Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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terça-feira, 13 de outubro de 2009


Faltas-me. Se aqui estivesses isto não seriam
palavras. Um trinco por dentro, essa ilusão
de voltar a ti olhando os papéis, desconheço
o que de mim resta quando as horas quase trazem
o silêncio e a boca se abre, faz a passagem
do teu corpo a um corpo que aproveita
a substituição que não sabe. Mudaremos o tempo
para nenhuma exigência, faltas-me quando estás
a caminho, já oiço os teus passos subindo
no fundo da escada. Amanhece. Nos sonhos
que não sou capaz de lembrar vens tocar-me
nos ombros e dizer ainda não são horas, ainda
não é alba. As palavras faltam-me, vou
calar-me nas duas voltas da chave, este papel
apagado, sujo da ausência dos teus gestos.

[Helder Moura Pereira, De novo as sombras e as calmas]

^^

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Segue-me noite e dia o teu desejo!...
Oiço a tua voz rúbida e cantante
Suplicar-me a carícia do meu beijo,
numa teima exigente e perturbante!


E o meu corpo vencido, dominado,
vai tombar doloroso, inconsciente,
sobre a lembrança morna do passado
- e fica-se a sonhar... perdidamente!


[Judith Teixeira]


^^

Cidade de Orgias

Cidade de orgias, passeios, alegrias,
Cidade daquele que, tendo vivido e cantado em teu seio, te fará ilustre um dia,
Não serão as tuas exposições, nem os teus quadros,
Nem teus espetáculos, que me recompensarão,
Não serão as tuas filas intermináveis de casas, nem os navios nas tuas docas,
Nem as procissões nas ruas, nem as vitrines brilhantes com os produtos lá dentro,
Nem o diálogo com pessoas cultas, nem a minha participação em um sarau ou uma festa.

- Nada disso, mas quando passo, ó Manhattan,
O teu freqüente e súbito brilho no olhar a me oferecer o amor,
Ofertando-me uma resposta, isso sim me recompensa,
Amantes, continuadas amantes, tão-só me recompensam.

[Walt Whitman - POEMAS DE FOLHAS DA RELVA]

^^


... Estou apaixonada.
E este amor vai decerto arrastar-me
para longe...
A corrente é demasiado forte, não tenho escolha
possível...
Posso acabar por perder tudo.
Mas já não posso voltar atrás.
Só posso deixar-me ir com a maré.
Mesmo que
comece a arder,
mesmo que desapareça para sempre...

[Haruki Murakami, Sputnik - meu amor]

^^

domingo, 11 de outubro de 2009

Retribuindo: recadinho cheio de duplo sentido: =)


Entendeste, meu caro?

^^

Escondo a raiva das lágrimas do nada
que te dei

Ferida dilacerada
sangue exposto nos caminhos que plantamos
nos desertos da nossa esperança

Poderíamos amar loucamente
a sombra do gesto
a canção nua
o vinho a semente a baga
construir cometas à volta do desejo

se não fosse a alma a remissão e o pecado

Poderíamos benzer as casas com hortelã
onde acendo o coração aberto

mas há a excomunhão das trepadeiras
e eu entendo...

[Gonçalo Nuno dos Santos]

^^

sábado, 10 de outubro de 2009

(...)

Photobucket
Às vezes queria que a água lavasse
a culpa do rosto, levasse de dentro
estilhaços, (pensamentos) impurezas...

[João Luís Barreto Guimarães]

^^

Não sou uma vitória ou uma derrota,
mas me conquisto sempre cada dia,
procurando essa forma mais remota
do que em mim nos instantes se perdia.
Nem um profundo mar, nem superfície,
nem vento ou pedra: leve, na existência,
balanço entre as montanhas e a planície
com asas no sentir, preso à consciência.
Tudo o que é meu anseia uma amplidão,
de um céu inacabado a nostalgia.

É o peso desta terra em minha mão.
E enquanto espero o mundo na Poesia
enfim suprir, eu luto e mais persigo
esta idéia de mim, que não consigo.

[Lupe Cotrim]

^^


Da janela lateral do quarto de dormir
Vejo uma igreja, um sinal de glória
Vejo um muro branco e um vôo, pássaro
Vejo uma grade, um velho sinal

Mensageiro natural de coisas naturais
Quando eu falava dessas cores mórbidas
Quando eu falava desse homens sórdidos
Quando eu falava desse temporal
Você não escutou

Você não quer acreditar
Mas isso é tão normal
Você não quis acreditar
Que eu apenas era...

sexta-feira, 9 de outubro de 2009


Não te importes amor
se tivermos a alma em desalinho.

Amanhã cortaremos as sombras do quintal
sem acreditar que as sombras devam ser
sombrias. Mas é reconfortante acreditar na língua
e na sabedoria popular
e em tudo o que nos torna cúmplices.

Não te importes se for outono. Nunca pensaremos
que as coisas declinam porque nos amamos,
conjugaremos todas as estações com este amor,

pagaremos os impostos - agora é mais fácil
com o multibanco -, escreverás cartas
e algumas deixarás de escrever
porque as penas do edredão são leves
e não é saudável resistir ao amor.

Não te importes se estivermos ocupados
com pequenas coisas. És tão belo
a limpar a louça como a dizer um poema,
a arrumar os papéis ou a desabotoar-me o vestido.
Pão nosso nos dai hoje a torradeira amanhã bem cedo,
o forno quente, a manteiga a escorrer, a tua mão a segurar
a chávena e todas as coisas que nos fazem sorrir
só porque nos amamos e o sabemos
por hoje e pelo tempo que virá,
porque resistimos à burocracia e ao cansaço,
porque aprendemos a olhar o rio
a ver como é diferente quando o dia nasce, quando
a noite cai, quando uma chuva miúda torna a terra fértil
e cheira a estrume, a merda de alcatrão lavado.

