Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quarta-feira, 23 de maio de 2012

Meu único país é sempre onde estou bem




mesmo que não conheças nem o mês nem o lugar
caminha para o mar pelo verão

aqui eu fui feliz aqui fui terra
aqui fui tudo quanto em mim se encerra
aqui me senti bem aqui o vento veio
aqui gostei de gente e tive mãe
em cada árvore e até em cada folha

e eu chego e sento-me ao lado
da primavera




[Ruy Belo - excertos de vários poemas]



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segunda-feira, 21 de maio de 2012

É demais viver com Angústia e Desejos.


A convivência e o amor são mais importantes que qualquer coisa e superam todos os tabus.
Às vezes e preferível amar-se como animal do que ser racional...
É demais viver com angústia e desejos.



[Martha Medeiros]



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domingo, 20 de maio de 2012

E assim terá de se guardar...


Uma declaração de amor não é um acontecimento do domínio público, uma baleia que vara na praia sob o sol dos desastres e convoca multidões, desalinhando hábitos quotidianos; uma declaração de amor é um acto de grande intimidade que ergue um véu transparente de onde brotam mel e pássaros azuis. As palavras directas ou indirectas, ditas ou escritas, suscitam a carícia única, irrepetível, a leve percussão que desenha no silêncio a imagem do que se ama. E assim terá de se guardar. Num lugar seguro onde os sismos não possam encontrar o mapa do tesouro.



[Egito Gonçalves - In "O Mapa do Tesouro"]



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sábado, 19 de maio de 2012

Da Vida


Às vezes penso que se fosse uma magnólia quereria ser um laranjeira, se fosse um águia quereria ser um cavalo ou se fosse quadro quereria ser uma fotografia.

Esqueço-me que devo ser o que sou. Pela evidência de ser o único que tenho e posso ser e, porque, só quando gostar disso é que posso tocar a felicidade e passá-la.

Fico a pensar que perdemos demasiado tempo em querer dar laranjas, em galopar velozmente ou em ser o flash de um instante supremo. Quando, na verdade, o que podemos fazer é chegar a dar muitas e belas flores, voar cada vez melhor ou tornarmo-nos até num Rembrandt.

Cada qual deve acabar por pegar na própria vida nos braços e beijá-la.



[Arthur Miller]



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sexta-feira, 18 de maio de 2012

Sessão pipoca - Pra Você Guardei O Amor



Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Pra você guardei o amor
Que sempre quis mostrar
O amor que vive em mim vem visitar
Sorrir, vem colorir solar
Vem esquentar
E permitir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que aprendi vendo os meus pais
O amor que tive e recebi
E hoje posso dar livre e feliz
Céu cheiro e ar na cor que o arco-íris
Risca ao levitar

Vou nascer de novo
Lápis, edifício, tevere, ponte
Desenhar no seu quadril
Meus lábios beijam signos feito sinos
Trilho a infância, terço o berço
Do seu lar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar

Pra você guardei o amor
Que nunca soube dar
O amor que tive e vi sem me deixar
Sentir sem conseguir provar
Sem entregar
E repartir

Quem acolher o que ele tem e traz
Quem entender o que ele diz
No giz do gesto o jeito pronto
Do piscar dos cílios
Que o convite do silêncio
Exibe em cada olhar

Guardei
Sem ter porque
Nem por razão
Ou coisa outra qualquer
Além de não saber como fazer
Pra ter um jeito meu de me mostrar

Achei
Vendo em você
E explicação
Nenhuma isso requer
Se o coração bater forte e arder
No fogo o gelo vai queimar


[Nando Reis]


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quinta-feira, 17 de maio de 2012

Não troque sua Paz por Encenação


Amigar-se consigo também passa pelo que muitos chamam de egoísmo, mas será? Se você faz algo de bom para si próprio estará automaticamente fazendo mal para os outros? Ora. Faça o bem para si e acredite: ninguém vai se chatear com isso. Negue-se a participar de coisas em que não acredita ou que simplesmente o aborrecem. Presenteie-se com boa música, bons livros e boas conversas. Não troque sua paz por encenação. Não faça nada que o desagrade só para agradar aos outros.



