Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

Redes Sociais

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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009


Vamos fazer limpeza, mas geral
e vamos deitar fora as coisas todas
que não nos servem para nada, essas
coisas que não usamos já e essas
que nada fazem mais que apanhar pó,
as que evitamos encontrar porquanto
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos fazem mal, enchem espaço
ou não quisemos nunca ter por perto.
Vamos fazer limpeza, mas geral,
talvez melhor ainda uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
que fiquem onde sempre têm estado;
vamos embora só nós, vida minha,
para voltar a acumular de novo.
Ou vamos deitar fogo ao que nos cerca
e ficarmos em paz com essa imagem
do braseiro do mundo face aos olhos
e com o coração desabitado.

[Amalia Bautista]


^^

Brincar de Viver

Quem me chamou
Quem vai querer voltar pro ninho
redescobrir seu lugar
Pra retornar
E enfrentar o dia-a-dia
Reaprender a sonhar
Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.

Você verá que a emoção começa agora
Agora é brincar de viver
E não esquecer, ninguém é o centro do universo.

Que assim é maior o prazer...

Você verá que é mesmo assim,
que a história não tem fim
Continua sempre que você responde sim
à sua imaginação
A arte de sorrir cada vez que o mundo diz não.

E eu desejo amar todos que eu cruzar pelo meu caminho
Como eu sou feliz, eu quero ver feliz
Quem andar comigo, vem...


[Compositor: Guilherme Arantes]

^^

E se eu tentasse
dar-te outra coisa
algo fora de mim,
nao saberias
que o pior de qualquer um
pode ser, no fim,
um acidente de esperança.

[Anne Sexton]
^^

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

Quem de nós dois acordou primeiro?


Falemos claramente de obsessões. Não mais gestos interrompidos por palavras mansas. Hoje encontrei-te numa mesa de café. Trazias umas calças de bombazina e uma camisola de lã. Estiveste ali enquanto eu olhava o tecto e as paredes cor de laranja - a segurar-me esta mão que treme. Diria até que soubeste escolher a música e depois fechaste a porta. Voltaste – sorriso infantil – catraia debaixo do braço. Ela: trança no cabelo e a mesma curiosidade no brilho dos olhos. Tu: mergulhado nessa ternura de um amor maior.

Falemos agora de sonhos. Levantaste-te num repente e só eu depois. Deitada num sofá que não é nosso. O chá arrefeceu e a catraia fugiu. Não eras tu. Não podias ser tu. Eu sem catraia; eu sem ti. Eu sem nada. E a música a tocar a probabilidade de um grande amor a bater-me à porta. Fechada. Diz-me então com sinceridade: quem de nós dois acordou primeiro?

[Autor desconhecido]


^^

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Todos os Verbos

Errar é útil
Sofrer é chato
Chorar é triste
Sorrir é rápido
Não ver é fácil
Trair é tátil
Olhar é móvel
Falar é mágico
Calar é tático
Desfazer é árduo
Esperar é sábio
Refazer é ótimo
Amar é profundo
E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo
Abraçar é quente
Beijar é chama
Pensar é ser humano
Fantasiar também
Nascer é dar partida
Viver é ser alguém
Saudade é despedida
Morrer um dia vem
Mas amar é profundo
E nele sempre cabem de vez
Todos os verbos do mundo.




[Compositor(es): Marcelo Jeneci Zélia Duncan]


^^

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Talvez...


No ar da sala, o fumo dos cigarros misturava-se com a música que saía das colunas do gira-discos. Todas as pessoas estavam juntas em conversas. Para lá da idade que tinham, eram demasiado jovens. Seguravam copos. Sorriam e entusiasmavam-se ou concentravam o olhar e ouviam. Na rua, talvez chovesse. Os vidros altos da porta da varanda não mostravam mais do que a noite. Ele e ela eram indistintos de todos os outros. As imagens dos seus rostos e dos seus corpos eram naturais entre os casacos aos quadrados, as camisas de colarinhos pontiagudos, as calças de fazenda. Estavam sentados no sofá, lado a lado, e tinham terminado de conversar no momento em que as palavras dele lentamente se dissolveram no fumo dos cigarros e na música que saía das colunas do gira-discos, no momento em que ela não soube responder a uma conclusão banal. Para lá das palavras e da memória das palavras, continuou o significado daquilo que realmente disseram enquanto conversavam: os riscos brandos do sorriso dele à volta dos cantos da boca, a atenção solícita dos olhos dela, o tronco dele a aproximar-se a cada frase, os dedos dela a acertarem os cabelos por trás das orelhas, os joelhos dele a tocarem as pernas dela, os lábios dela a articularem cada palavra como se estivessem pousados sobre os lábios dele.

