Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Amor e seu Tempo

Amor é privilégio de maduros
estendidos na mais estreita cama,
que se torna a mais larga e mais relvosa,
roçando, em cada poro, o céu do corpo.

É isto, amor: o ganho não previsto,
o prêmio subterrâneo e coruscante,
leitura de relâmpago cifrado,
que, decifrado, nada mais existe

valendo a pena e o preço do terrestre,
salvo o minuto de ouro no relógio
minúsculo, vibrando no crepúsculo.

Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência
herdada, ouvida. Amor começa tarde.

[Carlos Drummond de Andrade]

^^
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Não, não o faço por tristeza
nem superstição.

Cada noite
assinalo na parede do tempo.

Presidiário
que não deseja o último dia.

Apenas por te ouvir e amar,
pura volúpia, gratidão de ser.

[António Osório, O lugar do amor e Décima aurora - Obra Poética II]

^^

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Sótão

Por interstícios das malas abertas de quando éramos
crianças gritam as bocas sem nenhum eco
das bonecas. Criaturas fictícias, escalpelizadas
e sem tintas, de ventre oco. Mas o mortal
lugar do coração está ainda a palpitar.
O bojo do peito de celulóide, como o meu,
pede-nos perdão pela saudade que nos devora.


[Fiama Hasse Pais Brandão]

^^

Hoje

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Hoje vou levantar-me e vou estar contente com todos os meus actos.
Vou andar, vou correr, vou gritar
vou beber água, comer terra, vou comer o ar
e vou respirar, respirar.
Vou ter consciência do meu sangue
consciência de que o meu sangue desce
sobe, entra, sai do meu coração pontual
e no momento em que me cruza o cérebro enche meus olhos de terra.
Vou andar por mim dentro em visita.
Vou considerar todos os recantos, as comissuras, os favos, os ritmos, os
sonidos, os frémitos as pausas.
Vou estar contente com o meu corpo, com os meus gestos
vou estar contente com o meu rosto, satisfeita com o desenho dos dentes,
com a curva das unhas, com a espessura dos cabelos.
Vou ver-me ao espelho e achar que está bem e estar contente.
Vou olhar os olhos e ver a profundeza prismática da íris sem temor, vou
considerar a curva das pestanas, das sobrancelhas, a linha quebrada do nariz,
da boca, as fendas móveis dos lábios, a expansão do queixo.
Vou olhar o rosto e vê-lo, vê-lo mesmo, inteiro, corpo inteiro de uma
tangência outra.
Vou olhar-me toda e vou ver a terra com os seus continentes, suas ilhas, seus mares, seus rios, montes, lagos, florestas, prados, desertos, cavernas, fossos,
precipícios.
Vou olhar-me toda e ver a terra em órbita, nas minhas órbitas o sentido
do mundo, meus olhos globos húmidos, terra azul, retina do espaço.
Vou andar, vou correr, vou gritar, vou beber água, vou comer, comer o ar
e vou respirar, respirar.
Vou ter consciência.
Vou mastigar a vida com a boca, com todas as minhas bocas, minhas línguas,
meus dentes de dentro.
Vou agarrar com todas as minhas mãos, tudo abraçar, tudo abranger, tudo
apertar, cerrar, cingir pela cintura e tudo comer, assimilar, em tudo entrar,
penetrar, tudo solver, engolir, em tudo penetrar.
Vou penetrar-me, a mim própria ter-me, ter-me.
Vou a mim própria abrir-me, meu próprio sangue dar-me, meu coração
palpar-me.
Vou a mim própria ser-me, vou respirar-me, rir-me, vou-me a mim própria
abrir-me, a mim própria despir-me, vou nadar-me, correr-me, gritar-me,
a mim própria dançar-me, com meu sangue banhar-me, vou chorar-me,
com meu amor afogar-me, com minha angústia ferir-me, com meu sono
dormir-me, com meus sonhos minha esperança erguer-me, com minha loucura
endoidecer-me, pelas minhas veias fora vou gritar-me
Vou gritar, gritar até que eu vomite esta boca de terra que me aterra,
me enterra, me afunda.
Vou gritar por ti
até que tu me oiças e possas chamar-me pelo meu nome!

[Ana Hatherly, Poesia, 1958-1978]

^^

O corpo só é mais nu

despe
mais fundo
que o amor.
O amor
inventa
sempre
novas
vestes
novos disfarces
novas fantasias
O corpo



é mais nu
.

[Teresa Rita Lopes, A fímbria da fala]

^^


As frésias desprendem o perfume
ao fim da tarde. Nesta casa
está tudo limpo e silencioso.
Sentada no sofá escrevo
ao pensar que te entreguei
o meu nome, alguma biografia,
a intimidade.

O sol vai e vem, conforme
as nuvens permitem. Sinto-me
talvez cansada, exausta
de desgosto pela tua partida.
Há um torpor, uma sonolência
e as minhas canetas,
o caderno. O amor sempre
presente.
Não devia lamentar-me,
tenho tudo e, no entanto,
ficou-me um buraco negro
no coração.