[Martha medeiros]



^^

Tenho medo de acordar


Como é que fica o mundo quando destranco minha bolha? Sofrer é de uma arrogância egocêntrica sem limites. Tenho medo de dobrar a esquina de casa. Tenho medo de fazer aniversários. Tenho medo de ser mulher. Tenho medo que me magoem. Tenho medo de estarem rindo do quanto eu sou feliz quando alguém me abraça e eu me largo um pouco. Minha cabeça pesa quilos demais pro meu pescoço. Alguém por favor só me segura um pouquinho?
Tenho medo de acordar.



[Tati Bernadi]



^^

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Ausência


Por muito tempo achei que a ausência é falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus
braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque a ausência, essa ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim.



[Carlos Drummond de Andrade - in 'O Corpo']



^^

terça-feira, 15 de maio de 2012

Dentro de um Abraço


Dentro de um abraço é sempre quente, é sempre seguro.
Dentro de um abraço não se ouve o tic-tac dos relógios e,
se falta luz, tanto melhor.
Tudo o que você pensa e sofre
dentro de um abraço se dissolve.


[Martha Medeiros]

^^

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Sente-se amado...


Sentem-se amados aqueles que perdoam um ao outro e que não transformam a mágoa em munição na hora da discussão. Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente bem-vindo, que se sente inteiro. Sente-se amado aquele que tem sua solidão respeitada, aquele que sabe que não existe assunto proibido, que tudo pode ser dito e compreendido. Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é, sem inventar um personagem para a relação, pois personagem nenhum se sustenta muito tempo. Sente-se amado quem não ofega, mas suspira; quem não levanta a voz, mas fala; quem não concorda, mas escuta.
[Martha Medeiros]
^^

domingo, 13 de maio de 2012

Em cada gesto


Escuto mas não sei
Se o que ouço é silêncio
ou Deus


Escuto sem saber se estou ouvindo
O ressoar das planícies do vazio
Ou a consciência atenta
Que nos confins do Universo
Me decifra e fita

Apenas sei que caminho como quem
É amado olhado e conhecido

E por isso em cada gesto ponho
Solenidade e risco


[Sophia de Mello Breyner Andresen - In "A Noite e a Casa"]
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sábado, 12 de maio de 2012

O Mapa do Tesouro


A solidão é uma paisagem árida, uma perdida ilha rochosa, onde cada um de nós é um país secreto no fundo do horizonte. O mapa do tesouro é o encontro com o outro, a descarga entre pólos que revela uma paisagem cujos elementos dispomos ao longo dos dias nesse jogo de olhares que pode fazer nascer flores carnívoras ou campinas suaves sobrevoadas pelo canto dos pássaros azuis.
Só então existimos.

Só então sabemos como deter o inexorável.


[Egito Gonçalves - In "O Mapa do Tesouro]



^^

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Do que é possível alforriar...


Na verdade, ficamos apegados ao amor tanto quanto à pessoa que o gerou.
Muitas pessoas reclamam por não conseguir se desprender de alguém. É que, sem se darem conta, não querem se desprender.
Aquele amor, mesmo não retribuído, tornou-se um souvenir, lembrança de um...a época bonita que foi vivida… Passou a ser um bem de valor inestimável, é uma sensação à qual a gente se apega. Faz parte de nós.
Queremos, logicamente, voltar a ser alegres e disponíveis, mas para isso é preciso abrir mão de algo que nos foi caro por muito tempo, que de certa maneira entranhou-se na gente, e que só com muito esforço é possível alforriar.


[Martha Medeiros]



^^

quarta-feira, 9 de maio de 2012

Memória Iluminada


Memória iluminada. Galeria onde flutua
a sombra do que espero. Não é verdade
que virá. Não é verdade que não virá!