Ela tinha talvez 25 ou 26 ou 27 anos. Ele tinha talvez a mesma idade. Ela tinha os cabelos lisos e escorridos sobre as costas. A pele do seu rosto era serena tal como se estivesse calma e desejasse ainda mais tranquilidade. Ele tinha os primeiros dias de uma barba que crescia e que já se podia imaginar. Os seus olhos eram o início de um caminho verde como uma floresta. De cada vez que um deles levava o copo aos lábios, o outro imitava-o e havia um momento em que pensavam na mesma coisa. Tinham sabido o nome um do outro há pouco mais de uma hora. Tinham começado a conversar porque as únicas pessoas que conheciam os tinham deixado juntos e tinham ido conversar com outros. Assim que foram apresentados, depois de sorrisos, simpatia, ele escolheu palavras para lhe perguntar o que fazia.

Ela respondeu que trabalhava numa produtora de cinema. Não lhe disse que passava os dias numa sala vazia, sentada a uma secretária, frente a um telefone que nunca tocava, a preocupar-se com a mãe que estava sozinha e deprimida em casa, com as facas todas alinhadas na gaveta dos talheres e com as promessas de matar-se ainda vivas na memória e com os pulsos ainda ligados pela última tentativa: a ambulância a serpentear pelas ruas, e ela com os dedos pousados sobre a testa da mãe, e a mãe com as pálpebras sem força pousadas sobre os olhos. Não lhe disse que chegava de manhã cedo, deixava a mala em cima da secretária e, depois de abrir as janelas, ficava imóvel e perdia todas as palavras dentro dos pensamentos. A claridade tocava os cartazes de filmes em que não tinha trabalhado, mas que tinha escolhido para afixar nas paredes. No fim da manhã, chegava o dono da produtora que, não esperando resposta, abrindo cartas com contas da luz e da água, perguntava se alguém tinha telefonado. Tinha sido ele que, na cama de uma pensão, durante um cigarro, a tinha convidado para trabalhar ali, quando ela ainda estava apaixonada e ainda acreditava que um dia ele iria deixar a mulher e, pedindo-lhe opiniões, iria realizar filmes lindos como os seus sonhos. Não lhe disse que, durante a hora de almoço, uma ou duas ou três vezes por semana, faziam sexo em cima da secretária, ou encostados à secretária, ou no chão em cima de um tapete. Não lhe disse que ele saía no início da tarde e que, só então, ela tirava a caixa de plástico da mala, os talheres embrulhados num guardanapo de pano e almoçava.

Ele falou longamente sobre cinema. Disse-lhe que ia muito ao cinema quando vivia na terra onde tinha nascido e de onde tinha saído para estudar Teatro no Conservatório. Não lhe disse que o homem do cinema o deixava sempre assistir de graça desde que ficasse durante todo o filme sentado no seu colo. Não lhe disse que, depois de cada filme, todos os rapazes que andavam com ele na escola, e todos os rapazes mais velhos, lhe chamavam nomes e lhe batiam. Não lhe disse que os homens ficavam encostados às grades da casa ao lado do café a verem e a rirem-se. No recreio da escola, batiam-lhe também. No caminho para a escola, batiam-lhe, tiravam-lhe a mala e espalhavam pelo chão os livros e os cadernos com páginas sujas de lama. Depois, já era mais velho, e os colegas continuavam a bater-lhe e desviava o olhar, ficava parado quando os rapazes mais novos lhe vinham dar pontapés nas pernas e murros no centro das costas. Não lhe disse que, nos três anos de Conservatório, não tinha conseguido passar a nenhuma disciplina porque tinha vergonha da sua própria voz, porque tropeçava na sua própria voz em cada palavra que tinha de dizer. À noite, trabalhava num bar onde via actores e onde falava com alguns deles, onde lhes oferecia copos de plástico com vodka e sumo de laranja, e onde se ria exageradamente de cada vez que algum dizia uma piada. Depois, voltava para o seu quarto, adormecia a pensar e, pouco depois, quando amanhecia, não tinha forças para se levantar. A viúva que lhe arrendava o quarto batia à porta e perguntava-lhe se não ia às aulas, dizia-lhe que arrendava quartos a estudantes e não a vagabundos. Então, levantava-se, vestia-se e caminhava sozinho pelas ruas da baixa. Olhava para as montras e sentava-se à frente de uma chávena vazia de café nas esplanadas onde sabia que não chegariam empregados a perguntar-lhe o que queria tomar.

Ela disse-lhe que uma produtora de cinema precisa sempre de actores. Ele disse-lhe que um actor precisa sempre de produtoras de cinema. Riram-se. E disseram muitas coisas. E não disseram muitas coisas. No ar da sala, a música do gira-discos era indistinta do fumo dos cigarros e bebidas no colo. Havia algum tempo que grupos de pessoas tinham escolhido momentos para se despedirem com sorrisos e saírem.(...)

[José Luís Peixoto]


^^

domingo, 29 de novembro de 2009

Desconstruindo Amélia


Já é tarde, tudo está certo
Cada coisa posta em seu lugar
Filho dorme, ela arruma o uniforme
Tudo pronto pra quando despertar

O ensejo a fez tão prendada
Ela foi educada pra cuidar e servir
De costume esquecia-se dela
Sempre a última a sair

Disfarça e segue em frente
Todo dia, até cansar
E eis que de repente ela resolve então mudar
Vira a mesa,
Assume o jogo
Faz questão de se cuidar
Nem serva, nem objeto
já não quer ser o outro
hoje ela é um também

Hoje aos trinta é melhor que aos dezoito
Nem Balzac poderia prever
Depois do lar, do trabalho e dos filhos
Ainda vai pra night ferver...

