Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 20 de setembro de 2009

*Que Largo es el Mundo


que grán silencio
todo en suspenso
que vértigo de no verte
retumbo
como una campana
abro la ventana
y entras tú
entras tú...

Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura.
E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

[Julio Cortázar]

^^

sábado, 19 de setembro de 2009

* Bicicletas em Setembro


Sente que fora abandonada por todos, e coisa alguma se harmonizava com o que entendia ser a sua alma. Permanecia assim: dias esquecidos e indiferentes, cavando fundo, as sombras mais frias; tombavam as primeiras folhas amareladas, nasciam as primeiras folhas verdes. Morte e recomeço. Nenhum laço a prendia a ternas lembranças, porque as não tinha, a não ser a emoção que tomava conta dela quando recordava os rapazes e as raparigas. Abandonada por todos, unida ao seu pessoal silêncio, era tocada por um sentimento de piedade, muito próximo do religioso. Parecia-lhe uma maldição tudo por que vivera, e certas zonas calcinadas do seu passado emergiam, agora, nítidas e dolorosas. Não quero acabar assim: encurralada e assustada. A casa vazia ressumava persistente odor a velhice. A velhice tem um odor húmido que se cola às coisas e, viscoso, parece escorrer pela pele. Tapadas, uma a uma, as janelas abertas pelos sonhos, pelas paixões, pelos desejos, pelas fraquezas e pelas intuições. A subida do desespero extremo, instantes sem conteúdo e, simultaneamente, portadores de secretas significações: o torpor de uma tarde suspensa e a invasão da alma pela morte. Varavam os dias, entretecidos uns nos outros. Sabe-se: gostamos das estações do ano consoante as estações da nossa vida. Apreciamos o Outono quando começamos a ficar velhos. A Primavera dói-nos porque nos dói os ossos, as carnes do peito e das pernas. Onde menos se supõe, lá está a dor. A felicidade não existe; há, apenas, instantes felizes. Também se diz que não se pode ter tudo. Mas porque razão não se pode ter tudo? Que nos impede de ter tudo? Quando fiquei só desorientei-me um pouco. Por vezes, era assaltada pelo receio de gritar no meio da noite. Pela primeira vez pressenti-me incapaz de dominar os meus medos e de remediar os meus impulsos. Vagueava pela casa, permanecia horas a reler jornais antigos, o silêncio era denso, o cheiro da solidão horroroso, os pensamentos afluíam e corriam à desfilada num tropel doentio. Assustava-me. Pensava na absoluta necessidade de coisas sem importância, mas tudo me conduzia às perplexidades do desalento. O poder das emoções começava a esclarecer as causas pelas quais eu fugira de tudo e ali me instalara. Todas as cidades, afinal, dispõem de um sítio onde as pessoas podem recolher-se, e onde o tempo pára quando rimos. Nunca quis muitas coisas. O que forma a minha e a tua vida foi a atracção mútua, embora nada nos aproximasse. Nem em dúvidas nem em certezas éramos semelhantes. (...)


Hoje, admito que esse desprezo talvez contivesse algo de receio e de atracção. Como a morte: atrai-nos enquanto a repelimos. Detestavas os meus pequenos prazeres, fizeste-me amargar muitos deles com implacável zombaria: livros, músicas, filmes. Não merece a pena nomear as nossas divergências. Provínhamos do mesmo sítio, mas não pertencíamos aos mesmos sonhos.

[Baptista-Bastos]

^^

*A Máquina Fotográfica*


É na câmara escura dos teus olhos
que se revela a água
água imagem
água nítida e fixa
água paisagem
boca nariz cabelos e cintura
terra sem nome
rosto sem figura
água móvel nos rios
parada nos retratos
água escorrida e pura
água viagem trânsito hiato.

Chego de longe. Venho em férias. Estou cansado.
Já suei o suor de oito séculos de mar
o tempo de onze meses de ordenado;
por isso, meu amor, viajo a nado
não por ser português mal empregado
mas por sofrer dos pés
e estar desidratado.

Chego. Mudo de fato. Calço a idade
que melhor quadra à minha solidão
e saio a procurar-te na cidade
contratada violenta negativa
tu única sombra murmurada
única rua mal iluminada
única imagem desfocada e viva.

Moras aonde eu sei. É na distância
onde chego de táxi.
Sou turista
com trinta e seis hipóteses no rolo;
venho ao teu miradoiro ver a pista
trago a minha tristeza a tiracolo.

