Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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sábado, 14 de novembro de 2009

No bairro do amor há quem pergunte a sorrir:
será que ainda cá estamos no fim do verão?


Talvez pelo avesso deste mundo deserto eu seja só um atalho fingido. Ao passar de cada pé sou apenas um fôlego cansado. Que desaprendeu como gemer. Um novelo de sentimentos calejados que depois se guarda no canto escondido de uma gaveta sem uso. Porque realmente me magoam as esquinas inquietas. Não estava escrito precisar de ti - assim - a cada instante. Estaria contorcida se não pudesse mais dobrar as palavras. Se não as tivesse por dentro de mim – e se numa impaciência qualquer não conseguisse soprá-las e torná-las mais leves – nesta desordem pacífica. Ouço-me ao ouvido. E relembro com alguma tristeza o pouco que rodopiei nesses abraços. Não é que vá sarar a ferida agora. Afinal esqueço o rumo a cada letra que soletro a custo. Porque contigo rompi as costuras da boca. Há muito que me esmago com os pés e tu não sabes. Não é que te vá socorrer ou te devolva o brilho aos olhos. Não é que me tornes mais solta: serei sempre um navio sem ancoradouro. Mas aqueço-te as mãos sem me deixar derreter. Não é que eu valha a pena: porque sou feita de aflições que me roubam as forças. Lavo o sono com água gelada e – mesmo suspensa – vivo a cansar-me e cresço a tropeçar. Sou desassossego. Mas não fraquejo ao pé de ti. E passas por mim – de dentro para fora – sem me sentires na pele. E eu afogo-me num batimento cardíaco derradeiro. Preparo-me para ser um sorriso espontâneo numa alma que morre aos pedaços. Mas isso eu continuo a pagar – em prestações amortizadas – com estas dores abafadas e fundas. Não sei se hei-de temer o teu rosto encostado ao meu. Não é que te vá segurar nos braços. Porque repeti os gestos num calendário de folhas dobradas e esperei – em segredo – dias mais coloridos que anotei sem pensar a marcador fluorescente também sem perceber que a rotina me sabotava o mínimo esforço. Vivo sem me ver. Talvez seja tempo de voltar atrás sem mágoa ou de seguir em frente sem medo – de sufocar por dentro – de sacudir o corpo de uma só vez. Aqui a noite chega primeiro. E eu não tenho vontades: sou dona de umas mãos vazias. Enquanto tento em vão o equilíbrio dou-me conta de um caminho ainda por decidir. Mas distraí-me: enrolei-me em fios de promessas adiadas. E sem querer trago-te comigo – naquele bolso desobediente onde me cabem os sonhos – aconchegado no peito.

[Jorge Palma]

^^

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

*Engano


"Eu já não choro enquanto engano o tempo. Se olhar para trás sem reparar com atenção nas minhas mãos vazias sei que - depois de tudo - consigo escrever palavras verdadeiras. São só uns dedos finos a quererem tocar-te. Umas mãos que te recordam à força de tanto serem apertadas. Se olhar para trás ainda tenho a música a despertar-me o sono e o teu carro à minha espera. Só não te tenho a ti. Tenho – imbuída – uma terna lembrança daquelas noites contigo. Ainda hoje quando sorrio – sem razão – olho em volta e espero reconhecer-te no meio da multidão. Mas tu nunca lá estás para me ver. Se olhar para trás corro o risco de me apaixonar cegamente mas sei que o meu caminho nunca foi traçado e também nunca te alcançou. Eu já não choro quando penso em ti. Tu – para mim – sempre foste as palavras bonitas. E se não há espaço na tua vida para mim eu não aguento fingir. Porque se olhar para trás sou uma folha em branco. Culpa minha, assumo. Recuso-me a ter um passado. Mas sobrou a música para me lembrar o quanto te quero. E essa será sempre a minha maldição. Tanto como escrever-te sem te sentir. És - no fim das contas - uma fraude piedosa a distrair-me de mim e dos dias sem cor que me perseguem."

[autor desconhecido]

^^

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

[...]

A sua infância foi um país ocupado por entidades detestáveis que impediam as árvores de lhe falar. (Mais tarde, na adolescência, imaginou que engravidara de um limoeiro – ou foi o perfume do seu sexo que o sonhou, ou foi o perfume do seu sexo que foi sonhado, talvez pelo limoeiro.)

Nunca pôde amuar, como as flores se fecham com a noite. Obrigavam-na a sorrir educada, perfiladamente, espetavam-lhe duas bofetadas e obrigavam-na a levantar a cabeça, a erguer os olhos pesados de choro, e a gordura das lágrimas caía-lhe pela face e ouvia-se no chão.