[Pitty]

^^

sábado, 28 de novembro de 2009

Gosto de Viver...


- Claro que lhe desagrada deixar-se psicanalisar...

- Sim... claro que me desagrada. Eu, aliás, não sou uma pessoa interessante. Sou uma pessoa interessada. O que é diferente...

- Interessada por quê?

- Por tudo, e por nada... pela vida. Gosto de viver.


[Boris Vian]


^^

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Hoje é um dia reservado ao veneno
e às pequeninas coisas
teias de aranha filigranas de cólera
restos de pulmão onde corre o marfim
é um dia perfeitamente para cães
alguém deu à manivela para nascer o sol
circular o mau hálito esta cinza nos olhos
alguém que não percebia nada de comércio
lançou no mercado esta ferrugem
hoje não é a mesma coisa
que um búzio para ouvir o coração
não é um dia no seu eixo
não é para pessoas
é um dia ao nível do verniz e dos punhais
e esta noite
uma cratera para boémios
não é uma pátria
não é esta noite que é uma pátria
é um dia a mais ou a menos na alma
como chumbo derretido na garganta
um peixe nos ouvidos
uma zona de lava
hoje é um dia de túneis e alçapões de luxo
com sirenes ao crepúsculo
a trezentos anos do amor a trezentos da morte
a outro dia como este do asfalto e do sangue
hoje não é um dia para fazer a barba
não é um dia para homens
não é para palavras.

[António José Forte]


^^

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Sob a Luz do Sol

Quero das horas escuras cumplicidade em qualquer loucura
Quero as noites em claro a eletricidade, um luar de mil watts
Já não morro mais de medo que o tempo escorra pelos dedos
Já não sinto quase nada na madrugada fria

Quero a sujeira das ruas nas veias do asfalto quero me injetar
Quero o perigo correndo comigo sem nunca poder me alcançar
Já não morro mais de medo que o tempo escorra pelos dedos
Já não vejo quase nada sob a luz do sol...

Quero a cidade vazia o clarão do dia me ofusca a visão
Minha cabeça lateja meu corpo cansado se espalha no chão
Já não morro mais de medo que o tempo escorra pelos dedos
Já não sou mais quase nada sob a luz do sol...

[Composição: RPM]


^^

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Declare Guerra aos que Fingem te Amar!


Vivendo em tempo fechado
Correndo atrás de abrigo
Exposto a tanto ataque
Você ta perdido

Nem parece o mesmo
Tá ficando pirado
Onde você encosta dá curto
Você passa, o mundo desaba

E pra te danar
Nada mais dá certo
E pra piorar
Os falsos amigos chegam
E pra te arrasar
Quem te governa não presta

Declare guerra aos que fingem te amar
A vida anda ruim na aldeia
Chega de passar a mão na cabeça
De quem te sacaneia

Vivendo em tempo fechado
Correndo atrás de abrigo
Exposto a tanto ataque
Você ta perdido

E pra se ajudar
Você faz promessas
E pra piorar
Até o papa te esquece
E pra te arrasar
Nem o inferno te aceita...
.
.
[Cazuza]
^^

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Chegamos ao fim da canção
e paro um pouco pra dormir
é tarde pra voltarmos atrás
já nem há motivo algum para rir

É como ouvir alguém dizer:

vê nessa procura
uma razão
pra virar a dor para dentro

que é virar o amor para dentro

falo de um amar para dentro
que é virar a dor para dentro.

[Ornatos Violeta]

^^

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Aqui estou


A vida brinca na praça
com o ser que nunca fui

e aqui estou

dança pensamento
na corda do meu sorriso

e todos dizem que isto passou e é
vai passando
vai passando
o meu coração abre a janela

vida aqui estou

a minha vida
o meu sangue só e hirto
fere no mundo

mas quero saber-me viva
não quero falar
de morte
nem das suas estranhas mãos.


[Alejandra Pizarnik]

^^

domingo, 22 de novembro de 2009

Procuro...


As coisas que procuro
Não têm nome.
A minha fala de amor
Não tem segredo.


Perguntam-me se quero
A vida ou a morte.
E me perguntam sempre
Coisas duras.

Tive casa e jardim.
E rosas no canteiro.
E nunca perguntei
Ao jardineiro
O porquê do jasmim
- Sua brancura, o cheiro.


Queiram-me assim.
Tenho sorrido apenas.
E o mais certo é sorrir
Quando se tem amor
Dentro do peito.


[Hilda Hilst]
^^

Casar ou Comprar uma Bicicleta?

Hoje é meu dia lá no:

Clique aqui e confira esse tema que vai dar o que falar!