Enquadro-te regulo-te disparo-te
revelo-te retoco-te repito-te
compro um frasco de tédio e um aparo
nas tuas costas ponho uma estampilha
e escrevo aos meus amigos que estão longe
charmant pays
the sun is shinning
love.

Emendo-te rasuro-te preencho-te
assino-te destino-te comando-te
és o lugar concreto onde procuro
a noite de passagem o abrigo seguro
a hora de acordar que se diz ao porteiro
o tempo que não segue o tempo em que não duro
senão um dia inteiro.

Invento-te desbravo-te desvendo-te
surges letra por letra, película sonora,
do sentido à vogal do tema à consoante
sem presença no espaço sem diferença na hora.
És a rota da Índia o sarcasmo do vento
a cãibra do gajeiro o erro do sextante
o acaso a maré o mapa a descoberta
num novo continente itinerante.

[José Carlos Ary dos Santos]


^^

Enquanto te Espero

Enquanto te espero
derretem-se as horas
mulheres de maio tecem véus de viúva
vêm depois os pessegueiros
e tudo é violeta

Ponho a mesa à sombra do sorriso
e começo a servir minutos de prata
vem o vinho maduro
colheita especial da saudade
vem a noite suculenta
regada de ervas de alma picada
e nada me prende

Enquanto te espero
partem novos barcos

E eu sem leme sem ti para vencer este monstro
este quarto este ocidente isolado.

[Isabel Mendes Ferreira, Um corpo (sub)-exposto]

^^

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

18/09 - Hoje é meu Aniversário!!!!

Caros amigos

Quero compartilhar, mesmo que virtualmente, essa data especial com todos vocês. Obrigada pela amizade de vocês. Obrigada pelas palavras de incentivo, pelos desabafos, pelas bobagens divertidas, pelas saudações de bom dia, boa tarde, boa noite... Obrigada por me presentear com a presença de vocês aqui, neste espaço. Isto é, sem dúvida, o melhor presente!

Vamos cantar Parabéns?!
Vou soprar umas velinhas e fazer um pedido, ou dois...rsrsr
Posso?

E o primeiro pedaço deste bolo suculento de chocolate vai para...

^^

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Cuando me han preguntado la causa de mi amor
yo nunca he respondido: Ya conocéis su gran belleza.
(Y aún es posible que existan rostros más hermosos.)
Ni tampoco he descrito las cualidades ciertas de su espíritu
que siempre me mostraba en sus costumbres,
o en la disposición para el silencio o la sonrisa
según lo demandara mi secreto.
Eran cosas del alma, y nada dije de ella.
(Y aún debiera añadir que he conocido almas superiores.)

La verdad de mi amor ahora la sé:
vencía su presencia la imperfección del hombre,
pues es atroz pensar
que no se corresponden en nosotros los cuerpos con las almas,
y así ciegan los cuerpos la gracia del espíritu,
su claridad, la dolorida flor de la experiencia,
la bondad misma.
Importantes sucesos que nunca descubrimos,
o descubrimos tarde.
Mienten los cuerpos, otras veces, un airoso calor,
movida luz, honda frescura;
y el daño nos descubre su seca falsedad.

La verdad de mi amor sabedla ahora:
la materia y el soplo se unieron en su vida
como la luz que posa en el espejo
(era pequeña luz, espejo diminuto);
era azarosa creación perfecta.
Un ser en orden crecía junto a mí,
y mi desorden serenaba.
Amé su limitada perfección.

[Francisco Brines, Ensaio de uma despedida]

^^

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Amor e seu Tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

[Carlos Drummond de Andrade]

^^
Photobucket
Não, não o faço por tristeza
nem superstição.

Cada noite
assinalo na parede do tempo.

Presidiário
que não deseja o último dia.

Apenas por te ouvir e amar,
pura volúpia, gratidão de ser.

[António Osório, O lugar do amor e Décima aurora - Obra Poética II]

^^

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sótão

Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.


