Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Para recuperar a beleza basta um olhar, mesmo que ferido.

[Mário Rui de Oliveira]

^^

O Silêncio...

...abre
o coração das sombras
.
Por tal sossego, as árvores
caminham. Mas são as mulheres quem lhes assegura
a elegância do porte.

A harmonia vem do peso da luz
sob a cabeça. Das mãos em arco: os ramos seguram.
Altas são as folhas. Simples.
Lisa a copa.

Não há rumor na terra.
As feras não nasceram ainda. Apenas os peixes.
Fora de água
respiram.

Sim.
O mundo pode ser belo,
apesar de só.

Basta-lhe o fulgor no mais escalvado da noite
e meninos esbeltos e
gelados no sol.
E uma beleza dificílima. E um cauteloso
azul nas garças abatidas pelo céu.
E um primeiro espanto,
uma primeira alegria nas fendas
em direcção
ao pó.

[Eduarda Chiote]

^^

... que linhas do meu rosto
te é dado perceber, que sons da minha voz
podes de repente recordar?
Porque do dia em que foste
me esqueceu outro caminho: esse em que casas e luas
se amontoam, e as asas breves, para poder voar.

[Helena Carvalhão Buescu, Ardem as trevas e outros lugares]
^^

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

A luz do meio-dia

Katia Chausheva
Sim já sei que me queres,
sim já sei que te espanto.
Sim já sabes que vivo prisioneira
da tua recordação.
Sim já sabes que mantenho várias velas
acesas ao deus da esperança.
Se me ligas, a tua voz faz-me tremer
como se eu fosse uma folha.

Se te ligo, a tua resposta do outro lado
faz-me tremer como uma folha.
Sim já ambos sabemos que nem eu
nem tu podemos fazer nada.
Sim já é muito alguma coisa que fazemos,
sim já é um mundo inteiro
o montão de coisas que não fizemos.

E tu tão longe
e tão dentro de mim, tão invasivo.
E esta chuva
que ameaça dissolver toda a terra
e tornar tudo mar, o meu pesadelo.
E de repente todas as distâncias
se tornam infinitas,
como se só o louco mais malvado
as pudesse ter concebido.

Há alguém no mundo, não sei onde,
ou antes sei, mas prefiro esquecê-lo,
que me despe só com um olhar
e me sonha vestida de princesa.
Alguém com quem não posso resistir
a arder debaixo do duche.
Alguém com quem se torna inevitável
suar dentro de um iglu.

Choro quando não estás, suo contigo.
O suor e as lágrimas são iguais,
tenazes e salgados,
como o mar dos meus sonhos e o oceano
abissal dos meus pesadelos.
Não quero pedir demasiado, mas gostava
de suar um pouco mais e chorar menos.

[Amalia Bautista]

^^

Gostava...

Julie De Waroquier
Gostava mais quando a tua voz não me soava tão longe. Quando o mundo ainda nem sequer te conhecia e muito menos te queria arrebatar. Gostava mais quando não te escrevia poemas envergonhados que nunca leio a ninguém. Quando as minhas mãos fugiam; e os teus olhos não. Agora já não tenho perguntas para te fazer. Houve um tempo – anterior à comoção – mas sinto que o deixei correr atrás do desejo. Deixo sempre. Eu gostava mais das noites contigo. Quando não tinha de chorar ao pé de uma fonte por me lembrar da nossa conversa naquele dia raro de tanto calor. Numa outra fonte. Numa outra vida. Quando regressava impaciente ao cheiro familiar do teu carro e tu me abrias a porta. Gostava daquele abraço sem palavras à despedida. E do sorriso que se seguia sem demora. Gostava dos teus olhos cor de céu a olharem fundo para mim e das mãos firmes que me seguravam cada ombro nos momentos agitados. Gostava mais quando sonhava contigo – ou até mesmo quando me calava por não saber que dizer. Porque nunca sei que dizer. Gostava do meu sorriso largo na época dos segredos. Agora sobra-me sempre este sufoco: a alegria escasseia-me porque não estás. Mas continuas a pairar no silêncio do meu corpo. E é só.

[Vanessa Sousa]

^^
Às vezes as crianças gritam sobre flores isoladas dentro delas, e então ficam com uma cor absorta encravada na garganta.
As crianças não falam quando estão dentro do silêncio.