[Isabel de Sá, Repetir o poema]

^^

domingo, 13 de setembro de 2009


Não há castigo infinito. Não há dor infinita.
Um dia a gente termina para começar,
começa para terminar,
refaz o percurso como se nada tivesse acontecido antes.
Deixe-me apenas uma cadeira de palha,
para olhar com piedade o que fui
e me deslumbrar com as ruínas.

[Fabricio Carpinejar]

^^

Cada dia tenho menos uma letra,
uma boca e a mão para a dizer.
Fui colhendo a noite, palavras surdas,
o silêncio que a morte continua
sob a pele da madrugada.
Cada dia tenho menos um coração,
menos uma noite. Resta-me a memória
de abril dentro um copo de esquecimento,
o fundo da liberdade
que alguém bebeu de nós:
a canção morena da alegria,
o cravo ao rubro de fundir a paz.
Menos uma boca, uma criança
alada. Menos uma cidade onde a esperança
se cola ao rosto. Os meus passos presos
ao chão são menos o olhar que a manhã
oferece. Mas era uma vez e aconteceu
um dia, em todos os outros desse dia,
por muito tempo e ainda agora:
acordar, pôr o café na chávena
e barrar o pão com a liberdade.

[Rosa Alice Branco]

^^


Eu perco o sono e choro
Sei que quase desespero
Mas não sei por quê

A noite é muito longa,
Eu sou capaz de certas coisas
Que eu não quis fazer.

Será que alguma coisa,
Nisso tudo faz sentido?
A vida é sempre um risco,
Eu tenho medo do perigo.


Lágrimas e chuva
Molham o vidro da janela
Mas ninguém me vê
O mundo é muito injusto
Eu dou plantão nos meus problemas
Que eu quero esquecer

Será que existe alguém
Ou algum motivo importante
Que justifique a vida
Ou pelo menos este instante?


Eu vou contando as horas
E fico ouvindo passos
Quem sabe o fim da história
De mil e uma noites
De suspense no meu quarto.

[Kid Abelha]

^^

sábado, 12 de setembro de 2009



E quando a noite chega ao fim,
na hora funesta das putas e dos bêbados,
dos marginais, dos vagabundos;

quando chega a hora azeda da ressaca,
a boca amarga, o peito oprime,
o mundo todo é uma merda;

quando chega essa hora funesta,
fantasmas povoam as ruas,
o primeiro autocarro não vem,
barcos sonâmbulos perdem o cais,
a noite já não é noite
e a manhã indecisa não desponta

- ainda te amo mais, e mais, e mais,
desesperadamente, sem peso nem conta.

[José Carlos de Vasconcelos, Repórter do coração]


^^

*Água água


Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta

[Olga Savary]

^^


Tinhas a pele arrepiada pelo sentimento. Os olhos rasos de contentamento. A vida trazias nas mãos abertas. E o fruto do nosso encontro era uma alma cheia de presente, sem medo do futuro e sem necessidade de olhar o passado.
Querias-me assim como eu te queria. Eternamente. Que era o mesmo que dizer, enquanto durasse. O nosso eterno era o momento, pleno, e não havia promessas feitas ao entardecer. O que dávamos estava em todos os gestos, em todos os olhares, no encontrar dos corpos. Nada de planos para o futuro, nada de palavras vãs para encher o vazio. Não existia o vazio.
Mas quando olhávamos para nós sentimo-nos cheios de mais. A sonhar o que não podíamos ter uma vida inteira. Não acreditávamos que a vida se desse assim, como uma fruta fresca em pleno verão. Estranho o destino humano. Tudo o que é bom demais faz-nos afastar, evitar. Nem sequer tocamos com o medo de estragar. Para que nada mude, não chegamos a viver tudo o que se oferece aos nossos olhos. E partimos antes mesmo de chegar.

[Ana Teresa Silva]

^^

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Jeito De Mato

De onde é que vem esses olhos tão tristes?
Vem da campina onde o sol se deita.
Do regalo de terra que teu dorso ajeita.
E dorme serena, no sereno e sonha.

De onde é que salta essa voz tão risonha?
Da chuva que teima, mas o céu rejeita.
Do mato, do medo, da perda tristonha.
Mas, que o sol resgata, arde e deleita.

Há uma estrada de pedra que passa na fazenda.
É teu destino, é tua senda.
Onde nascem tuas canções.
As tempestades do tempo que marcam tua história
Fogo que queima na memória
E acende os corações.

Sim, dos teus pés na terra nascem flores.
A tua voz macia aplaca as dores
E espalha cores vivas pelo ar.
Sim, dos teus olhos saem cachoeiras.
Sete lagoas, mel e brincadeiras.
Espumas, ondas, águas do teu mar...

[Paula Fernandes]

^^

Sobre esta página escrevo
teu nome que no peito trago escrito
laranja verde limão
amargo e doce o teu nome.

Sobre esta página escrevo
o teu nome de muitos nomes feito água e fogo lenha vento
primavera pátria exílio.

Teu nome onde exilado habito e canto mais do que nome: navio
onde já fui marinheiro
naufragado no teu nome.

Sobre esta página escrevo o teu nome: tempestade.
E mais do que nome: sangue. Amor e morte. Navio.

