Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 2 de agosto de 2009




Vi por momentos, num plano desfocado,
a respiração condensada pelo frio
tão frágil como cada gesto que me passa em frente dos olhos

Entre a pausa e o imprevisto
por vezes não passa de um cigarro esquecido no cinzeiro
nas horas em que as mãos insistem em ter frio

Fotografia perfeita dos restos de um domingo
que se parte em recortes de tédio...


[eue]

^^

sábado, 1 de agosto de 2009

P-ą-ℓ-ą-v-я-ą-ร

Tem cuidado com as pąℓąvяąร,
mesmo com as milagrosas,
Pelas milagrosas fazemos o nosso melhor,
por vezes elas enxameiam como insectos
e deixam não uma picada mas um beijo.
Podem ser tão boas como dedos.
Podem ser tão de confiança como a rocha
onde espetas o rabo.
E podem ser malmequeres ou feridas.

Mesmo assim, estou apaixonada pelas pąℓąvяąร.
São pombas a cair do tecto.
São seis laranjas sagradas sentadas no meu colo.
São as árvores, as pernas do verão
e o sol, a sua cara impetuosa.

Mas muitas vezes elas falham-me.
Há tanto que quero dizer,
tantas histórias, imagens, provérbios, etc
Mas as pąℓąvяąร não são suficientemente boas,
as erradas beijam-me.
Por vezes eu voo como uma águia
Mas com as asas duma carriça.

Mas eu tento ter cuidado
e ser cuidadosa com elas.
Pąℓąvяąร e ovos devem ser tratados com cuidado.
Uma vez partidos são coisas impossíveis
de reparar.


[Anne Sexton]



^^

A Cruz e a Espada


Havia um tempo em que eu vivia
Um sentimento quase infantil
Havia o medo e a timidez
Todo um lado que você nunca viu

E agora eu vejo aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo e o meu desejo
Se perdeu de mim

E agora eu ando correndo tanto
Procurando aquele novo lugar
Aquela festa
O que me resta
Encontrar alguém legal pra ficar

E agora eu vejo
Aquele beijo
Era mesmo o fim
Era o começo e o meu desejo
Se e perdeu de mim

E agora é tarde
Acordo tarde
Do meu lado alguém
Que eu nem conhecia

Outra criança adulterada
Pelos anos que a pintura escondia

Agora eu vejo
Aquele beijo era o fim, o fim
Era o começo e o meu desejo
Se perdeu de mim.


[Composição: Luiz Schiavon / Paulo Ricardo]

^^

Fábula: Cosmogonia

Katia Chausheva
Os insetos noturnos em torno da luz
As estrelas em torno das estrelas
Os meus pensamentos em torno de ti
Eu em torno do nada
O nada em torno de mim

Os meus pensamentos em torno de si mesmos
Tu em torno dos meus pensamentos
O nada em torno de ti
Os insetos noturnos em torno do nada
As estrelas em torno de mim

Eu em torno dos meus pensamentos
As estrelas em torno de ti
Os insetos noturnos em torno das estrelas
A luz em torno dos insetos noturnos
O nada em torno da luz

As estrelas em torno de si mesmas
Os insetos noturnos em torno de si-mesmos
Tu em torno de ti mesma
Eu em torno de mim mesmo
O entorno em torno do entorno

[Gyorgy Somlys]


^^

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Somos Quem Podemos Ser

DeLone [ Happy ]
Um dia me disseram
Que as nuvens
Não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos
Às vezes erram a direção

E tudo ficou tão claro
Um intervalo na escuridão
Uma estrela de brilho raro
Um disparo para um coração...

A vida imita o vídeo
Garotos inventam
Um novo inglês
Vivendo num país sedento
Um momento de embriaguez...

Somos quem podemos ser...
Sonhos que podemos ter...

Um dia me disseram
Quem eram os donos
Da situação
Sem querer eles me deram
As chaves que abrem
Essa prisão

E tudo ficou tão claro
O que era raro, ficou comum
Como um dia depois do outro
Como um dia, um dia comum...
(...)

