Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A fúria dos pores-do-sol





Algo
frio está no ar,
uma aura de gelo
e apatia
Todo o dia construí
uma vida inteira
e agora
o sol afunda-se para
a desfazer.
O horizonte sangra
e chupa o seu polegar
o pequeno polegar vermelho
desaparece.
E eu interrogo-me sobre
esta vida inteira comigo,
este sonho que estou a viver.
E podia comer o céu
como uma maçã
mas prefiro
perguntar à primeira estrela:

porque estou aqui?
porque vivo nesta casa?
quem é o responsável?
hã?



[Anne Sexton]


^^

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

Descreve-me.



Conta-me uma história sem que grites uma mentira. Sem que dês uma facada no mundo; em mim. Cá dentro – onde as palavras não chegam – quantas horas de solidão? Uma perdição desconhecida – e é como quem diz febre excessiva – que ofereça de beber às lágrimas. Ninguém pode saber que o dia começa tarde, que a dor sufocou ao canto da cama, que o amor aconteceu e já ninguém sabe se volta. É assim que se prova a imprudência? As cores dos objectos todas fora do lugar; uma ligeira corrente de ar assustada pelos malabarismos de um corpo que finalmente se entrega ao cansaço – o amor permanece? – e a lua reflectida no mar. Às vezes isto. Bastava dizeres-te aqui. Eu podia fingir olhar para o tecto, imaginar-me dentro das ausências do mundo, e esquecer o impossível. Entre o teu corpo e o meu uma vaga – ou precipício? - onde não nos deixamos cair por capricho. Adormecemos. Eu queria plantar rios, regar todas as flores, transpirar mapas e esbater fronteiras inúteis até que se rasgassem de raiva. Se no lugar do coração tivessem crescido mãos dadas os pássaros não mais se esconderiam. Venham ter comigo. Esfrego os olhos e escrevo em colapso: sou uma folha que se fechou antes mesmo de existir. Tic tac Tic tac Tic tac Tic tac. Não há tempo para vender a alma. Carrego memórias de um lado para o outro e sorrio a quem passa. Começa tu de novo, por favor: conta-me uma história de gestos vermelhos que queimam como lava e tanto salvam como maldizem. Estende-me esse olhar – e é como quem diz – Ama-me. Vem comigo. Há palavras que merecem silêncio.


Mas quem é capaz de percebê-las sem antes precisar sangrá-las na sua insensatez?


[autor desconhecido]


^^

Antes nós



Antes de nós nos mesmos arvoredos
Passou o vento, quando havia vento,
E as folhas não falavam
De outro modo do que hoje.

Passamos e agitamo-nos debalde.
Não fazemos mais ruído no que existe
Do que as folhas das árvores
Ou os passos do vento.

Tentemos pois com abandono assíduo
Entregar nosso esforço à Natureza
E não querer mais vida
Que a das árvores verdes.

Inutilmente parecemos grandes.
Salvo nós nada pelo mundo fora
Nos saúda a grandeza
Nem sem querer nos serve.

Se aqui, à beira-mar, o meu indício
Na areia o mar com ondas três o apaga,
Que fará na alta praia
Em que o mar é o Tempo?


[Ricardo Reis]


^^

domingo, 22 de janeiro de 2012

Sabes quem sou?



Eu não sei.
Outrora, onde o nada foi,
Fui o vassalo e o rei.
É dupla a dor que me dói.
Duas dores eu passei.

Fui tudo que pode haver.
Ninguém me quis esmolar;
E entre o pensar e o ser
Senti a vida passar
Como um rio sem correr
.

[Fernando Pessoa]


^^

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Há doenças piores que as doenças,



Há doenças piores que as doenças,
Há dores que não doem, nem na alma
Mas que são dolorosas mais que as outras.
Há angústias sonhadas mais reais
Que as que a vida nos traz, há sensações
Sentidas só com imaginá-las
Que são mais nossas do que a própria vida.
Há tanta coisa que, sem existir,
Existe, existe demoradamente,
E demoradamente é nossa e nós...
Por sobre o verde turvo do amplo rio
Os circunflexos brancos das gaivotas...
Por sobre a alma o adejar inútil
Do que não foi, nem pôde ser, e é tudo.


Dá-me mais vinho, porque a vida é nada.


[Fernando Pessoa]


^^

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Noite de Verão



Este não sou eu
Meus lábios nos seus lábios não são meus
O meu olho no seu olho no meu olho no seu
Duvida do que vê

Deve ser um rei
Deve ser um deus
O homem que possui você

Não pode ser eu
Você fala meu nome, quem sou eu?
Você fala meu homem, sim,
Meu homem, sim, mas qual?
Eu nunca fui ninguém

Deve ser demais
Deve ser o tal
O homem que lhe faz tão bem


[Chico Buarque]


^^

domingo, 15 de janeiro de 2012

Ternura Antiga

Ai, a rua escura, o vento frio
Essa saudade, esse vazio
Essa vontade de chorar.

Ai, tua distância tão amiga
Essa ternura tão antiga
E o desencanto de esperar.


Sim, eu não te amo porque quero.
Ah, se eu pudesse esqueceria.

Vivo, e vivo só porque te espero.
Ai, esta amargura, esta agonia.

O meu amor tem um jeito manso que é só seu...


[Maria Bethânia]


^^

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Quase não te lembras do rasto do teu corpo



e no entanto pesam-te
as suas palavras
como o eco duma avalanche
que se aproxima.

Não existes, não és nada,
não imagines amor
onde apenas há sombras.

És a estrada secundária
o desvio de um dia sem pressas
para alguém que brinca
a mudar de destino
mas leva uma bússola
e volta sempre a casa.