Esta chama ateada no meu peito
por quem morro por quem vivo este nome rosa e cardo
por quen livre sou cativo.

Sobre esta página escrevo o
teu nome: liberdade.

[Manuel Alegre, A Praça da Canção]

^^

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Ar Livre

Marco Guerra
A menina translúcida passa.
Vê-se a luz do sol dentro dos seus dedos.
Brilha em sua narina o coral do dia.

Leva o arco-íris em cada fio do cabelo.
Em sua pele, madrepérolas hesitantes
pintam leves alvoradas de neblina.

Evaporam-se-lhe os vestidos, na paisagem.
É apenas o vento que vai levando seu corpo pelas alamedas.
A cada passo, uma flor, a cada movimento, um pássaro.

E quando para na ponte, as águas todas vão correndo,
em verdes lágrimas para dentro dos seus olhos.

[Cecília Meireles]

^^

terça-feira, 8 de setembro de 2009


Estas serão as minhas últimas palavras aos teus sentidos,
serão o meu apelo derradeiro.
Tanto te disse, tanto te escrevi!
Como encontrar agora o período preciso, a perfeita expressão,
para te revelar este silêncio estranho que me começa a ungir
o exausto coração?!
Vieste-me na hora dadivosa, na hora imortal
da frutificação:
dei-te toda a doçura dos meus pomos
e voltaste-me as costas com prazer...
Mas eu bendigo essa tua fome
que saboreou os frutos que haviam de mais tarde apodrecer.
Foste a montanha azul que me atraiu os passos;
em cujas arestas agressivas
rasguei meus sonhos,
despenhando-me...

Porém, daqui, da alfombra deste
vale de desfalecimento,
como teus longes me seduzem ainda,
como me apareces belo,
que saudade de ti,
minha montanha azul!
Sou olhos e não tenho visão;
sou boca e tudo me parece insípido;
e meu tato não sente
os espinhos que colhe
na solidão em que me deixaste;
e em vão as rosas da primavera
abrem os lábios
ao meu olfato.

Só a tua lembrança
conserva vivo
um pouco de meu ser.

Só a tua saudade
prende-me ainda
à beleza da vida.

Onde estás?!
Onde estou?!

Sou um corpo
que espera a alma
para acabar de morrer.

[Gilka Machado]

^^

segunda-feira, 7 de setembro de 2009


Miras, con ojos luminosos,
mientras hablo, mis ojos. Los cabellos
son fuego y seda,
y el rosa laberinto del oído
desvaría en la noche,
acepta las razones que doy sobre una vida
que ha perdido la dicha y su mejor edad.
¿Cómo me ven tus ojos? Yo sé, porque estás cerca,
que mis labios sonríen,
y hay en mí delirante juventud.
Inocente me miras, y no quiero saber
si soy el más dichoso hipócrita.
Sería pervertirte decir
que quien ha envejecido es traidor,
pues ha dado la vida
o dado el alma,
no sólo por placer, también por tedio,
o por tranquilidad;
muy pocas veces por amor.

He acercado mis labios a los tuyos,
en su fuego he dejado mi calor,
y emboscado en la noche
iba espiando en ti vejez y desengaño.

[Francisco Brines]

^^

Eu não existo sem você


Eu sei e você sabe, já que a vida quis assim
Que nada nesse mundo levará você de mim
Eu sei e você sabe que a distância não existe
Que todo grande amor
Só é bem grande se for triste
Por isso, meu amor
Não tenha medo de sofrer
Que todos os caminhos
Me encaminham pra você

Assim como o oceano
Só é belo com luar
Assim como a canção
Só tem razão se cantar
Assim como uma nuvem
Só acontece se chover
Assim como o poeta
Só é grande se sofrer
Assim como viver
Sem ter amor não é viver
Não há você sem mim
Eu não existo sem você

[Vinícius de Moraes]

^^

domingo, 6 de setembro de 2009

Sutilmente


E quando eu estiver
Triste
Simplesmente
Me abrace


E quando eu estiver
Louco
Subitamente
Se afaste


E quando eu estiver
Fogo
Suavemente
Se encaixe...


E quando eu estiver
Triste
Simplesmente
Me abrace


E quando eu estiver
Louco
Subitamente
Se afaste


E quando eu estiver
Bobo
Sutilmente
Disfarce...


Mas quando eu estiver
Morto
Suplico que não me mate não
Dentro de ti
Dentro de ti...


Mesmo que o mundo
Acabe enfim
Dentro de tudo
Que cabe em ti .



[Samuel Rosa]

^^

Coloquemos um lenço sobre o rosto. Não para o ocultar mas para que fique mais nítido o que vemos. Essa há-de ser a margem das nossas feições, a sua mais próxima brancura. A respiração nem o toca sequer. Outra brisa começava a atravessar o peito. Ela vem agora ao nosso encontro sem qualquer ruido, como se as mesmas folhas estivessem ausentes. Sabemos há muito que é assim. Depois o silêncio chega, porque foi sempre a ele que estas vozes pertenceram.

[Fernando Guimarães]
^^