Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sábado, 11 de julho de 2009


"Depois de te dizer que a melancolia já não se usa
fumo um cigarro e invento um abandono

Foram várias as vezes que escolhi a tua presença
para que o que escrevo tivesse corpo
(escrevo) gestos num livro de quedas
por entre a paisagem doméstica

Cheia de vazios regresso ao sono
onde deixei os pássaros."

[Maria Sousa]

..."Só por hoje não quero mais te ver
Só por hoje não vou tomar minha dose de você
Cansei de chorar feridas que não se fecham não se curam
E esta abstinência uma hora vai passar"...

^^

Na Sua Estante



"Te vejo errando e isso não é pecado,
Exceto quando faz outra pessoa sangrar
Te vejo sonhando e isso dá medo
Perdido num mundo que não dá pra entrar
Você está saindo da minha vida
E parece que vai demorar
Se não souber voltar ao menos mande notícias
Cê acha que eu sou louca
Mas tudo vai se encaixar

Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia

E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu

Você tá sempre indo e vindo, tudo bem
Dessa vez eu já vesti minha armadura
E mesmo que nada funcione
Eu estarei de pé, de queixo erguido
Depois você me vê vermelha e acha graça
Mas eu não ficaria bem na sua estante

Tô aproveitando cada segundo
Antes que isso aqui vire uma tragédia

E não adianta nem me procurar
Em outros timbres, outros risos
Eu estava aqui o tempo todo
Só você não viu"


(...)

[Pitty]


^^

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Photobucket
11.

"Vinte e oito moços tomando banho na praia,
vinte e oito moços e todos tão amigáveis;
vinte e oito anos de uma vida de mulher
e todos tão solitários.

Ela é a dona da bonita casa
na subida da encosta,
e bem vestida e simpática ela se esconde
por trás das venezianas da janela.

Qual o moço de que ela gosta mais?
Ah o mais caseiro de todos é para
ela o mais bonito.

Aonde é que vai assim, senhora? Estou só vendo:
vejo você se espalhando naquelas águas,
ainda que fique aí dentro do quarto
parada feito um pau.

Dançando e rindo vem pela linha da praia
o banhista número vinte e nove;
os outros não a viram,
mas ela bem que os viu e os adorou.

As barbas dos moços resplandeciam
de gotas d'água,
e a lhes caírem das compridas cabeleiras
pequenos fios d'água
lhes escorriam pelos corpos todos.

Uma invisível mão
também passava pelos corpos deles,
descendo trémula das frontes aos quadris.

Os moços nadam de costas,
claras barrigas ao sol,
sem indagarem quem estende a mão para eles:
não sabem eles quem enche o peito e desiste,
as sobrancelhas curvadas e vacilantes,
nem lhes ocorre que estejam salgando alguém
com a água que respingam."

[Walt Whitman]

^^


"A mulher é uma imagem de silêncio
a sua vocação é ser paisagem

por vezes sente-se uma árvore cortada
e veste o céu de madrugada

num corpo a corpo com a terra
os dias são vento e chuva -
regresso às margens de Outono

e em pequenos gestos cria raízes no vento."


[eue]
^^

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Um Certo Alguém

Maria Flores

Recadinho:

"Quis evitar teus olhos
Mas não pude reagir
Fico à vontade então...
Acho que é bobagem
A mania de fingir
Negando a intenção

E quando um certo alguém
Cruzou o teu caminho
E te mudou a direção

Chego a ficar sem jeito
Mas não deixo de seguir
A tua aparição

E quando um certo alguém
Desperta o sentimento
É melhor não resistir
E se entregar

Me dê a mão
Vem ser a minha estrela
Complicação
Tão fácil de entender
Vamos dançar
Luzir a madrugada
Inspiração
Pra tudo que eu viver"

(...)




[Composição: Lulu Santos / Ronaldo Bastos]

^^


"Não sei quem disse que vivemos de modo semelhante ao modo como ouvimos rádio: à espera da próxima canção, a canção que nos mude um pouco, se não a vida, a manhã.

Mas a verdade é que esta manhã eu não esperava nada."

[Enrique Vila-Matas]


^^

Liberdade


"Desligada
O vento morde meus cabelos sem medo:
Tenho todas as idades."


[Olga Savary]
^^

As lágrimas


As lágrimas
são locais de olhar por dentro
e enquanto espero que os verbos
sequem
poucas palavras me restam para dizer
que só a sombra tem corpo
e em frases soltas
crescem-me pássaros no reverso dos olhos.


