Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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segunda-feira, 16 de abril de 2012

Objecto de Amor


De um objecto digno de amor não podemos ouvir o bastante,
nem falar o bastante.
Alegramo-nos com cada palavra nova, justa e enaltecente.
Não temos culpa de ele não se tornar objecto de todos os objectos.


[Novalis - in Fragmentos]

^^

sábado, 14 de abril de 2012

Alegria


De passadas tristezas, desenganos
amarguras colhidas em trinta anos,
de velhas ilusões,
de pequenas traições
que achei no meu caminho...,
de cada injusto mal, de cada espinho
que me deixou no peito a nódoa escura

duma nova amargura...
De cada crueldade
que pôs de luto a minha mocidade...
De cada injusta pena

que um dia envenenou e ainda envenena
a minha alma que foi tranquila e forte...
De cada morte
que anda a viver comigo, a minha vida,
de cada cicatriz,
eu fiz
nem tristeza, nem dor, nem nostalgia
mas heróica alegria.

Alegria sem causa, alegria animal
que nenhum mal
pode vencer.
Doido prazer
de respirar!

Volúpia de encontrar
a terra honesta sob os pés descalços.

Prazer de abandonar os gestos falsos,
prazer de regressar,
de respirar
honestamente e sem caprichos,
como as ervas e os bichos.
Alegria voluptuosa de trincar
frutos e de cheirar rosas.

Alegria brutal e primitiva
de estar viva,

feliz ou infeliz
mas bem presa à raíz.

Volúpia de sentir na minha mão,
a côdea do meu pão.
Volúpia de sentir-me ágil e forte
e de saber enfim que só a morte
é triste e sem remédio.
Prazer de renegar e de destruir
o tédio,


Esse estranho cilício,
e de entregar-me à vida como a
um vício.

Alegria!
Alegria!

Volúpia de sentir-me em cada dia
mais cansada, mais triste, mais dorida
mas cada vez mais agarrada à Vida!



[Fernanda de Castro - in "D'Aquém e D'Além Alma"]



^^

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Não tinha Sentido Pensar em Ti



e não sair a correr para a rua
procurar-te imediatamente
correr a cidade de uma ponta a outra

...




[Al Berto]

^^

quinta-feira, 12 de abril de 2012

Urgentemente


É urgente o amor
É urgente um barco no mar

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.

É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
p-e-r-m-a-n-e-c-e-r.



[Eugénio de Andrade - in "Até Amanhã]


^^

quarta-feira, 11 de abril de 2012

O Amor é de outro Reino


O amor é de outro reino. (...) Da amizade, do amor, do encontro de duas pessoas que se sentem bem uma ao lado da outra, fazendo amor, falando de amor, trocando amor, conversando de amor, falando de nada, falando de pequenas histórias código de ministros com aventuras de aventuras sem ministros conversa alta e baixa de livros e de quadros de compras e de ninharias conversas trocadas em miúdos ouvindo música sem escutar música que ajuda o amor o amor precisa de ajudas de ir às cavalitas de andas de muita coisa simples amor é um segredo que deve ser alimentado nas horas vagas alimentado nas horas de trabalho nas horas mais isoladas amor é uma ocupação de vinte e quatro horas com dois turnos pela mesma pessoa com desconfianças e descobertas com cegueiras e lumineiras amor de tocar no mais íntimo na beleza de um encanto escondido recôndito que todos no mundo fizeram pais de padres mães de bispos avós de cardeais amor agarrado intrometido de falus com prazer de alegria amor que não se sabe o que vai dar que nunca se sabe o que vai dar amor tão amor.



[Ruben A. - Silêncio para 4]


^^

segunda-feira, 9 de abril de 2012

As árvores se iluminam por dentro



Hoje que me sinto
perfeitamente morto,
seria o bom momento de romper
a membrana celeste, implacável de azul,
sair, independente, para o lugar de pensamentos
lúcidos, quase reais! mas

fico preso à gangrena, o precioso
lugar dos músculos na carne,
e a memória do prazer mistura-se ao redondo
fio do horizonte;
não estou, afinal, senão vazio de todos os corpos,
apenas alheado das maquinações e dos

encontros. Deixo ficar a paisagem como está,
quando não olho é que as árvores se iluminam por dentro.



[António Franco Alexandre]



^^

Sessão pipoca - Ciega, Sordomuda



Se me acaba el argumento y la metodología
Cada vez que se aparece frente a mí tu anatomía
Por que este amor ya no entiende
De consejos, ni razones
Se alimenta de pretextos y le faltan pantalones

Este amor no me permite
Estar en pie
Porque ya hasta me ha quebrado
Los talones
Aunque me levante volveré a caer
Si te acercas nada es útil para esta inútil

Bruta, ciega, sordomuda
Torpe, traste, testaruda
Es todo lo que he sido, por ti me he convertido
En una cosa que no hace otra cosa más que amarte
Pienso en ti día y noche y no sé como olvidarte

Cuántas veces he intentado enterrarte en mi memória
Y aunque diga ya no más es otra vez la misma história
Por que este amor siempre sabe hacerme respirar profundo
Ya me trale por la izquierda y de pelea con el mundo

