Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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domingo, 3 de julho de 2011

Como me sinto?


Como se colocassem dois olhos sobre uma mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isso é aquilo que vê, essa é a matéria que vê. Toco os dois olhos sobre a mesa, lisos, tépidos ainda, arrancaram há pouco, gelatinosos, mas não vejo o ver. É assim o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito, e desbocado e cruel, manchado de tintas, essas pardas escuras do não saber dizer, tento amputado conhecer o passo, cego conhecer a luz, ausente de braços tento te abraçar.


[Hilda Hilst]



^^

*Quer me conhecer? - Eis-me aqui...



Eu triste sou calada
Eu brava sou estúpida
Eu lúcida sou chata
Eu gata sou esperta
Eu cega sou vidente
Eu carente sou insana
Eu malandra sou fresca
Eu seca sou vazia
Eu fria sou distante
Eu quente sou oleosa
Eu prosa sou tantas
Eu santa sou gelada
Eu salgada sou crua
Eu pura sou tentada
Eu sentada sou alta
Eu jovem sou donzela
Eu bela sou fútil
Eu útil sou boa
Eu à toa sou tua.



[Martha Medeiros]



^^

sábado, 2 de julho de 2011

Não, não deve ser nada este pulsar de dentro:











só um lento desejo de dançar.

E nem deve ter grande

significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:

só um pólen a meio, como de abelha

à espera de voar.

E não é com certezar

elevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei

pelo verso e por acaso, poema

muito breve e muito raso,

que (aproveitando) trago para ti.




[Ana Luísa Amaral]



^^

Marcas de Ayer




Siento que te conozco hace tiempo
De otro milenio, de otro cielo
Dime si me recuerdas aún
Sólo con tocar tus manos
Puedo revelarte mi alma
Dime si reconoces mi voz

Siento que me desnudas la mente
Cuando me besas en la frente
Dime si trago marcas de ayer
Sólo con tocar tus manos
Puedo revelarte mi alma
Dime si reconoces mi voz

Siento que te conozco
Siento que me recuerdas
Dime si reconoces mi voz



[Adriana Mezzadri]




^^

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Os versos que te fiz



Deixa-me dizer-te os lindos versos raros
Que a minha boca tem pra te dizer
São talhados em mármore de Páros
Cinzelados por mim pra te oferecer.
Têm dolências de veludos caros,
São como sedas pálidas a arder...
Deixa-me dizer-te os lindos versos raros
Que foram feitos pra te endoidecer!
Mas, meu Amor, eu não tos digo ainda...
Que a boca da mulher é sempre linda
Se dentro guarda um verso que não diz!


[Florbela Espanca]


^^

Se guardo algum tesouro não o prendo



porque quero oferecer-te a paz de um sonho aberto
que dure e flua nas tuas veias lentas
e seja um perfume ou um beijo um
suspiro solar...



[António Ramos Rosa]



^^

quinta-feira, 30 de junho de 2011

quarta-feira, 29 de junho de 2011

Diálogo em alguns Atos - O problema das Metáforas


- Será que você é tão bom como todo mundo pensa?
- Será que você é tão feliz como todo mundo pensa?
- Eu só quero fazer algo que importe.
- Nada importa. Não passamos de baratas, animais morrendo à margem do rio. Nada do que fazemos tem significado duradouro.
- E eu é que sou infeliz?
- Se não está feliz no avião, pule.
- Eu gostaria, mas não consigo.
- Esse é o problema das metáforas - exigem interpretação: Pular do avião é uma idiotice!
- E se eu não estiver em um avião? E se eu estou num lugar em que não queira estar?
- Esse é o outro problema das metáforas... Tá, e se você estiver num caminhão de sorvetes e do lado de fora houver doces, flores e virgens? Você está num avião! Todos estamos. A vida é perigosa, complicada... e a queda é grande!
- Então tem medo de mudar?
- Não. Você tem medo de mudar... Prefere imaginar que pode escapar ao em vez de tentar de fato. Porque se falhar, não sobra nada. Então desiste de algo real e se apega à esperança. O fato é que a esperança é para os maricas covardes...
- Quando sair daqui não terei mais medo. Afinal, quantos caras têm uma segunda chance?
- Oh céus! Vários! E mesmo assim não merecem uma segunda chance.


[Trecho de um episódio da 4º temporada - série Dr.House]


^^

Liberdade é pouco.



O que eu desejo ainda não tem nome.


[Clarice Lispector]



^^

terça-feira, 28 de junho de 2011

Acho que é isso...