Um dia me disseram
Que as nuvens
Não eram de algodão
Sem querer eles me deram as chaves que abrem essa prisão:

Quem ocupa o trono
Tem culpa
Quem oculta o crime
Também
Quem duvida da vida
Tem culpa
Quem evita a dúvida
Também tem...

Somos quem podemos ser...
Sonhos que podemos ter...

[Composição: Humberto Gessinger]


^^

terça-feira, 28 de julho de 2009

Medida do Tempo

Ausência, medida do tempo.
É por [ele] que meço este vazio
estas horas sem bússula, a solidão...

[António Arnaut, Do litoral do teu corpo, Antologia do amor]


^^

Cadê você?...

Sabia que... sobreviria uma sensação de ser estranha no teu mundo. Temendo o rasgão irreparável, preferi a revelação... da minha essência. E a ausência pesou-me o dia inteiro...
Sabia que teria de partir...
Desvendei sem pudor a história, entre carinhos para lá do tempo oferecido...
... e o medo instalou-se. Sabia da paixão, das mágoas e do sentir…

E sei que me recuso a perder-te..., ainda que te instales à força no silêncio.

[Marta, no Citadel]


^^

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Os pedaços de noite colados ao sorriso
são sons a olhar para dentro.

Sensação de respirar ausências...

Quando as palavras te morrem nos lábios
fica um hálito frio de poemas a ruir
na distância de um percurso traçado a pó.

[eue]

Estende a tua mão e toca-me.
toca-me a mão e o coração.

Como o fizeste um dia, [naquele] dia.

^^

domingo, 26 de julho de 2009

Fritz Fabert
Enquanto te espero
derretem-se as horas
...

E eu sem leme sem ti para vencer este monstro
este quarto este ocidente isolado.


[Isabel Mendes Ferreira, Um corpo (sub)-exposto]


^^
Loredana Guinicelli

...nenhum som me importa
afora o som do teu nome que eu adoro.
E não me lançarei no abismo,
e não beberei veneno,
e não poderei apertar na têmpora o gatilho.
Afora
o teu olhar
nenhuma lâmina me atrai com seu brilho.

[Vladimir Maiakóvski]


^^

sábado, 25 de julho de 2009

Não me Fechem as Portas

FRU1T

Não me fechem as portas, orgulhosas
Bibliotecas,
Pois justamente o que estava faltando
Em tuas prateleiras apinhadas,
É o que venho trazer
- mal acabando de sair da guerra,
um livro escrevi:
pelas palavras do meu livro, nada;
pelas intenções, tudo !
Um livro à margem,
Sem nada a ver com os restantes,
E que não pode ser sentido só
Com o intelecto.
Vocês, porém, com seus silêncios latentes,
A cada página hão de estremecer
Maravilhadas.

[Walt Whitman]


^^

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Operação Sorriso

ONG Sorriso faz um um trabalho super bonito, no mundo todo, e estão a caminho do Brasil, nos dias 06 e 07 de agosto, no hospital do Fundão - UFRJ - fazendo uma triagem para cirurgias gratuitas em crianças.
Repassem!! De repente, a gente consegue ajudar alguém!
Maiores informações: www.operacaosorriso.org.br


^^

Horizonte

Havia uma menina sentada
junto a uma janela

Ela vestia uma velha camisa de dormir
larga
e tinha cabelos castanhos lisos
longos

Tinha uma caixa de plástico vermelha
no colo
e olhava o horizonte cinzento
ao longe

Talvez vivesse numa ilha
e talvez brincasse junto ao mar
nas tardes de verão

Ela estava sentada
não sei bem se num banquinho de madeira
ou se num rochedo do tamanho do mundo

Às vezes
os seus olhos pousavam suavemente
na caixa vermelha
e os seus pequenos dedos
imprimiam na superfície do plástico
antigas histórias
de gente que não mais voltara do mar

A casa era do tamanho
de uma janela que dá para o mundo

E a madeira cheirava a madeira
e alguma coisa nela me dizia
que outrora fora barcos

Nenhum entardecer
se assemelhava ao que habitava
aquela janela

E a menina sabia-o
não sei bem como

Os seus olhos cinzentos
olhavam o horizonte
com a paciência
de quem olha os horizontes

