
Dizem que finjo ou minto tudo que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto com a imaginação. Não uso o coração.
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]
Tudo o que sonho ou passo, o que me falha ou finda, é como que um terraço sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda.
Por isso escrevo em meio do que não está ao pé, livre do meu enleio, sério do que não é. Sentir, sinta quem lê! [Fernando Pessoa, in "Cancioneiro]
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quinta-feira, 5 de maio de 2011
quarta-feira, 4 de maio de 2011
Quando entre nós o Espaço
terça-feira, 3 de maio de 2011
Juízo Final
segunda-feira, 2 de maio de 2011
Experimentei esta liberdade:
domingo, 1 de maio de 2011
O Quarto Interior

Os países estrangeiros, a música e os planos e projectos pertenciam ao Quarto Interior. E as canções em que ela pensava também. E a Sinfonia. Quando ela estava sozinha no Quarto Interior voltava-lhe à memória a música que tinha ouvido durante a noite da festa. Era como uma grande flor que se abria dentro dela. Durante o dia, por vezes, ou quando acabava de acordar, pela manhã, vinha-lhe de repente à lembrança um novo trecho da Sinfonia. Então tinha que ir para o Quarto Interior e escutá-la muitas vezes para tentar juntar esse trecho aos que já tinha de memória. O Quarto Interior era um lugar inteiramente privado, só dela. Podia estar no meio duma sala de gente e ainda assim fazer de conta que estava fechada à chave por dentro.
[Carson McCullers]
[Carson McCullers]
^^
sábado, 30 de abril de 2011
Comprei um Vestido Novo

Comprei um vestido novo, um vestido de interior, próprio de casa, longo, para uma hora de uma certa tarde, para algumas noites no meu apartamento, sei para quem, agrada-me porque é comprido e leve, e alem disso explica que vou ficar muito tempo em casa, a partir de hoje. Para o provar, não queria que Ivan estivesse aqui, Malina muito menos; por ele não estar, posso olhar-me à vontade no espelho, dou voltas e mais voltas diante do enorme espelho do corredor, a mil léguas, a uma distância abissal, astronómica dos homens. Por uma hora, posso viver fora do tempo e do espaço, verdadeiramente contente, transportada a uma lenda onde o perfume de um sabonete, o ardor duma água-de-colónia, o frufru de roupa interior, o gesto da mão mergulhando borlas na caixa do pó, ou retocando meditativamente uma sobrancelha, são a única realidade. É uma obra que se vai realizando, uma mulher que se cria para um vestido. No mais profundo segredo se esboça de novo o que é uma mulher, pensa-se no começo do mundo, num halo que não dá luz para ninguém. É preciso escovar vinte vezes os cabelos, untarem-se os pés de unhas envernizadas, é preciso depilar pernas e axilas, abrir e fechar o chuveiro, uma nuvem de pó inunda a casa de banho, olha-se no espelho, ainda é domingo, consulta-se o espelho, na parede, talvez já seja domingo.
[Ingeborg Bachmann]
[Ingeborg Bachmann]
^^
sexta-feira, 29 de abril de 2011
PERVERSÃO

"O que parece bastante significativo nas perversões é que a libido, e entendamos aqui como princípio ativo da pulsão, volta-se para objetos sexuais diferentes dos normais, não esquecendo que o alvo sexual é modificado também.
Isto é, nas perversões ocorre uma modificação tanto do objeto sexual quanto do alvo sexual, a satisfação via coito raramente é incluída nas atividades sexuais perversas e a reprodução da espécie é um objetivo menos ainda pretendido."
Mais informações sobre este tema no blog "A liberdade é que me prende."
^^
Fins de Fevereiro
quinta-feira, 28 de abril de 2011
Sessão pipoca - Seu Olhar
Eu penso o tempo todo
Por que você me deixa
Com a pulga atrás da orelha
Um pé na frente o outro atrás?
E me deixando solta
Mas me prendendo tanto
Que para me ganhar
É só olhar no meu olhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
E me levanto cedo
Te espero acordar
E brindo logo com um beijo
E por que não brindar?
Fazendo brincadeiras
Seu jeito de amar
Que para me hipnotizar
É só olhar no meu olhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
É só olhar no meu olhar
Eu penso o tempo todo
Por que você me deixa
Com a pulga atrás da orelha
Um pé na frente o outro atrás?
Seu olhar mergulhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
Eu penso o tempo todo
Por que você me deixa
Com a pulga atrás da orelha
Um pé na frente o outro atrás?
E me deixando solta
Mas me prendendo tanto
Que para me hipnotizar
É só olhar no meu olhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
É só olhar no meu olhar
Seu olhar mergulhar
[Composição: Paulo Djorge]
^^
Tinha um parafuso a menos tive um acidente