A sua infância é um país ocupado até hoje.

(A sua vida pareceu-lhe sempre uma longa convalescença. Ou qualquer coisa que lhe foi emprestada. Uma presença emprestada – para quê? A existência parecia-lhe apenas um estado sólido da tristeza mais absoluta. Ou talvez lhe faltasse apenas paciência para viver. Vive por engano? Se morreu, quer saber. Se vive, quer saber. Espera um sinal de si própria. Espera algo que, dentro dela, arda mais alto do que ela. Um signo que, ao erguer-se, toque e faça girar uma constelação.)

[Nuno Rocha Morais]


^^

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Cemitério dos Poetas...


Há pessoas que põem palavras nos nossos sentimentos. Parecem-se com os poetas. Mas depois, de surpresa, abandonam os nossos sonhos pé ante pé ou de pantufas. Não sei... Na verdade, decepcionam-nos (devagarinho) e, quando damos por isso, apagam-se dentro de nós. Deixam de ser preciosas e, por tudo o que valeram. Partem, portanto, para uma terra de ninguém, muito distante do sítio onde vivem os génios da lâmpada, o Pai Natal, as fadas e os duendes. E por lá ficam. Mais ou menos errantes.

Imagino esse lugar, onde se acotovelam tantas pessoas que nos disseram tanto, como um Purgatório, com a particularidade de lá não se ser promovido, com facilidade, até ao Céu. É verdade que essas pessoas não se transformam num inferno dentro de nós, embora, por vezes, surjam, ora como um vulto ora como uma silhueta ou, até mesmo, como uma estrela cadente que, atravessando o nosso coração, já não provoca um arrepio (muito menos, um calafrio, que são aqueles sentimentos impetuosos que nos desabotoam a cabeça e nos deixam a arder de paixão e a tremer de medo, ao mesmo tempo).

Afinal, não são nem amigos nem amores. Transformam-se num museu? Numa arqueologia de todos os amores, por exemplo? Às vezes, nem nisso. Infelizmente. Se fosse assim, estáticas ou em pequenos pedaços de histórias, empoeirados, seguravam-se no nosso coração. O que não acontece às pessoas que foram perdendo a magia...

Este não sei para onde (eu sei que, dito assim, custa só de pensar) é uma espécie de cemitério de poetas dentro de nós. Um lugar de silêncio que convida a espreitar para o que sentimos. Com surpresa e com dor, ao descobrirmos que, ao contrário do que sempre desejámos, há relações — luminosas — que foram morrendo para nós. Às vezes, assusta. Afinal, não é simpático descobrirmos que mora em nós alguém que, não sendo o Capitão Gancho, tenha ajudado a morrer (de inanição, por exemplo) quem trouxe poesia, ou luz, ou um insustentável rebuliço ao que sentimos... Às vezes, atormenta. Porque magoa descobrirmos que — mesmo quando nos imaginamos a dar a sala mais espaçosa do nosso coração — também nós, dentro de algumas, vivemos sem viver, errantes, nesse não sei onde de alguém, entre os seus amigos e os seus amores. Às vezes ainda, somos tocados pelos galanteios da vida e, levados pelo entusiasmo, imaginamos que, se desejarmos com muita força, algumas das pessoas que guardamos no nosso cemitério de poetas ressuscitam e regressam, cheias de luz, para surpresa do Pai Natal ou das fadas (que, sendo mágicos, parecem viver num mundo de bolas coloridas de sabão). Eu sei que também entre as pessoas há quem pareça mágico mas intocável. Como eles. Mas não se esqueça: esse é o cais de embarque que, de surpresa, nos pode levar (sem volta) para o cemitério dos poetas.

[Eduardo Sá]

^^

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Eu ouso a paixão
não a recuso

Escuto os sentidos sem o medo por perto
troco a ternura da rosa
ponho a onda no deserto

A tudo o que é impossível
abro e rasgo o coração
Debaixo coloco a mão
para colher o incerto

Desembuço o amor
no calor da emboscada
infrinjo regras e impeço

Troco o sonho dos deuses
por um pequeno nada

Desobedeço ao preceito
e desarrumo a paixão
Teço e bordo o meu avesso
e desacerto a razão

[Maria Teresa Horta]

^^

O que é esperança?