E por vezes
esticava o pescoço
para ver mais longe

Ela descobrira sozinha
o significado da palavra longe

O tempo era
verdadeiramente
algo indistinto

E os cabelos
acariciados pela tempestade
gritavam
aos olhos mais atentos
a palavra eternidade

Sempre que abria as mãos
caíam ao chão
punhados de terra
ainda misturada com raízes

E no seu colo pousava
aquela caixa vermelha de plástico liso
como uma mancha de sangue
no branco sujo
da camisa de dormir

De vez em quando
cantava
melodias tristes
que ela ouvira
certamente
da boca dos mortos
que escolheram aquele lugar
para olhar o horizonte

Um dia
alguém vindo do mar
dissera-lhe ao ouvido
a palavra infinito
e ela rira

Ria sempre
que alguém dizia
infinito

Desde então
passava noites inteiras
na sua janela

Nenhuma palavra
se lhe ouvia
mas ria-se às vezes
como se riem as crianças

Há quem diga
que lhe morrera o mundo
e que perdera o tempo
numa noite de tempestade

Outros dizem que aprendeu a falar com os mortos
e que passeia no fundo dos mares

Que chama pelo respectivo nome cada estrela
e que tem uma música para cada pôr-do-sol

Que guarda na pequena caixa de plástico
todos os sonhos dos homens

Eu sei que ela tem uma janela nos olhos

Imagino que corra na praia
e que caminhe sem dificuldades
na estrada do horizonte

Julgo que é sozinha desde sempre
e que não gosta de andar com guarda-chuva

Provavelmente,
conhece mesmo o fundo dos mares

E nem sequer me custa acreditar que
se pudesse ver o que esconde
aquela caixa de plástico
ela me pareceria vazia

[José Rui Teixeira]


^^

*


..."por ti encheria o quarto de rosas
se ontem tivesses vindo"...

[Isabel Mendes Ferreira, A pele]
^^

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Num só dia...

Fix Me
Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia. Tudo o que o amor viveu se chora num só dia.

[*Carlos Nejar]

Obs.: Pra nunca mais esquecer....

^^

Chão de Giz

Eu desço dessa solidão
Disparo coisas sobre
Um Chão de Giz
Há meros devaneios tolos
A me torturar
Fotografias recortadas
Em jornais de folhas
Amiúde!

Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes
Eu vou te jogar
Num pano de guardar confetes...

Disparo balas de canhão
É inútil, pois existe
Um grão-vizir
Há tantas violetas velhas
Sem um colibri
Queria usar quem sabe
Uma camisa de força
Ou de vênus
Mas não vou gozar de nós
Apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom...

Agora pego
Um caminhão na lona
Vou a nocaute outra vez
Prá sempre fui acorrentado
No seu calcanhar
Meus vinte anos de "boy"
That's over, baby!
Freud explica...

Não vou me sujar
Fumando apenas um cigarro
Nem vou lhe beijar
Gastando assim o meu batom...

Quanto ao pano dos confetes
Já passou meu carnaval
E isso explica porque o sexo
É assunto popular...

No mais estou indo embora!

[Composição: Zé Ramalho]
^^

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Garganta de Vento


E penso demais em viver
e penso demais nas pessoas
para estar sempre contente
de só escrever vento.
.
.
[Boris Vian]

^^

terça-feira, 21 de julho de 2009

Nem Sempre aos Poetas Apetecem as Estrelas

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
De formigas assexuadas negras nítidas e rápidas
Com olhos fantásticos colhendo miríades de imagens
E inúteis os olhos das formigas
Desenhadas como um oito ou como um sinal de infinito
Muitas corteses atarefadas prejudiciais
Clericais sociais subtílissimas pequenas
Formigando no chão
No chão onde florescem os cardos e as cores
No chão onde assenta a carne ansiosa das mulheres
E os joelhos dos homens
No chão onde ecoa a voz repugnante dos pregadores
E a voz das juras e dos negócios
No chão onde cai o suor dos aflitos
E o suor dos amorosos
E o suor dos operários
E o suor dos gordos
No chão onde andam os pés e estalam os escarros
No chão das guerras e das famílias correctas
E dos vasadouros e dos jardins
E do pus verde dos mendigos
E das chagas rendosas e das rendas custosas
E das doidas furiosas
E das rosas
E das airosas e das feias e dos bispos e dos triunfadores
E dos cretinos e das virgens
E dos remédios e dos males
E das vertigens e dos abismos
E das cismas
E dos sismos
E dos vermes do ventre e das sonecas
E dos ludíbrios e dos hábeis
E da força dos garantidos
E das sementes

