Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 6 de setembro de 2009

*Nem sei bem se sou eu quem em mim sente...


Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
Que me extravio às vezes ao sair
Das próprias sensações que eu recebo.
.
O ar que respiro, este licor que bebo,
Pertencem ao meu modo de existir,
E eu nunca sei como hei de concluir
As sensações que a meu pesar concebo.
.
Nem nunca, propriamente reparei,
Se na verdade sinto o que sinto. Eu
Serei tal qual pareço em mim? Serei
.
Tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
Nem sei bem se sou eu quem em mim sente.
.
.
[Álvaro de Campos]

^^

Domingo Irei

Domingo irei para as hortas na pessoa dos outros,
Contente da minha anonimidade.
Domingo serei feliz — eles, eles...
Domingo...
Hoje é quinta-feira da semana que não tem domingo...
Nenhum domingo. —
Nunca domingo. —
Mas sempre haverá alguém nas hortas no domingo que vem.
Assim passa a vida,
Sutil para quem sente,
Mais ou menos para quem pensa:
Haverá sempre alguém nas hortas ao domingo,
Não no nosso domingo,
Não no meu domingo,
Não no domingo...
Mas sempre haverá outros nas hortas e ao domingo!

[Álvaro de Campos]

^^

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

*Sobre a Minha Incapacidade de Expressão:

Hone

'É tudo aquilo que temos. Momentos com aqueles que amamos. (...)
estendemos as mãos e, às vezes, contra todas as possibilidades,
contra toda a lógica, tocamo-nos'
.
.
.
[Anatomia de Grey]
.
.
.
.
Talvez o amor não seja mais do que um certo silêncio.
os teus passos ao lado dos meus,
um fim de tarde num jardim do Porto,
confissões gravadas em troncos de árvores
e a certeza de que se da minha boca fechada há muito tempo
não ouves a palavra, posso ao menos desenhá-la nas tuas costas
enquanto me abraças e olhamos o rio em frente.
^^

Quem vai queimar?

Encaixotem os livres
Desinfetem os cantos
Estuprem as mulheres
Brutalizem os homens
Despedacem os fracos
Enfeitem a moda
Sodomizem as crianças
Escravizem os velhos
Fabriquem as armas
Destruam as casas
Façam render a guerra
Escolham os heróis

E queimem as bruxas
Deixa queimar...
E queimem as bruxas
Quem vai queimar?

Empurrem conselhos
Forneçam as drogas
Engulam a comida
Disfarcem bem a culpa
Protejam a igreja
Perdoem os pecados
Condenem os feitiços
Decidam quem vai morrer
Contaminem a escola
Violentem os virgens
Aprisionem os livros
Escrevam a história

E queimem as bruxas
Deixa queimar...
E queimem as bruxas
Quem vai queimar?



Quem ordena a execução
Não acende a fogueira.

(Pai, rogai por nós)

[Pitty]

^^


Meu coração e eu
vivemos juntos
mas não lado a lado
e nunca nos vemos
o sangue é um acordo vivo
que nos ata.

[Ana Hatherly]
^^
A menina rompeu as paredes da Torre
e pairou no vale
esquecida de sombras e bolores.

Mas de repente lembrou-se.

Parecia mal
ser tão feliz assim
a ceifar com a sua foice
ervas e cores.

E então estendeu-se no jardim
a aproveitar para o remorso dos olhos
o orvalho das flores.


[José Gomes Ferreira]

^^
Hei-de um dia levar-te a ver o sol do qual
conheço todas as cores (amarelo etc) pensamos
que as coisas existem mas segunda-feira traz

linhas de voo à liberdade da imaginação. Por
um instante pensei no sol como algo eterno
desconhecido mas um dia (digo) um dia algum

hei-de levar-te a ver o rio. Fechamos os olhos
ao usual esquecemos a diferença mas alguém
sabe quantos quadros pintou Picasso ou Resende
ou Van Gogh? Quanto pesa a torre dos Clérigos?

Mas também: quantas são as cores do arco-íris?
A forma de todas as pedras? Não há desculpa
para a rotina nem remédio para o ritual. Hei-de
um dia levar-te a ver o sul o sol um dia.

[João Luís Barreto Guimarães]

^^
Lembro-me bem do seu olhar.
Ele atravessa ainda a minha alma.
Como um risco de fogo na noite.
Lembro-me bem do seu olhar.

(...)

Deve haver ilhas lá para o sul das coisas
onde sofrer seja uma coisa mais suave.
Onde viver custe menos ao pensamento,
e onde a gente possa fechar os olhos e adormecer ao sol
e acordar sem ter que pensar em responsabilidades sociais
nem no dia do mês ou da semana que é hoje.

Abrigo no peito, como a um inimigo que temo ofender,
um coração exageradamente espontâneo
que sente tudo o que eu sonho como se fosse real,
que bate com o pé a melodia das canções que o meu pensamento canta.

Canções tristes, como as ruas estreitas quando chove.

[Álvaro de Campos]


^^

quarta-feira, 2 de setembro de 2009


Sonharei, no teu seio calmo,
O sonho invisível do cego de nascença.

Dormirei, no teu cerrar de pálpebras,
Como um peixe desliza entre os ramos de árvore
Reflectidos na água.

Dormirei, nas tuas mãos pousadas no meu corpo,
O desejo de te acariciar sem perigo
- não vá tirar-te escamas, borboleta presa.

Dormirei, no teu sexo, a solidão do meu
Ao existir para que eu pense em ti.

Dormirei, na tua vida, a teimosia humana
De um sentido universal para as coisas connosco.

E se, depois, meu amor, formos estéreis,
Se a demora do tempo tiver tido um gesto abandonado,
E a morte, à nossa volta, um moleiro sem trigo,
O mundo que vier inveja-nos
E o nosso espírito há-de perdoar-nos.

