia doentia,
os meus nervos nostálgicos,
irreverentes
empalidecendo
em dolências inocentes
o rubor do meu desejo
insaciado...

As rosas vão tombando lentamente,
devagar,
sobre a carícia dormente
e embruxada…
dos espásmicos beijos do luar…
Oiço a tua voz
em toda a parte!

E perco-me dentro dos meus próprios braços,
tumultuosos e exigentes,


a procurar-te!

[Judith Teixeira]
^^

♪ Música boa - a Céu Aberto ♪

Que tal curtir uma boa música?
Abra a boca e cante bem alto a Céu aberto da boca!!!

A Céu Aberto - da Boca

^^

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Quanto vale a Vida?

Photobucket

Quanto vale a vida de qualquer um de nós?
Quanto vale a vida em qualquer situação?
Quanto valia a vida perdida sem razão?
Num beco sem saída, quando vale a vida?
são segredos que a gente não conta
são contas que a gente não faz
quem souber quanto vale, fale em alto e bom som.


Quantas vidas vale o tesouro nacional?
Quantas vidas cabem na foto do jornal?
Às sete da manhã, quanto vale a vida
depois da meia-noite, antes de abrir o sinal?
são segredos que a gente não conta
faz de conta que não quer nem saber
quem souber, fale agora ou cale-se para sempre.


Quanto vale a vida acima de qualquer suspeita?
Quanto vale a vida debaixo dos viadutos?
Quanto vale a vida perto do fim do mês?
Quanto vale a vida longe de quem nos faz viver?
são segredos que a gente não conta
são contas que a gente não faz
coisas que o dinheiro não compra
perguntas que a gente não faz:


Quanto vale a vida?
nas garras da águia
nas asas da pomba
em poucas palavras
no silêncio total
no olho do furacão
na ilha da fantasia


Quanto vale a vida?
Quanto vale a vida na última cena
Quando todo mundo pode ser herói?
Quanto vale a vida quando vale a pena?
Quanto vale quando dói?
são coisas que o dinheiro não compra
perguntas que a gente não faz:


Quanto vale a vida?


[Engenheiros do Hawaii]

^^

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Gestos


Não há pressa

Os degraus, de novo, acertam passos;
volto a saber como contá-los, do sonho:
as sombras já não saltam as varandas,
as garças regressam,
volta o silêncio dos gestos repetidos.

[David Fernandes]


^^

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010


Escrevo como um profissional, à linha, as palavras pouco importam, são ambíguas e inúteis. As palavras não somos nós. E tu, leitor, és um pretexto: testemunha, confidente, cúmplice, vítima ou juiz, jamais nos conheceremos, jamais saberás quem sou, onde te minto, onde chorei, onde nos podíamos ambos rir a bom rir da nossa pavorosa condição de gente morta ou gente que vai morrer.


[Luiz Pacheco]


^^

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010


Quando as sílabas são banais como
as ruas que as ladeiam
o dia a dia é feito de palavras assustadiças...

Desencontrado da luz quieta da lua
o tempo abre a porta à rua e só
o som dos corpos em descanso
toca o silêncio.

[eue]


^^

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010


Um crime à minha porta
sou ouro em teu olhar
serei o pai do teu prazer até ao dia
em que o amor for para nós
a última fatia
e se o trago é difícil
e a veia entope
só nos resta a nós os dois
a hemorragia

- Primeiro que eu compreendesse o meu corpo! Sempre tive muito cuidado com ele, porque sempre senti que fazia parte de mim. Nunca o desprezei e nunca o retirei da minha vida... Hoje tenho a sensação de que o cuidei como quem cuida duma casa vazia, só a pensar que é um lugar de calor e de carinho à espera de quem aí possa morar. Eu acho que um dia as pessoas ainda vão descobrir o que podem fazer com o corpo porque os sentimentos, quando estiverem purificados, vão ajudar-nos muito. Julgo que vamos viver melhor quando nos ligarmos mais pelos sentimentos do que pelos saberes. Tenho a certeza de que nunca usaria o meu corpo com leviandade mas, como a palavra, o corpo é um lugar de risco... A gente nem sempre encontra quem mereça as nossas palavras, não admira que custe a encontrar quem mereça o nosso corpo... Mas julgo que, antes de descobrirmos o corpo, temos outras coisas para descobrir.