Eu sei que falei em prazer gratuito semanas atrás, e sei o que você pensa a respeito: nada é gratuito. Mas, por enquanto não consigo contrariar essa forte impressão de que a conta não virá. Se eu sinto alguma culpa, não é pelo o que faço às escondidas, não é culpa por estar me dedicando a uma experiência socialmente reprovável : é culpa por não sentir culpa alguma. Por estar achando tudo condizente com meu grau de exigência em relação ao aproveitamento do meu tempo, condizente com a minha fome, que nunca foi de comida, mas de vivência. A pergunta que mais faço é: por que não? Desde pequena, desde que tomei gosto pelo ato de respirar e me senti atraída pelos dias que estavam por vir, horas repletas de novidade, desde que eu despertei para a leitura e que passei a sentir o sabor das coisas de uma forma muito entusiasmada, desde que eu soube que podia pensar e que o pensamento era livre, que dentro do meu pensamento ninguém poderia me achar, desde que meus seios cresceram e eu descobri que pessoas tinham cheiro, desde lá até aqui eu me pergunto: por que não me oferecer para aquilo que não fui preparada? Eu tenho as armas de que necessito para me defender, e mesmo que eu perca, eu ganho, já perdi algumas vezes e sei como funciona a lei das compensações. Quero acolher com generosidade o que em mim se manifesta de forma incorreta. Não vou pedir permissão aos outros para desenvolver a mim mesma, mando no meu corpo e em tudo o que ele confina, coração incluído, consciência incluída. Talvez eu esteja com receio de ter ido longe demais desta vez e esteja preparando a minha defesa, caso alguma coisa não saia como esperado. O que eu espero? Não espero nada, espero tudo, estou à deriva nessa aventura. Eu queria cristalizar esse momento da minha vida, mas estou em alta velocidade, e não sei se quero ir adiante, só que eu não tenho opção. Acho que é isso. Eu tinha opções, agora não tenho. Não consigo parar esse trem.


[Trecho do livro Divã - Martha Medeiros]






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Há seres que são mais imagem que matéria




mais olhar que corpo...

tão imateriais os amamos
que quase não queremos tocá-los com palavras

desde a infância os buscamos
mais no sonho que na carne

e sempre no limiar dos lábios
a luz da manhã parece dizê-los.


[Homero Aridjis (México), in Rosa do Mundo]




^^







segunda-feira, 27 de junho de 2011

Vida Interior



Para onde vai tudo o que a gente pensa e reprime, tudo o que a gente lê e compreende, tudo o que a gente vê e não toca?
Para onde vão as idéias que a gente consome e os sentimentos que nos envergonham?
Vida inteirior. Nem mil anos bastariam para eu assimilar tudo o que sinto e acomodar toda essa trupe em mim.


[Martha Medeiros]



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Síndrome de Dependência do Álcool (SDA)



A Síndrome de Dependência do Álcool (SDA) é um grave problema de saúde pública. Embora seja bem estudada e seu quadro clínico seja bem estabelecido, muitas vezes passa despercebida em vários tipos de avaliação.
É um conjunto de fenômenos fisiológicos ou comportamentais e cognitivos, no qual o uso de uma substância (álcool, neste caso), ou de uma classe de substâncias, alcança uma prioridade muito maior para um determinado indivíduo que outros comportamentos que antes tinham maior valor.
Uma característica descritiva central da síndrome de dependência alcoólica é o desejo (freqüentemente forte, algumas vezes irresistível) de consumir álcool.


Tem mais aqui.



^^

Na minha memória - tão congestionada -



- e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos.


[Caio Fernando Abreu]






^^

domingo, 26 de junho de 2011

Mas resolvi não falar hoje em saudade,



nem dar a entender “saudade” por carinhos... Senão me derramaria demais e perderia o equilíbrio que é tão necessário pelo menos para se dormir de noite.


[Clarice Lispector]


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Sessão pipoca - Sexo Frágil - As Mulheres que Dão pra Gente*









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Segue o teu Destino



Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias.

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios.

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses.

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses.

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam.


[Ricardo Reis em 1916]






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sábado, 25 de junho de 2011

Alguém Impagável




(...)Queria saber onde estão aquelas pessoas de verdade, que a gente não compra mas também não vive sem. Aquele amigo que mudou para o outro lado do mundo mas você não pensa duas vezes antes de pegar o carro, o ônibus ou o avião e fazer uma visita. Só olhar para ele, sentar ao lado, ouvir a voz, faz tudo ficar mais feliz.
Algumas pessoas simplesmente valem a pena.
Queria saber onde é que está aquele tipo de namorado que você não veste para se exibir mas despe para provar só pra si mesmo o quanto é feliz.

Que você não desfila ao lado, mas leva dentro do peito.

Que você não compra, consome, negocia ou contrabandeia. Mas se surpreende quando ganha de presente da vida.

Aquele tipo que você não usa para ser alguém e justamente por isso acaba sendo uma pessoa muito melhor.
Não culpo pessoas, lugares e sentimentos que se vendem e muito menos me culpo por viver pra cima e pra baixo com minha sacolinha de degustações frugais. É o nosso mundo moderno cheio de tecnologias e vazio de profundidades.


Mas hoje, só por hoje, vou sair de casa sem minha bolsa. -Vamos ver se acabo conhecendo alguém impagável.



[Tati Bernardi]





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Natural

E que uma palavra ou um gesto, seu ou meu, seria o suficiente para modificar nossos roteiros. silêncio - Mas não seria natural. - Natural é as pessoas se encontrarem e se perderem. - Natural é encontrar. Natural é perder. - Linhas paralelas se encontram no infinito. - O infinito não acaba. O infinito é nunca. - Ou sempre...


[Caio Fernando de Abreu]





Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente...
...Sempre...
A se olharem...
Pensar talvez:
¿Paralelos que se encontram no infinito...¿
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.


[Pablo Neruda]



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Simples assim...



^^