[Jorge de Sena]

^^


Não dormi com a beleza toda a vida
fazendo inconfidências a mim próprio
dos seus encantos planturosos

Não, não dormi com a beleza toda a vida
mas com ela menti
fazendo confidências a mim próprio
de como ela nunca morre
mas jaz à parte
no meio dos aborígenes
da arte
e paira por cima dos campos de batalha
do amor

Está acima de tudo isso
muito acima
Está sentada no mais selecto dos assentos
da Igreja
lá em cima onde os administradores da arte marcam encontros
para escolherem o que há-de ficar para a eternidade
Eles, sim, dormiram com a beleza
durante toda a vida
Eles, sim, alimentaram-se da ambrósia
e beberam o vinho do Paraíso
e por isso sabem exactamente como é que
uma coisa bela é uma alegria
para sempre e para sempre
e como é que ela nunca nunca
pode inteiramente desvanecer-se
num nada que leve à bancarrota

Oh não, nunca dormi
em Regaços de Beleza como esses
receando levantar-me de noite
com medo de perder nesses segundos
qualquer belo movimento que ela esboçasse
E contudo dormi com a beleza
à minha estranha maneira
e fiz uma ou duas cenas terríveis
com a beleza na minha cama
de onde transbordou um poema ou dois
de onde transbordou um poema ou dois

para este mundo tão parecido com o de Bosch

[Lawrence Ferlinghetti]

^^
"Quando analiso
a conquista da fama dos heróis
e as vitórias dos grandes generais,
não sinto inveja desses generais
nem do presidente na presidência
nem do rico na sua vistosa mansão;
mas quando eu ouço falar
do entendimento fraterno entre dois amantes,
de como tudo se passou com eles,
de como juntos passaram a vida
através do perigo, do ódio, sem mudança
por longo e longo tempo atravessando
a juventude e a meia-idade e a velhice
sem titubeios, de como leais
e afeiçoados se mantiveram
— aí então é que eu me ponho pensativo
e saio de perto à pressa
com a mais amarga inveja."


[Walt Whitman]

^^

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Da minha janela vê-se uma espécie muito rara de angústia
tem o corpo que não ousei que me fosse
usa o amor como origem da sede
e sossega-me contra o peito da alvorada

Da minha janela vê-se uma espécie única de medo
chama-se eu mas diz-se tu
e por vezes nós quando prende a vida
a algo tão falível como a vida

Da minha janela não se vê mais nada
ouve-se o silêncio contra mim
e chove a morte contra os vidros
por dentro como soa o fim

[Pedro Sena-Lino]

^^

*Em setembro


Há muito tempo, no começo de uma noite de árvores já despidas, agitadas pelo vento de setembro, imaginei a tua vinda. Havia uma indefinida inquietação na natureza, como se estivesse para se aproximar uma grande tempestade, e o horizonte colorira-se de tons assustadores. A electricidade tinha faltado, e havia velas tremelicando sobre as mesas, um certo sentimento de frio que nos fazia aproximar-nos das camas, enrolarmo-nos dentro das camisolas, como se esse fosse o preciso começo de mais um inverno, com tudo o que de irremediavelmente perdido ficava para trás, sobretudo os rostos iluminados pela intensa exaltação da luz. Eu aquecia as mãos na fornalha do cachimbo, acariciava as folhas do livro que me tinha acompanhado durante todo esse mês, sentia-me lavado e com uma indescritível paz na alma. Pela primeira vez na vida sabia-me completamente entregue a mim próprio, tal como as colinas que vira ao fim da tarde, espalhadas ao sol, amarelas e solitárias, sem qualquer sentido que não fosse multiplicarem-se até aos confins da minha retina, redondas e sempre iguais a si mesmas, perdurando de dia para dia e de século para século.
Mas, dizia-te, nesse momento prenunciei a tua vinda. Julguei mesmo saber quando me chamaste pela primeira vez, talvez num desses muitos sons ambíguos que tem o estalar de uma casa, e me disseste: prepara o caminho para o meu rosto. Abre-te de par em par, como se fosses uma enorme folha de uma planta carnívora, distende-te todo como um animal dócil e devorador, apresta-te a teres os meus pés nus sobre o teu peito, os meus lábios elevando-se ao longo do teu sexo como as pétalas de uma flor vermelha de sangue.
Assustas-me por me quereres assim, e por te acercares tão inesperadamente neste fim de dia de outono, como se uma nudez indecisa se aproximasse do meu leito sem eu lhe poder definir os contornos do olhar, pensei. Sabes, nesta altura do ano os patos bravios migratórios já se encontram todos sobre o lago, e um tal anúncio pode causar-lhes a morte, ou pelo menos uma partida precipitada, e o sangue das suas asas ficar espalhado no meu peito. Interrompes um pacto antigo que fiz com esta vida cómoda: a de poder sobreviver em troca de um pouco de ternura, das refeições às horas, do meu cachimbo pousado sobre o estirador, entre a elegância das lombadas dos meus livros, na certeza de estar construindo a obra que esperam de mim. Tu vens de súbito tratar-me como um rapaz, abrir-me as cortinas de veludo do teu púbis com um sorriso azul, dizer-me que tudo começa agora, que deixaste crescer os cabelos para mim, e que eles te provocam uma sensação de crina nas nádegas, que queres correr.
Como pudeste saber que era eu a pessoa certa? E sê-lo-ei? Como intentas possuir a minha alma, assim por antecipação? Como pudeste adivinhar que atravessei desertos, que no meu palato tenho a secura de cactos cujos espinhos se me enterram nas gengivas quando sorrio? Não receias a minha voracidade, este apetite por te sugar toda, desde a saliva ao sangue, esta vontade de morte que me acomete, de te cortar pelo sexo, de te abrir como a um brinquedo, atirando as peças para os quatro cantos do quarto?
Eu sei, (...) chegarei sem bagagem. Não teremos música, nem uma chávena de chá, nem interessará se lá fora chove ou se no passeio passa a figura da pessoa que outrora foi minha mãe. É suposto eu ter crescido, e não estou aqui nem para me explicar nem para finalmente te conhecer. Estou aqui porque tu me insinuaste que querias possuir o meu olhar, com uma determinação clandestina. Não te esqueças de fechas os vidros, porque estamos numa cave, e pode ser que lá fora seja veneza, que as vagas se agitem e venham entornar-se aqui dentro.
Pode acontecer que a cama se transforme numa jangada e tu consigas matar-me, dar-me descanso no alto mar, quando chegar a hora em que o sol ruboresce as asas dos anjos que trepam, expeditos, às cúpulas das igrejas.
Partir assim deste sítio terá de ser forçosamente inesquecível.