puseram-me vários
estou deveras preocupada
um a menos? vários a mais?
não é que faça diferença
saber ou não, quero dizer
agora por aqui ando
tilintando por tudo e por nada
como sino meio tresloucado
tocando segundos sem parar, mas
suspeito que mos puseram nos sítios errados
aquele que faltava o tal do sítio acertado
continuo a dar pela sua inexistência
pois é muito pior perder
aquilo que se não tem
do que aquilo que, julgado possuído,
perdê-lo não se podia
pois é, elizabeth, a arte de perder é o maior mistério.
[Bénédicte Houart]
^^
estou deveras preocupada
um a menos? vários a mais?
não é que faça diferença
saber ou não, quero dizer
agora por aqui ando
tilintando por tudo e por nada
como sino meio tresloucado
tocando segundos sem parar, mas
suspeito que mos puseram nos sítios errados
aquele que faltava o tal do sítio acertado
continuo a dar pela sua inexistência
pois é muito pior perder
aquilo que se não tem
do que aquilo que, julgado possuído,
perdê-lo não se podia
pois é, elizabeth, a arte de perder é o maior mistério.
[Bénédicte Houart]
^^
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Rumor de água
terça-feira, 26 de abril de 2011
Tive muita sorte contigo...
Ninguém a Outro Ama
segunda-feira, 25 de abril de 2011
Sessão pipoca - Cálice
Como beber
Dessa bebida amarga
Tragar a dor
Engolir a labuta
Mesmo calada a boca
Resta o peito
Silêncio na cidade
Não se escuta
De que me vale
Ser filho da santa
Melhor seria
Ser filho da outra
Outra realidade
Menos morta
Tanta mentira
Tanta força bruta...
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...
Como é difícil
Acordar calado
Se na calada da noite
Eu me dano
Quero lançar
Um grito desumano
Que é uma maneira
De ser escutado
Esse silêncio todo
Me atordoa
Atordoado
Eu permaneço atento
Na arquibancada
Prá a qualquer momento
Ver emergir
O monstro da lagoa...
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...
De muito gorda
A porca já não anda
(Cálice!)
De muito usada
A faca já não corta
Como é difícil
Pai, abrir a porta
(Cálice!)
Essa palavra
Presa na garganta
Esse pileque
Homérico no mundo
De que adianta
Ter boa vontade
Mesmo calado o peito
Resta a cuca
Dos bêbados
Do centro da cidade...
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
Pai! Afasta de mim esse cálice
De vinho tinto de sangue...
Talvez o mundo
Não seja pequeno
(Cálice!)
Nem seja a vida
Um fato consumado
(Cálice!)
Quero inventar
O meu próprio pecado
(Cálice!)
Quero morrer
Do meu próprio veneno
(Pai! Cálice!)
Quero perder de vez
Tua cabeça
(Cálice!)
Minha cabeça
Perder teu juízo
(Cálice!)
Quero cheirar fumaça
De óleo diesel
(Cálice!)
Me embriagar
Até que alguém me esqueça
(Cálice!)
[Composição: Chico Buarque / Milton Nascimento]
^^
Estes são os tempos que agora nos definem:
domingo, 24 de abril de 2011
O Preço da Renúncia
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