Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 14 de junho de 2009

O Profundo Silêncio das Flores


"O profundo silêncio das flores
é um lugar de ausência. Vazia moldura
para o vôo das aves, linha oscilante
de ligeira névoa
que nada revela do que talvez esconda."

[Égito Gonçalves]


^^

Matéria da Poesia

4

3

Todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para poesia

O homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

Terreno 10x20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

Um chevrolé gosmento
Coleção de besouros abstémios
O bule de Braque sem boca
são bons para poesia

As coisas que não levam a nada
têm grande importância

Cada coisa ordinária é um elemento de estima

Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

O que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

As coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

Tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

As coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjectivos –
têm muita importância para os pulmões
da poesia

Tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

Os loucos de água e estandarte
servem demais
O traste é ótimo
O pobre-diabo é colosso

Tudo o que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta

Pessoas desimportantes
dão pra poesia
qualquer pessoa ou escada

Tudo o que explique
a lagartixa da esteira
e a laminação dos sabiás
é muito importante para a poesia

O que é bom para o lixo é bom para a poesia

Importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

as coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora

Aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra
sem nascerem em sua boca as raízes da escória

As coisas sem importância são bens de poesia

Pois é assim que um chevrolé gosmento chega ao poema,
e as andorinhas de junho.

[Manoel de Barros]

^^

Flor em Livro Dormida

Fechado, espalmado num missal é que eu me vejo,
como peça de herbário dum comércio amoroso
que há um século se travou entre Dom Brotoejo
e Dona Amélia Joana Cisneiros Monterroso.

Antepassados meus? Qual quê! Antepassados nossos,
que ao santo sacrifício levavam floretas,
trocavam os missais (Deus meu!,hoje são ossos...)
olhos nos olhos(...ossos nos ossos das comuns valetas?)

Mais que a letra ,é o espírito que no livro procuro,
mesmo que seja só o levante da carne
duns pobres queridos que transformavam tudo
-missa, missal, flor-em mensagem e secreto alarde!

Consumidores de livros, se quiserdes salvar
vossas almas-lombadas de bárbaros prosaicos,
tereis que, furtivos, procurar, folhear
uns quantos alfarrábios e, neles, encontrar
o herbário-mensagem dos amantes heróicos!


[Alexandre O'Neill]

^^

Matemática


"Lewis Carroll era um matemático que não tinha os algarismos todos. Do zero ao dez faltavam-lhe talvez quatro. Para preencher o espaço dos algarismos ausentes Lewis usava histórias (como os canalizadores usam uma substância gelatinosa para preencher buracos nos canos ou nas paredes).
Claro que uma história pode ou não ter pescoço. Se não o tiver, entre a cabeça e os pés é um segundo. Daí que existam história rápidas e histórias lentas. O que não há é números rápidos e números lentos.
Na matemática, portanto, a velocidade é constante, o que facilita os cálculos e a monotonia."

[Gonçalo M. Tavares]

^^

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Do que pode ser perfeito


Não não é isso
nada que eu tenho feito
nada
que eu tenho feito

é feito de
nada
e o ditongo

eu

seguido da
primeira pessoa
do singular
do indicativo

do verbo
auxiliar
ter

tudo
que eu tenho feito
dá no mesmo

se fazer
é capaz
de uma
infinidade de
combinações
envolvendo os
códigos

morais
físicos
e religiosos

pois tudo
e nada
são sinônimos
quando

a energia in vacuo
tem o poder
de confusão

que só
nada ter feito
pode fazer
perfeito.


[William Carlos Williams]

^^

quarta-feira, 10 de junho de 2009

Katia Chausheva

"Os dias cinzentos. Eles vêm, eles insinuam-se com o tempo. Deixas de vislumbrar os matizes que desaparecem como ténues, cintilantes flocos na memória. Ficar sentado e pensar de repente. Que está mais cinzento, que queres libertar-te, mas continuas sentado, em completo silêncio, imaginas-te dentro do cinzento porque há nele uma leveza, porque ele é algo de fortuito que se ajusta bem aos dias, e quando queres sair dele, estás deitado indefeso no meio do caminho, como um animalzinho, destrutível, mesmo com o mais ligeiro toque."