[Vítor Oliveira Jorge, As arquitecturas sazonais]
^^
Estou no ringue
na cidade morta
e aperto os sapatos vermelhos.
Tudo o que estava calmo
é meu, o relógio com uma formiga a andar
os dedos dos pés alinhados como cães,
o fogão muito antes de ferver sapos,
a sala branca no inverno, muito antes das moscas,
a corça deitada no musgo muito antes da bala.
Eu aperto os sapatos vermelhos

Não são meus.
São da minha mãe.
E da mãe dela antes.
Entregues como relíquia familiar
mas escondidos como cartas vergonhosas.
A casa e a rua onde eles pertencem
estão escondidas e todas as mulheres, também,
estão escondidas

Todas as raparigas
que usaram sapatos vermelhos
cada uma embarcou um comboio que não pararia.
Estações voaram como pretendentes e não parariam.
Todas dançavam como truta num anzol.
Brincaram com elas.
Rasgaram as orelhas como alfinetes de segurança.
Os seus braços caíram e transformaram-se em chapéus.
As suas cabeças rolaram e cantaram pelas ruas.
E os seus pés - ó Deus, os seus pés no mercado -
os seus pés, aqueles dois escaravelhos, correram para a esquina.
Com certeza, exclamaram as pessoas,
com certeza que são mecânicos. Senão…

Mas os pés continuaram.
Os pés não conseguiam parar.
Estavam enroscados como uma cobra que vos vê.
Eram elásticos a puxar-se em dois.
Eram ilhas durante um terramoto.
Eram barcos a chocar e a afundar-se.
Eu e tu não importávamos.
Eles não podiam ouvir.
Eles não conseguiam parar.
O que eles fizeram era a dança da morte.

O que eles fizeram torná-los-ia.

[Anne Sexton]

^^

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

*Onde o Corpo Termina



Começa na cabeça, não termina nos pés, nem na ponta dos cabelos ou dos dedos, dos pés ou das mãos, nem sequer na ponta do nariz. Não. O corpo começa na cabeça e termina onde o olhar encontra a luz. (...)

É como se. Quanto mais pequeno o espaço, mais me espraiasse. Daqui agora até a mais pequena janela ali em frente; de lá agora até ao bosque, voando, planando, até aos ramos mais altos, até às árvores. É como se. Quanto maior o espaço, mais me aconchegasse. (...)

Pode existir dentro do silêncio, o corpo, e viver assim, fora do tempo, eterno.

Pode crescer e ser coração, músculo de mãos e abraços, pés e caminhos, o corpo, e assim, fora do espaço, apagar distâncias e outros fogos.

Pode ser margem buscando a luz no trilho da sede, o corpo, e assim, fazer-se e refazer-se, constantemente, na vida.

Às vezes é maior. É quando é todo. É quando é mundo, casa, sonho, voz, alimento, coração, presença, chão, flor, céu, olhar. É quando se cumpre. Onde o corpo se cumpre é onde termina.

O corpo só termina onde o olhar encontra a luz.

[Joana Jacinto]

^^

domingo, 30 de agosto de 2009

Conto:

Afundados lado a lado no velho sofá de veludo azul, depenicavam deliciados o queijinho de Azeitão que ele trouxera, amanteigado e irresistível. Ela tinha tirado da garrafeira um Verdelho especialíssimo que era o preferido de ambos e que brilhava nos copos de pé alto em cintilações misteriosas, como uma poção mágica a que o fogo da lareira tivesse dado vida própria. No tabuleiro vestido de linho bordado, sobre a mesa baixa, finíssimas fatias de pão caseiro esperavam no cesto a sua vez, alinhadas e brancas como noivas num ritual de prazer. Uma ária de Verdi – uma paixão comum – pairava no ar e enchia todos os recantos da sala envidraçada como uma presença indefinida, discreta mas essencial.
A tarde arrastava-se preguiçosa, lá fora. Há quanto tempo estavam assim, olhando sem ver aquele mar que ia mudando lentamente de cor, alheios aos ruídos imprecisos que o anoitecer ia silenciando na baía? Perdidos em conversas intermináveis, sem rumo certo, navegavam à deriva no casulo confortável que os isolava de tudo e de todos.
E, no entanto, era de outros que falavam. De outro ele, de outra ela que com eles formavam um estranho quarteto de cordas apertadas...
Tinham-se conhecido por acaso – se é que eles existem – no lançamento de um livro de um amigo comum. Era um ensaísta famoso e escrevia o seu primeiro romance – “Filhos da sombra”. Nenhum deles quisera faltar àquela rara aparição pública de Joaquim Torres, para festejar com ele o momento em que a sua carreira de escritor sofria um novo e importante impulso.