[Alejandra Pizarnik]
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terça-feira, 8 de maio de 2012

Permita-me o Tempo Presente


O amor não é uma profissão
distinta ou não


o sexo não é cirurgia dentária
A obturação habilidosa de dores e cavidades

não és o meu médico
não és a minha cura

ninguém tem esse
poder, és apenas um companheiro/viajante


desiste desta preocupação médica,
abotoada, atenta

permite-te raiva
e permite-me a minha


que não precisa nem
da tua aprovação nem da tua surpresa

que não precisa de ser legalizada
que não é contra uma doença

mas contra ti,
o que não precisa de ser entendido

ou lavado ou cauterizado
que ao contrário precisa sim

de ser dito e dito.
Permite-me o tempo presente.



[Margaret Atwood]



^^

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Tu dás-me Objetivo, Direção e Felicidade


Eu estava à procura na ciência da satisfação que o esforço da pesquisa e o momento da descoberta oferecem; eu nunca fui daquelas pessoas que não aguentam o pensamento de terem desperdiçado a sua vida antes de terem conseguido escrever o seu nome na rocha pelo meio das ondas. Mas quando penso como é que eu seria se não te tivesse encontrado – sem ambição, sem saber desfrutar os pequenos prazeres da vida, sem qualquer fascínio pela magia do ouro, e ao mesmo tempo dotado de uma inteligência moderada e sem quaisquer meios materiais – iria sentir-me muito miserável e entraria em declínio. Tu dás-me não apenas objectivos e direcção, mas também tanta felicidade, que nunca poderia sentir-me insatisfeito com o presente infortunado que vivo neste momento; tu dás-me esperança e a certeza do sucesso. Eu sabia-o mesmo antes de tu me amares e sei-o agora que tu me amas, e é graças a ti que me tornei um homem auto-confiante e corajoso.



[Carta de Sigmund Freud a Martha Bernays, 9 de Setembro 1883]



^^

domingo, 6 de maio de 2012

Irmão, Irmãos


Cada irmão é diferente.
Sozinho acoplado a outros sozinhos.
A linguagem sobe escadas, do mais moço,
ao mais velho e seu castelo de importância.
A linguagem desce escadas, do mais velho
ao mísero caçula.

São seis ou são seiscentas
distâncias que se cruzam, se dilatam
no gesto, no calar, no pensamento?

Que léguas de um a outro irmão.
Entretanto, o campo aberto,
os mesmos copos,

o mesmo vinhático das camas iguais.
A casa é a mesma. Igual,
vista por olhos diferentes?


São estranhos próximos, atentos
à área de domínio, indevassáveis.
Guardar o seu segredo, sua alma,
seus objectos de toalete. Ninguém ouse
indevida cópia de outra vida.

Ser irmão é ser o quê? Uma presença
a decifrar mais tarde,
com saudade?
Com saudade de quê? De uma pueril
vontade de ser irmão futuro, antigo e sempre?

[Carlos Drummond de Andrade - in 'Boitempo']



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sábado, 5 de maio de 2012

quinta-feira, 3 de maio de 2012

O Sexo é um Caso Sério


Pensai no casal mais belo, mais encantador, como ele se atrai e se repele, se deseja e foge um do outro com graça num belo jogo de amor. Chega o instante da volúpia, e toda a brincadeira, toda a alegria graciosa e doce de súbito desapareceram. Porquê? Porque a volúpia é bestial, e a bestialidade não ri. As forças da natureza agem por toda a parte seriamente. A volúpia dos sentidos é o oposto do entusiasmo que nos abre o mundo ideal. O entusiasmo e a volúpia são graves e não comportam a brincadeira.



[Arthur Schopenhauer - in 'Metafísica do Amor']



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A Esterilidade do Ódio


O ódio é um sentimento negativo que nada cria e tudo esteriliza: - e, quem a ele se abandona, bem depressa vê consumidas na inércia as forças e as faculdades que a Natureza lhe dera para a acção. O ódio, quando impotente, não tendo outro objecto directo e nem outra esperança senão o seu próprio desenvolvimento - é uma forma da ociosidade. É uma ociosidade sinistra, lívida, que se encolhe a um canto, na treva. (...) Mas que esse sentimento seja secundário na vasta obra que temos diante de nós, agora que acordamos - e não essencial, ou supremo e tão absorvente que só ele ocupe a nossa vida, e se substitua à própria obra.


[Eça de Queirós - in 'Distrito de Évora']
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