Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 18 de outubro de 2009


Não digas ao que vens. Deixa-me
adivinhar pelo pó nos teus cabelos
que vento te mandou. É longe a
tua casa? Dou-te a minha: leio nos

teus olhos o cansaço do dia que te
venceu; e, no teu rosto, as sombras
contam-me o resto da viagem. Anda,

vem repousar os martírios da estrada
nas curvas do meu corpo - é um
destino sem dor e sem memória. Tens

sede? Sobra da tarde apenas uma
fatia de laranja - morde-a na minha
boca sem pedires. Não, não me digas
quem és nem ao que vens. Decido eu.

[Maria do Rosário Pedreira]

^^

sábado, 17 de outubro de 2009

Horas profundas, lentas e caladas,
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volúpia, noites quentes
Onde há risos de virgens desmaiadas…

Ouço as olaias rindo desgrenhadas…
Tombam astros em fogo, astros dementes.
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata pelas estradas…

Os meus lábios são brancos como lagos…
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras…

Sou chama e neve branca e misteriosa…
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!

[Florbela Espanca]

^^

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe que respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes; tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caiam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

[Maria do Rosário Pedreira]

^^



sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Recadinho:


"Dê a quem você ama
asas para voar
raízes para voltar
e motivos para ficar"

Por hoje é só!...
^^
Despi-me toda:
dos dedos ao ventre,
da minha pele à tua,
do meu pulsar à tua mão.
Estendi-me,
a oferenda dos deuses:
palpitante, morna,
balbuciando segredos.
E puseste as mãos
em concha, como ninhos,
e sentiste o fogo
e fechaste os olhos.
A luz brilhante cega
quando não a esperamos.

[Lourdes Espínola]

^^

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

En las horas de amortiguada luz, y música,
en las alegres noches de nuestra juventud,
velamos hasta que el alba llega,
y en el humo se quedan las palabras
que la sombra golpea,
las palabras borradas que fueron nuestra vida.

Hace tiempo que callo,
y son tristes las noches de nuestra juventud,
y el alba llega muerta.
Rodeado de frío vuelvo a la hostil ciudad,
y el clandestino amor me despide furtivo
desde las rotas sombras de los descampados,
y el día se alza lívido
como si sólo un muerto lo hubiese de habitar.

Con el recuerdo sólo de tu vida, porque fuiste mi vida,
qué abandonado estoy,
¿Y a quién le contaré lo que ahora siento?

[Francisco Brines]

^^

Na Nossa Casa

Quando anoiteceu
Nenhuma luz na nossa casa se acendeuAonde você estava?
Aonde estava eu?

Se tudo parecia nada, ainda assim...

O nada era mais do que o que você deixou no fim.

Quando aconteceu

Quando algo em que a gente acreditava se perdeu

Por onde você andava?

Por que não me socorreu?

Não é o fim do mundo é só o fim de tudo que fomos nós
Sem flutuar e sem tocar o fundo
Sempre sós.
[Composição: Herbet Vianna]
^^

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Batons e Cerejas


Recebi por email este texto, entretanto, me 'enviaram' sem autoria. Mas, mesmo assim, compartilho com vocês:

"Deixaste o batom vermelho em cima da mesa. Sempre quis dizer que o teu batom vermelho me fazia lembrar cerejas. Tu fazias-me lembrar cerejas. Sabias a cerejas. Penso que é um elogio. Afinal, quem não gosta de cerejas? E, no entanto, nunca te disse. Não te disse muita coisa.
Olho para o relógio. Já passa das dez da noite. Levanto-me e vou fazer um gin tónico. Sento-me e dou um pequeno gole. Pouso o copo na mesa. Lembro-me como costumavas beber o teu gin, com três pedras de gelo. Sempre pelo copo, nunca por uma palhinha. Rias-te quando te diziam que gin era uma bebida de homens. Rias-te e o teu batom vermelho fazia-te parecer mais mulher que nunca. Reparo que me esqueci de pôr uma base por debaixo do copo. Lembro-me como te rias sempre que eu te chamava a atenção para isso, como troçavas do meu cuidado com os móveis, do meu zelo de quase dona-de-casa. Muitos poderiam também dizer que essa tarefa te competia a ti, como mulher que eras e eu seria o estouvado homem que pousa a bebida na mesa, sem se importar se suja os móveis ou não. Se ouvisses alguém dizer uma coisa dessas, provavelmente ririas muito, também. Não te importavas com os politicamente-correctos, com as convenções, com as etiquetas. Simplesmente sentavas-te no sofá com a maior descontracção, davas um gole no gin tónico, deixavas o copo manchado com o teu batom vermelho e pousava-lo na mesa (sem base). E rias, rias muito. Eu costumava dizer-te que eras linda. E tu rias ainda mais e eu sentia-me um tolo ao dizê-lo. O problema é que só agora percebi porque é que te rias. Eu devia saber que tu, com o teu gosto pelo não-convencional, não gostavas que te considerassem linda. Em parte gostavas, claro, qualquer mulher gosta. Mas não era isso aquilo que querias destacar mais em ti.