O que é a esperança? Um animal com penas, pensei. Preferia ser capaz de a descrever de um modo menos obtuso. Ser capaz de pôr num dia a eternidade a germinar lentamente, isso sim, seria uma das formas da esperança reconhecível.
Alguém, com passos ágeis, procura dominar o desgosto que nos trouxe a esta sala. Procura apaziguar a biologia, os fluxos e refluxos que a animam, a prometida destruição. Alguém vigia por turnos a instabilidade da vida. Tem por ofício prognósticos humildes, uma cronologia de sábios gestos que o uso torna incertos e verdadeiros ou verdadeiros e incertos (a ordem dos termos tornou-se arbitrária).
A esperança é uma hipótese que anotamos no caderno mais próximo, esse que está em cima da mesa aguardando uma visita de acaso.

[Luís Quintais]
^^

segunda-feira, 9 de novembro de 2009


... Acordas distante e próximo e cantas-me o cântico sem fundo...
E amo-te amo-te sem saber o objecto amado...
E contudo tudo é amor incoerente e real...
...
E eu sei o que é amar e ser amada meus olhos limpos
não dizem adeus...


[Matilde Rosa Araújo, Voz nua]


^^

domingo, 8 de novembro de 2009

Hoje é meu dia lá no Céu...

E hoje é um dia muito especial, teremos muitas comemorações, e um tema maravilhoso...


Você não vai ficar de fora dessa, vai?
Então, essas imagens são só uns aperitivos do rola lá no Céu...
http://aceuabertodaboca.blogspot.com/?zx=6ea98226b6d57164

^^

(...)

Te quiero a las diez de la mañana, y a las once, y a las doce del día. Te quiero con toda mi alma y con todo mi cuerpo, a veces, en las tardes de lluvia. Pero a las dos de la tarde, o a las tres, cuando me pongo a pensar en nosotros dos, y tú piensas en la comida o en el trabajo diario, o en las diversiones que no tienes, me pongo a odiarte sordamente, con la mitad del odio que guardo para mí.

Luego vuelvo a quererte, cuando nos acostamos y siento que estás hecha para mi, que de algún modo me lo dicen tu rodilla y tu vientre, que mis manos me convencen de ello, y que no hay otro lugar en donde yo me venga, a donde yo vaya, mejor que tu cuerpo. Tú vienes toda entera a mi encuentro, y los dos desaparecemos un instante, nos metemos en la boca de Dios, hasta que yo te digo que tengo hambre o sueño.

Todos los días te quiero y te odio irremediablemente. Y hay días también, hay horas, en que no te conozco, en que me eres ajena como la mujer de otro. Me preocupan los hombres, me preocupo yo, me distraen mis penas. Es probable que no piense en ti durante mucho tiempo. Ya ves. ¿Quién podría quererte menos que yo, amor mío?

[Jaime Sabines]


^^

♪ Vamos todos cantar de C♥ração... ♪


O meu Vascão está de volta à 1ª divisão, de onde nunca devia ter saído... 2010: o retorno.
Meu coração é só alegria!!!... tum, tum, tum, tum...

Por isso eu canto de felicidade:


Vamos todos cantar de cração
A Cruz de Malta é o meu pendão
Tu tens o nome de um heróico português
Vasco da Gama, a tua fama assim se fez

Tua imensa torcida é bem feliz
Norte e sul, norte e sul deste país
Tua estrela, na terra a brilhar
Ilumina o mar ...


^^

sábado, 7 de novembro de 2009


Falarei menos que um peixe, amor,
das líquidas emoções ou desejo serpenteado
sobre o que começa junto as rotas umbilicais.
Não me procures no rumo do vento
no cansaço da lua asfixiante, no mistério
ritmo da noite voltada para disponibilidade
de um sexo tecido de felicidade.
Diz-me com ternura imensa, a dor profana
a finitude do prazer de te descobrir
procuradamente na suavidade duma errância
com que te inicio no embrulho do teu calor
langoroso.
É um orvalho matinal que te rega
um suspiro húmido com sabor a algas
dos teus seios fugidios, ardente abandono
lascivo amanhecer.
Na carta que sustenta este ardor
sôfrego desejo me embala a fadiga
de te possuir com secreta evasão,
sentida excitação de me deixar aprisionar
no excesso fantasmagórico da sublimação
primitiva da vida e do amor que germina.

[Américo Teixeira Moreira, O corpo restituído]
^^

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O que me espanta
não é a morte
mas a vida, diga-se
a subvida da sobrevida.
O que me espanta
é a inércia do corpo
seu cego apetite
sob a alma inapetente.
O que me espanta
é o fôlego de fera
hibernando na crise
gelo sem primavera.
O que me espanta
é a resistência masoquista
que entre a ferida e o nada
do nada se acovarda
e resigna-se à ferida.