^^

sábado, 21 de novembro de 2009


Como se ontem e os dias antes de ontem
se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

como se pudéssemos escrever palavras
nas suas cinzas com a ponta do dedo,

como se bastasse soprar para vermos
as suas imagens de novo, numa nuvem.

[José Luís Peixoto, Gaveta de Papéis]
^^

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Sonho. Não sei quem Sou.


Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento,
Minha alma não tem alma.
Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo.
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações,
Coração de ninguém.

[Fernando Pessoa - Cancioneiro]
^^

E ao Anoitecer

E ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da m-e-l-a-n-c-o-l-i-a

[Al Berto]

^^

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A Invenção do Amor

Em todas as esquinas da cidade
nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
no átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
um cartaz denuncia o nosso amor

Em letras enormes do tamanho
do medo da solidão da angústia
um cartaz denuncia que um homem e uma mulher
se encontraram num bar de hotel
numa tarde de chuva
entre zunidos de conversa
e inventaram o amor com caracter de urgência
deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana

Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
e souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza
de um sorriso natural e inesperado

Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente
embora subterraneamente unidos pela invenção conjunta
de um amor subitamente imperativo

Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou A TV anuncia
iminente a captura A policia de costumes avisada
procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial
é possível que se escondam tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo
É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique Antes
que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o Um homem e uma mulher
conheceram-se amaram-se perderam-se no labirinto da cidade

É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los
antes que seja tarde
e a memória da infância nos jardins escondidos
acorde a tolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas Sobretudo
protejam as crianças da contaminação
uma agência comunica que algures ao sul do rio
um menino pediu uma rosa vermelha
e chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo Vai ser internado
e submetido a um tratamento especial de recuperação
Mas é possível que haja outros É absolutamente vital
que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
de que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
o destino das máquinas das bombas de hidrogénio das normas de discriminação racial
o futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
a verdade incontroversa das declarações políticas
...

É possível que cantem
mas defendam-se de entender a sua voz Alguém que os escutou
deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra
respondeu que a voz e as palavras o faziam feliz
lhe lembravam a infância Campos verdes floridos
Água simples correndo A brisa das montanhas
Foi condenado à morte é evidente É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele
um misterioso halo de uma felicidade incorrupta
...

Procurem a mulher o homem que num bar
de hotel se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
senhas salvo-condutos horas de recolher
censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura
é preciso encontrar o casal fugitivo
que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia
de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz
ter sentido de súbito uma estranha paz interior
uma voz desprendendo um cheiro a primavera
o doce bafo quente da adolescência longínqua

[Daniel Filipe]

^^

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Meu corpo
é um tear vertical
onde deixaste cruzadas
as cores da tua vida : duas faixas um losango
marcas da peste.

Meu corpo
é uma floresta fechada
onde escolheste o caminho

Depois de te perderes
guardaste a chave e o provérbio.

[Ana Paula Tavares]

^^

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Estoy Aquí


Aquí estoy,
desnuda,
sobre las sábanas solitarias
de esta cama donde te deseo.

Veo mi cuerpo,
liso y rosado en el espejo,
mi cuerpo
que fue ávido territorio de tus besos;
este cuerpo lleno de recuerdos
de tu desbordada pasión
sobre el que peleaste sudorosas batallas
en largas noches de quejidos y risas
y ruidos de mis cuevas interiores.

Veo mis pechos
que acomodabas sonriendo
en la palma de tu mano,
que apretabas como pájaros pequeños
en tus jaulas de cinco barrotes,
mientras una flor se me encendía
y paraba su dura corola
contra tu carne dulce.

Veo mis piernas,
largas y lentas conocedoras de tus caricias,
que giraban rápidas y nerviosas sobre sus goznes
para abrirte el sendero de la perdición
hacia mi mismo centro,
y la suave vegetación del monte
donde urdiste sordos combates
coronados de gozo,
anunciados por descargas de fusilerías
y truenos primitivos.

Me veo y no me estoy viendo,
es un espejo de vos el que se extiende doliente
sobre esta soledad de domingo,
un espejo rosado,
un molde hueco buscando su otro hemisferio.

Llueve copiosamente
sobre mi cara
y sólo pienso en tu lejano amor
mientras cobijo
con todas mis fuerzas,
la esperanza.

[Gioconda Belli]

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Autopsicografia


O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que leem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

[Fernando Pessoa - Cancioneiro]

^^

*

.
Assim fremente e nua,
a luz só pode ser dos girassóis.
.
[Eugênio de Andrade]


^^

domingo, 15 de novembro de 2009


O tempo corre nas paredes livremente
mas não toma a direcção da morte: ela esteve aqui
desde o princípio, uma vocação adormecida
debaixo do estuque.

A manhã nasce viciada nos brandos venenos
que os móveis destilam, haverá pombas
sobre o parapeito, o senhorio arrastará o chinelo
sob um eco que caminha pelo tecto.
Nada poderá perturbar a fluência da penumbra
nos cantos para onde se varre a casa
aos domingos. A pele respira tenuamente mas não posso falar
em tristeza. Este é o meu endereço, um lugar composto
para a submergência.