Apetece-me não sei porquê uma história de formigas
A grande invasão das formigas multiplicando-se
Cobrindo a face da terra e a dos homens e das mulheres
Entrando-lhes pelos narizes para roerem os olhos por dentro
E fazendo bulir as coisas mortas e as vivas
Com o espantoso treme-luz irisado e magnífico
Dos seus reflexos negros e a substituírem todas as cores

Na grande montanha uma mulher enorme
Nua e infame
Tem as pernas escachadas sob as pregas do ventre
E sob as pregas do ventre seu sexo negro
É o grande formigueiro do mundo

Vive?

As formigas esvaziaram-na da enxúndia e substituíram-na
Só lhe deixaram a pele por fora para ainda haver branco visível
E como pêlos ampliados excitados e crescentes
Cobriram e desceram o vale
Enroscaram-se nas árvores
Desinquietaram a placidez das pedras
Forraram as aldeias e as cidades os animais e os homens

Que é do ciúme e das angústias?
Que é do amor e das palavras?
Que é das carícias e dos dentes?
Que é das renúncias e dos crimes?
Que é das tentações
Das promessas
Dos desejos
Dos apetites
Das fúrias?
Que é de todas as músicas?

O sol inútil cobre um mar negrejante onde os reflexos são como os olhos das moscas
E um silêncio tremendo finge de paz no mundo
Uma paz de silêncio com formigas

Formigas
Formigas
Formigas
Formigas
Formigas

[António Pedro]


^^

O inventário do adeus

Tenho um maço de cartas,
tenho um maço de memórias.
Eu podia cortar os olhos a ambas.
Eu podia usa-las como um avental de retalhos.
Podia mete-las na maquina de lavar, na de secar,
se calhar parte da dor desapareceria como sujidade?
Se calhar deitando-a pelo triturador eu poderia triturar a perda.
Alem disso – que pechincha – sem telefonemas caros.
sem viagens demoradas em aviões no nevoeiro.
Sem o riso maníaco ou bênção de um padre fora-do-baralho.
Esse padre provavelmente ainda está a flutuar numa almofada de nevoeiro.
Abençoando-nos, abençoando-nos.

Tenho que te abençoar, perdido,
aqui sentada com a minha alma trapalhona?
O tempo de propaganda acabou.
Sento-me aqui no espigão da verdade.
Ninguém para odiar senão o peixe esguio da memória
que desliza para dentro e para fora do meu cérebro
Ninguém para odiar senão o toque agudo da minha camisa de dormir
roçando o meu corpo como uma luz que se apagou.
Lembra-me o beijo que inventámos, línguas como poemas,
encontrando-se, regressando, convidando, provocando uma febre de necessidade.
Risos, mapas, cassetes, toque a cantar o seu caminho –
tudo para ser partido e posto num cofre estanque
Os mortos monótonos entopem-me e há apenas
preto ornado a preto que verte do cofre.
Preciso de o estripar e depois colocar o coração, as pernas,
de dois que foram um sobre um grande monte de lenha
e acendo-o, como eu já fui acesa e deixo-o rodopiar
em chamas chegando ao céu
Fazendo-o perigoso com o seu vermelho.

[Anne Sexton]


^^

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Sopro

"Implorando o sopro do ser divino,
o sopro que dá a vida,
o sopro de muita idade,
o sopro das águas,
o sopro das sementes,
o sopro da fecundidade,
o sopor da abundância,
o sopro do poder,
o sopro da força,
o sopro de todas as espécies de sopro
pedindo o seu sopro,
inspirando o seu sopro no calor do meu corpo,
incorporo seu sopro
para que vivas sempre luminosamente."

Poema ameríndio
(mudados para português por Herberto Helder)