Do primeiro encontro não resultara uma paixão abrasadora, não houve repicar de sinos nem marchas triunfais. Apenas uma atracção inexplicável e tácita, como se descobrissem que se conheciam já profundamente, que se entendiam num olhar ou num gesto, sem qualquer esforço. Ambos tiveram, desde o primeiro momento, a percepção dessa estranha sintonia física e mental – que o tempo não fez mais do que confirmar em mil pormenores – sem no entanto saber explicá-la a si próprios. Perante uma situação inteiramente nova, confusos e maravilhados, recorreram na defensiva aos recursos que ambos conheciam e dominavam bem: a sedução, os jogos de charme em jantares íntimos que se prolongavam por noites de prazer em cenários sensuais, habilmente planeados.

No sexo descobriram, já quase sem surpresa, que mais uma vez pareciam conhecer espontaneamente os gostos e preferências um do outro, como se fossem amantes de muitos anos. Melhor ainda, porque sem o cansaço dos amantes desencantados pela rotina. Tudo era ao mesmo tempo novo e estranho, mas não havia o peso do desgaste de uma vida em comum que corroesse a imaginação, o desejo. Houve, desde o primeiro dia, uma intimidade natural, totalmente liberta de medos, incompreensões ou pudores de qualquer espécie.

Habituaram-se a conversar longamente depois do amor, e foi a partir desses momentos que o caudal das confidências finalmente foi tomando o lugar das máscaras iniciais que, aliás, nunca tinham surtido qualquer efeito. Sem a necessidade de medir forças, sem o ciúme inerente à paixão irracional, exploravam o prazer comum de dissecar sentimentos e estados de alma, com um sentido de humor muito próprio que partilhavam. Tornaram-se exímios em jogos de palavras, em brincadeiras de resposta pronta e duplo sentido.
Estimulava-os discutir tudo à exaustão, pelo puro gozo de argumentar, mesmo que muitas vezes estivessem de acordo. Mais a sério, contaram-se mutuamente os dramas amorosos, as paixões que os escravizavam ainda e que aquela relação especial nunca apagaria, porque fazia parte de outra realidade. Foram aceitando aos poucos o facto de terem que situá-la numa terra de ninguém entre a amizade e a paixão, e gostavam de filosofar sobre a estranha condição desse sentimento maduro e sereno, intenso mas livre de prisões, ao qual – talvez por contraste com os enraizados conceitos que teimosamente os apegavam ainda às últimas ilusões de uma juventude romântica – tinham relutância em chamar amor.
Sabiam apenas, de uma forma muito intuitiva, que eram dois seres substancialmente diferentes mas complementares, amparando-se mutuamente nas respectivas tempestades interiores como um porto seguro, o único que ambos conheciam. Juntos formavam um todo feminino-masculino finalmente completo, mas separados eram ainda duas existências lúcidas e autónomas, embora insatisfeitas. Até o conhecimento que cada um tinha de não ser o único na vida do outro não causava dor ou angústia, apenas uma profunda sensação de desperdício. E era exactamente essa liberdade que os confundia, habituados como estavam aos padrões de interdependência aceites como definição tradicional de relação homem-mulher. No quadro habitual faltavam as grandes e pequenas exigências, grandezas e misérias, o precário equilíbrio que conheciam e ainda não sabiam dispensar. Mas, em compensação, maravilhavam-se como crianças perante as delícias daquela subtilíssima teia em que se iam deixando enredar, simultaneamente forte e delicada, em que ambos ocupavam posições rigorosamente justas porque ninguém dominava ou era dominado.
Encontravam-se sempre que podiam, geralmente ao fim da tarde – as horas mais livres de outros compromissos – na casa que ela tinha sobre a baía de Cascais. Acendiam a lareira nos dias mais frios e aninhavam-se no velho sofá, ou em almofadas sobre o tapete macio, como gatos satisfeitos, depois de saborear os petiscos que cozinhavam a dois, ouvindo música e conversando, com o mar por única testemunha. Às vezes, se era possível, passavam lá a noite. Acordavam no dia seguinte revigorados e prontos a enfrentar qualquer problema, pessoal ou profissional. Despediam-se com um beijo cheio de promessas nunca traduzidas em palavras, nunca acorrentadas a uma data. Nas épocas em que o trabalho ou as exigências familiares de cada um não permitiam encontros frequentes, substituíam-nos por intermináveis telefonemas em que contavam um ao outro as últimas novidades e se aconselhavam sobre os mais diversos assuntos. Mesmo que estivessem semanas sem se ver, quando finalmente se encontravam redescobriam sempre intacta a magia que os aproximara, no simples prazer de estarem juntos de novo.

Não sentiam esta relação secreta como uma traição aos respectivos companheiros, nem ela lhes enfraquecia os sentimentos que tinham por eles. Pelo contrário, dava-lhes o equilíbrio de que tinham absoluta necessidade para levar em frente os frágeis botes que lhes tinham calhado em sorte, em águas quase sempre tempestuosas. Lamentavam apenas não se terem conhecido num tempo diferente, um passado longínquo ou um futuro incerto, sem cicatrizes nem termos de comparação. E por vezes deixavam-se conduzir pela fantasia de um outro universo, espaço e tempo totalmente reinventados, que de súbito viessem dar vida àquele limbo aparentemente imutável.
Um dia, ele trouxera de presente um enorme quadro embrulhado. Ao rasgar o papel, ela descobrira comovida um cartaz emoldurado, em que ele tinha mandado gravar excertos de um poema de Drummond de Andrade - Campo de flores:

Deus me deu um amor no tempo de madureza,
quando os frutos ou não são colhidos ou sabem a verme.
Deus ou foi talvez o Diabo deu-me este amor maduro,
e a um e outro agradeço, pois que tenho um amor.
...
Pois que tenho um amor, volto aos mitos pretéritos
e outros acrescento aos que amor já criou.
Eis que eu mesmo me torno o mito mais radioso
e talhado em penumbra sou e não sou, mas sou.