(...)

- Julgo que o mais importante são as palavras. Quando se vive a solidão, sabe-se que, por causa duma palavra verdadeira, caem muitas vezes as muralhas que levantamos à volta das nossas almas.


Uma palavra verdadeira pode ser um milagre: é a solidão derrotada.



[António Alçada Baptista]


^^

domingo, 31 de janeiro de 2010

[...]


Não devia ter-te deixado entrar assim na minha vida, não devia. Mas não pude. Entraste em mim num assalto e foi doce resistir. Agora quero expulsar-te, e não consigo. Perdi-me em ti, por descuido. Agora não me encontro sem ti.

De tudo nada ficou como prova: nem uma linha com a tua caligrafia, nem uma fotografia em que estivéssemos os dois, nem um dos teus lenços preferidos. Por vezes julgo, enlouquecida, que nem sequer exististe. Fecho os olhos e faço por fixar uma só imagem na memória, um só movimento curto dos teus braços, um sorriso na tua cara, uma única palavra, boa ou má, e não consigo. A imagem escorrega, desfaz-se no centro ou nos cantos. Quanto mais tento, mais me escapa. Volto atrás e recomeço. O que me vem não é o mesmo. Não quero abrir os olhos para não ter que não te encontrar.

Quando me encontraste não precisava de ti. Já tinha ouvido dizer o teu nome e não fiquei curiosa. Quando me telefonaste disse-te que sim, como diria que não, por tédio. Como tu conheci muitos. No jantar aborreceste-me com as tuas conversas em que só falavas de ti, directa ou por interposta pessoa. Conhecia o teu género e não me agradava. Nem sequer chegavas a ser bonito ou frágil. Bebias demasiado. Estavas cheio de ti. Quando chegou o fim do jantar digo-te que o que senti foi alívio.

Telefono-te e tu não atendes. Sei que estás lá. Sei ainda que sabes que sou eu. E não atendes. Telefono a meio da noite para te acordar, para te obrigar a pensar em mim. Mal ou bem, é-me indiferente. Sim, chama-me nomes: sou eu.

Tudo foi por acaso. Achei ridícula a tua insistência ao telefone. Disse-te para não vires, e tu desobedeceste. Chovia muito. Eu chorava, por razões que nunca saberás, que nem sequer quiseste saber. Agarraste-me os braços, armado em protector. Nem sequer ouvia o que me dizias quando te deitaste ao meu lado no sofá. Ouvia só o som da tua voz, esse sim, confesso, a encantar-me. E depois tomaste-me como um ladrão, fazendo de cada recusa um avanço. Não era o teu nome que eu sussurrava entre dentes enquanto julgavas que me tinhas.

Deixaste-me de uma maneira tão cobarde. Na véspera, depois de uma discussão horrível, voltaste a prometer-me tudo. Sabia que mentias. E quando de manhã te deixaste ficar na cama e te despediste de mim lembrando-me que tínhamos um cinema combinado para a noite, também sabia que mentias. Quando voltei soube que tinhas dito a verdade quando repetias que não me merecias. Sobre a cama um postal com uma frase escrita à máquina: Fica querida com um beijo que não passe. Só te vou perdoar quando te esquecer.

Não sei quanto tempo demoraste a perceber que estares ali comigo não era uma vitória tua e que usava da companhia do teu corpo e dos seus préstimos para outras coisas tão banais como seja ires comigo à lavandaria. Mas sei que quando o soubeste e partiste uma primeira vez, a verdade era outra, e muito pior para mim. Houve essa noite em que soube que já não podias partir sem estragos, que já não suportaria perder-te sem dor.

Foram dois meses? Três? Em viagem o tempo é mais veloz ainda. Enquanto conduzias adormecia facilmente no teu colo. E nos hotéis protestavas contra tudo, envergonhando-me. Deixavas-me pagar as contas todas, e nada tinha demasiada importância. As paisagens eram belas, as cidades silenciosas, as estradas largas. Só tu eras o contrário do que devias ser e encalhei em ti como uma náufraga. Bebias sempre demasiado. Alternavas as palavras mais carinhosas com uma violência despropositada. Irritavas-te comigo, contigo, com o empregado de balcão. Fazias-me chorar. Aprendeste depressa demais todos os segredos do meu prazer e abusavas deles. A tua ideia do futuro era a de um planeta só habitado por loucos e criminosos. Confessavas muitas vezes que o nosso encontro tinha de ser breve para se manter belo. E enquanto durava ias estragando tudo.

