Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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terça-feira, 24 de março de 2009

A um Ausente

"Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.
Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?
Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.
Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste."

[Carlos Drummond de Andrade]
.
Que bom que voltastes...
Senti tua falta.
Sabes que mexes comigo.

^^

segunda-feira, 23 de março de 2009

Quem Sabe um Dia


"Quem sabe um dia
Além da poesia
Além do horizonte
Nossas bocas
Sedentas de beijos
Se encontrem
.
Quem sabe um dia
Além da poesia
Além do horizonte
Nossos corpos
Sedentos de abraços
Se esbarrem, se encostem
E se encontrem
.
Quem sabe um dia
Além da poesia
Além do horizonte
Nossos olhos
Sedentos de olhares
Se vejam e se encontrem
.
Quem sabe um dia
Nossos sonhos
Se desfaçam
E se façam verdades
.
E nós, simplesmente, apenas nós
Entre beijos, abraços e olhares
Vivamos tudo o que sonhamos
.
O que sonhamos
Além da poesia
Além do horizonte."
.
.
^^

A arte de ser Feliz

Uma lua confortavelmente instalada em nuvens,
se desnuda na prosa poética de Cecília.
.
.
"Houve um tempo em que minha janela se abria sobre uma cidade que parecia ser feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde, e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor. Outras vezes encontro nuvens espessas. Avisto crianças que vão para a escola. Pardais que pulam pelo muro. Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais. Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar. Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega. Ás vezes, um galo canta. Às vezes, um avião passa. Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino. E eu me sinto completamente feliz.
.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas, e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.
.
[Cecília Meireles]
^^

Das Coisas que Marcam

"Homens que são como lugares mal situados
homens que são como casas saqueadas
que são como sítios fora dos mapas
como pedras fora do chão
como crianças órfãs
homens agitados sem bússola onde repousem
.
homens que são como fronteiras invadidas
que são como caminhos barricados
homens que querem passar pelos atalhos sufocados
homens sulfatados
por todos os destinos
desempregados das suas vidas
.
homens que são como a negação das estratégias
que são como os esconderijos dos contrabandistas
homens encarcerados abrindo-se com facas
.
homens que são como danos irreparáveis
homens que são sobreviventes vivos
homens que são sítios desviados
do lugar."


[Daniel Faria]

^^

Rascunhos de Março


Tenho tanto em suspenso. Por fazer, pensar, sentir, dizer. Tenho tanto. Que estupidez enorme esta de insistir numa presença fátua, tu que te foste, tu que não dobras mais à minha esquina embora lá passes todos os dias - suponho - tu que me silencias para tudo. Tu que me reténs ao continuares.

^^

(...)


"A sedução e o mistério te atraem, sei que primeiramente vens pelo meu brilho e pelo meu desejo de fêmea, mas não sabes que sou alma antiga, alma guerreira, alma ferida. Tenho meus medos, fraquezas e fúrias... são tantas as minhas ruas e todas elas se encontram."
[Carolina Salcides]
^^

domingo, 22 de março de 2009

Yo seré...

"Bienvenido has llegado
En el momento justo
Y al lugar indicado
No todo lo rico engorda
No todo lo bueno es pecado
.
Yo seré tus deseos hechos piernas
Una idea recurrente de fascinación
Yo seré un complot para tu mente
El objeto y la causa de tu perdición
Y tu buena suerte
.
No me juzgues, no soy de esas
Solo porque tengo una mente traviesa
No todo lo rico engorda
Y no él que peca empata si reza
.
Yo seré tus deseos hechos piernas
La que dicte una sentencia a tu imaginación
Yo seré un complot para tu mente
El objeto y la causa de tu perdición
Y tu buena suerte."

(...)


^^

sábado, 21 de março de 2009

Que farias?