[eue]
^^

quarta-feira, 8 de julho de 2009

"Andar não era suficientemente rápido, por isso corremos, correr não era suficientemente rápido, por isso galopamos. Galopar não era suficientemente rápido, por isso velejamos, velejar não era suficientemente rápido por isso rolamos felizes por longos carris de metal. Os longos carris de metal não eram suficientemente rápidos, por isso conduzimos. Conduzir não era suficientemente rápido, por isso voamos. Voar não é suficientemente rápido, não para nós. Queremos lá chegar depressa. Chegar onde? A qualquer sitio onde não estejamos.
Costumam dizer que uma alma humana só pode ir tão rápido quanto um homem pode andar. Nesse caso, onde estão as almas todas? Deixadas para trás. Vagueiam aqui e ali, lentamente, luzes sombrias, tremeluzentes, de noite nos pântanos, à nossa procura, mas não são suficientemente rápidas, não para nós, estamos muito à frente delas, nunca nos apanharão.
É por isso que nós podemos ir tão depressa? As nossas almas não nos pesam."


[Margaret Atwood]


^^

O que resta...

tired... what is next... i dont know...

Se calhar há na distância a confirmação
de que vamos acumulando vazios

não tanto pelo que resta
mas sobretudo pela maneira
como o castelo de cartas
parece vacilar

apenas isso um tremor de paredes vazias
num tempo que não sei nomear

não é dia de fechar janelas
o papel amarelece e descola

e no fim resta o que acontece nas pausas...


[eue]


^^

A promessa de uma história a que possa chamar minha.


Vesti-me de preto. E os meus olhos, como duas janelas, também. O plano? Esquecer o calafrio dos silêncios súbitos e doridos. Arejar a casa; limpar as memórias dos momentos mais tristes. Vasculhei um armário cheio de coisas escuras e antigas, tirei as mais improváveis – um cheiro a terra molhada [único vício destes olhos lacrimejantes] e um sentimento vadio. O passado surge-nos sempre como um fantasma atento em tons melancólicos. Talvez quando pensamos demais. Mas o sol incide cintilante sobre mim. Culpa minha. Fecho os olhos e devolvo-lhe esta vontade efémera de querer agarrar as covinhas fundas de um sorriso. Paredes brancas, inundadas de luz, e o som claro e firme do relógio: o quarto ainda conserva os meus segredos? De repente, o armário fechou-se. Em redor, o ar errante a chamar a atenção. Procuro incessantemente qualquer coisa: a promessa de uma história a que possa chamar minha. Não mais pessoas como bonecos recortados em papel. Porque tudo pode mudar (n)um dia, dizem. Haja coragem.
[Vanessa Sousa]

^^

terça-feira, 7 de julho de 2009



"No lugar onde num mapa se assinala um final feliz
Abrimos imagens como quem faz a cronologia
do lado esquerdo do corpo

O silêncio é um muro num tempo de aceitar ventos...

Sob a pele espera-se a existência subterrânea da respiração
assim, falar de ausência é apanhar vazios
até que as palavras sejam o movimento
onde vamos nascendo cedo demais."


[Maria Sousa]

^^

Indecisão

Leves sulcos na dureza da pele. Talvez palavras.

Sob as pedras negras jazem palavras. Possuem a intensidade da luz de uma estrela
morta há milhões de anos.

Fica sempre qualquer coisa por dizer. Por fazer. E nunca sei a diferença entre uma
outra indecisão.



[Carlos Alberto Machado]

^^

[?]


"Tu corres a meu lado
na direcção contrária.
Qual de nós irá chegar
primeiro à solidão?"


[José Miguel Silva]

^^

[...]


"Há muito tempo,... imaginei a tua vinda.
... quando me chamaste pela primeira vez,... e me disseste: prepara o caminho para o meu rosto. Abre-te de par em par, como se fosses uma enorme folha de uma planta carnívora, distende-te todo como um animal dócil e devorador...
Assustas-me por me quereres assim, interrompes um pacto antigo que fiz com esta vida cómoda: a de poder sobreviver em troca de um pouco de ternura, das refeições às horas - na certeza de estar construindo a obra que esperam de mim. Tu vens de súbito tratar-me como
um rapaz, dizer-me que tudo começa agora, que deixaste crescer os cabelos para mim,
como pudeste saber que era eu a pessoa certa? E sê-lo-ei?...
Como pudeste adivinhar que atravessei desertos?
Não receias a minha voracidade, este apetite por te sugar toda?
Eu sei - estou aqui porque tu me insinuaste que querias possuir o meu olhar, com uma determinação clandestina"...