Sei agora que o que me fascinava em ti era a tua desilusão. Tinhas estudado matemáticas em Atenas mas só admiravas os poetas. Ganharias dinheiro facilmente, mas recusavas-te. Nunca falavas de outras mulheres, o que era pior ainda. Os teus olhos, turvos por detrás das lentes, ajudavam ao mistério. Quando bebia contigo levavas-me para sítios tão inóspitos que tinhas de me trazer de volta, e eu tinha tanto medo como quando era criança e o meu pai me fazia atravessar o corredor sem luz. Assustavam-me as tuas bruscas mudanças de humor, as tuas súbitas ausências. Nunca te vi ler um livro. A vez que te vi mais entusiasmado foi diante da televisão a ver um jogo de futebol. Mas às vezes, inesperadamente, recitavas Homero, em grego antigo, sem que eu entendesse uma só palavra, e eu sabia então como nunca da minha paixão.

Já não te escrevo cartas. Tenho a certeza de que não as abres e que as deitas para um canto junto com as contas por pagar e a publicidade de enciclopédias. Gasto demasiado dinheiro a mandar-te telegramas. Perdi toda a vergonha. Suplico-te que voltes. Ofereço-me como escrava. Faz de mim o que quiseres. E tu não fazes nada. Se ao menos tivesses medo de mim, como tive de ti, e o perdi.

Presente, ainda te conseguia assustar. Lembras-te como te pus a sangrar com o estalo que te dei no carro, quando me disseste que restava sempre uma maneira radical e definitiva para escapar de ti? Quando o carro parou saí do carro a correr para dentro da floresta de castanheiros. Tu tentaste seguir-me, mas depressa deixaste de me ver. Muito quieta ouvia a tua voz a chamar por mim. Eu sei que estavas assustado. A tua voz traía-te. Gosto de me lembrar dessa voz a chamar por mim. Agora já não te posso assustar assim. Esperavas-me no hotel, onde cheguei bastante mais tarde, num quarto cheio de fumo, com uma garrafa de Gin no fim, que acabei. E quando te deitei, tu pediste-me perdão, se bem que já não te lembrasses disso na manhã seguinte. Foi a única vez que te senti meu.

Adio tudo tanto quanto posso. Tiro férias adiantadas. Deixo as coisas mais simples por fazer: buscar o relógio que está a arranjar, levar a roupa à lavandaria. O atendedor automático regista o que, ao fim do dia, apago sem ouvir. O gato passa a fome que eu não tenho. Fico horas dentro da banheira a ouvir o mesmo lado do mesmo disco e tu sabes qual é. Envelheço muito. Não sabia que isto podia acontecer. Começo a odiar-te, o que não me livra de ti.

Também sabias ser terno e atencioso. Levavas-me pelo braço em visitas guiadas aos museus para revermos sempre os mesmos quadros que com as tuas palavras transformavas em lições de história e de moral. Passeavas-me pelos parques nos dias muito frios com o teu cachecol encarnado, inventando o nome das árvores, beijando-me sem pudor diante de grupos de velhos. Sabias levar-me à felicidade para depois melhor sentir a tua distância gelada, a tua crueldade física. Muitas vezes preferi que me batesses a que me deixasses assim, e disse-to.

Fazias-me sentir uma menina, e depois uma estranha, mais tarde um bicho. Mas nunca era eu. Não me reconhecia nas poucas palavras que dizias de mim. Rias-te de mim. Eu nunca me ri de ti.

Tive hoje um apetite que não soube identificar. Houve qualquer coisa que procurei e que não encontrei. Pouco a pouco volto a mim. Dou de comer ao gato. Não ouço mais o nosso disco, que se partiu. Abro as janelas e deixo entrar o vento e sabe-me bem. Mais tarde ou mais cedo serás uma recordação, nada mais. Não depende sequer de mim. É uma coisa fisiológica. Desculpa-me. Se tivesse mão nestas coisas não seria assim.