[Rui Pires Cabral]

Assunto Polêmico no Céu!

Aborto e Sexualidade

A Céu Aberto - da Boca


Clique em cima da imagem e confira esse tema!

^^

sábado, 14 de novembro de 2009

Eu quero um amor Infinito!


Eu quero, eu quero, eu queroooo!
Como faço pra conseguir essa camisa liiiiiiiiiiinda de doer do meu time do coração?
Por favor! Alguém me ajuda???
^^
No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
será que ainda cá estamos no fim do verão?


Talvez pelo avesso deste mundo deserto eu seja só um atalho fingido. Ao passar de cada pé sou apenas um fôlego cansado. Que desaprendeu como gemer. Um novelo de sentimentos calejados que depois se guarda no canto escondido de uma gaveta sem uso. Porque realmente me magoam as esquinas inquietas. Não estava escrito precisar de ti - assim - a cada instante. Estaria contorcida se não pudesse mais dobrar as palavras. Se não as tivesse por dentro de mim – e se numa impaciência qualquer não conseguisse soprá-las e torná-las mais leves – nesta desordem pacífica. Ouço-me ao ouvido. E relembro com alguma tristeza o pouco que rodopiei nesses abraços. Não é que vá sarar a ferida agora. Afinal esqueço o rumo a cada letra que soletro a custo. Porque contigo rompi as costuras da boca. Há muito que me esmago com os pés e tu não sabes. Não é que te vá socorrer ou te devolva o brilho aos olhos. Não é que me tornes mais solta: serei sempre um navio sem ancoradouro. Mas aqueço-te as mãos sem me deixar derreter. Não é que eu valha a pena: porque sou feita de aflições que me roubam as forças. Lavo o sono com água gelada e – mesmo suspensa – vivo a cansar-me e cresço a tropeçar. Sou desassossego. Mas não fraquejo ao pé de ti. E passas por mim – de dentro para fora – sem me sentires na pele. E eu afogo-me num batimento cardíaco derradeiro. Preparo-me para ser um sorriso espontâneo numa alma que morre aos pedaços. Mas isso eu continuo a pagar – em prestações amortizadas – com estas dores abafadas e fundas. Não sei se hei-de temer o teu rosto encostado ao meu. Não é que te vá segurar nos braços. Porque repeti os gestos num calendário de folhas dobradas e esperei – em segredo – dias mais coloridos que anotei sem pensar a marcador fluorescente também sem perceber que a rotina me sabotava o mínimo esforço. Vivo sem me ver. Talvez seja tempo de voltar atrás sem mágoa ou de seguir em frente sem medo – de sufocar por dentro – de sacudir o corpo de uma só vez. Aqui a noite chega primeiro. E eu não tenho vontades: sou dona de umas mãos vazias. Enquanto tento em vão o equilíbrio dou-me conta de um caminho ainda por decidir. Mas distraí-me: enrolei-me em fios de promessas adiadas. E sem querer trago-te comigo – naquele bolso desobediente onde me cabem os sonhos – aconchegado no peito.

[Jorge Palma]

^^

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

*Engano


"Eu já não choro enquanto engano o tempo. Se olhar para trás sem reparar com atenção nas minhas mãos vazias sei que - depois de tudo - consigo escrever palavras verdadeiras. São só uns dedos finos a quererem tocar-te. Umas mãos que te recordam à força de tanto serem apertadas. Se olhar para trás ainda tenho a música a despertar-me o sono e o teu carro à minha espera. Só não te tenho a ti. Tenho – imbuída – uma terna lembrança daquelas noites contigo. Ainda hoje quando sorrio – sem razão – olho em volta e espero reconhecer-te no meio da multidão. Mas tu nunca lá estás para me ver. Se olhar para trás corro o risco de me apaixonar cegamente mas sei que o meu caminho nunca foi traçado e também nunca te alcançou. Eu já não choro quando penso em ti. Tu – para mim – sempre foste as palavras bonitas. E se não há espaço na tua vida para mim eu não aguento fingir. Porque se olhar para trás sou uma folha em branco. Culpa minha, assumo. Recuso-me a ter um passado. Mas sobrou a música para me lembrar o quanto te quero. E essa será sempre a minha maldição. Tanto como escrever-te sem te sentir. És - no fim das contas - uma fraude piedosa a distrair-me de mim e dos dias sem cor que me perseguem."

[autor desconhecido]

^^

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

[...]

A sua infância foi um país ocupado por entidades detestáveis que impediam as árvores de lhe falar. (Mais tarde, na adolescência, imaginou que engravidara de um limoeiro – ou foi o perfume do seu sexo que o sonhou, ou foi o perfume do seu sexo que foi sonhado, talvez pelo limoeiro.)

Nunca pôde amuar, como as flores se fecham com a noite. Obrigavam-na a sorrir educada, perfiladamente, espetavam-lhe duas bofetadas e obrigavam-na a levantar a cabeça, a erguer os olhos pesados de choro, e a gordura das lágrimas caía-lhe pela face e ouvia-se no chão.