[Herberto Hélder]

^^

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Movimentos Vivos


Com um dedo, toco a borda da tua boca, desenhando-a como se saísse da minha mão, como se a tua boca se entreabrisse pela primeira vez, e basta-me fechar os olhos para tudo desfazer e começar de novo, faço nascer outra vez a boca que desejo, a boca que a minha mão define e desenha na tua cara, uma boca escolhida entre todas as bocas, escolhida por mim com soberana liberdade para desenhá-la com a minha mão na tua cara e que, por um acaso que não procuro compreender, coincide exactamente com a tua boca, que sorri por baixo da que a minha mão te desenha.
Olhas-me, de perto me olhas, cada vez mais de perto, e então brincamos aos ciclopes, olhando-nos cada vez mais de perto. Os olhos agigantam-se, aproximam-se entre si, sobrepõem-se, e os ciclopes olham-se, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam sem vontade, mordendo-se com os lábios, quase não apoiando a língua nos dentes, brincando nos seus espaços onde um ar pesado vai e vem com um perfume velho e um silêncio. Então as minhas mãos tentam fundir-se no teu cabelo, acariciar lentamente as profundezas do teu cabelo enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de uma fragrância obscura.
E se nos mordemos a dor é doce, e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo do fôlego, essa morte instantânea é bela. E há apenas uma saliva e apenas um sabor a fruta madura, e eu sinto-te tremer em mim como a lua na água.

[Julio Cortázar]
^^

terça-feira, 18 de agosto de 2009

*(Aguardo Retorno)

Claro que se tem medo que alguém nos entre pelos olhos.
Mas podes arder. Para a tua temperatura sou mercúrio,
linhas de mão, lábio e sopro. Atravesso-te porque me atravessas
e onde somos corsários rendemo-nos ao encanto da
devolução.

Tu e eu à porta de um lugar que vai fechar tudo numa árvore.
Aqui onde os minutos são a rua em que nos sentamos toda
a tarde à espera do silêncio, onde o teu corpo pesa a
medida exacta do meu desejo.

Sou um animal. Necessito diariamente da transfusão de uma
enorme quantidade de calor. Tocas-me?

[Vasco Gato]



^^

Amor Feliz

Ficamos um instante, só um instante, defronte um do outro, sem sabermos o que dizer.

Já também ao telefone, de quando em quando, nos tinha acontecido o mesmo. Ouvíamos então, descompassadas, as nossas respirações, adivinhando que elas tentavam – em que ponto do espaço? – afinar uma pela outra a respectiva cadência. Depois, em torrente, frases que nem chegávamos a terminar:

- Pareceu-me tão horrível se... Também a mim. Eu é que não... E só de pensar que... que podia acontecer... que nunca mais... Foi justamente o que pensei, mas... Nem chego a perceber como fui capaz de... Não diga isso. O importante é que...

Rimos, de repente, tão ridículos nos estávamos a sentir.

E quando é que...

Finalmente, as únicas frases completas:

Quando é que nos podemos ver?

Hoje. Pode ser hoje. Pode ser agora. Ia mesmo agora para Lisboa. Emendou: A Lisboa.

Pego-lhe nas mãos, puxo-a ligeiramente para mim. Com os sapatos que hoje traz calçados, é um tudo-nada mais alta do que eu: mas ficamos logo com os rostos encostados. A seguir, afasta-se; e murmura, olhando-me bem de frente:

Não era por isto. Não, não era por isto. Eu acho que não era por isto. Depois, cavando-se-lhe um vincozinho de dúvida entre as sobrancelhas: É como se diz? Ou para isto?

Depende. Tanto faz.

E já nos estamos a beijar. E não só com as bocas: com os dedos, também, que vão de leve modelando o volume das testas, o relevo das pálpebras, o contorno das orelhas, a espessura dos cabelos. É como se fôssemos afinal uma cega e um cego, de há muito conhecidos, de há muito separados, que ainda mal acreditam no milagre de se reencontrarem. E cegos, às cegas, mas bordões um do outro, mutuamente nos arrastamos, ou nos deixamos conduzir, desde a entrada até aí, aos pés do divã.

Então, sem se curvar, socorrendo-se apenas da pressão de cada um dos calcanhares sobre o outro, liberta-se de ambos os sapatos. Agora, sim, estamos exactamente da mesma altura.

Não era por isto. Não era só por isto. Tenho tanto medo de ser para si... De ser para si uma... Hesitou na palavra; depois, arriscou-a, pronunciando-lhe o p: Uma decepção.

Os olhos, imensos, exprimiam simultaneamente um terror infantil, uma adulta curiosidade.

Vai ter que... que me aprender tudo. Corrigiu: Que me ensinar tudo.