[Fiama Hasse Pais Brandão]

^^

Hoje

Photobucket
Hoje vou levantar-me e vou estar contente com todos os meus actos.
Vou andar, vou correr, vou gritar
vou beber água, comer terra, vou comer o ar
e vou respirar, respirar.
Vou ter consciência do meu sangue
consciência de que o meu sangue desce
sobe, entra, sai do meu coração pontual
e no momento em que me cruza o cérebro enche meus olhos de terra.
Vou andar por mim dentro em visita.
Vou considerar todos os recantos, as comissuras, os favos, os ritmos, os
sonidos, os frémitos as pausas.
Vou estar contente com o meu corpo, com os meus gestos
vou estar contente com o meu rosto, satisfeita com o desenho dos dentes,
com a curva das unhas, com a espessura dos cabelos.
Vou ver-me ao espelho e achar que está bem e estar contente.
Vou olhar os olhos e ver a profundeza prismática da íris sem temor, vou
considerar a curva das pestanas, das sobrancelhas, a linha quebrada do nariz,
da boca, as fendas móveis dos lábios, a expansão do queixo.
Vou olhar o rosto e vê-lo, vê-lo mesmo, inteiro, corpo inteiro de uma
tangência outra.
Vou olhar-me toda e vou ver a terra com os seus continentes, suas ilhas, seus mares, seus rios, montes, lagos, florestas, prados, desertos, cavernas, fossos,
precipícios.
Vou olhar-me toda e ver a terra em órbita, nas minhas órbitas o sentido
do mundo, meus olhos globos húmidos, terra azul, retina do espaço.
Vou andar, vou correr, vou gritar, vou beber água, vou comer, comer o ar
e vou respirar, respirar.
Vou ter consciência.
Vou mastigar a vida com a boca, com todas as minhas bocas, minhas línguas,
meus dentes de dentro.
Vou agarrar com todas as minhas mãos, tudo abraçar, tudo abranger, tudo
apertar, cerrar, cingir pela cintura e tudo comer, assimilar, em tudo entrar,
penetrar, tudo solver, engolir, em tudo penetrar.
Vou penetrar-me, a mim própria ter-me, ter-me.
Vou a mim própria abrir-me, meu próprio sangue dar-me, meu coração
palpar-me.
Vou a mim própria ser-me, vou respirar-me, rir-me, vou-me a mim própria
abrir-me, a mim própria despir-me, vou nadar-me, correr-me, gritar-me,
a mim própria dançar-me, com meu sangue banhar-me, vou chorar-me,
com meu amor afogar-me, com minha angústia ferir-me, com meu sono
dormir-me, com meus sonhos minha esperança erguer-me, com minha loucura
endoidecer-me, pelas minhas veias fora vou gritar-me
Vou gritar, gritar até que eu vomite esta boca de terra que me aterra,
me enterra, me afunda.
Vou gritar por ti
até que tu me oiças e possas chamar-me pelo meu nome!

[Ana Hatherly, Poesia, 1958-1978]

^^

O corpo só é mais nu

despe
mais fundo
que o amor.
O amor
inventa
sempre
novas
vestes
novos disfarces
novas fantasias
O corpo



é mais nu
.

[Teresa Rita Lopes, A fímbria da fala]

^^


As frésias desprendem o perfume
ao fim da tarde. Nesta casa
está tudo limpo e silencioso.
Sentada no sofá escrevo
ao pensar que te entreguei
o meu nome, alguma biografia,
a intimidade.

O sol vai e vem, conforme
as nuvens permitem. Sinto-me
talvez cansada, exausta
de desgosto pela tua partida.
Há um torpor, uma sonolência
e as minhas canetas,
o caderno. O amor sempre
presente.
Não devia lamentar-me,
tenho tudo e, no entanto,
ficou-me um buraco negro
no coração.

[Isabel de Sá, Repetir o poema]

^^

domingo, 13 de setembro de 2009


Não há castigo infinito. Não há dor infinita.
Um dia a gente termina para começar,
começa para terminar,
refaz o percurso como se nada tivesse acontecido antes.
Deixe-me apenas uma cadeira de palha,
para olhar com piedade o que fui
e me deslumbrar com as ruínas.

[Fabricio Carpinejar]

^^

Cada dia tenho menos uma letra,
uma boca e a mão para a dizer.
Fui colhendo a noite, palavras surdas,
o silêncio que a morte continua
sob a pele da madrugada.
Cada dia tenho menos um coração,
menos uma noite. Resta-me a memória
de abril dentro um copo de esquecimento,
o fundo da liberdade
que alguém bebeu de nós:
a canção morena da alegria,
o cravo ao rubro de fundir a paz.
Menos uma boca, uma criança
alada. Menos uma cidade onde a esperança
se cola ao rosto. Os meus passos presos
ao chão são menos o olhar que a manhã
oferece. Mas era uma vez e aconteceu
um dia, em todos os outros desse dia,
por muito tempo e ainda agora:
acordar, pôr o café na chávena
e barrar o pão com a liberdade.