Uma mulher linda não chega. Não é uma Mulher.
Sei hoje que preferias se eu te dissesse que eras uma mulher interessante.
Porque uma mulher linda não bebe gin tónico. Uma mulher interessante sim.
Uma mulher linda não ri demasiado, contém-se.
Uma mulher interessante ri-se naturalmente, com naturalidade.
Uma mulher linda põe uma base por debaixo do copo,
Uma mulher linda garante que o seu batom não mancha o copo.
Uma mulher linda sabe cozinhar.
Uma mulher linda está sempre penteada.
Uma mulher linda não fuma, porque isso lhe amarelece os dedos.
Uma mulher linda vai ao ginásio todas as semanas.
Uma mulher linda não come um bife, prefere uma salada.
Uma mulher linda não chega atrasada.
Uma mulher linda combina os sapatos com a mala.
Uma mulher linda não beija um homem só porque sim.
Uma mulher linda não vai para debaixo da chuva propositadamente, enquanto se ri, ri, ri.
Uma mulher linda nunca se ri quando lhe dizem que é linda, sorri apenas.
Nunca poderias ser uma mulher linda, não. Eras tão mais do que isso... Eras genuína. Eras única. E eras confiante na tua singularidade.

Uma vez beijaste-me a meio de uma frase. E as tuas cerejas valeram por mil palavras.
O teu corpo valia por um discurso inteiro. Eu costumava dizer que um dia, quando fôssemos mais velhos, íamos viver para uma casa ao pé da praia e que todas as noites bebíamos um gin tónico na varanda e eu pegava na guitarra e tocava algo para ti.
Aí, tu já não rias, sorrias apenas. E respondias com um simples 'talvez'.
Depois passavas os dedos pelo meu cabelo e olhavas para o fundo dos meus olhos. E o teu olhar era triste, tão triste. Acho que adivinhavas o que ia acontecer.

O gin tónico continua em cima da mesa. Perdi a vontade de o beber.
Vou buscar a guitarra. Passo os dedos pelas cordas e lembro-me como era passar os dedos pelas tuas costas. É impossível esquecer-te, estás em todo o lado. Esta casa cheira a ti. Respira-se o teu perfume em cada canto, em cada livro, em cada disco. Há fotografias tuas por todo o lado, aquelas que eu te tirava (e tu dizias: "Um dias vou saber tirar fotos bonitas como tu tiras").
O teu sorriso está em todo o lado, as cerejas estão por todo o lado. Fui atrás de um Channel barato, duma suposta mulher linda. Duns sapatos a condizerem com a mala. De um corpo de modelo e de uma alma vazia. De uma mulher que não ria, sorria apenas. Que fui eu fazer?
.
.
.
Cheguei a casa e encontrei apenas um batom vermelho em cima da mesa.
Mas não era o teu, a marca era outra.
Aquele era Channel, nunca seria teu.
Aquele era a prova da minha traição, da minha loucura. Nem deixaste um bilhete. Mas sabes?

Aquele batom nunca, nem por uma vez, soube as cerejas."
^^

O rosto mostra:
o lado do amor e o lado predisposto
para o choro
e para o íntimo
jogo do que se vê posto para repouso.

Demais denota vida:
quando respira
os ares reais
em sítio
próprio para sentir
que o dom do amor
é vivo ansioso.

[Fiama Hasse Pais Brandão]

^^

"Só hoje senti
que o rumo a seguir levava pra longe...
Senti que este chão
já não tinha espaço pra tudo o que foge.
Não sei o motivo pra ir
só sei que não posso ficar,
não sei o que vem a seguir
mas quero procurar (...)"

[Mafalda Veiga]
^^

Quero calma


Acordou em mim a vontade de ficar submersa n' água ouvindo o estrondoso silêncio que nela habita. Só eu e o vazio dos meus pensamentos. A mergulhar nas profundezas dessa calma...