Dentro de instantes estávamos nus. Não tinha sido necessária grande intervenção da minha parte para que tombassem os primeiros obstáculos, para que voassem os últimos véus.


[David Mourão-Ferreira]

^^
Leszek Kowalski
Apago cigarro após cigarro,
a chávena ainda quente do café,
e o corpo todo à escuta.
No sono entrevi o teu olhar e
ao visitar-te, excessivamente te beijei.
Entre temor, entre comas, os lugares
que hábito são apenas pontos
de esquecimento e fuga.

Tenho medo, por vezes, de estar em casa,
outras, de sair, não sei o que me persegue
ou persigo, movo-me apenas
por entre odores, escombros, e aflita
com perigos indefiníveis.

[Helga moreira]

^^

sábado, 15 de agosto de 2009

Ps.: Nota

Interrompo a programação habitual para compromissos emocionais...
.
.
.
Até breve!
Danni
^^

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

[?]

Como posso eu amar-te, se nem sei
como à porta te chamam os vizinhos,
nem visitei a rua onde nasceste,
nem a tua memória confessei.
(?)
Que vaga rima me permite agora
desenhar-te de rosto e corpo inteiro
se só na tua pele é verdadeiro
o lume que na língua se demora...
(?)
Não deixes que te enganem os recados
na infernal gazeta publicados
que te dão já por escultura minha;
nocturno frankenstein, em vão soprei
trombas de criação, e foste tu
quem me criou a mim quando quiseste.

[António Franco Alexandre]

^^

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Pré- Escrita

Esta Saudade de te chamar pelo nome
Este receio de te chamar pelo nome

Esta saudade de manter a palavra
Este receio de apenas manter a palavra

Esta saudade de uma vida que não dê em poema
Este receio de um poema que antecipe a vida.

[Ulla Hahn]

^^

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Tréguas

Este poema é para ti.
é uma oferta de tréguas
dizendo que
nada no teu coração negro
me poderá assustar.

Olhei tempo demais
para o meu próprio coração.
Obrigada pela dádiva
das tuas incertezas.

[Eunice de Souza]

^^

terça-feira, 11 de agosto de 2009

*Chuva que te Lava os Olhos


Os olhos cheios de escuridão. Olhos cegos de silêncio. Olhos de quem grita calado. O peso enorme arrastado atrás de cada palavra. Os passos zangados de quem tem tudo a dizer e a tristeza colada à cabeça. Lágrimas cobertas de chuva. E um Bom Dia, menina. E depois todas as lágrimas contidas num sorriso. Não me lembro das caixas de cartão (cama improvisada ao relento), não me lembro dos cobertores encharcados (castanhos e friorentos), nem sequer das poucas moedas (em forma de esmola) caídas no chão molhado como uma bênção qualquer. Lembro-me que, por fim, já não havia silêncio entre nós. Alguma coisa o tinha levado dali. Talvez o Bom Dia, menina. E o sorriso. Sim, aquele sorriso de quem já não tem mais nada a perder.
O sol espreitou, depois foi embora, e a vergonha escondida nos olhos do silêncio viajou para outro lugar. Ouvi cada suspiro teu, cada passo apressado dos senhores sem tempo e cada tentativa perdida para roubares outro sorriso a quem passasse por ti. Ouvi muitos Bom Dia sussurrados e nenhuma resposta feliz. Vi todos os olhos cegos, falsamente despercebidos, ocupados por preocupações inquietas e fúteis. Na verdade, gostava de ajudar-te a levantar. Gostava que ficasses com os olhos cheios de céu e de mar. Porque podíamos ser irmãos. E eu podia sentir-me pequena e protegida outra vez. E pedir abraços, muitos abraços (daqueles que também precisas), e cócegas e segredos e queixas e gargalhadas cúmplices. Porque o teu céu aqui, no meio deste chão, a apontar-te para o fundo da alma, é menos azul que o meu. Quase sem sonhos. O céu aqui não tem telhado de cores. Só árvores antigas que servem de abrigo ao corpo cansado da falta de oportunidades. Debaixo dele será que és feliz? Bom Dia, menina. E tu, da minha idade, quase aposto. E eu, menina, pelo menos para ti.
Apetece-me agarrar-te a mão. E perguntar Como estás? Não sou menina. (Serei?) Reconheço-te os olhos doces, doridos e livres. Sim, talvez sejamos todos meninos perdidos (por algum capricho ou força do destino) na encruzilhada das nossas vidas. E quem nunca se sentiu assim? Até os tiranos dos relógios e das obrigações, quase que aposto. (Gostas de apostas?)
Queria saber abraçar-te, queria que deixasses de tremer ao frio, queria aconchegar-te os sonhos à mesinha de cabeceira. E queria parar o tempo num momento assim. Dar-te a esperança – só porque alguém (algum dia) ta tirou. Quando foi isso? Queria ter a certeza de que poderás chegar a casa, depois de mais um dia de loucos (exactamente como hoje – com chuva e vento à mistura) e vestir um pijama lavado para dormires descansado. Num tecto teu. Sem olhares reprovadores que acusam subtilmente os erros que te trouxeram até aqui. Sem medo e sem vergonha de seres tu. E que possas dizer vezes sem conta Bom Dia, menina. E que, de facto, te respondam com vontade. E te desejem um futuro melhor. Pelo menos igual ao deles.
Porque eu tenho o teu sorriso na cabeça. Porque me roubaste os olhos e me mostraste os teus, cheios de palavras por dizer. Como os meus. Sabes, todos olham para mim em silêncio e ninguém respira. A escuridão é gigante. E dentro dos teus ouvidos (quase aposto) também descem soluços sem nome. E fechas os olhos, escondes-te debaixo desses cobertores sujos e esqueces que o mundo é sempre o mesmo. Pesado porque só gira para alguns. Pesado para quem se fez sozinho. E os outros passam. Passam e falam e tropeçam em ti sem sequer dar conta. Calcam-te o orgulho e não dizem nada. Desculpe, não o vi de vez em quando. Raramente. Não abrem a boca. Só os olhos cobertos de escuridão a apontar para ti em silêncio. Nem uma palavra bonita. Nem um Bom Dia igual ao teu. E tu ouves o que não dizem com a paz que têm as árvores que te servem de tecto. E fazes de conta que não vês, que não sentes esse desprezo vulgar a roer-te os ossos. Para todas as coisas é preciso fazer de conta. Assim, faz de conta comigo. Faz de conta que te dei mesmo a mão quando me aproximei. Deixei-te um Bom Dia. A minha moeda foi o meu abraço. Bom Dia, menino. Porque no fundo também és como eu, até aposto. E amanhã (de manhã cedo) volto para mais um Olá. Mesmo com chuva. Daquela chuva que só te lava os olhos. Daquela chuva que não te deixa triste.