A sua infância é um país ocupado até hoje.

(A sua vida pareceu-lhe sempre uma longa convalescença. Ou qualquer coisa que lhe foi emprestada. Uma presença emprestada – para quê? A existência parecia-lhe apenas um estado sólido da tristeza mais absoluta. Ou talvez lhe faltasse apenas paciência para viver. Vive por engano? Se morreu, quer saber. Se vive, quer saber. Espera um sinal de si própria. Espera algo que, dentro dela, arda mais alto do que ela. Um signo que, ao erguer-se, toque e faça girar uma constelação.)

[Nuno Rocha Morais]


^^

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cemitério dos Poetas...


Há pessoas que põem palavras nos nossos sentimentos. Parecem-se com os poetas. Mas depois, de surpresa, abandonam os nossos sonhos pé ante pé ou de pantufas. Não sei... Na verdade, decepcionam-nos (devagarinho) e, quando damos por isso, apagam-se dentro de nós. Deixam de ser preciosas e, por tudo o que valeram. Partem, portanto, para uma terra de ninguém, muito distante do sítio onde vivem os génios da lâmpada, o Pai Natal, as fadas e os duendes. E por lá ficam. Mais ou menos errantes.

Imagino esse lugar, onde se acotovelam tantas pessoas que nos disseram tanto, como um Purgatório, com a particularidade de lá não se ser promovido, com facilidade, até ao Céu. É verdade que essas pessoas não se transformam num inferno dentro de nós, embora, por vezes, surjam, ora como um vulto ora como uma silhueta ou, até mesmo, como uma estrela cadente que, atravessando o nosso coração, já não provoca um arrepio (muito menos, um calafrio, que são aqueles sentimentos impetuosos que nos desabotoam a cabeça e nos deixam a arder de paixão e a tremer de medo, ao mesmo tempo).

Afinal, não são nem amigos nem amores. Transformam-se num museu? Numa arqueologia de todos os amores, por exemplo? Às vezes, nem nisso. Infelizmente. Se fosse assim, estáticas ou em pequenos pedaços de histórias, empoeirados, seguravam-se no nosso coração. O que não acontece às pessoas que foram perdendo a magia...

Este não sei para onde (eu sei que, dito assim, custa só de pensar) é uma espécie de cemitério de poetas dentro de nós. Um lugar de silêncio que convida a espreitar para o que sentimos. Com surpresa e com dor, ao descobrirmos que, ao contrário do que sempre desejámos, há relações — luminosas — que foram morrendo para nós. Às vezes, assusta. Afinal, não é simpático descobrirmos que mora em nós alguém que, não sendo o Capitão Gancho, tenha ajudado a morrer (de inanição, por exemplo) quem trouxe poesia, ou luz, ou um insustentável rebuliço ao que sentimos... Às vezes, atormenta. Porque magoa descobrirmos que — mesmo quando nos imaginamos a dar a sala mais espaçosa do nosso coração — também nós, dentro de algumas, vivemos sem viver, errantes, nesse não sei onde de alguém, entre os seus amigos e os seus amores. Às vezes ainda, somos tocados pelos galanteios da vida e, levados pelo entusiasmo, imaginamos que, se desejarmos com muita força, algumas das pessoas que guardamos no nosso cemitério de poetas ressuscitam e regressam, cheias de luz, para surpresa do Pai Natal ou das fadas (que, sendo mágicos, parecem viver num mundo de bolas coloridas de sabão). Eu sei que também entre as pessoas há quem pareça mágico mas intocável. Como eles. Mas não se esqueça: esse é o cais de embarque que, de surpresa, nos pode levar (sem volta) para o cemitério dos poetas.

[Eduardo Sá]

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terça-feira, 10 de novembro de 2009

Eu ouso a paixão
não a recuso

Escuto os sentidos sem o medo por perto
troco a ternura da rosa
ponho a onda no deserto

A tudo o que é impossível
abro e rasgo o coração
Debaixo coloco a mão
para colher o incerto

Desembuço o amor
no calor da emboscada
infrinjo regras e impeço

Troco o sonho dos deuses
por um pequeno nada

Desobedeço ao preceito
e desarrumo a paixão
Teço e bordo o meu avesso
e desacerto a razão

[Maria Teresa Horta]

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O que é esperança?


O que é a esperança? Um animal com penas, pensei. Preferia ser capaz de a descrever de um modo menos obtuso. Ser capaz de pôr num dia a eternidade a germinar lentamente, isso sim, seria uma das formas da esperança reconhecível.
Alguém, com passos ágeis, procura dominar o desgosto que nos trouxe a esta sala. Procura apaziguar a biologia, os fluxos e refluxos que a animam, a prometida destruição. Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida. Tem por ofício prognósticos humildes, uma cronologia de sábios gestos que o uso torna incertos e verdadeiros ou verdadeiros e incertos (a ordem dos termos tornou-se arbitrária).
A esperança é uma hipótese que anotamos no caderno mais próximo, esse que está em cima da mesa aguardando uma visita de acaso.