[Rosa Alice Branco]

^^


Eu perco o sono e choro
Sei que quase desespero
Mas não sei por quê

A noite é muito longa,
Eu sou capaz de certas coisas
Que eu não quis fazer.

Será que alguma coisa,
Nisso tudo faz sentido?
A vida é sempre um risco,
Eu tenho medo do perigo.


Lágrimas e chuva
Molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê
O mundo é muito injusto
Eu dou plantão nos meus problemas
Que eu quero esquecer

Será que existe alguém
Ou algum motivo importante
Que justifique a vida
Ou pelo menos este instante?


Eu vou contando as horas
E fico ouvindo passos
Quem sabe o fim da história
De mil e uma noites
De suspense no meu quarto.

[Kid Abelha]

^^

sábado, 12 de setembro de 2009



E quando a noite chega ao fim,
na hora funesta das putas e dos bêbados,
dos marginais, dos vagabundos;

quando chega a hora azeda da ressaca,
a boca amarga, o peito oprime,
o mundo todo é uma merda;

quando chega essa hora funesta,
fantasmas povoam as ruas,
o primeiro autocarro não vem,
barcos sonâmbulos perdem o cais,
a noite já não é noite
e a manhã indecisa não desponta

- ainda te amo mais, e mais, e mais,
desesperadamente, sem peso nem conta.

[José Carlos de Vasconcelos, Repórter do coração]


^^

*Água água


Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta

[Olga Savary]

^^


Tinhas a pele arrepiada pelo sentimento. Os olhos rasos de contentamento. A vida trazias nas mãos abertas. E o fruto do nosso encontro era uma alma cheia de presente, sem medo do futuro e sem necessidade de olhar o passado.
Querias-me assim como eu te queria. Eternamente. Que era o mesmo que dizer, enquanto durasse. O nosso eterno era o momento, pleno, e não havia promessas feitas ao entardecer. O que dávamos estava em todos os gestos, em todos os olhares, no encontrar dos corpos. Nada de planos para o futuro, nada de palavras vãs para encher o vazio. Não existia o vazio.
Mas quando olhávamos para nós sentimo-nos cheios de mais. A sonhar o que não podíamos ter uma vida inteira. Não acreditávamos que a vida se desse assim, como uma fruta fresca em pleno verão. Estranho o destino humano. Tudo o que é bom demais faz-nos afastar, evitar. Nem sequer tocamos com o medo de estragar. Para que nada mude, não chegamos a viver tudo o que se oferece aos nossos olhos. E partimos antes mesmo de chegar.

[Ana Teresa Silva]

^^

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Jeito De Mato

De onde é que vem esses olhos tão tristes?
Vem da campina onde o sol se deita.
Do regalo de terra que teu dorso ajeita.
E dorme serena, no sereno e sonha.

De onde é que salta essa voz tão risonha?
Da chuva que teima, mas o céu rejeita.
Do mato, do medo, da perda tristonha.
Mas, que o sol resgata, arde e deleita.

Há uma estrada de pedra que passa na fazenda.
É teu destino, é tua senda.
Onde nascem tuas canções.
As tempestades do tempo que marcam tua história
Fogo que queima na memória
E acende os corações.

Sim, dos teus pés na terra nascem flores.
A tua voz macia aplaca as dores
E espalha cores vivas pelo ar.
Sim, dos teus olhos saem cachoeiras.
Sete lagoas, mel e brincadeiras.
Espumas, ondas, águas do teu mar...

[Paula Fernandes]

^^

Sobre esta página escrevo
teu nome que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo
o teu nome de muitos nomes feito água e fogo lenha vento
primavera pátria exílio.

Teu nome onde exilado habito e canto mais do que nome: navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome: tempestade.
E mais do que nome: sangue. Amor e morte. Navio.

Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo este nome rosa e cardo
por quen livre sou cativo.

Sobre esta página escrevo o
teu nome: liberdade.

[Manuel Alegre, A Praça da Canção]

^^