...
E o tempo que levou uma rosa indecisa
a tirar sua cor dessas chamas extintas
era o tempo mais justo. Era tempo de terra.
Onde não há jardim, as flores nascem de um
secreto investimento em formas improváveis.
...
Mas, porque me tocou um amor crepuscular,
há que amar diferente. De uma grave paciência
ladrilhar minhas mãos. E talvez a ironia
tenha dilacerado a melhor doação.
Há que amar e calar.
Para fora do tempo arrasto meus despojos
e estou vivo na luz que baixa e me confunde.


Abraçara-o com força, sem palavras. Depois, o quadro fora pendurado na parede, bem à vista, e a sua presença dominava toda a casa desde então. Nessa manhã, ela tinha acordado estranhamente inquieta. Olhara o homem que dormia a seu lado com a mesma emoção do primeiro dia, a mesma ternura. Amava-o ainda tanto! Sentiu como sempre uma imensa vontade de protegê-lo do mundo, de tratar-lhe as muitas feridas que o fragilizavam e lhe tinham deixado aquela névoa de tristeza no olhar meigo. Ela era - sabia-o bem - a sua força, a terra firme depois dos naufrágios, mas sentia-se muitas vezes cansada dessa responsabilidade que a condenava a esconder-lhe as suas próprias angústias e fraquezas. Fora obrigada a adquirir ao longo dos anos uma maturidade e segurança que em certos momentos lhe pesavam como um fardo insuportável, como se o mundo inteiro lhe assentasse nos ombros.
Apetecia-lhe às vezes fugir para bem longe, fazer uma qualquer loucura inesperada, chorar até esgotar as lágrimas ou gritar impropérios pelo puro prazer da incoerência. Mas logo afastava essas ideias e voltava a ser a mulher serena e forte que todos admiravam. Por ele, só por ele, porque era assim que ele precisava dela. Sempre que o deixava entregue às suas crises existenciais, vividas entre telas e pincéis, perdido na angustiante grandeza da sua arte, orgulhava-se intimamente de pertencer ao mundo daquele homem especial. Sabia que seria sempre apenas uma parte desse mundo, mas uma parte essencial à sua sobrevivência e equilíbrio, e aceitava já sem sacrifício esse papel de precioso farol que trazia para a costa, são e salvo, o navegador solitário após cada longa viagem. Esses regressos, aliás, valiam bem o preço da espera. Ninguém como ele a fizera alguma vez sentir-se tão intensamente desejada, tão profundamente amada. Esquecia todas as queixas, todas as insatisfações da solidão naqueles momentos de absoluta felicidade em que, finalmente, se encontravam no mesmo plano. E era quando ela tinha a exacta noção de que também não poderia viver sem ele, sem o êxtase desses reencontros. Mas, depois, ele voltava a partir...

As fases de intensa procura interior exigiam liberdade total e traziam a dor acrescida de sabê-lo envolvido em romances breves e mais ou menos públicos. Com o tempo, habituara-se a não lhes dar demasiada importância e a procurar entendê-los como matéria prima ou fonte de inspiração, mas nunca tinha conseguido que deixassem de magoá-la. Desde que o conhecia que ele era adulado pelas mulheres. A sensibilidade de artista e o ardor que punha em tudo o que fazia ou dizia, aliados à invulgar beleza exterior, atraíam como um íman. Afinal, dizia para si própria muitas vezes, não fora exactamente essa combinação irresistível que a fizera apaixonar-se por ele? Pretender exclusividade e dedicação total dum espírito em permanente mutação teria sido uma loucura, e ela percebera desde cedo que não seria fácil viver com alguém assim. Ele amava-a à sua maneira desmedida e livre, sem meios termos nem concessões sociais, e a própria imprevisibilidade de cada momento mantinha viva a chama que os juntara.
A família e os amigos mais chegados afligiam-se por ela quando circulavam histórias, muitas vezes envoltas em algum escândalo, sobre uma nova conquista do pintor famoso. Tudo se sabia, num meio pequeno como Lisboa, e invariavelmente lhe chegavam aos ouvidos. E nem sempre a protagonista era um bonito modelo suburbano, desconhecido, já tinha acontecido mais que uma vez ser a visada uma pessoa do seu círculo de conhecidos. Nessas alturas os amigos cerravam fileiras à sua volta, para o que desse e viesse, mas há muito já que tinham desistido de tocar, sequer, na palavra separação. Eram, quase todos, amigos dele também, e ela gostava que assim fosse. Aliás, era quase impossível não gostar daquele homem-menino, afável e delicado com toda a gente. Carente, inseguro, tudo o que pedia era que o amassem, e talvez por isso tinha para com cada pessoa uma atenção muito especial que a fazia sentir-se importante, diferente. Estava sempre pronto a ajudar amigos e até desconhecidos, era de uma generosidade tocante. Mas era também de um egoísmo feroz, sobretudo no que tocava à sua própria mulher. Não parecia entender porque é que as suas infidelidades poderiam magoá-la ou humilhá-la, uma vez que o seu amor por ela não sofria nenhuma beliscadura e lhe dava a mesma liberdade que exigia. Se alguém lhe chamava a atenção, reagia com genuíno espanto, quase se ofendia: Discrição? Isso é hipocrisia, coisa de burgueses, cheira-me a amante escondida com casa posta, isso não é para mim. Além disso, ela conhece-me e sabe que eu nunca lhe mentiria...