[Aasne Linnesta]

^^

terça-feira, 9 de junho de 2009

O que é o espaço?

Photobucket

"O que é o espaço
senão o intervalo
por onde
o pensamento desliza
imaginando imagens?

O biombo ritual da invenção
oculta o espaço intermédio
o interstício
onde a percepção se refracta

Pelas imagens
entramos em diálogo
com o indizível."


[Ana Hatherly]

^^

[...]

Photobucket

I
Somos duros um com o outro
e chamamos-lhe honestidade
escolhendo as nossas verdades dentadas
com cuidado e apontando-as através
da mesa neutra

As coisas que dizemos são
verdadeiras: é o nosso alvo
retorcido, são as nossas escolhas
que as tornam criminosas.

II
Claro as tuas mentiras
são mais divertidas:
porque as fazes novas de cada vez

As tuas verdades, dolorosas e chatas
repetem-se continuamente
se calhar porque és dono
de tão poucas

III
Uma verdade deveria existir
não deveria ser usada
assim. Se eu te amo

é isso um facto ou uma arma?

O corpo mente
ao mover-se assim, são estes
toques, cabelos, o mármore
macio e húmido que a minha língua percorre
mentiras que me estás a dizer?

O teu corpo não é uma palavra,
nem mente
nem fala a verdade

Apenas
está aqui ou não está.


[Margaret Atwood]

^^
Books

"As árvores como os livros têm folhas
e margens lisas ou recortadas,
e capas (isto é copas) e capítulos
de flores e letras de oiro nas lombadas.

E são histórias de reis, histórias de fadas,
as mais fantásticas aventuras,
que se podem ler nas suas páginas,
no pecíolo, no limbo, nas nervuras.

As florestas são imensas bibliotecas,
e até há florestas especializadas,
com faias, bétulas e um letreiro
a dizer: «Floresta das zonas temperadas».

É evidente que não podes plantar
no teu quarto, plátanos ou azinheiras.
Para começar a construir uma biblioteca,
basta um vaso de sardinheiras."

[Jorge Sousa Braga]

^^

segunda-feira, 8 de junho de 2009

[...]

Ilusion of an Zealous Heart

"A solidão
despe
mais fundo
que o amor.

______________________________O amor
______________________________inventa
______________________________sempre
______________________________novas
______________________________vestes

novos disfarces
novas fantasias
O corpo

é mais nu."



[Teresa Rita Lopes, A fímbria da fala]

^^

Rumor de água

RecadosAnimados.com

"Rumor de água
na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refractada.
A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.
Rumor de nada."

[Carlos de Oliveira]

^^

Uma Arte

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"A arte de perder não é difícil de se dominar;
tantas coisas parecem cheias da intenção
de se perderem que a sua perda não é uma calamidade.

Perder qualquer coisa todos os dias. Aceitar a agitação
de chaves perdidas, a hora mal passada.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Então procura perder mais, perder mais depressa:
lugares e nomes e para onde se tencionava viajar.
Nenhuma destas coisas trará uma calamidade

Perdi o relógio da minha mãe. E olha! a última, ou
a penúltima, de três casas amadas desapareceu.
A arte de perder não é difícil de se dominar.

Perdi duas cidades encantadoras: E, mais vastos ainda,
reinos que possuía, dois rios, um continente.
Sinto a falta deles, mas não foi uma calamidade.

- Mesmo o perder-te (a voz trocista, um gesto
que amo) não foi diferente disso. É evidente
que a arte de perder não é muito difícil de se dominar
mesmo que nos pareça (toma nota!) uma calamidade."

[Elizabeth Bishop]

^^

Esta Casa

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"Gosto dela assim: ainda vibrante dos passos
que a deixaram a sós comigo
desobrigada
de abrigar seus moradores
Comigo é
diferente:
não me limito a usá-la
a habitá-la:
namoro com ela
Comigo
abandona-se a seus mais íntimos rumores
e cheiros
e aliviada do dever de ser útil
em silêncio
canta."