Não te importes amor se hoje te amo tanto.
Amanhã tens mais uma sílaba
e é com ela que te conjugo entre os lençóis.


[Rosa Alice Branco]

^^

quinta-feira, 8 de outubro de 2009


Embriaguei-me num doido desejo
E adoeci de saudade.
Caí no vago ... no indeciso
Não me encontro, não me vejo -
Perscruto a imensidade

E fico a tactear na escuridão
Ninguém. Ninguém
Nem eu, tão pouco!

Encontro apenas
o tumultuar dum coração
aprisionado dentro do meu peito
aos saltos como um louco.

[Judith Teixeira]

^^

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Querer-te é sentar-me na praça, logo de manhã, só para te ver passar
Querer-te é os teus olhos, o teu sorriso cúmplice, as tuas palavras
Querer-te é também não me veres, se por acaso alguém está perto
Querer-te é haver sol e vento e estrelas. É o verde das acácias e das
palmeiras e as rosas de Jericó alinhadas até à ponta das dunas.
Querer-te é o castanho doce dos figos sobre a mesa, as tâmaras, a voz
da grande Kolthoum vinda de uma janela num cântico apaixonado ao Nilo
Querer-te é haver noite - ah, sobretudo a noite! E é o teu corpo nu,
exausto, branco como um templo, porque todos os corpos são um
templo no solo consagrado que há.
Querer-te é o sorriso no rosto das crianças, o grácil e dançante
caminhar das mulheres, a fonte, as águas.
Querer-te é tudo, até o meu desejo de te não querer.

[Victor Oliveira Mateus]

^^

Onde os limites
ao poder dum amor cego
sob a venda negra da paixão

Onde os limites
se
a pele é seda
a dor é prazer
o obsceno aguilhão
a exaustão prado ameno

Retirada a venda à paixão
resta a calma no olhar
ao mais fundo da alma...

[Daniel Sant'Iago]


^^

terça-feira, 6 de outubro de 2009



Minhas mãos não são minhas mãos
são pássaros rasando a tua pele nua

São voos planados descobrindo céus
imagens loucas de total candura

Minhas mãos somente
inventam barcos e partem à procura
das tuas mãos nas minhas.

[Bernardete Costa]

^^

segunda-feira, 5 de outubro de 2009


Só o verde fala neste tempo de silêncio
Somos gastos pelos ruídos do lado de fora das árvores
Espera, pensei em folhas e a primavera explodiu-me na boca da alma.

[Maria Sousa]

^^

Noites Com Sol

Ouvi dizer que são milagres
Noites com sol
Mas hoje eu sei não são miragens
Noites com sol
Posso entender o que diz a rosa
Ao rouxinol
Peço um amor que me conceda
Noites com sol

Onde só tem o breu
Vem me trazer o sol
Vem me trazer amor
Pode abrir a janela
Noites com sol e neblina
Deixa rolar nas retinas
Deixa entrar o sol

Livre será se não te prendem
Constelações
Então verás que não se vendem
Ilusões
Vem que eu estou tão só
Vamos fazer amor
Vem me trazer o sol
Vem me livrar do abandono
Meu coração não tem dono
Vem me aquecer nesse outono
Deixa o sol entrar

Pode abrir a janela
Noites com sol são mais belas
Certas canções são eternas
Deixa o sol entrar...

[Composição: Flávio Venturini / Ronaldo Bastos]

^^
Adonde vas ahora
Alguien llama por tu nombre
En la estación

Tiraste tus sueños por la ventana
Dejaste en un papel tu dirección
Yo sé porque lloras
Nunca es fácil tomar la decisión
Alguiien te hace falta en la mañana
Y a alguien le rompiste el corazón
Suena otra vez tu nombre
En la estación

Ya no tienes tan claro porque vas
Por que no alcanzas
El tiempo que no pára
Y ahora llena el aire una canción
Quizas tu nueva vida empieza ahora
Del viejo mundo solo una impresión
Quizás no sea el fin de la historia
Quizás nunca dejaste
La Estación

[Composição: Herbert Vianna]

^^

domingo, 4 de outubro de 2009

Tenho-te na pele como voz
que ainda não tive tempo de despir.

Faço uma pausa, escolho um vestido novo
mas mesmo assim fico um adereço imperfeito
no teu esquecimento...

[Maria Sousa]

^^

Não, não passa o tempo
Ao menos para mim
Tomo comprimidos e sigo sem dormir
Vejo tantos portos, não há onde atracar
Já não existem laços, alguém cortou
(Trac, trac, trac)

Todos os perfumes, todo aquele lugar
Todas as misérias e tudo mais que há
Cada movimento do sol sobre você
Cada móvel velho e cada anoitecer

Dá-me tu amor, solo tu amor
Solo dá-me tu amor

Poucas garantias há para nós dois
Nada neste mundo tem tanto valor
Todos os vizinhos parecem saber
E lançam seus olhares sobre eu e você...

Veio todo mundo, a Rádio e a TV
Veio o comissário, anjos do céu também
Todos querem algo, sangue ou não sei quê
Em todo Universo nada lhes dá mais prazer...

Dá-me tu amor, solo tu amor
Solo dá-me tu amor

[Composição: Fito Paez]

^^

=)


^^