Que realmente a amava, isso era inquestionável. A expressão iluminava-se-lhe sempre que falava dela ou a olhava, os olhos inundados de ternura. Considerava-a a sua eterna paixão, a sua melhor crítica, a sua musa. Dizia com total convicção que tinha tido a sorte de ser amado pela mulher mais perfeita do universo, e não tinha a noção do preço que a fazia pagar por obrigá- la a ocupar tão alto pedestal. Mas ela, de facto, nunca se queixava. Todas as outras mulheres que passavam na sua vida o entediavam passado pouco tempo, nenhum romance durava mais que o tempo de uma crise. Mas precisava absolutamente de liberdade, até para estar só. Passava longas temporadas no atelier que ela tinha decorado para ele com todo o conforto de um apartamento. Chegava a estar várias semanas sem ir a casa, sobretudo quando preparava uma exposição. A sua projecção como artista tinha já ultrapassado largamente as fronteiras do país, e não era raro ser convidado a expor no estrangeiro. Nessas alturas gostava de levá-la consigo, mas nem sempre o trabalho dela o permitia.

Nunca tinham chegado a ter filhos. Nos primeiros anos, porque se absorviam por inteiro num incêndio onde não havia espaço para terceiros e depois, com o correr do tempo, porque parecia ser já tarde de mais. Mas agora, mais que nunca, ela sentia a falta irreparável da companhia desses filhos que nunca tivera, das alegrias e preocupações que enchiam os dias das amigas. Às vezes, invejava-lhes a rotina de que tanto se lamentavam e que ela desconhecia por completo. Começava a acusar o cansaço de uma vida irremediavelmente condenada aos extremos, que emocionalmente a esgotava.

Procurara durante anos compensar essa instabilidade, entregando-se metodicamente ao seu trabalho no museu. Obrigava-se a cumprir um horário que não lhe era imposto e era frequente passar fins-de-semana inventariando e catalogando peças, organizando exposições, estabelecendo contactos com outros museus de arqueologia no estrangeiro. De certa forma, todas estas actividades tinham acabado por ocupar o lugar da sua verdadeira paixão: as escavações, o trabalho de campo, que há mais de vinte anos deixara para trás. Exactamente quando aparecera de súbito, no castro em que trabalhava e no castro da sua vida, um pintor de olhos magnéticos e sorriso tímido, perdido na estrada para Évora. Um pedido de informação, uma pausa para um café ao sol do meio dia, uma vertigem...
As muitas viagens de trabalho e de estudo ocupavam-na de tal maneira que ajudavam a compensar o vazio das fases em que o marido andava à deriva, longe. Durante anos o trabalho fora suficiente, ou pelo menos distraía-a da funda e incómoda sensação de estar a morrer por dentro, a impedir-se de sentir. Mas um dia, sem razão aparente, dera-se conta de que, embora adorasse o que fazia e se tivesse tornado uma autoridade reconhecida na matéria, a vida era mais do que isso.
Passara então a dar mais atenção a si própria, aos amigos que já quase nunca a viam, aos estranhos que iam aparecendo no seu caminho e lhe traziam novos interesses. Descobrira com surpresa que uma nova sensualidade, vinda não tanto da recém descoberta coquetterie como de algum recanto esquecido do seu íntimo, lhe abria portas desconhecidas e lhe devolvia um prazer que há muito julgara ter perdido. Reaprendeu a arte do flirt, das infinitas nuances da sedução em jogos mais ou menos inconsequentes, com parceiros que a faziam sentir-se atraente e viva. Sabia que grande parte do fascínio que exercia sobre esses amantes esporádicos, ou candidatos a tal, residia na aura de mistério e distância que a sua imagem sempre lhes transmitia. Nenhum deles a fizera jamais transpor a barreira auto imposta como regra do jogo, que separava cautelosamente o prazer do envolvimento emocional. Não havia grandes confidências nem projectos comuns, apenas um cálido presente sem passado nem futuro que o solidificassem. Esses casos duravam até que lhe pedissem mais do que estava disposta a dar, ou até que o seu verdadeiro e único amor regressasse de mais uma ausência e precisasse dela de novo.
A casa da baía, até aí o refúgio solitário em momentos de depressão e isolamento, passara a abrir-se a outras vozes, outras presenças. Era um espaço só seu, onde cada objecto contava a história de um momento vivido algures, um pouco por todo o mundo. Era engraçado como eles ficavam encantados e até um pouco intimidados com aquele universo de memórias de alguém que julgavam quase conhecer, e afinal lhes mostrava desse alguém facetas inteiramente ignoradas. A casa parecia entrar no jogo, ora revelando ora ocultando novos mistérios, acolhedora mas vagamente distante. Exactamente como convinha.