[Teresa Rita Lopes]

^^

domingo, 7 de junho de 2009

Deus

RecadosAnimados.com

^^

Alívio Imediato

Sarah Wilmer

"O melhor esconderijo, a maior escuridão
Já não servem de abrigo, já não dão proteção
A Líbia é bombardeada, a libido e o ví­rus
O poder, o pudor, os lábios e o batom

Há espaço pra todos, há um imenso vazio
Nesse espelho quebrado por alguém que partiu
A noite cai de alturas impossí­veis
E quebra o silencio e parte o coração

Há um muro de concreto entre nossos lábios
Há um muro de Berlim dentro de mim
Tudo se divide, todos se separam
Duas Alemanhas, duas Coreias
Tudo se divide, todos se separam

Não ha nada de concreto entre nossos labios
Só um muro de batom e frases sem fim
holofotes nos meus olhos cegam mais do que iluminam
nem caiu a ficha e já acabou a ligaçao

Que a chuva caia
Como uma luva
Um diluvio
Um delírio
Que a chuva traga
Alivio imediato

Que a noite caia
De repente caia
Tão demente
Quanto um raio
Que a noite traga
Ali­vio imediato"

[Composição: Humberto Gessinger]


^^

sábado, 6 de junho de 2009

Não tem Volta

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"Se você vai por muito tempo
Você nunca volta
Você retorna, você contorna
Mas não tem volta
A estrada te sopra pro alto
Pra outro lado
Enquanto aquele tempo vai mudando
Aí, de quando em quando você lembra

Aquele beijo
Aquele medo
Mas você sabe que tudo ficou antigo
E você não volta
Nem com escolta
Nem amarrado, porque o passado já te perdeu

E o perigo muda mesmo de endereço.
Não existe pretexto, o dia mudou
O carteiro não veio
O princípio é o meio
E você retorna, mas não tem volta."

[Composição: Christian Oyens / Zélia Duncan]


^^

(...)

Graça
"De muitas formas se diz a minha luz
De muitos modos me visita o meu anjo
Vem devagarinho...
... molda-me com
esperas...
... enfeita de estrelas os espelhos onde
me deito
...
por fim, numa pausa de murmúrios, numa paleta de cheiros bem fortes
deixa o meu corpo feliz"(...)


[Victor Oliveira Mateus, A noite e a voz]

^^

Quer me enxergar?

Graça Photobucket

O pouco já não me contenta. Dispenso pedaços. Sou inteira. E quero caminhos inteiros também. Nada de me deixar em partes pelo caminho. Nada de tentar te levar comigo. Eu me insisto. Persisto. Prossigo. Sigo - meus pés, passos, traços e coração. Não ache você, que sou - quem quer que eu seja - pra quando você quiser. O tempo é meu, apesar de nosso. Minha vida não tem ponteiros, nem medidas. Eu voo e vou, até chegar, até mudar. Desenho no pensamento minha imensidão. Não me largo. Mesmo que ás vezes doa, me agarro com minhas unhas pintadas e não me deixo - mesmo quando deixo o vento me levar. Leve eu voo e vou, até chegar, até mudar de humor quando eu achar que você não está certo ou eu estou errada. Depois volto a sorrir. Porque na verdade a gente vive brincando de levar tudo a sério. E nada é para sempre. Nem a gente. Não sou pra sempre, mas sou inteira. Pra quando eu me acabar, 'poder dizer' que eu fui tudo que poderia ser. Faces que ultrapassam a visão e o sentido. Na luz, um espelho. Quer me enxergar? Seja. Se você não for, eu voo - partindo dos seus olhos e os deixando com migalhas. Retribuindo pequenos gestos. No escuro, a intuição. Você arrisca e eu vou com os braços e coração abertos, ao encontro da vida ilimitada que habita meus sonhos. Afinal, nossos mundos são grandes demais para sermos pequenos!
^^

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Boa Noite!