"Que farias do meu corpo, se despido das palavras? Que farias?, se eu apenas o bê a bá no presente do indicativo, sem um futuro do subjuntivo ou um pretérito mais que perfeito?
Que farias do meu corpo, se eu só fome e cio e sede, despojada de lirismos, de interjeições e figuras de estilo, sem o abrigo nuclear das coordenadas copulativas? Que farias?, se eu só cabelos e pele e pêlos, sem qualquer erudição?
Que farias do meu corpo, das varizes que despontam, das sardas e dos sinais, da celulite escondida? Sim, que farias?, se eu quase analfabeta, ignorante e simplória, se a minha escolaridade pouco mais que a obrigatória? Se a linguagem, de carroceiro e as frases, às três pancadas; se eu nada de aforismos, silogismos ou significados?
Que farias do meu corpo, se despido das palavras? Se eu nua à tua frente, despojada, oferecida, toda instinto animal, toda líquidos que escorressem, músculos que te apertassem, sons cavos que mal se ouvissem?
Que farias com o meu cheiro?, demasiado acre, demasiado doce?, e com a violência obscena da minha presença física a ocupar-te a largura da cama e a tua visão periférica? Que farias, se esse ecrã não mediasse com diplomacia as negociações entre nós?, e se eu e tu frente-a-frente acordássemos por fim fronteiras ou a transposição delas? Se eu sem dedos nem jeito, muda, disléxica, desarticulada, nada escrevesse, nada dissesse?
Que farias do meu corpo, se soubesses que esta não sou eu e que tu és tu só por acaso, pois quando não minto, roubo, e que aquilo a que atribuis tanta beleza é a cópia da cópia de um copiraite?
Que farias do meu corpo se as palavras não fossem minhas mas tuas, apenas? Encaixar-te-ias nele como te encaixas nas entrelinhas do que escrevo? Servir-te-ia eu também como uma luva?"
^^

Não te Conheço, ainda...

"Não te conheço e, no entanto, a tua voz derrapa cá dentro sem me encontrar um fim, como o momento interminável que precede o acidente, aquele em que adivinhamos que nada será o mesmo depois de. Sei-te um embate inevitável, sei-te o estrondo metálico que antecipo na estrada antes de me entregar nas mãos escorregadias do destino (digo eu) ou de deus (dizes tu), embora não saiba em concreto que verdade existe no razoável interesse que demonstras pela minha pessoa neste espaço estranho que não nos aquece nem nos pertence.
Não te conheço e, no entanto, é como se nos telefonássemos todos os dias e eu te consolasse as mágoas e te desculpasse as falhas, que expusesses como feridas. Entendemo-nos de um modo desabrido e com o à vontade dos amigos de infância, a quem nos abraçamos nos chãos das casas de banho públicas, a exorcizar a incompreensão dos adultos, o acne na cara e as cervejas a mais. Não te conheço, nem disso tenho ganas, não especialmente, não agora, mas há algo que nos une desde sempre: uma amargura de superfície que nos desqualifica para muitas coisas e um hiato profundo para onde nos foge a alegria, um buraco negro no qual cabe tudo aquilo para que não arranjamos espaço no estertor violento dos dias.
Não te conheço, mas todas as noites te despedes de mim com um beijo de língua, essa língua que trabalha à jorna e me cava a boca com desassombro e empenho, garanto-to.
Não te conheço, mas és profícuo, produzes-me coisas cá dentro e às tantas o sangue flui, consolado, porque sei de fonte segura que, separados embora por becos e avenidas, trauteamos as mesmas canções, sarabandas fora de moda que mais ninguém quer ouvir. Mas por agora escrevo-te de longe e sem te verbalizar o suficiente para que possamos partilhar mais do que a certeza desta convergência ácida desoxirribonucleica que nos sorri de frente.
Não te conheço, mas não estou à espera que me passes depressa, como uma febre qualquer, não estou à espera que me passes, sequer."
^^