Até que um dia entrara ali aquele homem diferente de todos os outros e, pela primeira vez, alguém parecia sentir-se completamente à vontade naquele ambiente, como se tivesse sido esperado toda a vida. Lembrava-se muito bem da tarde de Outono em que o levara lá quase a medo, como se pressentisse já que iria confirmar ali todas as afinidades recém descobertas com aquele estranho que nunca o fora verdadeiramente. Ele percorrera com o olhar estantes e tapetes, móveis e objectos, com uma expressão cúmplice e divertida, e tivera um curioso comentário: “Claro, tinha que existir um sítio assim para si. Esta casa assenta-lhe tão bem como um vestido de malha elegante e confortável. Esta casa é você, minha querida!...” Esse dia ditara o fim do reinado dos visitantes passageiros. A meio da manhã ele telefonara-lhe, estava cansado e deprimido e precisava muito dela. Seria possível encontrarem-se mais logo, lá para o fim da tarde? Há quase um mês que não se viam, e tinha saudades. Muitas. Com voz de criança que implora um doce, prometia levar qualquer coisa para o lanche. Um queijinho de Azeitão, que tal? Levas tu o pão, vinho temos lá...
Adivinhara-lhe a tensão na voz, embora o tom fosse de brincadeira. Pela certa tinha tido uma violenta discussão com a mulher – mais uma! – e estava de rastos. Não dissera muito mais, nem era preciso. A chantagem emocional que a outra sempre usava nesses momentos continuava a surtir efeito, pelos vistos.
Era um jogo viciado e desigual, mas ele não conseguia libertar-se dessa pressão doentia. Porque é que ela ainda me magoa? A pergunta ficava invariavelmente sem resposta. Sabia que ele começava por rebelar-se mas que acabava sempre por ceder- lhe, vencido, e o círculo vicioso recomeçava. Quase podia vê-la a sacudir cabeleira loura, numa expressão de domínio, a provocar-lhe a ira. Quase podia ouvi-la recriminá-lo, como sempre, por aquilo que ela considerava ser uma total ausência de ambição – o maior dos pecados da sua escala – por esses malditos valores que o impediam de enriquecer facilmente, numa profissão em que isso estava praticamente ao alcance da mão.

O dinheiro, sempre o dinheiro...
As viagens, as roupas sofisticadas, o colégio privado e caríssimo das crianças, a casa de férias, desabavam sobre ele como uma avalanche asfixiante. A princesa do conto de fadas, doce e bela, a perfeita noiva num vestido de alta- costura, tinha-se transformado ao longo dos anos numa criatura seca, insaciável e perversa, que se considerava defraudada nas suas expectativas.
Era espantoso como conseguia sempre fazê-lo sentir-se culpado de ter-lhe gorado os sonhos de grandeza, de não ter sabido corresponder ao que ela esperara dele! O seu código de valores, as coisas que eram realmente importantes para ele, não significavam para a mulher se não entraves ao estatuto que julgava merecer por direito. Empurrara-o aos poucos para os braços de outras mulheres, breves anestesias nos momentos de depressão e cansaço, e não parecia importar-se muito com o facto, desde que as aparências fossem devidamente salvaguardadas. Na verdade, essas aventuras poupavam-na ao calvário das trasbordantes manifestações de ternura que há muito tempo tinham deixado de entusiasmá- la. Sabia, claro, que não passavam de casos passageiros, que o teria de novo na mão com a simples concessão de um gesto ou de uma palavra, sempre que sentisse em perigo a sua posição.
Pela primeira vez sentira-se ameaçada quando percebera que ele tinha alguém que não era exactamente um caso igual a todos os outros. Notava-o mais tranquilo, mais feliz e equilibrado, e chegara a temer que ele a deixasse. Mas ao ver arrastar-se a situação, há tanto tempo já sem alterações de fundo, acabou por concluir que podia afinal tirar dividendos do novo estado de espírito do marido. Deixou de fazer-lhe as habituais cenas de ciúmes, destinadas apenas a culpabilizá-lo, e agradeceu aos céus aquela relação com alguém que deveria ter também os seus impedimentos. Melhor assim. A discrição estava assegurada, e, desde que estivesse defendido o território, ele que encontrasse consolo onde quisesse. Não lhe interessava descobrir quem era a outra, sabia o mais importante: era alguém que não dependia dele financeiramente, nem lhe aumentara os gastos.

Será que aquela mulher não se dava conta de quanto o marido ainda a amava?
Apesar do inferno em que se transformara a sua vida conjugal, sempre que ele falava nela havia um brilho inconfundível nos seus olhos, como se a memória apenas tivesse retido os dias felizes em que pareciam ter embalado os mesmos sonhos. Em que curva do caminho se teriam afastado assim tanto? Claro que tenho saudades também, quero muito estar contigo. Passas pelo museu e seguimos juntos, ou preferes que passe eu a buscar-te, no tribunal?

Está bem, meu querido, às quatro e meia, então. Já era tarde, dizia-lhes a lareira quase apagada.
A conversa tinha-os levado para longe, como sempre. O marulhar cadenciado do mar lá fora, o vinho saboreado com volúpia e a crescente penumbra da casa tinham-se combinado para conduzi-los a um estado propício à divagação, e depois das longas confidências o inevitável assunto veio a cena:
- Sabes no que estou a pensar? – a voz dela era quase um sopro – ando há muito tempo à procura de uma palavra que nos defina. A nós dois, àquilo que somos. Acho que finalmente encontrei essa palavra: projecto.
Somos um projecto, ainda e desde sempre.