RecadosAnimados.com


XXXI - Se às Vezes Digo que as Flores Sorriem

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"Se às vezes digo que as flores sorriem
E se eu disser que os rios cantam,
Não é porque eu julgue que há sorrisos nas flores
E cantos no correr dos rios...
É porque assim faço mais sentir aos homens falsos
A existência verdadeiramente real das flores e dos rios.
Porque escrevo para eles me lerem sacrifico-me às vezes
À sua estupidez de sentidos...
Não concordo comigo mas absolvo-me,
Porque só sou essa cousa séria, um intérprete da Natureza,
Porque há homens que não percebem a sua linguagem,
Por ela não ser linguagem nenhuma."


[Fernando Pessoa]


^^

quinta-feira, 4 de junho de 2009

[...]

Honey

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"Entre gestos e baloiços entram-me
pelas palavras dentro as horas onde a infância
dorme na sombra do horizonte

algures, perdida entre uma sílaba
antecipada pelo som do riso
perco-me dos dias

a verdade? A verdade é um livro com imagens feitas de restos
e o tamanho das palavras, letra a letra
é o tamanho de quando o silencio era feito de gargalhadas

mas as letras não têm sabor
e com frio nos dedos, folheio as paginas
onde palavra a palavra a infância se perde
quando me devolvo ao dia, as gargalhadas apagam-se
ficando os baloiços cobertos pela transparência das lágrimas."

[eue]

^^

Danças com minh'alma?

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"Esta noite morri muitas vezes, à espera
de um sonho que viesse de repente
e às escuras dançasse com a minha alma
enquanto fosses tu a conduzir
o seu ritmo assombrado nas terras do corpo,
toda a espiral das horas que se erguessem
no poço dos sentidos. Quem és tu,
promessa imaginária que me ensina
a decifrar as intenções do vento,
a música da chuva nas janelas
sob o frio de fevereiro? O amor
ofereceu-me o teu rosto absoluto,
projectou os teus olhos no meu céu
e segreda-me agora uma palavra:
o teu nome - essa última fala da última
estrela quase a morrer
pouco a pouco embebida no meu próprio sangue
e o meu sangue à procura do teu coração."


[Fernando Pinto do Amaral]

^^

Inquietude

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... "Sou o corpo __________________________ o incêndio
só o fogo
______________________________________ me acalma"


[Maria Teresa Horta, Inquietude - Poesia Reunida]

Homens que são como lugares mal situados


"Homens que são como projectos de casas
Em suas varandas inclinadas para o mundo
Homens nas suas varandas voltadas para a velhice
Muito danificados pelas intempéries
Homens cheios de vasilhas esperando a chuva
Parados à espera
De um companheiro possível para o diálogo interior

Homens muito voltados para um modo de ver
Um olhar fixo como quem vem caminhando ao encontro
De si mesmo
Homens tão impreparados tão desprevenidos
Para se receber

Homens à chuva com as mãos nos olhos
Imaginado relâmpagos
Homens abrindo lume
Para enxugar o rosto para fechar os olhos
Tão impreparados tão desprevenidos
Tão confusos à espera de um sistema solar
Onde seja possível uma sombra maior."

"Um coração de sangue
Um coração de xisto e aço
Um coração angular e redondo
Como a pedra que te abre
Do interior do chão

Um coração solar
De granito
De carne
Curado da noite de nascença

Um coração de homem
Um coração de homem vivo
Um coração de criança ao colo
Interior
– Mais interior do que o sangue no coração que me darás –

Peço um coração
Nuclear."


Daniel Faria [Poesia]

^^


quarta-feira, 3 de junho de 2009

A casa do Mundo

2
"Aquilo que às vezes parece:
um sinal no rosto
é a casa do mundo
é um armário poderoso
com tecidos sanguíneos guardados
e a sua tribo de portas sensíveis.

Cheira a teias eróticas. Arca delirante
arca sobre o cheiro a mar de amar.

Mar fresco. Muros romanos. Toda a música.
O corredor lembra uma corda suspensa entre
os Pirinéus, as janelas entre faces gregas.
Janelas que cheiram ao ar de fora
à núpcia do ar com a casa ardente.