Um Amor Atrevido

"Perguntas-me se quero boleia e convidas-me a entrar. Sento-me ao teu lado e vem-me um cheiro a pinho e ao teu peito agitado e húmido (como sempre quando me antecipas). Cerro as pernas e cruzo piamente as mãos antes que se me escapem para a tua braguilha de ganga engelhada, a roçar no volante a cada vez que o viras. Inclinas-te para o meio e para mim, escolhes um posto de rádio, não há nada de jeito, e é cada vez menos o cheiro do pinho brise natureza eficaz por seis semanas e cada vez mais o cheiro do teu peito que escorre abarbelado pelo desejo, eficaz a vida inteira, não precisa de recargas.
Chegamos à minha rua e insinuas-te, é só um copo de água. Exulto, mas faço que me resigno. Sigo à frente e meto a chave à porta, querendo inclinar-me logo ali e agarrar com as mãos nervosas o degrau sujo da entrada para que me sintas, enquanto os vizinhos espreitam de coração acelerado por detrás dos vidros duplos.
Entro em casa direita e digna, como se também eu não escorresse toda, como se o rio oleoso do desejo não ameaçasse encharcar-me a compostura, tenho de ir à casa de banho. Tu manténs-te cá fora, limpando os pés no tapete puído, falando alto com deliberação e parecendo quase lídima, a tua presença ali. O gato recebe-nos satisfeito, mas recolhe-se desagradado ao perceber que comigo vem um estranho, não o dono. Na sombra, os penates agitam-se. Tiras devagar o casaco e pendura-lo no cabide indonésio grosseiramente carvado, num ritual provocatório. Olho para o lado enquanto o despes, resistindo a rasgar-te do corpo com a fúria das górgonas e corro para a cozinha.
Vens logo atrás. Dou-te à pressa o copo de água, acabaste de chegar do deserto e estás com pressa de voltar, mas nem lhe tocas; antes, encurralas-me contra a mesa posta para o pequeno-almoço, as duas chávenas coloridas no centro dos dois individuais e no meio os frascos com o doce de gila e a compota de maçã, a favorita dele. À sua lembrança, consigo até sorrir-te como se não estivesse a morrer e tento encaminhar-te para a saída com a firmeza gentil de um cão-guia, mas tu agarras-me pelos ombros e deitas-me na mesa sem fazeres qualquer esforço, embora pareça que sim. Entramos então em guerra, numa pegadilha de bocas e pernas, de mãos e línguas e unhas. Demoras-te de modo insuportável antes de entrares em mim, queres que suplique embora saibas que isso nunca acontece: não preciso. Abres o frasco que rola pelo bordo da mesa e espalhas com dois dos teus dedos a compota favorita dele na minha barriga. Lambes-me o umbigo com gula e eu penso que nunca houveramos feito nada de tão cruel - nem nos seminários inventados, nem nos motéis suburbanos a meio da tarde. Abafo um grito quando me entras e esbracejo – não sei se de pânico se de gozo - e as chávenas caem por fim, espalhando pedaços coloridos de porcelana barata no mosaico preto.
A velha do andar de baixo, que está cega mas não é surda, pensa que foi o gato, que às vezes a espreita do beirado, e sorri. Entretanto, eu recuso-te, enquanto me abro e palpito: sou uma flor carnívora em olímpica amplitude. Venho-me de olhos fechados, a gritar não e a afastar-te do meu corpo, prefiro abraçar uma mesa.
Sempre assim, é sempre assim: tu a demorares-te na entrada e a demorares-te a entrar em mim, a fazeres com que eu grite e com que os vizinhos nos ouçam, as partires as minhas chávenas e a estilhaçares-me o quotidiano. E eu a fingir que não quero, que és tu que me obrigas, que ele prefere o doce de gila e que o barulho foi o gato."
^^

(il diavolo in corpo)