[Astrid Cabral]

^^

quinta-feira, 5 de novembro de 2009


Sinto falta de ti
do riso pelas tardes
(a tua boca um sol)
do sabor a maçã
(a tua língua um beijo)
do cheiro a malvasia
(o teu corpo um perfume)
do segredo de ficarmos calados
suspensos num olhar
a acender o rosto
a devorar a boca
a incendiar o corpo.

[Maria Aurora de Carvalho - Homem, Discurso amoroso]

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

*Solto-me ao passar pelo mundo*


Quando amanhece penso:
Encontro-te no vento
virás abraçar-me como os ramos da árvore
e chegaremos ao coração da cidade

Ao meio-dia sei:
A distância do meu corpo ao teu grito
corresponde à do teu sopro ao meu ouvido -
eis a anatomia do silêncio

De tarde fico exausta:
Circulo pelas ruas e roço-me nas praças

À noite adormecemos:
Será que te lembras? Será que me lembro?

Amanhã alegro-me de novo:
Imagino a floresta, parto o espelho
e recomeço a ir ao teu encontro.

[Teresa Balté]

^^
De frente para o espelho
em pequenos gestos de algodão,
tiro a maquilhagem gasta de um dia gasto.
desfaço-me em cuidados e acabo a
derramar o que existe por dentro dos olhos.
dispo a roupa suja no meu quarto sujo.
sem cuidados, atiro-a para o chão.
deixo as feridas expostas, pode ser que sarem
amparadas pela noite.
deito-me a esperar um sono nu.
acordo com as pálpebras inchadas.
[Michael Grey]
^^

Mi táctica



Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme con vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos

Mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple

Mi estrategia es
que un día cualquiera
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

[Mario Benedetti]

^^




terça-feira, 3 de novembro de 2009

Aqueles que têm nome e nos telefonam
um dia emagrecem - partem
deixam-nos dobrados ao abandono
no interior duma dor inútil muda
e voraz.

Arquivamos o amor no abismo do tempo
e para lá da pele negra do desgosto
pressentimos vivo
o passageiro ardente das areias - o viajante
que irradia um cheiro a violetas nocturnas

Acendemos então uma labareda nos dedos
acordamos trêmulos confusos - a mão queimada
junto ao coração.

E mais nada se move na centrifugação
dos segundos - tudo nos falta.

Nem a vida nem o que dela resta nos consola
e a ausência fulgura na aurora das manhãs
e com o rosto ainda sujo de sono ouvimos
o rumor do corpo a encher-se de mágoa.

Assim guardamos as nuvens breves os gestos
os invernos o repouso a sonolência
o vento
arrastando para longe as imagens difusas
daqueles que amámos mas não voltaram
a telefonar.

[Al Berto]

^^

O meu Quarto Interior


Este Estio foi diferente de tudo quanto ela pudesse recordar. Não que lhe acontecessem muitas coisas dignas de evocar em pensamentos ou palavras – era antes uma sensação de mudança. Andava sempre excitada. De manhã, impaciente por pular da cama abaixo e dar começo ao dia. E à noite, detestava a ideia de ter de voltar para a cama. (...) Mas – fizesse o que fizesse – a música nunca a largava. Umas vezes trauteava entre dentes, a andar; outras escutava, calada, as melodias que lhe subiam de dentro. Havia música de toda a espécie nos seus pensamentos. Uma parte que ela tinha ouvido na telefonia, outra que trazia em mente sem que a tivesse ouvido em parte alguma. À noite, tão depressa os irmãozitos iam para a cama, ela ficava livre. Era a melhor parte do seu dia. Quando andava sozinha e no escuro aconteciam muitas coisas. Logo depois da ceia corria para fora de casa. Não podia falar a ninguém do que fazia à noite, e quando a mãe a interrogava, ela respondia com a primeira história que parecesse verosímil. Mas a mor parte das vezes, se alguém a chamava, fugia como se não ouvisse. (...) As noites estavam prodigiosas e nem tempo havia para pensar em medos. Quando se via na escuridão, era na música que ela pensava. Andando pelas ruas cantava para si própria. E era como se a cidade inteira escutasse aquela voz, sem saber que era a voz de Mick Kelly. Aprendeu muita coisa a respeito de música naquelas noites estivais de liberdade. Nos bairros ricos da cidade, onde passeava, todas as casas tinham rádio. Com as janelas abertas, podia-se ouvir da rua que era uma maravilha. Passado tempo até já conhecia quais as casas que sintonizavam para os programas que ela gostava de ouvir. Essa foi a parte mais real e autêntica de todo esse Verão, escutar a música dos rádios e ficar sozinha em trevas a meditá-la. (...) Mick sentou-se nos degraus e pousou a cabeça nos joelhos. Depois entrou no Quarto Interior. Para ela era como se houvesse dois quartos – o interior e o exterior. A escola e a família e as coisas que aconteciam todos os dias pertenciam ao quarto de fora. Mister Singer estava em ambos. Os países estrangeiros, a música e os planos e projectos pertenciam ao Quarto Interior. E as canções em que ela pensava também. E a Sinfonia. Quando ela estava sozinha no Quarto Interior voltava-lhe à memória a música que tinha ouvido durante a noite da festa. Era como uma grande flor que se abria dentro dela. Durante o dia, por vezes, ou quando acabava de acordar, pela manhã, vinha-lhe de repente à lembrança um novo trecho da Sinfonia. Então tinha que ir para o Quarto Interior e escutá-la muitas vezes para tentar juntar esse trecho aos que já tinha de memória. O Quarto Interior era um lugar inteiramente privado, só dela. Podia estar no meio duma sala de gente e ainda assim fazer de conta que estava fechada à chave por dentro.

