Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]

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quinta-feira, 5 de maio de 2011

Preciso muito de branco por cima de preto e branco...







...mas os meus pensamentos correm num tecnicolor fantástico, não me deixam dormir, afastam o cobertor quente da invisibilidade de cada vez que ele promete asfixiar a minha mente do nada.



[Sarah Kane]


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quarta-feira, 4 de maio de 2011

Quando entre nós o Espaço



Quando estamos
No mesmo lugar,
Perto um do outro,

Quando entre nós o espaço

Está cheio de ti, de nós,
Merecerá ainda o nome de espaço?



[Eugène Guillevic]





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terça-feira, 3 de maio de 2011

Juízo Final




O sol há de brilhar mais uma vez
A luz há de chegar aos corações
Do mal será cremada a semente
O amor será eterno novamente

É o juízo final, a história do bem contra o mal
Quero ter olhos pra ver, a maldade desaparecer...




[Composição: Élcio Soares / Nelson Cavaquinho - by Seu Jorge]


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O jeito em que todas as coisas foram colocadas



instigou-me à vocação selvagem da desordem; estimula-me o pensamento de desmanchar tudo: os sítios nos tempos. Porque a história tem de ser feita ao contrário.


[Herberto Helder]



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segunda-feira, 2 de maio de 2011

Experimentei esta liberdade:




... a de ver os dias moverem-se de um lado para o outro dentro das semanas, enquanto eu lia, olhava, imaginava e dormia, e voltava para trás, lembrando coisas de uns e outros, coisas dos dias, de tal modo que era tudo uma festa da confusão.


[Herberto Helder]



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domingo, 1 de maio de 2011

TRAIÇÃO - Um BEM necessário?




Clique na imagem e leia sobre este assunto tão difícil de lidar...






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O Quarto Interior



Os países estrangeiros, a música e os planos e projectos pertenciam ao Quarto Interior. E as canções em que ela pensava também. E a Sinfonia. Quando ela estava sozinha no Quarto Interior voltava-lhe à memória a música que tinha ouvido durante a noite da festa. Era como uma grande flor que se abria dentro dela. Durante o dia, por vezes, ou quando acabava de acordar, pela manhã, vinha-lhe de repente à lembrança um novo trecho da Sinfonia. Então tinha que ir para o Quarto Interior e escutá-la muitas vezes para tentar juntar esse trecho aos que já tinha de memória. O Quarto Interior era um lugar inteiramente privado, só dela. Podia estar no meio duma sala de gente e ainda assim fazer de conta que estava fechada à chave por dentro.



[Carson McCullers]



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sábado, 30 de abril de 2011

Comprei um Vestido Novo






Comprei um vestido novo, um vestido de interior, próprio de casa, longo, para uma hora de uma certa tarde, para algumas noites no meu apartamento, sei para quem, agrada-me porque é comprido e leve, e alem disso explica que vou ficar muito tempo em casa, a partir de hoje. Para o provar, não queria que Ivan estivesse aqui, Malina muito menos; por ele não estar, posso olhar-me à vontade no espelho, dou voltas e mais voltas diante do enorme espelho do corredor, a mil léguas, a uma distância abissal, astronómica dos homens. Por uma hora, posso viver fora do tempo e do espaço, verdadeiramente contente, transportada a uma lenda onde o perfume de um sabonete, o ardor duma água-de-colónia, o frufru de roupa interior, o gesto da mão mergulhando borlas na caixa do pó, ou retocando meditativamente uma sobrancelha, são a única realidade. É uma obra que se vai realizando, uma mulher que se cria para um vestido. No mais profundo segredo se esboça de novo o que é uma mulher, pensa-se no começo do mundo, num halo que não dá luz para ninguém. É preciso escovar vinte vezes os cabelos, untarem-se os pés de unhas envernizadas, é preciso depilar pernas e axilas, abrir e fechar o chuveiro, uma nuvem de pó inunda a casa de banho, olha-se no espelho, ainda é domingo, consulta-se o espelho, na parede, talvez já seja domingo.



[Ingeborg Bachmann]



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sexta-feira, 29 de abril de 2011

PERVERSÃO


"O que parece bastante significativo nas perversões é que a libido, e entendamos aqui como princípio ativo da pulsão, volta-se para objetos sexuais diferentes dos normais, não esquecendo que o alvo sexual é modificado também.
Isto é, nas perversões ocorre uma modificação tanto do objeto sexual quanto do alvo sexual, a satisfação via coito raramente é incluída nas atividades sexuais perversas e a reprodução da espécie é um objetivo menos ainda pretendido."