"Procuro a forma da tua boca na arquitetura da cidade, enquanto deslaço o sentimento agreste que antecede a perda. Guardo segredos só por ti desvendados e sorrio aos passantes, atirando-lhes à cara a arrogância de quem possui algo de único e de reservado, de exclusivo e de impraticável, como uma estância de luxo ubicada nas águas turquesa de outro continente qualquer. Trago-te em estado líquido, tanto de ti que te queixas entre as minhas pernas quando ando, com medo de caíres estatelando-te no passeio, e eu às vezes a alargar o passo só para provocar o teu medo e sentir que te agarras com força às minhas virilhas molhadas. Algures, um oráculo ecoa na decrepitude dos prédios e ordena-me que corra para longe, sob pena de as vísceras dos animais anunciarem derrotas e outras desgraças. Vejo o teu sexo nos pilares e nas cornijas, em evocações fálicas que me divertem e acendem, alheia que estou à mediocridade das analogias, embora o enunciado de tragédia que leio nas nuvens que dealbam o céu me devesse acautelar o riso e a desvergonha. A tua língua, o voo nervoso daquele pássaro, uma arvéola que hesita entre um beirado derruído e a estátua suja de um pedagogo. Quando finalmente me escorreres pelas pernas e, caído no passeio, eu seguir sem olhar-te, voltarei a sentir pequenos espasmos de alegria com a nova temporada da minha série favorita e retornarei ao cronometrar seguro de todos os momentos do meu dia, sentindo-me velha esmarrida mas em casa, de novo em casa. Apressar-me-ei a limpar as janelas por dentro e por fora com o detergente adequado e aposto que consigo até lavar a roupa na máquina sem a deixar toda da mesma cor. Em breve, quando me cansar das traições, das indecências e do teu pulsar dentro de mim, deixarei de ser a pessoa vernacular em que me transformaste para regressar ao mundo das horas contadas, das cortesias sem sentido, dos contarelos familiares e dos frescos no hipermercado."
^^

O Beijo

"A língua, a saliva, os dentes
Meus olhos estão fechados
A língua, a saliva, os dentes
Meus lábios estão abertos
.
Agora meus olhos abriram
Meus olhos molharam
Agora seus olhos abriram
Seus olhos me olharam
.
O olho olha e beija
A mão segura e beija
O nariz respira e beija
.
A boca come e beija
O sexo goza e beija
O ouvido ouve e beija"
.
.


[Composição: George Israel e Paula Toller]


^^

Loucura

'Vou vestir a minha loucura
Recostar a cabeça… e deixar-me levar em seus braços amorosos
Doce “deixar ir”… sobre nuvens de aconchego.
Doce sonhar… doce dormir…Vou vestir esta loucura minha...
Abraça-la como quem abraça a mãe…
Envolvê-la … porque é minha… porque sim…
Deixar que me tire de prisões forjadas para viajantes da vida sem
sonhos…
Eu quero a minha loucura…
Não a troco por rasgos de lucidez inúteis…
Mantos de enfado… sem quimeras… sem visões…
Visto-a como quem veste a pele…
Sua… envolvente… plena… absolutamente sua…
Visto-a e abraço-a…
Como quem se abraça a si…
Doce aventureira de sonhos rasgados do pensamento…
Doce Senhora deste sentir profundo…
Livre… pleno… MEU…'

^^

sexta-feira, 20 de março de 2009

Curiosidade(s)

Não me interessa saber o que fazes para ganhar a vida. Quero saber o que desejas ardentemente, se ousas sonhar em atender aquilo pelo qual o teu coração anseia.
.
Não me interessa saber a tua idade. Quero saber se arriscarás parecer um tolo por amor, por sonhos, pela aventura de estar vivo.
.
Não me interessa saber que planetas estão em quadratura com a tua lua. Quero saber se tocaste o âmago da tua dor, se as traições da vida te abriram ou se te tornaste murcho e fechado por medo de mais dor! Quero saber se podes suportar a dor, minha ou tua; sem procurar escondê-la, reprimi-la ou narcotizá-la. Quero saber se podes aceitar alegria, minha ou tua, se podes dançar com abandono e deixar que o êxtase te domine até às pontas dos dedos das mãos e dos pés, sem nos dizeres para termos cautela, sermos realistas, ou nos lembrarmos das limitações de sermos humanos.
.
Não me interessa se a história que contas é verdade. Quero saber se consegues desapontar outra pessoa para ser autêntico contigo mesmo, se podes suportar a acusação de traição e não traíres a tua alma.
.
Quero saber se podes ver beleza mesmo que ela não seja bonita todos os dias, e se podes buscar a origem da tua vida na presença de Deus, quero saber se podes viver com o fracasso, teu e meu e ainda, à margem de um lago, gritar para a lua prateada: Posso!
.
Não me interessa onde moras ou quanto dinheiro tens. Quero saber se podes levantar-te após uma noite de sofrimento e desespero, cansado, ferido até aos ossos, e fazer o que tem de ser feito pelos filhos.
.
Não me interessa saber quem és e como vieste parar aqui. Quero saber se ficarás comigo no meio do incêndio e não te acovardarás.
.
Não me interessa saber onde, o quê, ou com quem estudaste.
Quero saber o que te sustenta a partir de dentro, quando tudo o mais se desmorona. Quero saber se consegues ficar sozinho contigo mesmo e se, realmente, gostas da companhia que tens nos momentos vazios.
.
[Jean Houston]
^^