[Vítor Oliveira Jorge, As arquitecturas sazonais]


^^

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Minhas Palavras



"As minhas palavras
despi-as
até elas me ficarem
respirando nuas
debaixo da língua.

Volto-as
cuspo-as
sugo-as
sopro-as

estico-as
dos pés à cabeça
estendo-as

Faço-as grandes
como uma nave lunar
e pequenas como uma criança.
Procuro em toda a parte a linha
que me diga
onde me posso encontrar."

[Ulla Hahn]


^^

domingo, 5 de julho de 2009

Um Outro Nascimento

Helen Breznik

"Todo o meu ser é um cântico negro
que te levará
fazendo-te durar
ao despertar dos crescimentos e florescimentos eternos
neste cântico eu suspirei tu suspiraste
neste cântico
eu acrescentei-te à árvore à água ao fogo.

A vida é talvez
uma rua comprida pela qual uma mulher segurando
um cesto passa todos os dias.

A vida é talvez
uma corda com a qual um homem se enforca num ramo
a vida é talvez uma criança a regressar a casa da escola.

A vida é talvez acender um cigarro
na pausa narcótica entre fazer amor e fazer amor
ou o olhar ausente de um homem que passa
tirando o chapéu a um outro homem que passa
com um sorriso vazio e um bom dia.

A vida é talvez esse momento fechado
quando o meu olhar se destrói na pupila dos teus olhos
e está no sentimento
que eu irei pôr na impressão da Lua
e na percepção da Noite.

Num quarto grande como a solidão
o meu coração
que é grande como o amor
olha os simples pretextos da sua felicidade
o belo murchar das flores no vaso
a jovem árvore que plantaste no teu jardim
e o canto dos canários
que cantam para o tamanho de uma janela.

Ah
este é o meu destino
este é o meu destino
o meu destino é
um céu que desaparece com a queda de uma cortina
o meu destino é despenhar-me no voo de estrelas agora inúteis
reconquistar qualquer coisa no meio da putrefacção e da nostalgia
o meu destino é um passeio triste no jardim das memórias
e morrer na dor de uma voz que me diz
eu amo
as tuas mãos.

Irei plantar as minhas mãos no jardim
crescerei eu sei eu sei eu sei
e as andorinhas virão pôr ovos
no vazio das minhas mãos manchadas de tinta.

Vou usar
um par de cerejas gémeas como brincos
e pôr pétalas de dália nas minhas unhas
há um beco
onde os rapazes que se apaixonaram por mim
se demoram ainda com o mesmo cabelo despenteado
os mesmos pescoços finos e as mesmas pernas magras
e pensam nos sorrisos inocentes de uma rapariga
que foi levada pelo vento uma noite.

Há um beco
que o meu coração roubou
às ruas da minha infância.

A viagem de uma forma na linha do tempo
fecundando a linha do tempo com a forma
uma forma consciente de uma imagem
a regressar de uma carícia num espelho.

E é desta maneira
que alguém morre
e alguém segue vivendo.

Nenhum pescador jamais achará uma pérola num pequeno regato
que se esvazia num lago.

Eu conheço uma pequena e triste fada
que vive num oceano
e toca a flauta mágica do seu coração
suave, suavemente
pequena e triste fada
que morre com um beijo todas as noites
e com um beijo renasce a cada amanhecer."

[Forough Farrokhzad]


^^
"Agora que perdemos os objectos
É tarde
Aqui não cabem mais histórias
Ficamos horas e horas
À espera que o eco
À deriva por entre a chuva
Tenha na voz os fragmentos de ontem."

[eue]


^^

sábado, 4 de julho de 2009

Minha Intimidade...


"A minha intimidade é pequena
cabe na minha boca
e desliza por entre os dentes;

se a descubro a fingir que é saliva
engulo-a,
não quero vê-la alheia nas palavras
nem perdê-la com um beijo."

[Ana Merino]



^^

És responsável.


É claro que uma pessoa apesar de tudo tem de se adaptar. Dê lá por onde der. Disso ninguém se safa. Atenção, adaptar-se não quer dizer pores-te logo a pensar de uma maneira diferente daquela que costumas pensar. Para te adaptares começas por reprimir os pensamentos. É como com os sonhos ou com os desejos, é possível a gente viver na sociedade, a sociedade até nos pode oferecer uma ou outra coisa. Tens é de saber ao que vais renunciar. Não se pode ter tudo, é óbvio. E se se pudesse também era demais, não era? No fundo, sabes, tu és responsável por tudo, se levantas a mão, és responsável por isso, ou quando falas, és responsável. És responsável por tudo.

[Rainer Werner Fassbinder]


^^