Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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terça-feira, 10 de julho de 2012

O teu espaço belo


Tu és em cada gesto todos os teus gestos e neste momento eu sei eu sinto ao certo o que significam certas palavras como a palavra paz.



[Ruy Belo]


^^

domingo, 8 de julho de 2012

Congelando na sua Presença


....Sinto falta da perdição involuntária que era congelar na sua presença tão insignificante. Era a vida se mostrando mais poderosa do que eu e minhas listas de certo e errado. Era a natureza me provando ser mais óbvia do que todas as minhas crenças. Eu não mandava no que sentia por você, eu não aceitava, não queria e, ainda assim, era inundada diariamente por uma vida trezentas vezes maior que a minha. Eu te amava por causa da vida e não por minha causa. E isso era lindo. Você era lindo.
Simplesmente isso. Você, a pessoa que eu ainda vejo passando no corredor e me levando embora, responsável por todas as minhas manhãs sem esperança, noites sem aconchego, tardes sem beleza...

[autor desconhecido]

^^

sábado, 7 de julho de 2012

Peculiarmente minha


Queria descrever o meu eu como uma casa, habitada há gerações embora cheia de coisas peculiarmente minha. Mas ao final do dia, nem era preciso dizer: fecha a porta, desce a persiana, boa noite, boa noite.



[Jean Day]
^^

sexta-feira, 6 de julho de 2012

quinta-feira, 5 de julho de 2012

Falhar melhor


Tudo desde sempre. Nunca outra coisa. Nunca ter tentado. Nunca ter falhado. Não importa.Tentar outra vez. Falhar outra vez. Falhar melhor.


[Samuel Beckett]


^^

quarta-feira, 4 de julho de 2012

segunda-feira, 2 de julho de 2012

A minha voz: um fio a partir-se.


Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada.
Por um rosto
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta. Estás longe,
só assim podes pedir algumas horas
aos meus dias. Sem fixar a voz
a tua voz é uma corda, a minha
um fio a partir-se.




[Helder Moura Pereira]



^^

domingo, 1 de julho de 2012

Nada Mudou


Nada mudou. Ao fim de tantos anos, o meu
passado é ainda o mesmo passado - nenhum
rosto diferente para desviar o rio da memória,

nenhum nome depois. Para te esquecer,

devia ter partido há muito tempo, como viajam
as aves de verão em verão. E tentei; mas as malas
abertas sobre a cama eram livros abertos, e eu
nunca fechei um livro antes do fim.
Por ter

ficado, nada mudou jamais - e o meu passado é
ainda o nosso passado; e o rosto que tinha antes
de me deixares é o que o espelho me devolve no
presente...




[Maria do Rosário Pedreira]



^^

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Este poema corrupto está cheio de correntes de ar...


Calor janelas fechadas
Uma chuva que se derrama em ruínas

Os dias estreitam-se .............Fiz bem em comprar
..............cigarros

Um cigarro entre as minhas mãos vem de outros dias

Com esta luz pálida vai para dois anos que me causas
...............frio

A noite o receio abrupto
Depois a casa corda amarrada em torno do meu pescoço
O quarto fechado sobre o seu conteúdo
Qualquer coisa de vermelho e espesso
Flui da tragédia sexual dos sonhos
Mas o corpo apoiado em cadeiras que tombam está seguro
No seu silencioso passado muito passado

...............................................Amanhã e amanhã e amanhã

Não saias sem os teus papéis
O lixo no fundo do olhar ............Ratos dos anos 50
E um coração frio

Este poema corrupto está cheio de correntes de ar.



[Alexis Traïanos]

domingo, 24 de junho de 2012

Estou na estação há tanto tempo...


E sempre tem gente chegando e indo.
Em alguns momentos fica o equilíbrio terrível de nunca ir.
Fica a dor terrível de todo mundo que foi.
Fica a ansiedade terrível de todo mundo que tem pra chegar.