Si pudiera exorcizarme de tu voz
Si pudiera escaparme de tu nombre
Si pudiera arrancarme el corazón
Y esconderme para no sentirme nuevamente

Bruta, ciega, sordomuda
Torpe, traste, testaruda
Es todo lo que he sido, por ti me he convertido
En una cosa que no hace otra cosa más que amarte
Pienso en ti día y noche y no sé como olvidarte

Ojerosa, fraca, fea, desgreñada,
Torpe, tonta, lenta, nécia, desquiciada
Completamente descontrolada
Tú te das cuenta y no me dices nada
Ves se me ha vuelto la cabeza un nido
Dónde solamente tu tienes asilo
Y no me escuchas lo que te digo
Mira bien lo que vas a hacer conmigo




[Shakira]



^^

domingo, 8 de abril de 2012

Vida


Sou das tuas duas direcções
de algum modo permanecendo pendurada para baixo
quase sempre
mas forte como uma teia de aranha ao vento.

Existo mais com a geada fria resplandecente
mas os meus raios de missangas
são da cor que vi num quadro.

Ah vida
enganaram-te.


[Marilyn Monroe]
^^

.......................................


Ninguém deve limitar ou conter a inspiração.



[O sensato - Vicente del Bosque]
^^

sábado, 7 de abril de 2012

Do que Necessito


Nada garante que tu existas
Não acredito que tu existas
Só necessito que tu existas

[David Mourão Ferreira]



^^

sexta-feira, 6 de abril de 2012

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Do Lado de Dentro


Sou feito de esquinas. Cada um se esconde em cada tu em cada uma. Arrependo-me. Grito ao mar de anónimos que me cansam ainda que em vão por entre eles te busquei.
O amor compassado e irregular como um signo.
E procuro-te sempre, na ausência da carne que os dias me traçam sobre a pele.

E depois na presença eu
presença tu



[Manuel Cintra]


^^

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A Dor da nossa própria Solidão



^^

Na Primeira Manhã


Na primeira manhã que te perdi
Acordei mais cansado que sozinho

Como um conde falando aos passarinhos
Como uma bumba-meu-boi sem capitão
E gemi como geme o arvoredo
Como a brisa descendo das colinas
Como quem perde o prumo e desatina
Como um boi no meio da multidão

Na segunda manhã que te perdi
Era tarde demais pra ser sozinho
Cruzei ruas, estradas e caminhos

Como um carro correndo em contramão
Pelo canto da boca num sussurro
Fiz um canto demente, absurdo
O lamento noturno dos viúvos
Como um gato gemendo no porão
Solidão.



[Alceu Valença]



^^

terça-feira, 3 de abril de 2012

Mais Feliz


O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide o rio
Me diga coisas bonitas


O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar nem ser tema de livro
A vida inteira eu quis um verso simples
Pra transformar o que eu digo


Rimas fáceis, calafrios
Fura o dedo, faz um pacto comigo
Um segundo teu no meu
Por um segundo mais feliz



[Bebel Gilberto]


^^

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Porque...


Porque os outros se mascaram mas tu não.
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão
Porque os outros têm medo mas tu não.

Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão
Porque os outros se calam mas tu não.

Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.

Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos
Porque os outros calculam mas tu não.


[Sophia de Mello Breyner]



^^

domingo, 1 de abril de 2012

Dentro das minhas Divisões


Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.


[Daniel Faria]
^^

sexta-feira, 30 de março de 2012

O que não se Grita


a vida que não sei, esta agonia
de ser enigma, azar, criptografia
e toda esta discórdia de Babel.

por trás do nome há o que não se grita;
hoje senti a sombra que gravita
nesta agulha tão leve e azul e nova

visando o mar e os seus confins medonhos,
com algo de relógio visto em sonhos
e de ave adormecida que se move.

[Jorge Luis Borges]


^^

quarta-feira, 28 de março de 2012

Tal uma Flor que te Florisse


Canta. Busca na vida o que é perfeito.
Olha o Sol e não queiras outro guia.
Sonha com a noite e absorve, aspira o dia
tal uma flor que te florisse ao peito.

Da terra maternal faz o teu leito.
Respira a terra e bebe o luar. Confia.
Faz de cada pena uma alegria
E um bem de cada mal insatisfeito.

Colhe todas as flores do jardim,
todos os frutos do pomar e, enfim,
colhe todos os sonhos do universo.

Procura eternizar cada momento,
fecha os olhos a todo o sofrimento
e terás feito a carne do teu verso.


[Fernanda de Castro]
^^

terça-feira, 27 de março de 2012

Presídio


Nem todo o corpo é carne... Não, nem todo.
Que dizer do pescoço, às vezes mármore,
às vezes linho, lago, tronco de árvore,
nuvem, ou ave, ao tacto sempre pouco...?

E o ventre, inconsistente como o lodo?...
E o morno gradeamento dos teus braços?
Não, meu amor ... Nem todo o corpo é carne:
é também água, terra, vento, fogo...


É sobretudo sombra à despedida;
onda de pedra em cada reencontro;
no parque da memória o fugidio

Vulto da Primavera em pleno Outono...
Nem só de carne é feito este presídio,
pois no teu corpo existe o mundo todo!




[David Mourão Ferreira]


^^