O que sou agora?

"Arranco os meus olhos por todas as vezes que no meio da anônima multidão te detectei, como uma flor no meio das ervas daninhas. Por todas as vezes que me perdi no teu olhar.
Arranco os meus lábios por todas as vezes que te ofereci todo um mundo de emoções através de um simples beijo.
Arranco o meu nariz por todas as vezes que senti o cheiro, por todas as vezes que graças ao teu odor fui levado numa fracção de segundo a ver tudo de belo que existe no mundo.
Arranco as minhas orelhas pelas vezes que a tua voz me tranquilizou, como um bebê no útero da sua mãe.
Arranco a minha pele por todas as vezes que me tocaste... todas as vezes que foste capaz de me fazer tremer todo por dentro com apenas um toque.
Arranco as minhas próprias mãos por todos os centímetros do teu corpo que percorri com as pontas dos meus dedos... pelo magnetismo que emanas que faz todo o tempo do mundo tempo insuficiente para te tocar.
Arranco as minhas pernas pelas distâncias que, mesmo doridas, percorreram tendo-te sempre como destino.
Arranco os meus braços pelas vezes que te rodearam, pelas vezes que ajudaram a ilusão que naqueles momentos éramos um.Arranco o meu peito por todas as vezes que te senti perto de mim, que senti o teu peito junto do meu. Todas a vezes que senti o teu coração a bater em uníssono com o meu. Todas as vezes que junto a ti respirei o mesmo ar que tu.
Arranco o meu cérebro pelas fantasias que tive contigo que me consumiram dias e noites. Pelas insônias... por todas as ideias tolas em que acreditei que podíamo-nos realmente tornar naquilo que toda a vida procurei.
(...)
.
O que sou eu agora?
.
[Reznor]
^^

quinta-feira, 19 de março de 2009

(...)


"Como se eu fosse um vinho
e tu abrisses os pulsos para me libertar
como se náufrago, sonhasse na tua carne
a firmeza da terra adiada.
.
Como se o voo dos pássaros pairasse aceso
sobre os ramos do teu cabelo
até que as suas asas delirantes
pernoitassem nos teus olhos.
.
Como se eu me rasgasse
na tua mão, e repleta
entrasse em ti como num jardim
como se hoje apenas eu
dançasse na areia movediçada tua boca."
.
[Morrer de Improviso]
^^

terça-feira, 17 de março de 2009

Uma questão de Ponto de Vista

"Eu entendo você que não me entende
Eu entendo você que não me entende
Eu não prendo você
Não se surpreenda
Quando eu digo sim
Quando eu digo não
Quando eu digo "talvez"
Você não entende
É natural
Naturalmente
Às vezes digo sim
Às vezes digo não
.
Eu surpreendo você
Que não me prende
"Tire as mãos de mim!"
"Me dê a sua mão!"
Cada um tem o seu ponto de vista
Encare a ilusão da sua ótica
Os olhos dizem sim
O olhar diz não"
Focalize seu olhar no ponto preto. A névoa em volta irá abaixar.

Vários Animais?!

Conte os pontos pretos na imagem acima. Vamos lá! Você consegue!