Poucas vezes falavas do que tinhas sido. Do comunismo, o mais belo dos sonhos, que te tornara patente para sempre a miséria insuperável dos homens. Dos teus trabalhos de geometria, cinco meses a comer papas e a dormir três horas para ficares doente um ano inteiro com uma tese que não serviria nunca para nada. Da morte do amigo querido que desistiu disto tudo. Odiavas francamente as opiniões e as soluções teóricas. Dizias que os esquimós eram mais sabedores do que nós e davas exemplos. O progresso era a pior coisa que podia acontecer à humanidade. Não concordava com os teus exageros. Dizia-to, e tu respondias que quanto a isso eras pior do que eu, que não compreendias nada. Não me lembro de quase nada do que me dizias.

Acordavas de manhã e bebias sumo de laranja com vodka. Acordavas de noite para fumar. Dormias de manhã até eu voltar. Havia noites que passavas de pé, a andar de um lado para o outro, como um animal enjaulado. Como um animal me agarravas, te saciavas, me deixavas. Voltavas dois dias depois. Quando não sabias inventavas. Não havia amor possível, dizias, o tempo não deixava. Não acreditavas. Vomitavas. A vida não é uma coisa que se deseje a alguém, insistias. Fui eu quem disse que tinha de partir, que já não aguentava. E foste tu que fugiste, cobardemente, sem te despedires, sem nada deixares a não ser duas leves marcas no meu corpo que, durante semanas, escondi.

Onde estiveres não penses em mim. Deixa-me de todas as maneiras, as mais subtis. Tem muito cuidado com os cigarros, sobretudo não adormeças a fumar. Sinto uma paz grande que me vem pouco a pouco agarrar. Estou cansada. Vou dormir e quando acordar tu já não existirás em sítio algum dentro de mim. Juro.

[Pedro Paixão]

^^

sábado, 30 de janeiro de 2010

É a Distância...


"...o parágrafo dos olhos."

[Maria Teresa Horta]

^^

Descoberta do EU


Às vezes, devemos nos auto avaliar. Nesses momentos descobrimos que temos defeitos intermináveis. Também descobrimos, que a vida é difícil e nossa jornada complicada. Mas, aí , nesse exato momento, lembramos que temos sorte. Temos em nossos corações o mais importante da vida. Sabemos que em todos os momentos estamos acompanhadas de pessoas verdadeiras, que nos querem bem e realmente se importam com a nossa felicidade. E então, descobrimos que a vida é uma jornada ao conhecimento e devemos mergulhar de cabeça nesse caminho.
O conhecimento é tudo o que precisamos para fazer as pessoas felizes.
E nesses momentos de reflexão descobrimos que verdadeiros amigos são raros e que precisamos conservá-los com o fundo de nossas almas. E que nossas vidas são repletas, pois temos pessoas verdadeiras ao nosso lado, para juntas caminhar e compartilhar experiências.

E aí nesse exato momento a vida passa a ter sentido, pois concluímos que

nossa existência é primordial para as pessoas que nos amam.

^^

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Só se vê bem com o coração.


"Um segredo que me deixara mais alerta para as vozes que, nos livros e na vida, para além da sabedoria, repartiam a confiança e o amor. Um segredo que continuava a convidar-me para ir ao íntimo de mim própria e que, lentamente, me fazia entender que fora exactamente a vivência de desamor (nunca desejada, mas real) que me levara a procurar, procurar, uma outra maneira de ver o mundo. Reconciliar-me com ele.
E que me assegurava que o desamor podia não ser fatal. E para sempre.
Bem pelo contrário.
O desafecto também podia ensinar: a valorizar ainda mais as cores do afecto, a tecer histórias (aliás, se não tivesse sido aquele encontro com a mágoa, poderia até ter sido tecedeira de histórias, mas talvez não acarinhasse tanto o fio da ternura), a enfrentar o medo. Para o vencer. E também para o conhecer. As suas várias faces. Como demorei a descobrir que até o medo podia ter um avesso! Uma face protectora. Aquela que protegia de magoar os outros. De se magoar a si próprio. O desafecto.
Afinal, fora ele que me levara a procurar, a procurar...
Na incessante procura, tinha encontrado - e como isso, para mim, era essencial - o Príncipe, a Eterna Criança, e o seu amigo principezinho que não se cansavam de me lembrar: Só se vê bem com o coração.