Luzindo cheguei à porta.
interrompo os objetos de família, atiro-lhes
a porta
Acendo os interruptores, acendo a interrupção,
as novas paisagens têm cabeça, a luz
é uma pintura clara, mais claramente me lembro:
uma porta, um armário, aquela casa.

Um espelho verde de face oval
é que parece uma lata de conservas dilatada
com um tubarão a revirar-se no estômago
no fígado, nos rins, nos tecidos sangúíneos.
É a casa do mundo:
desaparece em seguida."

[Luiza Neto Jorge]

Os Girassóis

Alina Manolache
"Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão
De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém
As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens


Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos."

[José Tolentino Mendonça]


^^

Versos Soltos...

I guess I'm floating
"A noite acendeu as estrelas porque tinha medo
da própria escuridão."

"... O luar é a luz do sol que está sonhando..."

"A maior dor do vento é não ser colorido."
"Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade
E é como se agora este pobre, este único,
este efêmero instante do mundo
Estivesse pintado numa tela,
Sempre..."

[Mário Quintana]

^^

Quando os pássaros são imagens
inquietas do frio, e as sombras
movimentos onde as despedidas
se repetem.
.
Desperto de diálogos que desfazem o sono
sei que para além da noite
há um inverno a dançar
nos meus medos.

[eue]

^^

Não sei


Não sei se era aqui que era suposto chegar, se era este o lugar, se era este o tempo. Cheguei à esquina onde a vida dobra, à foz dos atalhos onde os caminhos novos se fazem e sei que tenho pouco tempo para dar o primeiro passo, o derradeiro, aquele que fará com que tudo o que fica para trás faça sentido, mesmo que sejam só atalhos menores. Não tenho tempo para pensar e o precipício que se adivinha em cada passo errado faz-me engolir em seco, faz-me fechar os punhos com muita força, faz-me inspirar lentamente para conseguir manter convicções.

[Felisbela Fonseca]
^^

Estátua

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"Nas suas mãos a voz do mar dormia nos seus cabelos o vento se
esculpia
a luz rolava entre os seus braços frios e nos seus olhos cegos e
vazios boiava o rasto branco dos navios."

[Sophia de Mello Breyner Andresen]

^^

terça-feira, 2 de junho de 2009

(...)

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...
"Encosto a cara às quimeras da infância, para exorcizar
a inocência perdida e rodopiar, sobre os sonhos, a valsa
solitária da criança que fui, quando as minhas mãos, nativas
do sol, eram aves de múltiplas cores.

Paro todos os relógios, para escutar a respiração dos dias.
E, como um actor que se esgota na personagem, rasgo
o cenário e danço, como um louco, em redor de malogros
entrelaçados nos meus pulsos. Tenho, em volta do pescoço,
uma lua transparente que me enrouquece a voz."

[Graça Pires]

^^

Caro leitor,

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"Venho desta forma solicitar ao leitor
uma cabeça de martelo
para que por caridade
me sejam arrancados das costas
todos os pregos que o tempo aí me pregou

Pregos para pendurar retratos
talvez de coisas tristes
talvez de coisas alegres

Peço-lhe que o faça com extrema delicadeza
de modo a que um dia
me seja possível coçar as costas
sem estar preocupado
com crostas ou cicatrizes

Venho pois caro leitor
pedir-lhe depurada mestria
ao arrancar-me todos os pregos
que a vida me pregou nas costas

Pregos veja-se bem
que têm servido tão-somente
para pendurar quadros
talvez de naturezas mortas
talvez de paisagens sem título

Não leve a mal o pedido
trata-se de caridade devida
ou não fosse também o caro leitor
um desses pregos
que o destino me pregou nas costas
com irrepreensível precisão."


[Antoni Tàpies]

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Ao meio

Graça Loureiro

"Olha, as coisas
Estão cortadas ao meio,
De um lado elas
Do outro o seu nome.

Há um vasto espaço entre elas,
Espaço para correr,
Para a vida.

Olha, tu estás cortado ao meio.
De um lado tu,
Do outro o teu nome.