Ele olhou-a com curiosidade.
- E que tipo de projecto te parecemos? Irrealizável?
- Um projecto feito por um arquitecto maluco e futurista, pelo menos aos olhos dos outros arquitectos. Um projecto arrojado de mais, arriscado de mais e, sobretudo, impraticável, porque não existem ainda os materiais de construção que o possam tornar uma coisa palpável, real. Enfim, daqueles que servem só para ganhar concursos, mas que ninguém se atreve a realizar... o mais engraçado é que, um dia, todos os projectos serão assim, e será possível construi-los. Mas, por enquanto, só o arquitecto visionário sabe disso.
- Queres dizer que somos futuro, por enquanto...
- Quero dizer que corremos o risco de o ser sempre, se o tempo não nos permitir chegar lá. É que o tempo é sempre mais resistente do que nós, não vale a pena medir forças com ele. Foi-nos dada uma levíssima percepção de um mundo completamente diferente, infinitamente mais harmónico e simples, mas não estamos ainda equipados com os critérios de avaliação que nos permitam achá-lo atraente... – franziu os cantos da boca, num trejeito que lhe era característico - o que achas disto?
- Hum, não sei... Que razões encontras, tu que procuras sempre os motivos ocultos das coisas, para a nossa visão precoce desse quadro idílico, uma vez que não está nas nossas mãos precipitar os acontecimentos? Sadismo do tempo, aproveitando-se da nossa casual clarividência? Querida, porque não admites simplesmente que a falha é nossa? Que não conseguimos viver sem uma boa dose de contrariedades, que a perfeição nos assusta? Por que outra razão, a não ser um masoquismo atávico ou vicioso, rejeitaríamos o paraíso, reconhecendo-o?
- Porque não acredito em acasos. Para tudo tem de haver uma razão de ser, mesmo que seja aparentemente inexplicável. Não encontro, é verdade, nenhuma que me pareça clara, mas isso não quer dizer que não exista. O que sei é que atribuir ao tempo fraquezas humanas como o sadismo ou a maldade seria reduzi-lo à nossa dimensão o que, disso tenho a certeza, seria um terrível engano. Se nos foi dado conhecermo-nos agora, algum propósito superior tem que haver no nosso encontro.
- Vês-nos, então, como qualquer coisa que ainda está para acontecer...
- ... mas que talvez nunca aconteça, no quadro que se foi criando à nossa volta.
Talvez não sejamos futuro, mas sim condicional. O condicional é afinal uma espécie de futuro paralelo, qualquer coisa que poderá ser realidade noutras circunstâncias. Ou noutra dimensão.
- Ora aí está uma ideia simpática, admitirmos a hipótese da coexistência de várias realidades paralelas... nós dois, juntos e felizes, noutro cenário! Um cenário onde façamos sentido, sem a necessidade de filosofarmos sobre os nossos desencontros e contradições... uma ideia consoladora! Ele tentava brincar, mas ela conhecia-o bem de mais para ignorar a tensão crescente que lhe adivinhava na voz, as recordações dolorosas que estariam a aflorar-lhe à mente nesse preciso momento. Não devia ter puxado o assunto, o estado de espírito que o tinha levado a telefonar-lhe nessa manhã ainda não se tinha desvanecido por completo. Estúpida, pensou, e tentou mudar de assunto. Mas agora era tarde, era ele quem continuava:

- Mas infelizmente é neste cenário que estamos e nada disso se passa, não é?
Aqui, andamos de facto desencontrados, desperdiçando potencialidades raras. Aqui, tudo o que queremos desesperadamente são duas pessoas que sabemos não serem as pessoas certas para nós, que nos fazem sofrer... ao mesmo tempo, conhecemos as certas, as que deveríamos naturalmente querer! É terrivelmente injusto, tens de concordar! Onde fica a tua famosa harmonia universal?
- Não sei, mas com certeza algures onde não a vemos. Não culpes o universo pelas limitações de uma das ínfimas partes que o constituem. Queres mais queijo?

De repente olharam-se, mortos de riso, como se a prosaica pergunta tivesse tido o condão de libertá-los de todos os pesos, de todas as amarguras. Explodiram ambos numa gargalhada cúmplice e irreprimível, exorcizando na magia do humor um mundo inteiro de sofismas insolúveis. Tudo estava bem, afinal. Inclinaram-se em simultâneo, as bocas procurando-se para encontrar-se num beijo, os olhos húmidos de emoção por causas indefinidas, a velha sintonia a fazer acordar o desejo.

É tão bom estarmos juntos, tão bom termo-nos um ao outro...
Futuro, condicional e passado foram empurrados com o tabuleiro, entregues temporariamente à guarda de copos de pé alto e faquinhas de prata.
Fizeram amor como sempre, como nunca.




[Ana Vidal, À Margem do Tempo]


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*Por Ti

Por ti encheria o quarto de rosas
se ontem tivesses vindo de rosa

Pus a música de Puccini
a fruta toda brilhante
os lençóis de neve
a almofada aberta como gostas, em forma de ostra.

O espelho reteve a memória do
primeiro momento. Ele próprio restauro da tua pele solar.

Também ele litoral ardente
mordendo-te a nuca em pontadas de mel.
Também ele cúpula da minha saudade húmida.
Cópula madura de tanto esperar.

Por ti tudo teria sido rosa
se ontem quando me invadiste o quarto
o teu sexo trouxesse rosas.

[Isabel Mendes Ferreira, A pele]

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De: "O ciclo Menstrual da Noite"





Vacila e treme o homem que entra neste verso. Não usa roupa ou adereços, não corta as unhas dos pés, e sai-lhe do queixo uma cauda de pêlo comprido que lhe tapa o sexo. Mantém o braço esquerdo erguido e fala com a mão. Articula um diálogo perfeito, faz duas vozes, a dele próprio e outra feminina e doce. E na sua diz nunca te deixarei, na outra diz serei sempre tua. Quando se cansa de falar, leva a mão à testa e pestaneja sobre ela.
O poeta que tem um homem nu num verso, não sabe o que há-de fazer. Fica paralisado enquanto ouve a conversa dele com a sua mão
na sua voz diz:

Dá-me por esta noite a carne ainda quente de um beijo,
uma pedra de fogo que possa incendiar outra pedra,
dois remos para navegar águas escuras,
águas tão densas como as que nascem da montanha,
um rio, meu amor, dá-me por esta noite um rio
que comece no teu corpo de neve,
atravesse o tempo, a luz vertiginosa,
e se afogue nos meus olhos.

Na outra voz responde:

Eu dou-te o nome do silêncio, uma
casa onde possas habitar até que
a morte nos restitua, um livro para
me escreveres o sol claríssimo, as
azeitonas fazendo o virgem óleo.

O poeta chora. Lê a biografia do homem e compreende. Foi ele quem guardou o último suspiro da amada na mão que lhe amparava o rosto. Desde então, conversa com ela para suportar.

[Alice Macedo Campos, o ciclo menstrual da noite]

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