Mais informações sobre este tema no blog "A liberdade é que me prende."



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Fins de Fevereiro



Saí para te esperar. Vi folhas novas num arbusto da alameda - isso mesmo, aquele que dá os copos, que à noite cheiram alto - e senti-me rejuvenescido. Voltei para casa e até me esqueci de ver o correio.



[Ruy Belo]



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quinta-feira, 28 de abril de 2011

Sessão pipoca - Seu Olhar



Eu penso o tempo todo
Por que você me deixa
Com a pulga atrás da orelha
Um pé na frente o outro atrás?

E me deixando solta
Mas me prendendo tanto
Que para me ganhar
É só olhar no meu olhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar

É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar

E me levanto cedo
Te espero acordar
E brindo logo com um beijo
E por que não brindar?

Fazendo brincadeiras
Seu jeito de amar
Que para me hipnotizar
É só olhar no meu olhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
É só olhar no meu olhar

Eu penso o tempo todo
Por que você me deixa
Com a pulga atrás da orelha
Um pé na frente o outro atrás?
Seu olhar mergulhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar

Eu penso o tempo todo
Por que você me deixa
Com a pulga atrás da orelha
Um pé na frente o outro atrás?

E me deixando solta
Mas me prendendo tanto
Que para me hipnotizar
É só olhar no meu olhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar



[Composição: Paulo Djorge]



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Tinha um parafuso a menos tive um acidente



puseram-me vários
estou deveras preocupada
um a menos? vários a mais?
não é que faça diferença
saber ou não,
quero dizer
agora por aqui ando
tilintando por tudo e por nada
como sino meio tresloucado
tocando segundos sem parar, mas
suspeito que mos puseram nos sítios errados
aquele que faltava o tal do sítio acertado
continuo a dar pela sua inexistência
pois é muito pior perder
aquilo que se não tem

do que aquilo que, julgado possuído,
perdê-lo não se podia

pois é, elizabeth, a arte de perder é o maior mistério.



[Bénédicte Houart]


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quarta-feira, 27 de abril de 2011

Não se recordam os dias...




...recordam-se os instantes!


[Cesare Pavese]


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Rumor de água



na ribeira ou no tanque?
O tanque foi na infância
minha pureza refractada.
A ribeira secou no verão
Rumor de água
no tempo e no coração.


Rumor de nada...



[Carlos de Oliveira]


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terça-feira, 26 de abril de 2011

Tive muita sorte contigo...



embora te tenha escolhido a dedo
mas o meu dedo é pouco ajuizado
em suma não é de confiança
mesmo que saiba melhor do que eu
as coisas acontecem àqueles que acreditam
no alcance de um dedo bem apontado...



[Bénédicte Houart]



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Eutanásia


Sinônimo de suicídio? Confira este tema polêmico aqui.




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Ninguém a Outro Ama


Ninguém a outro ama, senão que ama
O que de si há nele, ou é suposto.
Nada te pese que não te amem. Sentem-te
Quem és, e és estrangeiro.
Cura de ser quem és, amam-te ou nunca.
Firme contigo, sofrerás avaro
De penas.


[Ricardo Reis]


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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Sessão pipoca - Cálice


Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

De muito gorda
A porca já não anda
(Cálice!)
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
(Cálice!)
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...

Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...

Talvez o mundo
Não seja pequeno
(Cálice!)
Nem seja a vida
Um fato consumado
(Cálice!)
Quero inventar
O meu próprio pecado
(Cálice!)
Quero morrer
Do meu próprio veneno
(Pai! Cálice!)
Quero perder de vez
Tua cabeça
(Cálice!)
Minha cabeça
Perder teu juízo
(Cálice!)
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
(Cálice!)
Me embriagar
Até que alguém me esqueça
(Cálice!)


[Composição: Chico Buarque / Milton Nascimento]


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Estes são os tempos que agora nos definem:


tempo passado, naquele tempo, tempo futuro, ainda não. Vivemos na pequena janela entre eles, o espaço em que apenas recentemente pensamos como parado, e que realmente não é mais pequena do que a janela de qualquer um.



[Margaret Atwood]


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domingo, 24 de abril de 2011

O Preço da Renúncia


"O homem humaniza-se quando aprende a suportar a adversidade, a abster-se daquilo que se pode mas não se deve fazer. Este é o preço que deve pagar a nossa inexorável tendência para a felicidade se quisermos alcançar aquilo que ela nos pode dar nesta vida."




Clique aqui e confira o texto completo.



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