Não sentes às vezes ou no sonho
Ou à margem do sonho,
Que na tua fronte
Assentam outros pensamentos,
Sobre as tuas mãos
Outras mãos?

Só por um instante foste compreendido
Fazendo o teu nome
Atravessar o teu corpo,
De um modo sonoro e doloroso,
Como o badalo de bronze
Através do vazio do sino. "

[Marin Sorescu]

^^

[...]

Alastair Magnaldo

"Atrás da minha janela há uma árvore
onde os pássaros marcam o tempo
na transparência do vento
sacodem-se as horas e por fim as imagens
evaporam-se nos contornos dos sonhos .

Entrego-me a um tempo concluído.

Faço tréguas com o passado fechando portas
ao silêncio da noite
mas o sol insiste em fazer Outonos
mesmo quando os dias são mudos."

[eue]

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As Palavras

Augusto Peixoto
"As palavras
cintilam
na floresta do sono
e o seu rumor
de corças perseguidas
ágil e esquivo
como o vento
fala de amor
e solidão:
quem vos ferir
não fere em vão,
palavras."


[Carlos de Oliveira]

^^

[...]

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"E é este o quarto onde costumo estar nas noites assim; o quarto onde costumo estar nas noites que não são bem assim; o quarto onde costumo estar todas as noites e onde nunca nada jamais acontece a não ser o estrépito do céu caindo à vez pelos telhados."


[António Gregório]
Uma história de desamor treze vezes


^^

segunda-feira, 1 de junho de 2009

[?]

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Desfolhar uma rosa
é poesia ou prosa?


^^

[...]

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"Os olhos ganham a intensidade das rugas todas a sombras se juntam como linhas de uma folha é neste tempo de sílabas murchas que nos olhos param imagens o outro lado dos olhos são pedacinhos de papel que rasguei num domingo."

[eue]

^^

Ver-te

Graça Loureiro
"Ver-te é como ter à minha frente todo o tempo
é tudo serem para mim estradas largas
estradas onde passa o sol poente
é o tempo parar e eu próprio duvidar mas sem pensar
se o tempo existe se existiu alguma vez
e nem mesmo meço a devastação do meu passado.
Quando te vejo e embora exista o vento
nenhuma folha nas múltiplas àrvores se move
ver-te é logo todas as coisas começarem é
tudo ser desde sempre anterior a tudo.
Ver-te é sem tu me veres eu sentir-me visto
sentir no meu andar alguma segurança mínima
caminhar pelo ar a meio metro da terra
e tudo flutuar e ser ainda mais aéreo do que o ar
ver-te é nem mesmo pensar que deixarei de ver-te."

[Ruy Belo]

^^

Então?







(...) Terás de amar os pés, mesmo que partidos ao meio, na destruição dramática dos seus vinte e seis ossos. (...) Toda a sua minuciosa anatomia de quem quer andar como quem canta. (...) Encontrar-lhe os lírios nas sequelas dos músculos. Dar-lhes corda. (...) Pô-los a pensar sobre os caminhos - dar-lhes caminhos. (...)


[Ana Salomé]



^^

Poesias e Eu


Surpreendo-me ao ver, sentir e perceber o poder das palavras. Assusto-me ao sentir o grande efeito, devastador quase sempre, que elas me provocam. As palavras são para mim escudos, muralhas, abrigo, refúgio. São nelas que me escondo, me demonstro, me entrego, me escancaro. Lastimável não ter eu o poder de dominá-las, de colocá-las em um papel, não necessariamente coesas, mas sempre coerentes como fazem meus amigos poetas. Invejo-os. Sinceramente, invejo-os. Invejo quem possui o dom inerente de transmitir sensível e emocionalmente sentimentos tão indescritíveis, como a tristeza, a alegria, a dor e a euforia. Como eu gostaria de poder transpor tudo que há em mim, todo o meu sangue, toda a minha luta, toda a minha dor em versos, toda minha essência em estrofes...
Quanto desejo contido!

Mas já dizia Caetano Veloso (eu acho!) em uma canção:


"Meu coração não cansa de ter
esperança de ser um dia
tudo o que quer. "

^^