[Tati Bernardi]



^^

sábado, 23 de junho de 2012


Me tornei mulher porque me tornei independente, antes de tudo.
Não sou de frescura e muito menos de compulsões consumistas.
Mas ainda tenho um lado mulherzinha: choro à beça, sou louca por flores, não vivo sem meus hidratantes, aprecio o cavalheirismo, gosto de ficar de mãos dadas no cinema, devoro revistas de moda, me interesso por decoração e fico chocada quando escuto expressões grosseiras.
Ah, e calço 36.

[Martha Medeiros]



^^

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Achar que sabemos


Achar é o mais longe que podemos ir nesse universo repleto de segredos, sussurros, incompreensões, traumas, sombras, urgências, saudades, desordens emocionais, sentimentos velados, todas essas abstrações que não podemos tocar, pegar nem compreender com exatidão. Mas nos conforta achar que sabemos.


[Martha Medeiros]



^^

quinta-feira, 21 de junho de 2012

A Imprecisa Melancolia


Nada o distrairia
nessa procura, disse.
Este o recado
da contingência:

era verão e fazia
muito calor.
Saía cedo, cortando
passos lentos

a sombra das 9.30.
Caminhar até à vertiginosa
queda dos poentes.
Assinalar uma cinza,

a imprecisa melancolia.




[Luís Quintais - A Imprecisa Melancolia (1995)]



^^

terça-feira, 19 de junho de 2012

A solidão é nada


Falta o indulto especial da tua mão
e tu a dizeres-me, aguda e de assalto:

«a solidão é nada.»



[José Sebag]



^^

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Peço-te que me esperes aqui até eu voltar


vou ao mercado
peço-te que me esperes aqui até eu voltar
podes lavar a tua roupa se te sentires aborrecida
e se a porta te perturbar
então arranca-a
e põe qualquer coisa no seu lugar
peço-te que não deixes a tua cara no espelho
e não saias pela janela
não te mates como é teu costume
mas
espera-me
aqui
até
eu voltar




[Ahmed Barakat]



^^

domingo, 17 de junho de 2012

As Cores da Infâmia


O que mais alegrava Ossama era contemplar o caos. De cotovelos apoiados no corrimão da passagem aérea cujos pilares metálicos rodeavam a praça Tahir, ruminava ideias atrevidamente contrárias aos discursos propagados pelos pensadores oficiais, os quais garantiam que a perenidade de um país estava subordinada à ordem. O espetáculo que tinha diante dos olhos condenava sem apelo essa afirmação imbecil. Desde há algum tempo que aquela construção, imaginada por engenheiros humanistas para evitar aos infelizes peões os perigos da rua, lhe servia de observatório panorâmico, reforçando a sua íntima convicção de que o mundo podia continuar indefinidamente a viver na desordem e na anarquia. Com efeito, apesar do tumulto confuso que reinava na vasta praça, nada parecia alterar o humor da população e a sua vigorosa aptidão para os sarcasmos.



[Albert Cossery - Edições Antígona, 2000]



^^

sábado, 16 de junho de 2012

A palavra impossível


Deram-me o silêncio para eu guardar dentro de mim
A vida que não se troca por palavras.
Deram-mo para eu guardar dentro de mim
As vozes que só em mim são verdadeiras.

Deram-mo para eu guardar dentro de mim
A impossível palavra da verdade.

Deram-me o silêncio como uma palavra impossível,
Nua e clara como o fulgor duma lâmina invencível,
Para eu guardar dentro de mim,
Para eu ignorar dentro de mim

A única palavra sem disfarce -
A Palavra que nunca se profere.



[Adolfo Casais Monteiro]



^^

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Parede


Inventa uma parede
onde possas encostar-me o corpo
pressionado pelo teu.
Uma parede de textura suave.
Uma parede única,

onde nos encontremos.
Inventa uma parede para o amor.



[Silvia Chueire - Por favor, um blues]