[Ana Merino]


^^

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Contudo


Contudo, contudo,
Também houve gládios e flâmulas de cores
Na Primavera do que sonhei de mim.
Também a esperança
Orvalhou os campos da minha visão involuntária,
Também tive quem também me sorrisse.
Hoje estou como se esse tivesse sido outro.
Quem fui não me lembra senão como uma história apensa.
Quem serei não me interessa, como o futuro do mundo.
Caí pela escada abaixo subitamente,
E até o som de cair era a gargalhada da queda.
Cada degrau era a testemunha importuna e dura
Do ridículo que fiz de mim.

Pobre do que perdeu o lugar oferecido por não ter casaco limpo com que aparecesse,
Mas pobre também do que, sendo rico e nobre,
Perdeu o lugar do amor por não ter casaco bom dentro do desejo.
Sou imparcial como a neve.
Nunca preferi o pobre ao rico,
Como, em mim, nunca preferi nada a nada.

Vi sempre o mundo independentemente de mim.
Por trás disso estavam as minhas sensações vivíssimas,

Mas isso era outro mundo.
Contudo a minha mágoa nunca me fez ver negro o que era cor de laranja.
Acima de tudo o mundo externo!
Eu que me agüente comigo e com os comigos de mim.


[Álvaro de Campos]


^^

domingo, 8 de janeiro de 2012

Chove? Nenhuma chuva cai...



Chove ? Nenhuma chuva cai...
Então onde é que eu sinto um dia
Em que ruído da chuva atrai
A minha inútil agonia ?
Onde é que chove, que eu o ouço ?
Onde é que é triste, ó claro céu ?
Eu quero sorrir-te, e não posso,
Ó céu azul, chamar-te meu...

E o escuro ruído da chuva
É constante em meu pensamento.
Meu ser é a invisível curva
Traçada pelo som do vento...

E eis que ante o sol e o azul do dia,
Como se a hora me estorvasse,
Eu sofro... E a luz e a sua alegria
Cai aos meus pés como um disfarce.

Ah, na minha alma sempre chove.
Há sempre escuro dentro de mim.
Se escuro, alguém dentro de mim ouve
A chuva, como a voz de um fim...

Os céus da tua face, e os derradeiros
Tons do poente segredam nas arcadas...


No claustro seqüestrando a lucidez
Um espasmo apagado em ódio à ânsia
Põe dias de ilhas vistas do convés

No meu cansaço perdido entre os gelos,
E a cor do outono é um funeral de apelos
Pela estrada da minha dissonância...



[Fernando Pessoa]



^^

¬¬




^^


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Lágrimas Pretas




Não fique assustado

Hoje fiz um movimento louco dentro do meu sonho
Hoje fiz um movimento louco dentro do meu sonho
Você já saiu algum dia da casa do pai?
Esse é o som e você é a mulher que eu sou
A minha primeira visão da terra tinha cortina de água

Essa noite fiz um movimento louco dentro do meu sonho
(a minha primeira visão da terra)
A minha primeira visão da terra tinha cortina de água

Não me lembro de ter fome
Não me recordo de frio nem calor
Eu não me lembro
Você já viu alguma mulher derramando lágrimas pretas?
Você sabe quem eu sou?

Você já viu uma mulher derramando lágrimas pretas na face?
Lágrimas pretas
Lágrimas pretas
Não fique assustado ao ver a mulher pintada chorando lágrimas pretas
Eu amo tanto
Você já viu uma mulher derramando lágrimas pretas na face?
Lágrimas pretas
Lágrimas pretas
Não fique assustado

A minha primeira visão da terra tinha cortina de água
Essa noite fiz um movimento louco dentro do meu sonho
A minha primeira visão da terra tinha cortina de água
Essa noite fiz um movimento louco dentro do meu sonho

Não fique assustado


[Pitty]


^^

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Andavam de noite



Andavam de noite aos segredos
Só porque era noite...
Os bosques enchiam de medos
Quem quer que se afoite
Diziam palavras que pesam
À sombra de alguém
Ninguém os conhece, e passam
Não eram ninguém...

Fica só na aragem e na ânsia
Saudade a fingir
Foi como se fora distância...
Eu torno a dormir.


[Fernando Pessoa]


^^

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Datilografia



Traço, sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano,
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!

Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(Ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.

Outrora.

Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.

Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos, num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.

Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra ...

Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalado das máquinas de escrever.


[Álvaro de Campos]


^^

sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Uma Questão de Sentimento




Como é a sensação quando todo mundo te rodeia? Como você lida com isso? As multidões te fazem se sentir só? O que você diz quando as pessoas vêm tentar te obrigar a se definir?
Os conhecidos sorriem, mas não há nenhuma compreensão nisso... Como, depois de algum tempo, você continua a cair da mesma montanha? Tente explicar isso, mas nada realmente chega tão alto assim.
Saia sorrateiramente de manhã, o amor já é passado para você. É um hábito que você está criando, este corpo desesperado por algo novo. Apenas uma questão de sentimento; Esses momentos de loucura certamente vão passar. E as lágrimas secarão enquanto você parte; Quem sabe, você pode achar algo que dure.
A emoção é um jogo, guardado para uma segunda chuvosa. Mas você ri do mesmo modo, pois caiu um toró no domingo. Ligue para seus números, nunca deixe os zeros te colocarem pra baixo.
Como é a sensação? O tempo é pesado demais para segurar? O que quer que você decida no momento é sagrado. Sempre que você desacelera para ver a vida passar...


[Duran Duran - A Matter of Feeling]


^^