[Luís Quintais]
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009


... Acordas distante e próximo e cantas-me o cântico sem fundo...
E amo-te amo-te sem saber o objecto amado...
E contudo tudo é amor incoerente e real...
...
E eu sei o que é amar e ser amada meus olhos limpos
não dizem adeus...


[Matilde Rosa Araújo, Voz nua]


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domingo, 8 de novembro de 2009

Hoje é meu dia lá no Céu...

E hoje é um dia muito especial, teremos muitas comemorações, e um tema maravilhoso...


Você não vai ficar de fora dessa, vai?
Então, essas imagens são só uns aperitivos do rola lá no Céu...
http://aceuabertodaboca.blogspot.com/?zx=6ea98226b6d57164

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(...)

Te quiero a las diez de la mañana, y a las once, y a las doce del día. Te quiero con toda mi alma y con todo mi cuerpo, a veces, en las tardes de lluvia. Pero a las dos de la tarde, o a las tres, cuando me pongo a pensar en nosotros dos, y tú piensas en la comida o en el trabajo diario, o en las diversiones que no tienes, me pongo a odiarte sordamente, con la mitad del odio que guardo para mí.

Luego vuelvo a quererte, cuando nos acostamos y siento que estás hecha para mi, que de algún modo me lo dicen tu rodilla y tu vientre, que mis manos me convencen de ello, y que no hay otro lugar en donde yo me venga, a donde yo vaya, mejor que tu cuerpo. Tú vienes toda entera a mi encuentro, y los dos desaparecemos un instante, nos metemos en la boca de Dios, hasta que yo te digo que tengo hambre o sueño.

Todos los días te quiero y te odio irremediablemente. Y hay días también, hay horas, en que no te conozco, en que me eres ajena como la mujer de otro. Me preocupan los hombres, me preocupo yo, me distraen mis penas. Es probable que no piense en ti durante mucho tiempo. Ya ves. ¿Quién podría quererte menos que yo, amor mío?

[Jaime Sabines]


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♪ Vamos todos cantar de C♥ração... ♪


O meu Vascão está de volta à 1ª divisão, de onde nunca devia ter saído... 2010: o retorno.
Meu coração é só alegria!!!... tum, tum, tum, tum...

Por isso eu canto de felicidade:


Vamos todos cantar de cração
A Cruz de Malta é o meu pendão
Tu tens o nome de um heróico português
Vasco da Gama, a tua fama assim se fez

Tua imensa torcida é bem feliz
Norte e sul, norte e sul deste país
Tua estrela, na terra a brilhar
Ilumina o mar ...


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sábado, 7 de novembro de 2009


Falarei menos que um peixe, amor,
das líquidas emoções ou desejo serpenteado
sobre o que começa junto as rotas umbilicais.
Não me procures no rumo do vento
no cansaço da lua asfixiante, no mistério
ritmo da noite voltada para disponibilidade
de um sexo tecido de felicidade.
Diz-me com ternura imensa, a dor profana
a finitude do prazer de te descobrir
procuradamente na suavidade duma errância
com que te inicio no embrulho do teu calor
langoroso.
É um orvalho matinal que te rega
um suspiro húmido com sabor a algas
dos teus seios fugidios, ardente abandono
lascivo amanhecer.
Na carta que sustenta este ardor
sôfrego desejo me embala a fadiga
de te possuir com secreta evasão,
sentida excitação de me deixar aprisionar
no excesso fantasmagórico da sublimação
primitiva da vida e do amor que germina.

[Américo Teixeira Moreira, O corpo restituído]
^^

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O que me espanta
não é a morte
mas a vida, diga-se
a subvida da sobrevida.
O que me espanta
é a inércia do corpo
seu cego apetite
sob a alma inapetente.
O que me espanta
é o fôlego de fera
hibernando na crise
gelo sem primavera.
O que me espanta
é a resistência masoquista
que entre a ferida e o nada
do nada se acovarda
e resigna-se à ferida.

[Astrid Cabral]

^^

quinta-feira, 5 de novembro de 2009


Sinto falta de ti
do riso pelas tardes
(a tua boca um sol)
do sabor a maçã
(a tua língua um beijo)
do cheiro a malvasia
(o teu corpo um perfume)
do segredo de ficarmos calados
suspensos num olhar
a acender o rosto
a devorar a boca
a incendiar o corpo.

[Maria Aurora de Carvalho - Homem, Discurso amoroso]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

*Solto-me ao passar pelo mundo*


Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido -
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? Será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.

[Teresa Balté]

^^
De frente para o espelho
em pequenos gestos de algodão,
tiro a maquilhagem gasta de um dia gasto.
desfaço-me em cuidados e acabo a
derramar o que existe por dentro dos olhos.
dispo a roupa suja no meu quarto sujo.
sem cuidados, atiro-a para o chão.
deixo as feridas expostas, pode ser que sarem
amparadas pela noite.
deito-me a esperar um sono nu.
acordo com as pálpebras inchadas.
[Michael Grey]
^^

Mi táctica



Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme con vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos

Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple

Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

[Mario Benedetti]

^^




terça-feira, 3 de novembro de 2009

Aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz.

Arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas

Acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trêmulos confusos - a mão queimada
junto ao coração.

E mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta.

Nem a vida nem o que dela resta nos consola
e a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa.

Assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos mas não voltaram
a telefonar.

[Al Berto]

^^

O meu Quarto Interior


Este Estio foi diferente de tudo quanto ela pudesse recordar. Não que lhe acontecessem muitas coisas dignas de evocar em pensamentos ou palavras – era antes uma sensação de mudança. Andava sempre excitada. De manhã, impaciente por pular da cama abaixo e dar começo ao dia. E à noite, detestava a ideia de ter de voltar para a cama. (...) Mas – fizesse o que fizesse – a música nunca a largava. Umas vezes trauteava entre dentes, a andar; outras escutava, calada, as melodias que lhe subiam de dentro. Havia música de toda a espécie nos seus pensamentos. Uma parte que ela tinha ouvido na telefonia, outra que trazia em mente sem que a tivesse ouvido em parte alguma. À noite, tão depressa os irmãozitos iam para a cama, ela ficava livre. Era a melhor parte do seu dia. Quando andava sozinha e no escuro aconteciam muitas coisas. Logo depois da ceia corria para fora de casa. Não podia falar a ninguém do que fazia à noite, e quando a mãe a interrogava, ela respondia com a primeira história que parecesse verosímil. Mas a mor parte das vezes, se alguém a chamava, fugia como se não ouvisse. (...) As noites estavam prodigiosas e nem tempo havia para pensar em medos. Quando se via na escuridão, era na música que ela pensava. Andando pelas ruas cantava para si própria. E era como se a cidade inteira escutasse aquela voz, sem saber que era a voz de Mick Kelly. Aprendeu muita coisa a respeito de música naquelas noites estivais de liberdade. Nos bairros ricos da cidade, onde passeava, todas as casas tinham rádio. Com as janelas abertas, podia-se ouvir da rua que era uma maravilha. Passado tempo até já conhecia quais as casas que sintonizavam para os programas que ela gostava de ouvir. Essa foi a parte mais real e autêntica de todo esse Verão, escutar a música dos rádios e ficar sozinha em trevas a meditá-la. (...) Mick sentou-se nos degraus e pousou a cabeça nos joelhos. Depois entrou no Quarto Interior. Para ela era como se houvesse dois quartos – o interior e o exterior. A escola e a família e as coisas que aconteciam todos os dias pertenciam ao quarto de fora. Mister Singer estava em ambos. Os países estrangeiros, a música e os planos e projectos pertenciam ao Quarto Interior. E as canções em que ela pensava também. E a Sinfonia. Quando ela estava sozinha no Quarto Interior voltava-lhe à memória a música que tinha ouvido durante a noite da festa. Era como uma grande flor que se abria dentro dela. Durante o dia, por vezes, ou quando acabava de acordar, pela manhã, vinha-lhe de repente à lembrança um novo trecho da Sinfonia. Então tinha que ir para o Quarto Interior e escutá-la muitas vezes para tentar juntar esse trecho aos que já tinha de memória. O Quarto Interior era um lugar inteiramente privado, só dela. Podia estar no meio duma sala de gente e ainda assim fazer de conta que estava fechada à chave por dentro.

[Carson McCullers]

^^

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

*

Vem embora comigo, disse ele, vamos viver numa ilha deserta.
Eu disse, eu sou uma ilha deserta.
Não era o que ele tinha em mente.

[Margaret Atwood]

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Minhas mãos

.
Minhas mãos não são minhas mãos
são pássaros rasando a tua pele nua
.
.
são voos planados descobrindo céus
imagens loucas de total candura
.
.
.
Minhas mãos somente
inventam barcos e partem à procura
das tuas mãos nas minhas.

[Bernardete Costa]

^^

domingo, 1 de novembro de 2009

"...Mudar de Céu, Mudar de Ar..."

Anda, vem jantar, vem comer, vem beber, farrear
Até chegar lumiar
E depois deitar no sereno
Só pra poder dormir e sonhar
Pra passar a noite
Caçando sapo
Contando caso
De como deve ser lumiar

Acordar lumiar sem chorar, sem falar, sem querer
Acordar em lumiar
Levantar e fazer café
Só pra sair, caçar e pescar
E passar o dia
Moendo cana
Caçando lua
Clarear de vez lumiar

Amor lumiar pra viver, pra gostar, pra chover
Pra tratar de vadiar
Descansar os olhos, olhar e ver
E respirar
Só pra não ver o tempo passar
Pra passar o tempo
Até chover
Até lembrar
De como deve ser lumiar

Anda, vem jantar, vem dormir, vem sonhar pra viver
Até chegar lumiar
Estender o Sol na varanda até queimar
Só pra não ter mais nada a perder
Pra perder o medo
Mudar de céu
Mudar de ar
Clarear de vez lumiar

[Composição: Beto Guedes]

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