[Carson McCullers]

^^

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

*

Vem embora comigo, disse ele, vamos viver numa ilha deserta.
Eu disse, eu sou uma ilha deserta.
Não era o que ele tinha em mente.

[Margaret Atwood]

^^

Minhas mãos

.
Minhas mãos não são minhas mãos
são pássaros rasando a tua pele nua
.
.
são voos planados descobrindo céus
imagens loucas de total candura
.
.
.
Minhas mãos somente
inventam barcos e partem à procura
das tuas mãos nas minhas.

[Bernardete Costa]

^^

domingo, 1 de novembro de 2009

"...Mudar de Céu, Mudar de Ar..."

Anda, vem jantar, vem comer, vem beber, farrear
Até chegar lumiar
E depois deitar no sereno
Só pra poder dormir e sonhar
Pra passar a noite
Caçando sapo
Contando caso
De como deve ser lumiar

Acordar lumiar sem chorar, sem falar, sem querer
Acordar em lumiar
Levantar e fazer café
Só pra sair, caçar e pescar
E passar o dia
Moendo cana
Caçando lua
Clarear de vez lumiar

Amor lumiar pra viver, pra gostar, pra chover
Pra tratar de vadiar
Descansar os olhos, olhar e ver
E respirar
Só pra não ver o tempo passar
Pra passar o tempo
Até chover
Até lembrar
De como deve ser lumiar

Anda, vem jantar, vem dormir, vem sonhar pra viver
Até chegar lumiar
Estender o Sol na varanda até queimar
Só pra não ter mais nada a perder
Pra perder o medo
Mudar de céu
Mudar de ar
Clarear de vez lumiar

[Composição: Beto Guedes]

^^

sábado, 31 de outubro de 2009

Semana que Vem

Amanhã eu vou revelar
Depois eu penso em aprender
Daqui a uns dias eu vou dizer
O que me faz querer gritar
Aaaahhhhhh!!

Não deixe nada pra depois
Não deixe o tempo passar
Não deixe nada
Pra semana que vem
Porque semana que vem
Pode nem chegar

Esse pode ser o último dia
De nossas vidas
Última chance de fazer
Tudo ter valido a pena

Diga sempre tudo
O que precisa dizer
Arrisque mais
Pra não se arrepender
Nós não temos
Todo tempo do mundo
E esse mundo
Já faz muito tempo...

O futuro, o presente
E o presente já passou...
O futuro, o presente
O presente já passou...

[Composição: Pitty]

^^

*Eu

"Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante
do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo..."

[Raul Seixas]
^^

sexta-feira, 30 de outubro de 2009



Afundei-me na banheira e descobri que as lágrimas
não se misturam com a água quente perfumada
com sais de banho... a espuma fica por cima e as
lágrimas caem como pedras em charcos de água.
A água quente a correr na banheira não me aquece.
Se o meu coração for já uma pedra vou ao fundo
e sei que não me ouvirás chorar por ti.




[Felisbela Fonseca]

^^

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

(...)