O Céu pode estar dentro de nós."

[Graça Gonçalves]

^^

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Como se alonga o verão, quando a cor do vento varia?
Deambulam frases sobre dias parados

Como prenúncio de um tempo rigoroso,
as cores amarelecem sobre as ruas onde o céu
se desencontra com o vento

Há quanto tempo chamo os pássaros sem resposta?
E como fumo de um cigarro mal aceso,
as nuvens contrastam com o olhar que se vê ao espelho...


[eue]


^^

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Para-dig-ma


Paro no abrir de duas ou três janelas do esquecimento. Do outro lado da rua um gato atravessa-me as arestas do tempo. Há noite a escorrer pelos cabelos, lentamente, sem lua a serpentear os telhados das casas. Na ponta do cigarro uma estrela. É verdade. Coleciono despedidas nas raízes dos dedos e ninguém, mas ninguém mesmo, me salva da vontade de partir. Nessa fração de íntimo recolher de salivas e desejos não sou cais nem âncora. Crescem-me caminhos nos pés. Absurdo paradigma de nunca chegar.


^^

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Vem pra cá


Não ver você, não tem explicação
é caminhar pela escuridão
ficar a fim e não poder falar
querer o sim e não se acostumar
com a solidão, o medo de amar
estranho vazio no seu olhar
eu tento achar em algum lugar
o amor que você deixou pra trás

Vem pra cá !!!!


[Composição: Léo Henkin/Serginho Moah]


^^

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Os Primeiros Encontros


Cada momento passado juntos
Era uma celebração, uma Epifania,
Nós os dois sozinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
A dois e dois, arrastando-me
Através de húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.

Pela noite concedias-me o favor,
Abriam-se as portas do altar
E a nossa nudez iluminava o escuro
À medida que genufletia. E ao acordar
Eu diria “Abençoada sejas!”
Sabendo como pretenciosa era a benção:
Dormias, os lilases tombavam da mesa
Para tocar-te as pálpebras num universo de azul,
E tu recebias esse sinal sobre as pálpebras
Imóveis, e imóvel estava a tua mão quente.

Rios palpitantes por dentro do cristal,
A montanha assomando na bruma, mar enfurecido,
E tu com a bola de cristal nas mãos,
Sentada num trono enquanto dormes,
— Deus do céu! — tu pertences-me.
Acordas para transfigurar
As palavras de todos os dias,
E o teu discorrer transbordante
De poder revela na palavra “tu”
o seu novo sentido: significa “rei”.
Simples objectos transfigurados,
Tudo — a bacia, o jarro —, tudo
Uma vez de sentinela entre nós
Se torna límpido, laminar e firme.

Íamos, sem saber para onde,
Perseguidos por miragens de cidades
Derrotadas construídas no milagre,
Hortelã pimenta aos nossos pés,
As aves acompanhando-nos o voo,
E no rio os peixes á procura da nascente;
O céu, a nós se abrindo.
Porque o destino seguia-nos o rastro
Como um louco com uma navalha na mão.

[Arsesii Tarkovskii]
^^

domingo, 24 de janeiro de 2010



Nem sempre a noite vem ao nosso encontro, para reconhecermos como uma luz acesa ao nosso lado traz consigo as mesmas recordações. Talvez acabe a solidão por ser ali menor. Estas são as imagens que conosco se confundem, quando nos aproximamos devagar uns dos outros, e reparamos na claridade que fica à nossa volta. Repetimos as palavras que tínhamos esquecido há muito. Sabemos que elas nos pertencem. Mas depois perdemo-las de novo.



Para se unirem, as mãos têm que estar vazias?



[Fernando Guimarães]


^^



A Púrpura dos Dias


Falar-te-ei de como se erguem
em flor as sementes,
de como o luar pode desfalecer
a solidão de um nome
e atirar-nos para o lugar das mãos

Ao longe a púrpura dos dias,
do ar respirado, da vida
que não pára de bater
em cada grão de terra
- nas tuas mãos, o meu
coração de lã e o frio
que não mais te tocará
por ser possível ser feliz.

[Vasco Gato]
^^