[Vanessa Sousa]

^^

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Falando com a Liberdade:

Photobucket
Alô!?
Alô, Liberdade?!
Quem é?
Sou eu, Idecisão.
Diga.
Tô ligando pra saber: será que eu já posso enlouquecer ou devo apenas sorrir?
(no outro lado da linha: silêncio absoluto)
Alô!... Tem alguém ai?? Alô, Liberdade!... Tá me ouvindo?!
(tum, tum, tum, tum...)


^^

História de Amor


A pena para a deserção
É morte por um pelotão de execução

Poupo-te esse trabalho

junto envio uma pistola.
Carregada com apenas uma bala.
Aperta o gatilho uma vez.
Talvez nada aconteça.

Mas aperta uma segunda vez…
uma terceira…
Vês

Eu sei os jogos que tu gostas...

[Jim Carroll]


^^

domingo, 9 de agosto de 2009

Algumas mulheres...

Algumas mulheres casam-se com casas.
É outro tipo de pele, tem um coração,
uma boca, um fígado e movimento de entranhas.
As paredes são permanentes e cor-de-rosa.
Vejam como ela está ajoelhada o dia todo,
lavando-se fielmente de alto a baixo
Os homens entram à força, atraídos como Jonas
para as suas mães carnudas.
Uma mulher é a sua própria mãe
e isso é o mais importante.

[Anne Sexton]

^^

Haunted*






Long lost words whisper slowly to me
Still can't find what keeps me here
When all this time I've been so hollow inside
I know you're still there

Watching me, wanting me

I can feel you hold me down
Fearing you, loving you
Hunting you I can smell you - alive
Your heart pounding in my head...

[Compositor: Amy Lee]

^^

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

F-a-t-a-L


Não fale de amor
Não diga bobagem
Não prometa o que não vai cumprir
.
Eu já sei de cor
Toda essa viagem
E sei que não é fácil decidir
.
Mas seja o que for
Tome cuidado
Aparentemente não faz mal
.
Brincar de amor
Mas é complicado
E qualquer erro pode ser fatal
.
Não fale demais
Não se desespere
Tudo tem a hora e o lugar
.
Não volte atrás
Agora, espere
Procure aprender como se faz...
.
.

[Composição: Paulo Ricardo]

^^