Vens de repente com a voracidade
de um pássaro nocturno que não chamei
e a porta fecha-se sobre as minhas ancas
e a noite bebe o hálito que largas na minha pele
enquanto os espelhos escondem o rasto
de todos os segredos que guardavas

Por momentos o amor desenha-se desta única maneira
mas eu sei que és apenas um inquilino temporário
habitando o meu corpo as horas que roubaste
em ondas de culpa e sombra

E sei também que hás-de sair de mim
como de um povo inimigo
procurando um gesto de perdão que não existe
e o amor torna-se subitamente num lugar incómodo
tenho pressa dirás tenho pressa
e a noite fecha-se do lado dos dedos
que procuram ainda o lugar do sono

Fica comigo peço mas tu não me ouves
e eu sei que vou voltar a esperar por ti na vida que me resta
e em todas as vidas e em todas as mortes
até ao dia em que difinitivamente
despeças o teu corpo do meu
e eu repita fica comigo e tu
desapareças

Como quem esteve só à espera
de ventos favoráveis

[Alice Vieira]
^^

quarta-feira, 28 de outubro de 2009


Quero definir-te o que é este sentimento: o que pertence à esfera daquilo que a razão não domina, ou simplesmente nasce da noite, e de tudo o que a envolve. Falo de uma íntima relação entre os seres, de emoções que se transmitem para além de palavras e conceitos, de um encontro de corpos na esfera do segredo.

Dir-me-ás: "Para que precisas de uma explicação para o amor?"
Mas é a sua inutilidade que me interessa; a dádiva, o simples dizer que as coisas são assim porque são, e para além disso tudo se complica. Podes, então, rir do que te digo; ou simplesmente dizer-me que as palavras nada substituem, e que tudo o que elas nos dão está a mais. Mas o amor pertence-nos. Não o podemos deitar fora; nem fingir que não existe, como não existe
o infinito, a transcendência, a abstracção divina, para quem só crê no concreto. É verdade que o amor não se vê: o que vejo são os teus olhos, a ternura súbita das suas pálpebras, e o que elas abrem e escondem numa hesitação de luz.

Eis, então, o que define este sentimento: um intervalo, uma distracção do tempo, a divina abstracção do infinito na transcendência do real.

[Nuno Júdice]

^^

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A tua Ausência


Pelas paredes cheira ainda à tua pele cutânea.

Mas desde que te foste
estar aqui é oco, cansativo, uma espera.
E às vezes
(como se tivéssemos chorado)
respirar custa.

Sobretudo nada apetece.
Sair para a rua? Ir então em frente a repetir os passos
passear nas avenidas a espaçar as horas
dispersar a espera?

Tudo cinzento. Choverá?
Aqui é que não fico. No quarto onde dormimos
o espaço sobra, e cada coisa já morreu ou está a mais.

Em toda a casa uma violência subterrânea:
a tua ausência.


[João Habitualmente]
^^

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

O teu abraço cala-me as maiores tristezas...


O teu abraço cala-me as maiores tristezas. Não há silêncio meu que te assuste nem suspiro algum que não saibas de cor. Contigo não preciso esconder o medo. Muito menos fingir. Posso encolher-me no teu peito e deixar cair todas as lágrimas: irás secá-las com beijos. É assim que gosto de respirar o teu cheiro: encostada a ti. Não quero que me enchas de sonhos – sabes bem que os tenho comigo se não tos conto. Basta-me saber quanto os respeitas e estou certa de que continuaremos a não saber dançar a mesma canção. Mas eu só preciso que tu me entendas. Que continues a admirar-me a transparência e os olhos brilhantes. Que passeies comigo de mão dada à beira daquele jardim e me puxes para ti quando me julgares perdida. Eu não posso perder-te de vista. Não quero. Porque preciso de ti: tu sabes. Será por isso que não vais embora? Não foges e nem sequer te acobardas. Ficas sempre do outro lado do espelho pronto a alertar-me ao mínimo sinal de emergência. A poesia dentro de ti – ainda que duvides disso – faz-se de verdade e coragem. Não te sabes escrever de outra maneira. Não é necessário. Eu agradeço baixinho a seguir-te de perto e a pensar para mim que és a pessoa mais especial que conheço.


[mãos dadas e jardins ao sol]

^^

domingo, 25 de outubro de 2009

Um dia desses...