'Na visão da macrostória toda guerra é igual
A visão do microscópio é o ópio do trivial
Na visão da macrostória nada gera um general
A visão do microscópio é o ópio do trivial
Sou cega
Não nego
Enxergo quando puder
Só vejo
Obscuro objeto
Desejo indireto
Será que você me entende?
.
.


*Porque é que cê tá ouvindo isto ao contrário?
*O que é que cê tá procurando?
*Hein?
.
.
Não se renda às evidências
Não se prenda à primeira impressão
O que não foi impresso
continua sendo escrito à mão
.
.



*Mal entendido/bem intencionado
*Mal informado/bem aventurado
*Jesus salva/salve as baleias/leia livros
*Safe sex/relax
*O papa é pop/o país é pobre/ o PIB é pouco
*Poesia é um porre
*O futebol brasileiro são várias camisetas com a mesma propaganda de refrigerantes
*A juventude brasileira... sem bandeiras sem fronteiras pra defender.'



^^

Quero

Quero a força mais forte
Quero a parte mais doce
Quero o que eu não conheço
O que não tem preço

Quero o que é improvável
Pra provar o sabor
Quero que você venha
O inevitável é sempre melhor

Quero ir pra outro planeta

Quero cores além do violeta

Eu vou voltar pra querência,

cansei da violência"No pain, no gain" é o que dizem

Então vem.....

Até onde a vista alcança não vejo ninguém

Nos dois pratos da balança... tudo bem.

^^

Ninguém = Ninguém

"Há tantos quadros na parede
Há tantas formas de se ver o mesmo quadro
Há tanta gente pelas ruas
Há tantas ruas e nenhuma é igual a outra
Ninguém = ninguém
Me encanta que tanta gente sinta(se é que sente) a mesma indiferença


Há pouca água e muita sede

Uma represa, um apartheid

a vida seca, os olhos úmidos

Entre duas pessoas

Entre quatro paredes

Tudo fica claro

Ninguém fica indiferente

Ninguém = Ninguém

O que me "encanta" é que tanta gente

Sinta (se é que sente) ou

Minta desesperadamente

A mesma Mentira

São todos iguais

E tão desiguais

uns mais iguais que os outros."

[Composição: Humberto Gessinger]

^^

Cumprindo o desafio

Recebi do colega blogueiro Fábio Siqueira http://fabiosiqueira.blogspot.com/2009/03/gustavo-soffiati.html um desafio, que ele, por sua vez, recebeu de um amigo. É mais ou menos assim:
Você escreve um trecho do livro que está lendo a partir da 5ª linha de uma determinada página.
Estou relendo, isto mesmo, relendo "Cien años de soledad" uma novela do escritor colombiano Gabriel García Márquez, cuja obra lhe rendeu o Prêmio Nobel de Literatura (1982).
Confesso que agora estou visualizando essa obra de uma maneira bem mais consistente e menos dinâmica. Bem diferente da época da faculdade, em que tive que ler num período curto e turbulento, entre trabalhos e provas.

Abri na página: 164.

(...)
"Primero lo lavaron tres veces con jabón y estropajo, después lo frotaron con sal y vinagre, luego con cerniza y limón, y por último lo metieron en un tonel de lejía y lo dejaron reposar seis horas. Tanto lo restregaron que los arabescos del tatuaje empezaban a decolorarse. Cuando concibieron el recurso desesperado de sazonarlo con pimienta y comino y hojas de laurel y hervirlo um dia entero a fuego lento, ya había empezado a descomponerse y tuvieron que enterrarlo a las volandas. Lo encerraron herméticamente en um ataúd especial de dos metros y treinta centímetros de largo y un metro y diez centímetros de ancho, reforzado por dentro con planchas de hierro y atornillado con pernos de acero, y aun así se percebia el olor en las calles por donde pasó el entierro."
(...)


Repasso o desafio para os seguintes blogueiros:
Patty Branco;
Felipe;
Teresa Castro;
Luis Tavares;
Srta. V.
.
.
^^