^^

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Uma Palavra

Anda desde manhã uma palavra
a perseguir-me, a espreitar-me de longe
em atitude nítida de pose,
em clara posição de desafio
.

Sugere-se ligeira e disfarçada,
depois foge como uma Mata-Hari
lexical. Não sei o que em mim vê:
não tenho alta patente nem estatuto.

E contudo, ela anda por aí.
Sonora e inaudível, surge-me
do silêncio e dos ruídos longos,
brevíssima nos cantos - e perigosa.

Lá passou outra vez. E anda nisto
desde que me vesti e vi o sol.
Nada a faz desistir: nem a tarde
a cair, nem a minha ameaça de fuzis.

[Ana Luísa Amaral]

^^

Faltas-me. Se aqui estivesses isto não seriam
palavras. Um trinco por dentro, essa ilusão
de voltar a ti olhando os papéis, desconheço
o que de mim resta quando as horas quase trazem
o silêncio e a boca se abre, faz a passagem
do teu corpo a um corpo que aproveita
a substituição que não sabe. Mudaremos o tempo
para nenhuma exigência, faltas-me quando estás
a caminho, já oiço os teus passos subindo
no fundo da escada. Amanhece. Nos sonhos
que não sou capaz de lembrar vens tocar-me
nos ombros e dizer ainda não são horas, ainda
não é alba. As palavras faltam-me, vou
calar-me nas duas voltas da chave, este papel
apagado, sujo da ausência dos teus gestos.

[Helder Moura Pereira, De novo as sombras e as calmas]

^^

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Segue-me noite e dia o teu desejo!...
Oiço a tua voz rúbida e cantante
Suplicar-me a carícia do meu beijo,
numa teima exigente e perturbante!


E o meu corpo vencido, dominado,
vai tombar doloroso, inconsciente,
sobre a lembrança morna do passado
- e fica-se a sonhar... perdidamente!


[Judith Teixeira]


^^

Cidade de Orgias

Cidade de orgias, passeios, alegrias,
Cidade daquele que, tendo vivido e cantado em teu seio, te fará ilustre um dia,
Não serão as tuas exposições, nem os teus quadros,
Nem teus espetáculos, que me recompensarão,
Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nas tuas docas,
Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,
Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou uma festa.

- Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan,
O teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,
Ofertando-me uma resposta, isso sim me recompensa,
Amantes, continuadas amantes, tão-só me recompensam.

[Walt Whitman - POEMAS DE FOLHAS DA RELVA]

^^


... Estou apaixonada.
E este amor vai decerto arrastar-me
para longe...
A corrente é demasiado forte, não tenho escolha
possível...
Posso acabar por perder tudo.
Mas já não posso voltar atrás.
Só posso deixar-me ir com a maré.
Mesmo que
comece a arder,
mesmo que desapareça para sempre...

[Haruki Murakami, Sputnik - meu amor]

^^

domingo, 11 de outubro de 2009

Retribuindo: recadinho cheio de duplo sentido: =)


Entendeste, meu caro?

^^

Escondo a raiva das lágrimas do nada
que te dei

Ferida dilacerada
sangue exposto nos caminhos que plantamos
nos desertos da nossa esperança

Poderíamos amar loucamente
a sombra do gesto
a canção nua
o vinho a semente a baga
construir cometas à volta do desejo

se não fosse a alma a remissão e o pecado

Poderíamos benzer as casas com hortelã
onde acendo o coração aberto

mas há a excomunhão das trepadeiras
e eu entendo...

[Gonçalo Nuno dos Santos]

^^

sábado, 10 de outubro de 2009

(...)

Photobucket
Às vezes queria que a água lavasse
a culpa do rosto, levasse de dentro
estilhaços, (pensamentos) impurezas...

[João Luís Barreto Guimarães]

^^

Não sou uma vitória ou uma derrota,
mas me conquisto sempre cada dia,
procurando essa forma mais remota
do que em mim nos instantes se perdia.
Nem um profundo mar, nem superfície,
nem vento ou pedra: leve, na existência,
balanço entre as montanhas e a planície
com asas no sentir, preso à consciência.
Tudo o que é meu anseia uma amplidão,
de um céu inacabado a nostalgia.

É o peso desta terra em minha mão.
E enquanto espero o mundo na Poesia
enfim suprir, eu luto e mais persigo
esta idéia de mim, que não consigo.

[Lupe Cotrim]

^^