Um dia desse
Num desses
Encontros casuais
Talvez a gente
Se encontre
Talvez a gente
Encontre explicação...
Um dia desses
Num desses
Encontros casuais
Talvez eu diga:
-Meu amigo
Pra ser sincera
Prazer em vê-lo!
Até mais!...
[Trecho da música: Pra ser Sincero]
[Composição: Humberto Gessinger]
De qualquer modo dança,
De qualquer modo sente.
De qualquer modo o corpo contém o dia.
De qualquer modo as cores e o músculo.
De qualquer modo o coração.
De qualquer modo sempre no fundo a memória.
De qualquer modo sem teorias.
De qualquer modo com a teoria da poética que é não existir teoria e
só existir poética
De qualquer modo a ciência atrapalha um pouco mas não totalmente.
De qualquer modo curiosidade.
De qualquer modo coleccionar montanhas.
De qualquer modo acabar quando o ritmo exige que se continue
O ritmo exige coisas que não devemos aceitar obedecer ser escravos.

[Gonçalo M. Tavares]
^^

sábado, 24 de outubro de 2009

Vem comigo, vem?





Tenho um lugarzinho divinamente bonito para te mostrar. Um lugar muito escondido, tal como um pensamento se esconde dentro de um pensamento, na floresta verde, modesta, silenciosa. Uma ravina amena e branda aonde nunca ninguém vai.
É um lugar tão quente, enterrado por entre as árvores, tão docemente oculto, é aí que imagino que gostaria de te beijar, com beijos íntimos, brandos, doces e demorados, com beijos que proíbem todas as palavras, mesmo as mais belas e mais perfeitas.
É um lugar tão delicado e remoto que não vem mencionado em nenhum guia de viagens. Um pequeno trilho, serpenteando por entre a vegetação espessa, conduz à ravina, ao lugar fabuloso onde te quero mostrar, a ti, quanto te amo, onde quero prestar o meu culto, a ti, meu anjo.
Neste pequeno reduto, os braços entrelaçam-se como se tivessem vontade própria, e os lábios tocam-se como se tivessem vontade própria.
Não sabes ainda como eu beijo bem...
Vem então ao lugar onde nada existe para além do restolhar amável das árvores altas, aí ficarás a saber. Não direi uma palavra, e também tu não dirás uma palavra, ficaremos os dois em silêncio, só as folhas murmurarão levemente e a luz doce do sol irromperá através das graciosas ramadas.
Oh, como será mudo, como será mudo o momento em que os nossos lábios se juntarão com fome e sede amorosa, como será doce o momento em que nos amaremos na ravina silenciosa e amável. Amar-nos-emos e trocaremos carícias até que chegue a noite, e com ela as estrelas com brilho de prata e a divina lua. Nada teremos a dizer um ao outro, pois tudo será apenas um beijo, um beijo infinito, continuado, arrebatador, por horas e horas a fio. Quem quer amar já não quer falar, pois quem quer falar já não quer amar. Oh, vem comigo ao lugar sagrado e oculto da acção, ao lugar da prática, onde tudo se perde em concretização, onde tudo se afoga e morre no amor. Os pássaros cantarão à nossa volta com chilreios alegres, e à noite seremos rodeados por um silêncio divino. Aquilo a que chamam mundo ficará atrás das nossas costas, e nós os dois, cativos do desejo, seremos filhos da terra e sentiremos o que é viver, sentiremos o que é existir. Quem não ama não existe, não está aqui, está morto. Quem tem vontade de amar levanta-se dos mortos, e só quem ama está vivo.

[Robert Walser]

^^

sexta-feira, 23 de outubro de 2009


Uma aragem, leve depois de um dia
de multo calor.
Faltei ao emprego,
não fiz os deveres, não olhei para diante
nem para o lado, não fui
ao supermercado, não fiz
nem refiz abandonos.

Fiz de acaso, de imprevisto, não fui
à janela, não olhei o mar,
hoje, fiz todo o dia,
só isto.

[Helga Moreira]
^^

De ser o som do amor tão enleado
em cristalinas veias,
em palavras suaves, em recantos
que são gestos bem vivos e são letras
de irradiante lume,
havia este destino que era um lábio
a arder na vastidão de descobrir
o lugar onde ardia este esperar-te.

[João Rui de Sousa, Obra poética]

^^

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Mulher gorda na janela


Não há pressa nos seus olhos,
apenas o costume de estar só.
O seu olhar fixa as marcas que deixam os carros,
atenta em vão
ao que falta.
Apoia a cara no vidro frio
e repousa.
Olha as suas mãos redondas, pequenas,
toca nos seus seios grandes e quentes,
pensa nos seus pés e sorri maternalmente.
Corpulenta e doce como uma boa sopa,
murmura,
e no entanto está só.
Sabe que está fora mas não sabe de quê.
Ninguém percebe a sua paixão
pesada e gorda na janela.

[Beatriz Novaro]

^^

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Resposta ao tempo

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho
Prá ter argumento

Mas fico sem jeito
Calado, ele ri
Ele zomba
Do quanto eu chorei
Porque sabe passar
E eu não sei

Num dia azul de verão
Sinto o vento
Há fôlhas no meu coração
É o tempo

Recordo um amor que perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
Eu desperto

E o tempo se rói
Com inveja de mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Prá tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

[Composição: Aldir Blanc/Cristovão Bastos]
^^

Guardas tudo de mim
– não sei se entendes
a ternura da dádiva –
também não te pergunto…
para quê?

O meu amor é isto:
desejar-te em segredo
pouco esperar do que vier de ti
e nada te pedir.

[Maria Aurora Carvalho Homem]

^^

terça-feira, 20 de outubro de 2009




Dedos quietos que crescem
pele nua
brincadeiras como o amor
pêndulo solto de sonhos
lógicas sacudidas
olhar de só-assim
modos de chegar como sementes
manobras de artesão contra o ego
desafio do «eu»
nudez de pele
de mãos
e (sob os teus olhos)
invenção de um sólido espanador de tristezas.

[Ondjaki, Materiais para confecção de um espanador de tristezas]

^^

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Não Quero


Não quero alguém que morra de amor por mim...
Só preciso de alguém que viva por mim, que queira estar junto de mim, me abraçando.
Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade.
Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim...
Nem que eu faça a falta que elas me fazem, o importante pra mim é saber que eu, em algum momento, fui insubstituível...
E que esse momento será inesquecível...
Só quero que meu sentimento seja valorizado.
Quero sempre poder ter um sorriso estampando em meu rosto, mesmo quando a situação não for muito alegre...
E que esse meu sorriso consiga transmitir paz para os que estiverem ao meu redor.
Quero poder fechar meus olhos e imaginar alguém...
E poder ter a absoluta certeza de que esse alguém também pensa em mim quando fecha os olhos, que faço falta quando não estou por perto.
Queria ter a certeza de que apesar de minhas renúncias e loucuras, alguém me valoriza pelo que sou, não pelo que tenho...
Que me veja como um ser humano completo, que abusa demais dos bons sentimentos que a vida lhe proporciona, que dê valor ao que realmente importa, que é meu sentimento...
E não brinque com ele.
E que esse alguém me peça para que eu nunca mude, para que eu nunca cresça, para que eu seja sempre eu mesmo.
Não quero brigar com o mundo, mas se um dia isso acontecer, quero ter forças suficientes para mostrar a ele que o amor existe... Que ele é superior ao ódio e ao rancor, e que não existe vitória sem humildade e paz.
Quero poder acreditar que mesmo se hoje eu fracassar, amanhã será outro dia, e se eu não desistir dos meus sonhos e propósitos, talvez obterei êxito e serei plenamente feliz.
Que eu nunca deixe minha esperança ser abalada por palavras pessimistas...
Que a esperança nunca me pareça um "não" que a gente teima em maquiá-lo de verde e entendê-lo como "sim".
Quero poder ter a liberdade de dizer o que sinto a uma pessoa, de poder dizer a alguém o quanto ela é especial e importante pra mim, sem ter de me preocupar com terceiros...
Sem correr o risco de ferir uma ou mais pessoas com esse sentimento.

[Mário Quintana]
^^

O perigo dos espelhos é exporem-se os ossos.
A luz reflui através das omoplatas, distribui-se
pelos flancos, concentra-se nos pés.
De alto a baixo somos vivas candeias acesas.
Entramos na obscuridade com o fascínio
de um dom próprio.
Não possuímos um deus, mas duas mãos lisas
e uma boca de vidro – e uma voz
que vai morrer.

Fazer estalar a amnésia, pouco a pouco,
ou de um só golpe. Ninguém acorda
senão numa sala de pânico.
Levas o dedo à ferida: uma fechadura.
E, rodando o dedo, há por baixo
uma tulipa aberta,
decifrada.
Podias amar concretamente esta dolorosa,
solitária investigação dos interiores,
as malhas soltas da luz.

Porque o mundo é um contínuo acto de costura.
Rompemos com o mistério apenas para
que se teça um mais alto e apaixonante enigma.
Tudo o que nos fulmina, cresce devagar.
Entende-se que seja assim, trôpego, o existir?
Não, não temos uma súbita iluminação,
mas recantos e recantos, penumbras
– e uma voz exausta que vai
morrer.

[Vasco Gato]
^^